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Porque nós adoramos novelas!

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Onde está o Aguinaldo Silva?

Por Marmota | 07/04/2009, 16h50

Pessoalmente, acho cedo reprisar um novelão que está muito fresco em nossa memória. Mas é curioso: mesmo com a imagem fresca na cabeça da surra de Do Carmo na vilã, de Isabel/Lindalva descobrindo a verdade, da morte do mequetrefe Reginaldo, da horrenda Naza na ponte de Paulo Afonso, ou da heroína pedindo pro Dirceu de Castro permissão pra casar com o “felomenal” Giovanni Improtta… Não tem como não querer assistir tudo novamente!

Detalhes que muitos podem achar “coisa de gente suburbana”, mas que transformaram Senhora do Destino na maior audiência das oito no Século 21 (mais: é a campeã de Ibope desde Rei do Gado, em 1996), sem precisar de um único “quem matou Fulano”. Méritos de um autor que decidiu renovar seu estilo “Tieta/Pedra Sobre Pedra/A Indomada/Roque Santeiro”.

Mas enfim, pra ir um pouco mais longe, essa semana a Luciana me avisou a respeito de um verdadeiro “Easter Egg”:

“Ei, sabia que o Aguinaldo Silva aparece na abertura da novela? Hoje eu o vi! Ele aparece ao lado da Angela Vieira!

Caceta, eu nunca tinha me dado conta! Mas é isso aí: entre os 800 anônimos usados na abertura ao estilo “onde está Wally?”, onde os atores saltam aos olhos em cores, lá está o inventor da trama. Faz todo sentido, afinal Maria do Carmo e Belém de São Francisco são, respectivamente, o nome da mãe e da cidade onde Aguinaldo Silva nasceu. É como se ele quisesse lembrar ao público: “você pode não me ver, mas estou presente o tempo todo”.

Mais uma razão pra prestar atenção na novela depois do almoço: brincar de “onde está o Aguinaldo” durante a passagem dos créditos e daquela galera em preto e branco. E de fato lá está ele, passando atrás do Marcelo Antony da Angela Vieira. Achou?

Mas ainda não acabou: existe outra versão da abertura, onde tanto o trecho da música “Encontros e Despedidas”, da Maria Rita, quanto a sequência dos personagens, são apresentados de forma completamente diferente. E a posição do Aguinaldo silva também muda! Tente descobrir.

O “nosso” Antônio Fagundes

Por Luciana | 30/03/2009, 16h16

Minha avó tinha um costume de falar das pessoas denominando-as de “teu”.

Por exemplo: Olha, fulana, o “teu” chegou – servia para dizer para a fulana que o filho ou marido ou namorado dela havia chegado.

Pois bem.

Quando minha avó ia passar uns tempos com a gente em Manaus – a gente: meus pais, meu irmão e eu – ela não dizia pra minha mãe que o “dela” havia chegado. Ela dizia: Ana, o “nosso” chegou.

O meu pai era o nosso, afinal, era um pouco de cada uma de nós – filho, marido, pai.

Em casa, nós tínhamos um quarto só de ver televisão. Minha avó ficava na rede, minha mãe na cadeira de balanço, e eu ou no sofá ou no carpete, brincando.

E minha avó tinha mania de dizer que ia escrever e mandar cartas para determinados atores que ela gostava muito – o Antônio Grassi era um desses.

O outro, também Antônio, era o Fagundes. Tanto minha avó quanto minha mãe eram loucas por ele.

Quando Antônio Fagundes fez o Osmar de Corpo a Corpo – aquela novela em que ele era casado com a Eloá de Débora Duarte, era pai do Ronaldo, de Selton Mello, e a música-tema era Papel-marchê -, ele foi convidado para fazer o comercial do fogão de seis bocas da Continental.

No comercial, ele aparecia todo vestido de cavaleiro, em uma armadura, e, entre sorrisos, vendia o tal fogão.

Minha mãe comprou o fogão.

Toda vez que aparecia o comercial, minha avó gritava: “Ana, vem ver o ‘nosso’”!

O “nosso” tinha virado o Antônio Fagundes!

Minha mãe conta – e eu vagamente me lembro – que eu também chamava as duas para verem o “nosso” quando ele aparecia na TV.

E ficou até hoje. Sempre que tem novela com o Antônio Fagundes, a gente comenta do “nosso”. E adoramos o Ivan, de Vale Tudo – meio frouxo, mas tudo bem -; o Zé Inocêncio, de Renascer; o Atílio, de Por Amor – oh, céus, o quanto odiamos aquela Helena que escondeu o filho dele! -; o professor gago Caio, de Rainha da Sucata – minha mãe detestava, na verdade -; e lóoooooogico, o Otávio Jordão da melhor novela do mundo A viagem!

Adoraria ver uma reprise de Dancin’ Days. Já vi algumas cenas pelo Youtube e sei que o Cacá que namorava a Júlia também mereceria estar no rol das minhas lembranças boas sobre o Antônio Fagundes.

Dia desses, li no blog do Aguinaldo Silva que ele está pensando numa novela em que o Fagundes será disputado por Suzana Vieira, Marília Gabriela e Renata Sorrah.

Contei pra minha mãe e ela disse que o “nosso” ia ficar cheio de mulher!

(Parece até o Zé Mayer… Rá!)

Além do “nosso”, aqui em casa rola um “o teu chegou”, quando meu irmão chega, por exemplo. E quando o André ficou meio adoentado, minha mãe me ligava e nem perguntava como eu estava, ia logo perguntando: “o teu melhorou?”. :P

Das vidas secas

Por Luciana | 28/03/2009, 16h16

“Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação”

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, fez 70 anos em 2008.

Li Vidas Secas aos 20 anos, já na faculdade. Lembro de ter começado umas tantas vezes… Ido e voltado… Quando finalmente engatei a leitura, foi de uma tacada só, até o fim.

Se tivesse sacado antes que o livro é como uma rosácea e os capítulos são móveis, poderia ter sido mais fácil… Mas quem aqui quer o mais fácil?

Sobre o Vidas Secas, minha professora recomendou o Análise Estrutural de Romances Brasileiros, do Affonso Romano.

É de lá que eu sei que “a Baleia está para o Fabiano assim como o papagaio está para a Sinhá Vitória” – eu sempre achei mágica essa aproximação entre a matemática e a literatura!

Falando em Baleia, preciso dizer que se eu não tivesse tanto medo de cachorro e um dia tivesse um, seria Baleia o nome, com toda a certeza. Adoro tomar emprestado os nomes que leio – um dia terei um filho chamado Pedro, por causa do Pedro Bala, ou Lúcia, por causa da Menina do Nariz Arrebitado…

Aguinaldo Silva, novelista, fez mais ou menos isso também. Ao criar uma família nordestina para protagonizar Senhora do Destino – que está de volta agora no Vale a pena ver de novo -, o autor homenageou Graciliano Ramos e nomeou a cachorra de estimação de Maria do Carmo e dos filhos dela de Baleia. E lá estava a Baleia, na novela das oito! Mais popular que isso quem poderá ser? (Ah, eu adoro novelas!).

Quando faço chamada em sala de aula e leio o nome de 40, 50 alunos, eles dizem que só eu faço isso, que os outros professores chamam pelo número porque é mais rápido.

E eu sempre respondo que eles não são números, são pessoas. Que os pais deram nomes a eles e que merecem ser chamados assim.

E é impossível não lembrar do menino mais velho e do menino mais novo, sem registro no cartório, registrados apenas no coração de cada um que os leu.

O livro dói. Lembro de uns versos de Morte e Vida Severina, os versos que mais gosto: “tão belo como um sim / numa sala negativa”. Para Fabiano e a família não existe belo, não existe sim. E para nós existe a melancólica constatação da atualidade do livro.

Há três anos estive frente a frente com a família de Fabiano. Partiram do Nordeste e foram para São Paulo. Moram no MASP. Se não me falha a memória, no segundo andar do museu.

Estão lá, cadavericamente unidos em uma tela de Portinari. Os retirantes.

Impossível a não comoção. Imediata a associação. A palavra pra entrar aqui: intertextualidade.

Diante da tela e do livro, sem palavras. Chorei muito, muito, muito diante dos retirantes de Portinari e meu pensamento ia dos meus alunos a minha professora até chegar às Vidas Secas que Graciliano (d)escreveu.

Depois, quem descreveu ou pelo menos tentou descrever tanta emoção fui eu, quando relatei aos meus alunos o meu encontro com os retirantes de Portinari – encontro que eles poderiam ter sem precisar ir a São Paulo. Bastava apenas ler Vidas Secas…

Enfim. Este texto bem singelo é 99% de leitora e 1% de professora, sim?

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