A melhor história jornalística num primeiro de abril
Por Marmota | 01/04/2009, 13h33
Como diria o Lello Lopes, essa noite a web foi dormir com o Bozo e amanheceu toda engraçadolha. Todas as minhas fontes diárias de consulta vindas de blogs, twitters e afins, estão impregnadas de primeiro de abril. Mas enfim, desconsiderando a overdose de lorotas, segue a que mais gosto entre todas as histórias envolvendo o Dia Internacional da Pegadinha do Mallandro. Contada certa vez por um amigo sorocabano, o Mateus Soares.
Foi há exatos dez anos, em 1999. O jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, tomou uma atitude ousada – explicada em detalhes no Observatório da Imprensa por Djalma Luiz Benette. A partir de uma sugestão do departamento comercial, o jornal aproveitaria a data para contar algumas “mentirinhas”, pensando em mexer com a cidade (especialmente o mercado publicitário).
Detalhe: as “mentirinhas” seriam publicadas na capa do jornal!
A idéia original amadureceu de maneira genial. A capa mentirosa seria explicada logo nas páginas dois e três, que trouxeram, respectivamente, a capa verdadeira e um editorial, explicando a brincadeira de maneira aparentemente contraditória: a redação das manchetes fantasiosas refletiam exatamente os anseios da população sorocabana. Ou seja, eram mentiras para falar a verdade. “Por trás de cada uma das piadas se oculta o desejo de um dia ver as coisas transformadas naquilo em que a primeira página mostra”.
Assim, naquela manhã, o Cruzeiro do Sul estampou: oferta de empregos faz salário mínimo chegar a R$ 3 mil; poupança rende 20% ao mês e dólar vale R$ 0,50; peixe fisgado nas águas outrora poluídas do rio Sorocaba; fim das guerras e da criminalidade; a cura da Aids; um Oscar para Fernanda Montenegro; Ronaldinho Gaúcho disputando a Libertadores com a camisa do São Bento…

“Até o momento do envio do jornal à impressão havia a dúvida: funcionaria a comunicação que estava sendo proposta? Vão entender?”, lembra Djalma. Pois bem: a capa repleta de boas novas repercutiu não apenas na cidade de Sorocaba, mas também no Brasil inteiro. Virou reportagem de TV na Band e no SBT, em rede nacional. Imagine se, em 1999, essa tal “mídia social” já tivesse decolado…
Os próprios editores lembram que a idéia não é nada original: já no século 19, em 1º de abril de 1848, um periódico pernambucano batizado A Mentira trouxe a notícia do falecimento de Dom Pedro I. Levou 150 anos para que outro jornal brasileiro repetisse a brincadeira (até onde eu saiba), e provavelmente vai levar mais tempo até que outra redação utilize a fórmula (seria como contar a mesma piada).
Em compensação, em dez anos, duas notícias fantasiosas daquela capa já se materializaram: a inauguração de uma universidade pública na cidade e a duplicação da rodovia Raposo Tavares. O que nos deixa com alguma esperança: quem sabe nossos sonhos possam, um dia, deixar de ser história de primeiro de abril.


:



2008 - 2012 
7 comentários em “A melhor história jornalística num primeiro de abril”
André HP | 01/04/2009, 13h51
Muito boa a idéia.
Ainda sobre o jornalismo, hoje no STF vão decidir a obrigatoriedade do diploma para o ofício jornalístico.
Espero que votem a favor. Enfim… Palhaçada.
Forte Abraço!
Bruno Guedes (Toupeira Profissional) | 01/04/2009, 14h30
Putz, se o salário mínimo chegar a 3.000 antes do próximo século, eu já fico satisfeito. =P
Lello Lopes | 01/04/2009, 23h51
Realmente a história é ótima.
Abs!
muta | 03/04/2009, 13h21
a idéia foi fantástica… mas será que sempre temos que brincar para sermos – ou ao menos tentarmos ser – levados a sério?
será que só levam sério as brincadeiras e, quando não brincamos, acham que isso não acontece?
oh discórdia!
ps.: hehe, acho que estou meio sorumbático hoje… =P
Emanuel Colombari | 04/04/2009, 20h02
Estamos na torcida desde já por Ronaldinho Gaúcho no Bentão.
claudia lyra | 04/04/2009, 20h07
Bom… essas “mentiras” podiam todas se transformar em “profecias” mesmo. Seria tão bom!
Marcos Gois | 15/04/2009, 21h37
fantástico, isso!
essas piadas de primeiro de abril só tem graça se tiver a leveza de uma brincadeira inocente ou se servir para sonhar como se a realidade se movesse pelos sonhos.
Comente!