Após a publicação do post de ontem, decidi de forma despretensiosa fazer o Manual do Entrevistado com o meu amigo Anderson Araújo. São 021 itens, porque esse é o nome de um bar em Belém e jornalista gosta mesmo é de encher a cara:
1 ) Não pegue no repórter.
2 ) Apenas fale. Não precisa achar que o repórter não vai anotar o que você está falando. E outra: não adianta falar pausadamente, como se o seu interlocutor fosse retardado. Desista. Suas palavras não serão reproduzidas letra por letra, como você acredita ser melhor.
3 ) Não fique tentando decifrar os garranchos do repórter, seu enxerido. Quase sempre são anotações mentais incompreensíveis que só ele – e às vezes nem ele – vai entender.
4 ) Ou confie no repórter ou não dê a entrevista. Se for pra ficar achando que o jornalista na sua frente não vai dar conta do assunto, mande ele embora. Melhor do que tratá-lo como um imbecil.
5 ) Nunca prometa que vai atender o repórter em determinado horário se você não vai conseguir cumprir. E se ele se atrasar, você não tem o direito de reclamar. Estamos com outras pautas ou então a culpa deve ser do motorista.
6 ) Não fale demais, apenas o necessário. A gente só quer saber do seu trabalho. Nada de ficar dando detalhes de sua vida pessoal.
7 ) Nunca queira mostrar ambientes. Se trabalha em um hospital, por exemplo, eu não quero conhecer a enfermaria.
8 ) Se você tem uma informação importante, traga pra entrevista. Não vá prometer entregar depois. Isso atrapalha muito e atrasa a produção do texto. Desculpas como “mando pro teu email” não colam.
9 ) Não pergunte quando a matéria vai ser publicada. Ela pode ser publicada hoje, amanhã, daqui a uma semana ou simplesmente ir pro lixo. Quem decide não é o repórter.
10 ) Nunca. Mas, nunca mesmo, ofereça dinheiro ou qualquer tipo de compensação pro repórter. Isso é deprimente e antiético. O jornalista está apenas fazendo seu trabalho e ganha pra isso no final do mês, embora que uma merreca.
11 ) Nunca dê em cima das repórteres, principalmente se for velho e ela tiver metade da sua idade.
12 ) Se tiver mau hálito, mantenha uma boa distância ou use enxaguante bucal antes de começar a falar. Repórteres têm olfato aguçado.
13 ) Se a matéria foi desfavorável, não ligue para ameaçar o repórter. Ameaça é crime e ele provavelmente tem pouco a ver com a forma que suas palavras foram publicadas. Ameace o dono do jornal ou o editor.
14 ) Se a matéria foi favorável, não precisa ligar pra elogiar ou mandar presentes (vide o item anterior). O repórter só está fazendo seu trabalho.
15 ) Se for bandido e estiver sendo registrado em uma matéria policial, esqueça a cara do repórter. Ele, como você, é apenas um profissional fazendo seu trabalho. (vide item sobre ameaças)
16 ) Se for artista, muito famoso, guarde seu ego no bolso e converse como uma pessoa normal com o repórter. Nada de pitis e agressões gratuitas. Se for artista, pouco famoso ou em ascensão, não encha o saco pedindo um “bom destaque”. Quem dá destaque é o editor. Procure-o e peça.
17 ) Se for político, minta menos. Em caso de denúncias, mostre provas. Em caso de escândalos, não fuja das perguntas nem mande seus seguranças atirarem contra o repórter nem meter a porrada nele. (link pro danilo gentilli levando porrada)
18 ) Em hipótese alguma peça pra ver o texto antes. Primeiro, porque é sinal de que você é um mala desconfiado e segundo é resguardado ao editor da matéria ver a reportagem em primeira mão.
19 ) Repórteres sempre andam mal arrumados e com sapatos sujos de lama. Não olhe para eles como se fossem bandidos.
20 ) Não fique com frescura de dar seu celular ao repórter. Ele só quer profissionalmente. Não vai ligar pra saber se você está bem ou quanto foi o jogo do Brasil. O número poder ser útil, inclusive, pra não sair nenhuma informação errada.
21 ) Se o repórter cometer uma gafe horrenda como trocar seu nome, o veículo em que trabalha, tocar seu peitinho sem querer, cair na sua frente como se estivesse bêbado, releve. Errar é humano. Não parece, mas repórteres são da mesma raça que a sua.