sexta-feira, 17 de julho de 2009
Atari? Não, meu primeiro videogame foi um Odyssey.
Vou confessar uma fraqueza pessoal: há semanas coloquei na cabeça minha necessidade em planejaro segundo semestre, dedicando um bom tempo a atividades acadêmicas e projetos pessoais. Mas uma brincadeirinha saudosista está me desconcentrando um bocado. O atraso não se limita aos afazeres, mas também à tecnologia envolvida: um console que nada tem a ver com Playstation 3, Nintendo Wii ou simuladores de última geração.
Uma revirada nas minhas gavetas me levou de volta ao dia das crianças de 1984. Meu pai chegou em casa com uma caixa enorme, embalada com o papel vermelho e branco da Ultralar. Arregalei os olhos, comemorei e o abracei bem forte quando vi do que se tratava: um videogame absolutamente diferente daqueles que invejava dos amiguinhos.

Dentro da caixa do meu Odyssey Phillips, uma “máquina de escrever eletrônica” com fonte de alimentação e controles embutidos – os fabricantes não imaginavam como seria fácil desplugar essas coisas ou substituí-las em caso de pane. O manual do proprietário apresentava o trambolho em letras garrafais. “Parabéns, você acaba de comprar a última palavra em videogames! Ele é mais sofisticado que a maioria dos jogos de fliperama, empregando um microprocessador que executa funções eletrônicas complexas, tecnologia de ponta inimaginável há alguns anos!”.
Aquele manual dizia que meu videogame, bem conservado, seria diversão garantida durante anos. Talvez o engenheiro mais otimista sequer imagine que eu (e certamente outros nostálgicos doentes) ainda vibrem com tamanha ação em oito bits. Não exatamente diante do aparelho, mas sim ao emulador para Mac OS (versão pra PC aqui). Não tenho vergonha em dizer: poderia buscar simuladores que remetem ao meu passado nerd, como Mega Drive, Super Nintendo ou mesmo Atari. Preferi aquele que me dá mais saudade.
Alguns mil cruzados – Minha estréia foi diante do jogo de Fórmula 1 (espécie de “Enduro” do Atari, mas contra o relógio e com fundo lilás). Tinha outros dois jogos no mesmo cartucho: Interlagos (para duas pessoas, disputa automobilística que chegou a ser prova do Bozo) e Criptologic (jogo da forca, um dos três ou quatro jogos onde o teclado alfanumérico fazia sentido).
Cada cartucho, extremamente bem acabado e com um preocupado manual de instruções, custava o equivalente a meio salário do meu pai. Com um agravante: a inflação que adorava pregar peças, mesmo com os fiscais do Sarney tentando segurar o Plano Cruzado. Por conta disso, tinha poucas opções. Come-Come (variante batuta do Pac Man), Demon Attack e Q-Bert (versões do Atari), Serpente do Poder (horrível, tremenda compra perdulária!)…
Com o emulador devidamente instalado, tratei de revê-los todos, além de testar alguns que sempre quis ver como é, mas passei a infância sem saber como é. Senhor das Trevas, Tartarugas, Abelhas Assassinas, Popeye, Batalha Medieval…

É isso aí, pissit! – Nenhum deles conseguiu reacender o mesmo fascínio do clássico Didi na Mina Encantada, uma bela mistura de Pitfal com Donkey Kong. Se hoje qualquer jogo é capaz de proporcionar experiências gráficas bem reais, imaginar um enredo diante de linhas e pixels limitadas pode parecer idiota. Mas não importa: era uma delícia.
A associação com o filme “Os Trapalhões na Serra Pelada”, de 1982, foi perfeita: com uma picareta em mãos, Renato Aragão se transforma em um aventureiro em busca de ouro. Além de atingir pedras que rolam sem parar, o trapalhão caminha, salta e se agacha, movimentando-se entre escadas e crateras. Em pouco tempo, sua ferramenta quebra: para continuar a saga, é preciso atenção: o choque entre duas rochas pode revelar uma nova picareta ou uma chave, que lhe abre passagem para outra área da mina.

Esqueça os games com diferentes cenários, desenvolvimento, “chefões” a cada nível e desfecho feliz: a mina é interminável. Quer dizer: só acaba quando o cearense é atingido por uma pedra sem picareta. Uma comparação do que se vê na tela com a capa do manual explicam o que, nos anos 80, poucos sabiam: tanto na versão européia quanto na norte-americana, lançada no final dos anos 70, o jogo chamava-se Pick Axe Pete (Pedro Picareta). Como era, na verdade, um “boneco de pauzinho”, a Phillips poderia ter licenciado com qualquer famosão da época – Menudos na Mina Encantada, Fofão na Mina Encantada, Gugu Liberato na Mina Encantada…
Enfim, talvez não deixasse tanta saudade, a ponto de tomar meu tempo 25 anos depois.



