Micro-ondas

Só mais um blog do Dialetica.org

Arquivos: agosto/2009

O Curioso Caso de Joaquim

Por Yasmin Medeiros | 12/08/2009, 23h59

Sempre sonhou abrir seu próprio negócio. Achava o máximo quando lia nos jornais e assistia na TV: Fulano de Tal, empresário. Soava importante, prestigioso. Entretanto, nunca sequer conseguiu vender uma pipa – aquela que o primo Pedrinho criou na Copa de 70 e tinha as cores da bandeira do Brasil – para comprar bolinhas de gude e participar da brincadeira dos mais velhos da rua.

Cresceu e continuou sem o dom da persuasão. Não era bom nem de conquista; só conseguia beijar mulheres por intervenção de seus amigos. “É gente fina”, diziam. Elas acreditavam. E ele era mesmo. Meigo, educado e respeitador. Respeitador até demais. Pra sentir um peitinho demorou meses; e olha que estamos falando de Carol Pirulito, a garota mais…espirituosa do bairro. Pra chegar aos finalmentes, só anos depois com a primeira namorada. Queria guardar-se para alguém especial e conseguiu: Marcinha era bonita, independente e de boa família. Carinhosa, fazia com que ele sentisse o homem mais especial do planeta.

Entusiasmado com a sintonia entre os dois, decidiu pedi-la em casamento. Comprou a aliança mais bonita da joalheria e a levou para jantar. Pediu um filé a cavalo. Ela, uma sopa de caranguejo. Estava suando em bicas. Todos os seus momentos mais constrangedores passavam pela sua cabeça. Não sabia como convencer a mulher de sua vida que eles precisavam juntar as escovas de dente e casar. Depois de um pudim como sobremesa, decidiu que aquele era o momento certo. Ajoelhou-se e vomitou palavras sem sentido. Marcinha pescou um “eu te amo” no meio daquilo tudo, sorriu e aceitou. “Como é péssimo com palavras”, a noiva pensou. Não importava. Nada importava. Marcinha iria se casar.

10 anos se passaram e a sintonia do casal já não era mais a mesma. Ele trabalhava o dia inteiro, chegava em casa apenas para jantar e dar um beijo nas crianças. Marcinha passava o dia inteiro em casa, perdida em seus pensamentos. Ah, se ele soubesse que pensamentos…

A vida sexual dos dois  já não era mais a mesma e ele evitava conversar sobre isso. “Tenho uma família perfeita, isso que importa”, pensou. Pena que Marcinha não pensava assim: estava de caso com Toninho, mestre de obras do edifício ao lado. Na hora do almoço, mandavam ver na construção.

Ciente de que seu casamento estava passando por problemas, decidiu fazer algo a respeito. Só não sabia o que. Passivo, optou por deixar o tempo passar. E o tempo passou pra Marcinha, que arrumou as malas e se mudou com Toninho pra um conjunto habitacional que a prefeitura inaugurara naquele ano.

Desiludido, começou a beber. Vivia pelas ruas. Quando escutam a história de vida de Joaquim demoram a acreditar que ele, finalmente, realizou seu sonho de infância e abriu seu próprio negócio: um puteiro. Toninho, o mestre de obras, é cliente regular do estabelecimento.

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress