sábado, 25 de agosto de 2007
Blogueiro famoso é igual a Miss Cangaíba!
Você já deve ter ouvido falar por aí do BlogCamp, encontro bolado pelo Manoel Netto e abraçado por quase 150 pessoas. Quando fiz a minha inscrição, lembrei do BarCamp, tentativa bem-sucedida em “materializar” URLs e listas de discussão, onde as pessoas se entreolhavam e não sabiam exatamente quem era quem. Foi pensando nisso que decidi encomendar uma camiseta personalizada.
Na hora da execução, decidi usar um expediente pouco original. Lembrei de uma antiga frase da Zel: “O que é ser celebridade em mundinho de blog, meu Deus? É, como disse alguém, mais ou menos como ser miss minissaia do festival das flores de lambari”. O Edney usou uma expressão parecida esses dias: é como ser “campeão de pular corda de pirococó da serra”. Decidi adaptar o mesmo conceito, homenageando um singelo bairro da zona leste paulistana.
A mensagem, em princípio, soa no mínimo contraditória: então estampo o endereço do meu site nas costas e, na frente, decido negar a propaganda? É, pode ser. Mas a frase não deixa de representar minha maior crítica ao que convencionou-se “blogosfera”.
Certa vez, encontrei um colega – eu estava ao lado de um dos blogueiros mais conhecidos. Quando o apresentei, ele emendou exatamente assim: “Ei, mas você é aquele cara famoso lá… Aquele… O do blog… Putz, eu sei!”. Já esses dias tive o prazer de almoçar com outros amigos blogueiros. No meio da conversa, comentamos a respeito do Mapa do André Dahmer (que, diga-se, incitou claramente a necessidade da galera em se tornar “Miss Cangaíba”). E lembramos que um dos nomes, tão popular quanto o do exemplo acima, não aparece lá. Um dos amigos virou e perguntou: “Tá, mas quem é esse?”.
Onde eu quero chegar com isso? Antes, cabe uma ressalva importante. Acho realmente sensacional chamar pessoas para discutir as possibilidades da ferramenta, e dentro do que se viu nos temas propostos pelo Wagner Fontoura, é possível encontrar inúmeras alternativas para crescer e se desenvolver.
Mas ao mesmo tempo, surge um ponto de interrogação gigantesco ao constatar muita gente incorporando vícios comuns da mídia tradicional. O pior deles: acreditar que blog é mais um “veículo de massa”, onde o autor é quem manda, centralizando o poder da informação. A comunicação se torna praticamente unilateral: ainda que os visitantes queiram participar, acabam relegados a uma função passiva, de um mero espectador. Tenho certeza de que você já teve uma sensação assim em alguns blogs, e é esse conceito deturpado que ainda fortalece a expressão “blogueiro famoso”.
Dá para usar blogs como “veículo de massa”? Lógico. Mas o potencial é mais amplo. A essência colaborativa da rede é bem mais complexa do que um simples “informativo de renome patrocinado”. É um processo aberto, uma via de mão dupla, uma troca constante: qualquer um pode criar seu espaço, estabelecer contatos, participar e conversar… Tudo isso sem sequer imaginar a existência de um fenômeno exatamente igual rolando em outro lugar – seja ele um blog, uma conta no flickr, um perfil do orkut…
E tem muita gente bacana em busca daquilo que é a base da audiência consolidada e dos lucros no adsense, baseado nos links que aumentam pagerank: reputação. Usar seu blog como uma extensão autêntica dos seus pensamentos – ou de alguma personalidade bem definida em sua mente, não necessariamente a mesma do seu dia-a-dia. Uma coisa é “ter sucesso com um blog”, outra é “ser um blogueiro famoso”. Quer fazer um diário? Quer escrever poemas, crônicas, contos? Quer divulgar suas fotos? Quer dar notícias da sua rua, do seu bairro, do seu clube? Quer ganhar dinheiro? Quer fazer amigos e influenciar pessoas? Existe espaço pra todos, independente do objetivo: uma terapia, uma diversão, uma forma de aperfeiçoar seu texto, uma fonte de renda ou, em uma palavrinha simples, “basicamentepacumêmuié”.
A identificação dos visitantes e dos prováveis “lincadores” virá a partir da relação com o autor, dessa conversa diária. Assim se constrói uma imagem positiva, ainda que ela represente um saquinho de jujubas dentro desse mundo abarrotado de gente afim de conversar também. E isso é bem diferente de fama: quem entra na brincadeira pensando simplesmente em status corre o grande risco de se frustrar. Ou talvez se sinta poderosíssimo ao encontrar um lugarzinho de destaque dentro de sua nanoaudiência – é a “Miss Cangaíba”.
Se o BlogCamp reunisse apenas “blogueiros famosos”, certamente encontraria dezenas de palpiteiros alienados, falando sobre coisas que mal conhecem, sedentos por links e exposição infinita para alimentar seus egos, conduzir seu alpinismo social bloguístico e, consequentemente, seguir em busca de dinheiro fácil. Como eu acredito realmente que blogs são, acima de tudo, pessoas, tenho certeza de que vai ser um barato encontrar amigos, conhecer gente, conferir a diversidade de idéias e pensamentos… Enfim, sentir o “lado humano” dos blogs – o que, convenhamos, deveria acontecer também online.
Atualizado: Ninguém deu muita bola para a camiseta, como eu suspeitava. Apenas um sujeito veio perguntar se a frase “tinha continuação”. Devia ser um blogueiro famoso, curioso com o significado.



