Marmota, mais dos mesmos

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Sonhando com Anadiômena

Por Marmota | 05/09/2008, 13h05

De repente, me vejo numa praia rústica e praticamente deserta, com meu calção do Internacional. Parecia Cassandoca, em Ubatuba. Sol a pino, sem nenhuma nuvem no céu. Das águas esverdeadas, algo mais ofuscante que o reflexo do sol na areia emergia e gesticulava. Era uma mulher, que rapidamente se aproximou de mim e sorriu.

- Oi! Não imaginas o quanto fico feliz em te encontrar aqui!

- E aeeee, bonitinha! Também estou adorando isso aqui… Mas quem é você? Uma sereia? A salva-vidas?

- Sou Anadiômena. Já ouviu falar de mim?

- Anadiômena? Parece antibiótico. Ou algum personagem do folclore da Amazônia.

- Engraçadinho. Anadiômena é a deusa Vênus saindo das águas. Uma eterna amante, cujo ato de sair das águas representa a busca pelo amor verdadeiro, superando emoções puramente passionais. Tal como a Fênix renascendo das cinzas.

- Bacana, bacana! Mas tenho que admitir que você é mais… Mais… Mais legal que a Fênix.

Anadiômena rascunhada por Jean Auguste Dominique Ingres, em 1807- Obrigada! Tem um soneto do Vinicius, que ele diz: Juntem-se vermelho / Rosa, azul e verde / E quebrem o espelho / Roxo para ver-te / Amada anadiômena / Saindo do banho / Qual rosa morena / Mais chá que laranja, / E salte o amarelo / Cinzento de ciúme / E envolta em seu chambre / Te leve castanha / Ao branco negrume / Do meu leito em chamas.

- Puxa, senhorita Anadiômena, fico realmente encantado. Mas ainda não encontrei uma explicação lógica. Não faz o menor sentido estar aqui, diante de sua encantadora presença, nesse lugar sensacional.

- Eu trouxe seus pensamentos para cá. Foi a melhor forma que encontrei para te dizer… Visito seu blog há tempos, e gosto muito dos seus textos.

- Nossa… Obrigado! Bom, está longe de ser algo excepcional, mas o que importa é brincar e aproximar gente como você, né!

- Eu precisava muito te contar. No início, pensei que fosse uma grande piada… Não levava muito a sério. Como naquela história do Guerra nas Estrelas.

- Sei… Já me disseram algumas vezes que eu era engraçado.

- Mas no dia dos namorados, ou perto dele, você escreveu sobre aquela moça e aquilo me tocou profundamente. E mergulhando nos seus arquivos, li o texto sobre o seu primeiro dia dos namorados. E também é maravilhoso.

- Uau… Não sei o que dizer. Bom, de vez em quando acontece…

- A tua esperança pelo amor verdadeiro é doce, e eu sinto falta disso no mundo… E é por isso, pra te dizer isso, que estamos aqui!

- Que legal! É, também sinto falta disso. Às vezes sinto que é preciso me adaptar a dura realidade da vida…

- É…

- Mas enfim. Infelizmente não consigo escrever sobre minhas historinhas frustradas de amor todos os dias.

- Eu não vejo assim. Nunca pensei na palavra “frustrada” para definir suas histórias.

- Sério? E como seria?

- Olha, eu leio e fico pensando: que bom que, mesmo que tudo tenha acabado, ele viveu isso e guarda na memória… Momentos mágicos… Profundos… Algo que pouquíssimas pessoas têm.

- Bom, tem gente que vê isso como um grande defeito.

- Não, não vejo. Dá pra perceber que você namorou poucas vezes, beijou poucas vezes… Acho extremamente lindo isso. Porque você pode olhar para trás e dizer que teve poucos relacionamentos, mas que foram realmente verdadeiros. Não foram só por ficar com alguém, as lembranças são apenas de pessoas especiais.

- …

- Tudo bem?

- Desculpa, dona Anadiômena, fiquei meio chocado…

- Ai, desculpas. Sou uma entidade mitológica, não psicóloga…

- Não, tudo bem. Estou gostando! Mas, sem querer abusar muito da sua inebriante presença e sabedoria, e já que você me admira um bocado, que conselho você pode dar para alguém que passa por uma semana complicada, se sentindo a pessoa mais perturbada do universo?

- Bom, esse alguém tem que esperar uma deusa sair do mar e dizer que gosta muito do que ele escreve. E por conseguinte, dele. E com isso ganhar a semana que ele julgava perdida. Tá bom esse conselho?

De repente, uma pedra. Acordei com a semana salva, realmente. Mas reiterando minha teoria: toda pessoa potencialmente interessante que conheço é comprometida até o pescoço, ou mora longe. Num lugar distante e intangível, como meus devaneios.

(Postado em 05/08/2005. Comentado dois dias depois: “Bem, resolvi comentar o teu texto. Quer dizer, o meu texto. Melhor, nosso texto. Já perdi a conta de quantas vezes li esse texto. E não ligo a mínima se hoje em dia as pessoas não fazem mais isso. Procurei Ubatuba no meu Guia Quatro Rodas. Desci o livro de sonetos do Vinicius da estante. Fiz o que te disse ontem: nesse momento, acredite, estou no topo da tua pedra, gritando bem alto que a gente pode ser feliz. Afinal, distante e intangível é o Japão, a Austrália… Um beijo bem apertado e boa noite. Vou dormir o sono das deusas…”. Ah, se as areias de Cassandoca pudessem registrar o que se passou desde então…)

2 comentários em “Sonhando com Anadiômena”

Trotta | 05/09/2008, 17h04

E eu lembro de ter lido esse texto em 2005 e não ter entendido patavina dessas entrelinhas todas! Que bom que agora eu sei, hahaha!

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