Minha mãe, um dia desses ,me ligou do trabalho e disse que tinha comprado um presente pra mim:
- São as pulseiras da Maya! Douradas com detalhes vermelhos…
Pra quem é noveleira como eu não é vergonha seguir a modinha lançada pelas novelas – desde que com bom senso, claro…
Por isso, saio de vez em quando com minhas pulseirinhas da Maya, de Caminho das Índias, e elas fazem o maior sucesso. Mas é só. Nada de terceiro olho na testa, nada de brincão, nada de sári, nada de tatuagem de henna.
Fiquei lembrando das coisinhas todas que tive/tenho de personagens de novela…
Do batom Boka Loka lilás, de Victor Valentim, que minha mãe e eu usávamos na época de Ti ti ti… Do vestido longuete e florido da Buba, de Renascer, combinando com aqueles tênis-sapatilhas Keds, acho… Dos prendedores de cabelo da Raquel, de Mulheres de Areia, do tempo que eu tinha cabelão que nem a Glória Pires… Dos brincos e do cordão com pingente da Marina Batista, de Pedra sobre Pedra, com os quais minha mãe – sempre ela! – me presenteou quando fiz 13 anos… Da Menina-flor que meu pai me deu, boneca lançada pela Letícia em Mandala… Da minissaia xadrez que nem a da Lisa, de A viagem – meu cabelo também parecia com o da Andréa Beltrão naquela novela, bem curtinho… Dos vestidos longos e juvenis da Vitória, de Belíssima – eu tinha um vermelho e um cinza, lindos… Da gargantilha de couro com pingentes de florzinhas que a Bionda usava em Uga Uga… Do vestido trapézio preto com bolinhas brancas, mais retrô impossível, presente do papai, igualzinho aos usados pelas meninas de Armação dos Anjos, a cidade fictícia de Vamp… Do esmalte cor de tomate idêntico ao da Leona, de Cobras & Lagartos… Das passadeiras de cabelo bem largas como as de Isadora Venturini de Meu bem, meu mal…
Lembrei também da tartaruguinha batizada de Gabriela, por conta da personagem de Miriam Rios em Ti ti ti – a mesma pela qual tínhamos argolas com lacinhos de todas as cores – e da cachorra nomeada Zmirah, que era o nome da aia vivida por Mila Moreira em Que rei sou eu?.
E você, até onde já seguiu a moda das novelas?
A melhor novela dos anos 80, e uma das melhores de todos os tempos, foi Que rei sou eu?, quem duvida? Dia desses, lembrei da personagem vivida por Natália do Valle nesse folhetim das sete: Suzanne.
A Suzanne foi obrigada pelo pai a casar com um homem bem mais velho que ela, um dos conselheiros reais, para ter as dívidas, contraídas por esse mesmo pai, quitadas. Tudo já seria bem triste se pra piorar a situação ela não fosse apaixonada pelo Jean Pierre, mocinho da história, interpretado por um cabeludo e despenteado Edson Celulari.
Pois bem. Suzanne pagou bem alto por esse amor. A Rainha de Avilan julgou que ela deveria ter seus cabelos, seus longos e anelados cabelos cortados até o último fio.
Na época, eu tinha uns nove, dez anos, o desespero de Suzanne ao ver suas madeixas caindo uma a uma no chão me fizeram indagar: “- Pra que chorar se depois o cabelo vai crescer de novo?” Foi quando minha mãe, que estava assistindo comigo, falou: “- Acontece que o cabelo é a vaidade da mulher.”
Eu não entendi a colocação da minha mãe de jeito nenhum. Ora, a minha mãe sempre mandou cortar meu cabelo curtinho, bem joãozinho, por causa do calor das cidades em que vivemos – primeiro Manaus, depois Belém. Tão curtinho que quando visitávamos minha bisavó já bem velhinha, ela sempre perguntava: “- Mas vocês não tinham uma menina? Quem é esse menino?” E era eu.
Então, leitor vaidoso, aconteceu que uma ocasião dessas comprei umas lentes coloridas – verdes, pra ser mais exata. Como meus olhos são castanho-escuros, jogando as lentes verdes por cima eles ficam verde-escuros. Eu gosto.
Fiz umas fotos minhas, com meus olhos novos. E aí aconteceu que ao invés dos olhos, meus cabelos chamaram mais atenção que tudo.
Meus cabelos que eram batidinhos quando eu era criança, que eram chanelzinho quando eu era adolescente – salvo dois períodos onde eu deixei crescer, mas depois acabei cortando sem dó nem piedade – meus cabelos que sempre foram moderninhos enfim, agora estão compridos, dignos de uma rapunzel. Navalhados, cortados em três camadas, acho. Com brilho, com movimento, virgens e límpidos de qualquer química, recendendo a manga e água de coco – maluquice de mistura do shampoo. Bonitos, vai.
E então me lembrei da Suzanne, me lembrei da Rapunzel. E se viesse uma rainha louca ou uma bruxa má cortar meu cabelo eu também ficaria arrasada como elas. Porque hoje eu sei que pela milésima vez a minha mãe tem razão!: O cabelo é a vaidade da mulher. E estou muito envaidecida com o meu por esses tempos.
Atenção senhores passageiros de mais esta viagem atemporal: chegamos a 1786! Faltam três anos para a Revolução Francesa, e mais 103 para as primeiras eleições diretas em nosso país após a ditadura militar. Por obra de uma incrível coincidência (ou da imaginação de Cassiano Gabus Mendes), o clima aqui no Reino de Avilan está diretamente interligado a estes dois fatos históricos futuros!
Entre na casa de câmbio e troque seus cruzados novos por algumas ducas. Quer dizer, agora não. Melhor fazer isso no final da tarde: até lá, a inflação do reino terá feito nossa moeda valorizar um bocado em relação a deles. Dá tempo de conhecer o palácio real, cumprimentar os guardas e levar um de seus indefectíveis chapéis, relaxar ao som ambiente de Enya e acenar para a Rainha Valentine (que é a cara da Tereza Rachel), ao lado da filha, a princesa Claudia Abreu, e da mãe, a interminável Dercy Gonçalves!
Bom, na verdade, a rainha não manda nada: depois da morte do Rei Gianfrancesco Guarnieri logo no primeiro capítulo, se deram conta que o trono real não tinha um sucessor. Começaram aí os conchavos e as picaretagens dos conselheiros reais – uma espécie de Congresso Nacional, em busca de um laranja que atendesse seus interesses. Resumindo: virou Brasil.
Mas esqueçam os conselheiros sem graça. A grande figura do palácio vive em seus porões. Bem a frente de um caldeirão, ostentando um medalhão cafona no peito e alguns cabelos tratados a sabão em pedra: estamos falando de Ravengar. Esse sim é um bruxo de verdade, merecedor de longos minutos de aplausos em pé! Foi ele, inclusive, o responsável pela coroação do rei Pichot. E não pensem que o sujeito chegou ao trono só porque era parecido com Tato Gabus, filho do autor da trama: o pobre mendigo era apenas o tal laranja nas mãos dos poderosos!
Enfim. Alguns metros do palácio, em pleno subúrbio, temos a famosa taberna de Mademoiselle Loulou. Repleto de belas garotas, vinho de primeira qualidade e shows do Gipsy Kings toda quinta. Com sorte, podemos encontrar em uma das mesas o corajoso Corcoran, que trabalha como bobo da corte no horário comercial e complementa a renda como caminhoneiro, ao lado do Antônio Fagundes, aos finais de semana.
Se tivermos um pouco mais de sorte, talvez esteja ali também o filho bastardo do rei e legítimo herdeiro do trono de Avilan: o mosqueteiro Jean Pierre. Tem sangue nobre, mas é simples e de bom coração. Sempre batalhando para acabar com a corrupção, a taxa elevada de impostos, entre outras injustiças. Como todo mocinho, se vê diante de um dilema romântico: ou termina a história com a serva Aline ou cai para os braços de Suzanne, esposa do conselheiro Jorge Dória. Que beleza, hein, Celulari: não é qualquer um que pode passar cento e poucos capítulos com a Giulia Gam e a Natália do Vale pegando no pé!
Muito bem. Quando voltarmos ao dia 13 de fevereiro, Avilan estará comemorando sua data nacional: foi nessa data, uma segunda-feira de 1989, que essa história começou a fazer parte da vida dos brasileiros em forma de novela. Exatos vinte anos desde o primeiro dia em que milhares de pessoas paravam às 19 horas para assistir a Que Rei Sou Eu?. Muitas crianças da época (inclusive eu) ainda completaram seus álbuns de figurinhas – com fotos e ditados populares no verso e um poster caricaturado na frente.
Antes de retornarmos, o fim dessa história: depois de longos meses de batalhas, Jean Pierre finalmente consegue tomar o poder, manda Ravengar virar entrevistador na rede de televisão pública e promete construir um futuro melhor para Avilan. Mais ou menos o que um outro sujeito rebelde, mas mais collorido, também dizia em 1989. Por essas e outras, senhores passageiros, ainda tem gente sentindo a falta do Sarney…
(E eu senti falta de algumas imagens aqui. É que eu não encontrei meu álbum de figurinhas…)