Entre duendes e fadas A terra encantada espera por nós Abra o seu coração, Em uma canção, em uma só voz”
Um dia desses, idealizando Top 5 esdrúxulos que eu jamais faria, pensei nesse: Top 5 de Cachorros de Novela. Seria uma bela ironia porque, na vida real, eu morro de medo de cachorro, mas na televisão eu adoro!
Aconteceu que meu Top 5 não passou de um Top 2 porque não consegui lembrar de cinco cachorros além do Maradona de Gaspar Kundera & família e do Rabito! Rabito, Rabito, rá rá rá! Hahahahahahahahahahahaha!
Como eu jamais faria um Top 5 que dirá um Top 2 desse naipe, esse texto vai ser todo dedicado ao Rabito e a sua turma, afinal, ele é Top 1 total pra quem assistiu à novela Carrossel.
Na época, a Globo passava em seu horário nobre a novela O Dono do Mundo: a Malu Mader era virgem e noiva de um cara; o Antônio Fagundes era chefe do noivo dela e a desvirginou antes do casamento, antes do noivo. Novelão…
Foi quando a professora Helena abriu as portas da Escola Mundial e seus alunos começaram a povoar a vida de muitas, muitas crianças e pré-adolescentes no Brasil. Eu incluso.
Eu não sei na sua escola, mas na minha todo mundo “brincava” de Carrossel, apelidando uns aos outros pelos nomes das personagens. Era tão séria a coisa que a menina mais inteligente da sala ia com o cabelo partido pro lado e duro de gel, idêntico ao da Maria Joaquina! E é lógico que eu não vou dizer quem eu era…
A história de Carrossel era bem mais acessível que a d’O Dono do Mundo: alunos de uma turminha de 2ª série viviam conflitos familiares e aventuras divertidas, sempre permeando suas ações com algum tipo de “mensagem do bem”, e tendo como eterna guardiã a professora Helena.
Era fácil gostar de Carrossel porque todos os estereótipos estavam lá; tudo o que a gente já foi um dia – ou ainda é.
Tinha o Cirilo que, era apaixonado e desprezado pela garota mais bonita, rica e inteligente da sala, Maria Joaquina, que por sua vez era preconceituosa e arrogante. A Laura, a menina gorda e romântica que é zoada por todos, mas que não liga muito porque afinal adora comer – nomeei de gorda porque acho hipocrisia chamá-la de “gordinha”. O Daniel, por quem a Laurinha era apaixonada.
Estudioso, amigo e cavalheiro – não à toa ele era o Presidente da Patrulha Salvadora!
O Jorge, o menino que chega de outra escola, arranca suspiros no início, mas depois mostra que é um chatinho. O Kokimoto e o Paulo, os endiabrados que pregavam tachinhas nas cadeiras dos colegas além de artimanhas mais pesadas, que faziam a irmã de Paulo, Marcelina, ficar sempre preocupada com ele. A Carmem, que convivia em casa com a crise do casamento dos pais e ia mal nos estudos por conta disso. A Bibi, que era de outro país, outra cultura.
O Jaime Palilo, querido e inesquecível, dono de um coração tão grande quanto ele próprio; sempre complicado nos estudos, a força do Jaime vinha da família amorosa que ele tinha. O Davi, judeuzinho que tinha uma tartaruguinha de estimação, era muito amigo da avozinha dele e apaixonado pela Valéria. A Valéria, a menina de óculos, sempre armando alguma travessura, mesmo sendo louca pela professora Helena.
E tinha o Mário. Sem piadinhas, por favor. O Mário era órfão de mãe e tinha uma madrasta que fez curso com as madrastas da Branca de Neve e da Cinderela. Ele chegou à turma como o garoto problemático, bem pior que Paulo e Koki. Mas tudo acabou mudando quando o pastor alemão Rabito apareceu na vida dele.
Eu devo confessar que chorei muito com o Mário. Toda vez que ele era ameaçado de ficar sem aquele cachorro era terrível pra mim.
Quem já rotulou ou já foi rotulado na vida entende e se identifica com Carrossel porque, repito, estão todos lá: o apaixonado desprezado, a bonita e preconceituosa, a gorda romântica, o nerd, o chato, os arteiros, a irmã caçula ignorada na escola, a filha de pais separados, a gringa, o burro amigão, o judeu, a quatro olhos, o órfão.
O órfão que tinha como melhor amigo um cachorro que, de tão querido por todos, era membro honorário da já citada Patrulha Salvadora – uma espécie de clube dos meninos, onde ao invés de se dedicarem a jogos e brincadeiras, se detinham em ajudar os amigos – que sonho de crianças, não?
A impressão que tenho hoje em dia é que foi sonho mesmo. Até pra eles, já que muitos dos atores só trabalharam em Carrossel e depois seguiram outras carreiras. Até pro SBT, que hoje em dia está trabalhando em uma adaptação da novela, a ser ambientada em uma escola municipal da periferia de São Paulo…
Eu não sei. Carrossel pra mim é aquela de 16 anos atrás, com aquela imagem ora verde, ora azul, com aquela dublagem, com aquele ambiente. Com as bichorras, com dois atores interpretando o Firmino, com o São Martim dos Pobres, com os cafés da manhã que pareciam almoço – um universo todo mexicano que pra gente passava natural. Bem mais natural que Antonio Fagundes na pele de um vilão…
Carrossel pra mim sou eu, você e todas as crianças que viveram aqueles dias. Brasileiras, mexicanas, ricas, pobres – crianças.
Carrossel pra mim é a lembrança do Rabito que era um cachorro que eu adorava, mesmo morrendo de medo de cachorro. Carrossel pra mim é uma celebração das mais divertidas: Rabito, Rabito, rá rá rá!