terça-feira, 29 de setembro de 2009

Preencha as lacunas: o/a _____ vai matar o/a _____

Ando com uma impressão de origem 100% empírica, mas que o homem discute desde Heráclito e Parmênides. São múltiplas as transformações de dispositivos, artefatos, tecnologias, plataformas e afins; como consequência, pessoas se movimentam em função destas novidades. As que conseguem mobilizar mais integrantes se estabelecem, enquanto outras perdem adeptos simplesmente por não acompanharem tal dinâmica.

Essa observação generalista acaba gerando uma enxurrada de “lápides profetizadas”, já que estas transformações tendem a “matar” outras. E talvez o fato de sentirmos um misto de fascínio e apreensão com essa palavrinha, “morte”, a gente sinta tanta vontade em matar coisas ou vê-las enterradas. Pode ser que isso explique nossa tentação em cravar palpites do tipo:

- O cinema vai matar o teatro
- O videocassete vai matar o cinema
- A televisão vai matar o rádio
- A tv de plasma vai matar o crt
- A tv de lcd vai matar a de plasma
- A tv de led vai matar o lcd
- O dvd vai matar o videocassete
- O bluray vai matar o dvd
- A internet vai matar a tv
- O youtube vai matar a tv
- O joost vai matar o youtube
- A internet vai matar o rádio
- O ipod vai matar o rádio
- O zune vai matar o ipod
- O celular vai matar o zune e o ipod
- A iptv vai matar a televisão digital
- O laptop vai matar o desktop
- O celular vai matar o pager
- O celular vai matar o jornalismo
- O smartphone vai matar o laptop
- A nuvem vai matar o sistema operacional
- A internet vai matar a sala de aula
- O second life vai matar a sala de aula
- A internet vai matar o jornalismo
- O e-mail vai matar o newsgroup
- O icq vai matar o e-mail
- O icq vai matar o irc
- O msn vai matar o icq
- O blog vai matar o jornalismo
- O twitter vai matar o blog
- O twitter vai matar o msn
- O twitter vai matar o jornalismo
- O yahoo meme vai matar o twitter
- O google wave vai matar o twitter
- O google news vai matar o jornalismo
- O bing vai matar o google
- O cuil vai matar o google
- O wolfram alpha vai matar o google
- O seo vai matar o jornalismo
- O kindle vai matar o livro
- O celular vai matar o kindle
- O napster vai matar as gravadoras
- A pirataria vai matar os artistas
- O p2p vai matar a pirataria
- As redes sociais vão matar os portais
- As redes sociais vão matar os blogs
- As redes sociais vão matar as salas de aula
- As redes sociais vão matar a privacidade
- As redes sociais vão matar o jornalismo
- O orkut vai matar o fotolog
- O facebook vai matar o orkut
- O twitter vai matar o orkut
- O R7 vai matar o G1
- A overdose de informações vai matar o jornalismo
- O aquecimento global vai matar o planeta

Agora é a sua vez de contribuir. Quem sabe assim a gente consiga convencer alguém a pensar duas vezes antes de “matar” coisas. Quando conseguirmos isso, repetiremos a dose com outra lacuna tentadora: (alguma coisa) vai revolucionar (alguma outra coisa)…

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sarnar, verbo regular transitivo direto

Segue um serviço de utilidade pública, diante da movimentação política dos últimos dias. Um ex-presidente da Reública que, graças a um feudo familiar no Maranhão (e uma movimentação escabrosa no Amapá) apronta altas confusões com uma galera do barulho nas sessões da tarde no Congresso Nacional. Seu método de trabalho veio à tona só agora e gerou manifestações na Internet (que, como diria Ashton Kutcher, não serão mais eficientes que a força do voto).

Como são muitas ações, convém lembrarmos da existência de uma expressão pouco popular, mas que faz parte do nosso léxico desde 1989, quando Belmiro Ferreira o conjugou pela primeira vez em 1989, num livrinho chamado “No País do Vale Tudo”. O verbete, também citado na prestigiosa Desciclopedia, voltou à plena carga, graças à crise instaurada no senado. Aproveite a manifestação virtual, a ebulição em nossa capital federal e o inferno astral do atual presidente de nossa casa legislativa: vamos propagar a definição e as conjugações do verbo…

Sarnar. sar.nar vtd bras ch 1 Importunar, molestar e aborrecer, como uma sarna, sem que remédios ou mesmo a lei possa o atinja. 2 Infectar e contagiar instituições públicas usando troca de favores e gratificações entre seus colegas. 3 Parasitar repartições através da contratação de parentes. 4 Alterar decisões administrativas por meio de boletins suplementares publicados sem informações completas. 5 Aprovar pagamento de horas extras para colaboradores sem a devida comprovação. 6 Criar cargos desnecessários e agraciar tais contratados com privilégios e vencimentos acima do teto constitucional. 7 Alocar salários de mordomos, empregadas, motoristas e outros serviçais no centro de custo da população. 8 Negar qualquer quebra de decoro e alegar invencionices, ou aribuir problemas históricos à instituição e não a si mesmo. 9 Acumular anos de vida pública executando procedimentos políticos questionáveis e, ao mesmo tempo, transmitir uma imagem de justiça e honestidade. 10 Acreditar que pode ocupar o mesmo cargo, na certeza de que todos os escândalos serão esquecidos rapidamente pela opinião pública, quando finalmente poderá deixar tudo como está. pres indic: sarno, sarnas, sarna, sarnamos, sarnais, sarnam. pret: sarnei, sarnaste, sarnou, sarnamos, sarnastes, sarnaram. imp: sarnava, sarnavas, sarnava, sarnávamos, sarnáveis, sarnavam. pret m-q perf: sarnara, sarnaras, sarnara, sarnáramos, sarnáreis, sarnaram. fut: sarnarei, sarnarás, sarnará, sarnaremos, sarnareis, sarnarão. fut pret: sarnaria, sarnarias, sarnaria, sarnaríamos, sarnaríeis, sarnariam. pres subj: sarne, sarnes, sarne, sarnemos, sarneis, sarnem. imp subj: sarnasse, sarnasses, sarnasse, sarnássemos, sarnásseis, sarnassem. fut subj: sarnar, sarnares, sarnar, sarnarmos, sarnardes, sarnarem. imper: sarna, sarne, sarnemos, sarnai, sarnem. ger: sarnando. part: sarnado.

(Vídeo pinçado daqui.)

Atualizado: O Pedro Doria recordou um breve histórico do Sarney, escrito pelo Marcelo Tas, que pode ser útil para uma futura atualização deste post.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nova Novíssima Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa

Nos últimos meses, provavelmente você já decorou todas as regras da Nova Ortografia. Tudo já foi dito, todos já contestaram e reclamaram – tanto aqui quanto em Portugal, onde há um forte movimento contrário. Enfim, o melhor texto que vi sobre as mudanças foi do Mario Amaya – que, curiosamente, repetiu A História do Mundo de Mel Brooks e limitou-se a escrever apenas a “parte 1″.

De toda forma, concordo com o Tuca: os pensadores por trás da reforma perderam a grande chance de ouvir quem realmente usa o português diariamente e adotar algumas expressões correntes, como “asterístico”, “a nível de” e “enquanto”. Para ir além no debate e colaborar com possíveis discussões a respeito do tema, desenvolvi ao lado do amigo Narazaki uma série de modificações, que podem cair ao gosto do povo.

Apresentamos agora a Nova Novíssima Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa:

- Fim do acento grave. Existe uma espécie de divisão soberana entre os luso-parlantes que sabem reconhecer um “a” formado por preposição e artigo do resto. Como se esta informação fosse capaz de separar as criaturas do meu círculo social de amizades da ralé ignorante e desprezível. Para estimular esta união e acabar com as diferenças, derrubamos o acento grave. Aproveitamos para resolver um problema corriqueiro: quantas vezes você não se sentiu um tremendo idiota ao se perguntar “tem crase aqui?”.

- Fim do hifen. Ao invés de resolver o problema, a atual reforma complicou tudo, derrubando o hifen de substantivos compostos que mantenham unidade semântica. Até hoje não sei se “rádio-relógio” tem hifen ou não. Da mesma forma, esse tracinho (que serve ainda para acompanhar pronomes) é sempre confundido com o travessão. Sem falar na trivial separação de sílabas em frases mais longas – coisa que nem todo mundo sabe fazer. Logo, acabamos com o hifen para sempre e pronto!

- Fim do ponto e vírgula. Certamente alguém poderá questionar o fim do acento grave e do hifen, mas duvido alguém apresentar algum argumento palpável para a manutenção do ponto e vírgula. “Ele serve para dar uma pausa maior”, entre outras atribuições como enumerações, supressões… Essas coisas que ninguém sente falta. Só existem duas funções claras para este sinal atualmente: associá-lo ao Wagner Montes ou exibir um smiley piscandinho. Nada além disso: fora com ele.

- Fim do H. Ninguém pronuncia o H. Tal falha na prosódia faz com que sua existência seja completamente desnecessária. Angar, aver e oje podem parecer monstruosas, mas leia outra vez: faz diferença? “E ouve, é do verbo ouvir ou aver?” Ué, depende do contexto, como em qualquer idioma decente. Quanto aos fonemas do LH ou NH, basta trocá-lo por i. Assim, sua mãe terá que ter cuidado para “coziniar uma galinia velia”. Simples assim.

- Fim do tu/vós. É muito estranho para qualquer pessoa chegar a uma sala de aula e exercitar tempos verbais diante dos pronomes “tu” e “vós”. Apenas alguns estados do Nordeste e o sul do Brasil (de maneira equivocada, diga-se) usam estes arcaicos pronomes de segunda pessoa. É você ou vocês, não acham?

- Revisão das conjugações. Já que falamos em verbos, por que não incorporar algo que funciona perfeitamente no inglês: vamos acabar com mais da metade destas variações. Até porque, o que vai determinar o direcionamento das ações é o pronome pessoal. Assim, o verbo ir no presente do indicativo ficaria: eu vou, você vai, ele vai, nós vamo, vocês vão, eles vão. Pegou? O próprio verbo estar também seria simplificado, dentro das regras mais populares: eu tô, você tá, ele tá, nós tamo, vocês tão, eles tão.

- Fim da desinência de plural. Percebeu como, além de determinar o sujeito da ação do verbo, o pronome também indica singular ou plural? Por que diabos concordar qualquer substantivo, desperdiçando “esses”? Dois pastel, oras. Está claro que é dois pastel.

- Fim do mais-que-perfeito. Coisa mais desnecessária diferenciar um passado de outro ainda mais passado. Já está bom demais diferenciar pretérito perfeito do imperfeito, além de entender o uso do subjuntivo e o condicional. Aliás, só por conta disso valeria repensar essa quantidade de tempos verbais nostálgicos. Vamos pensar pra frente.

- Igualdade entre pronomes pessoais. Você sabe a diferença entre “eu” e “mim”? Normalmente “mim” não faz nada, por ser um pronome oblíquo. Mas convenhamos: nem todo mundo leva isso em consideração. Por que não considerar estes dois tipos equivalentes? Será melhor assim, para mim escrever da maneira como der na telha.

- Gerúndio liberado e sem o D. Por fim, se não podemos com o gerundismo, aceitamos e pronto. Vou mais longe: com a natural utilização do gerúndio ao invés dos tempos futuros, não vai demorar para que o “D” também ir pro saco. Logo, se “estar fazendo” é horrível, acostume-se com “tá fazeno”.

Enfim, se tivé outras sugestão, você pode tá comentano. Enquanto isso, vô ali no terreiro catá umas galinia veia pra mim tá cozinhano oje a noite.

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