Marmota, mais dos mesmos

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Presenteando Anadiômena

Por Marmota | 14/08/2010, 00h01

Então um dia eu estive em uma praia deserta, vestindo meu calção do Internacional. Parecia mesmo Cassandoca, em Ubatuba. Ali eu tive uma visão que mudou minha vida. Era Vênus Anadiômena, eterna amante saindo das águas em busca do amor verdadeiro. Aquele diálogo, reproduzido em prosa, tornou-se oferenda capaz de aflorar das águas outras lembranças doces, verdadeiras, fundamentais. Uma alegria semelhante aos ventos inesperados na tarde quente soprou enquanto permanecia sentado em uma pedra, tentando guardar aquela sensação para mim.

De repente, fechava meus olhos e, mesmo sem querer, lá estava eu naquela praia. Mas não era como da primeira vez: a notícia daquela aparição efêmera invadiu o inconsciente coletivo. Todos queriam saber quem era o barrigudo, carregado de frustrações, despertou uma deusa. Muitos torciam por um encontro para a eternidade. Vários alertavam: deuses são efêmeros e inconstantes…

Mais uma vez, a gota que o orvalho escorreu da noite nos lábios da aurora atingiu os seis azuis daquela criatura multípede, alada… Linda. Ah se eu pudesse tirá-la desse mundo de sonhos e levá-la para minha casa… Não precisei pedir: ela segurou na minha mão e, como se trocássemos alianças, selamos nossa união.

Passei a dedicar horas da minha vida ali, naquela pedra, admirando o horizonte e sorrindo, bobo, feliz. Descobri que Anadiômena, verdadeira pérola, vivia em uma concha, onde colecionava outras de várias partes do mundo. Passei a atirar conchas na água, imaginando ser uma forma singela de representar o quanto me sentia bem em ficar ali. A retribuição era sempre maravilhosa: aparecia, sempre brilhando mais que o sol, e chegava bem pertinho. Lembrava que, entre sonho e realidade, não havia distância intangível.

Até que um dia fechei os olhos, adormeci, atirei uma conchinha, mas o tempo fechou. Nuvens pesadas, chuva forte. E uma onda surpreendente me jogou para fora da pedra.

Corri para qualquer lado. De repente, me vi perdido no meio da mata. Fiz o que pude para demonstrar força, mas o frio e a chuva eram mais fortes. Não consegui segurar minha fraqueza. Ajoelhei, ergui os braços e pedi auxílio à primeira entidade que pudesse aparecer.

Surgiu uma figura alta, barbuda, com um belo traje. Chamou a atenção o fato de não ter uma perna. Ofereceu algumas folhas.

- Mastigue isso. Vai tranquilizar sua mente.

- Cê é loco? Botar isso na boca? E quem é você? Um saci maconhista?

Aquela figura sorriu, pacientemente.

- Sou Ossanha, meu caro. O Orixá das plantas e das matas. Tenho o reino e poder das plantas, além de tranquilidade e equilíbrio emocional que podem ajudá-lo. Agora mastigue e mantenha a calma. Vai ficar tudo bem.

- Não parece nada bem. Está vendo essa tempestade? Frente fria! Como eu posso ser feliz com Anadiômena e um calção do Inter? Aliás… Espere aí! Você é o cara daquela música infame! Coitado do homem que cai / No canto de Ossanha traidor / Atrás de mandinga de amor / O amor só é bom se doer / Vai vai vai… Sofrer! Ora, seu…

- Não me culpe. Nada tenho a ver com essa letra. Vá reclamar com Vinícius e Baden. E outra: você não está raciocinando. Afinal, o homem que diz “sou” não é, porque quem é mesmo é “não sou”. E o homem que diz “dou” não dá, porque quem dá mesmo não diz. Não concordas?

- Tá, tá. Com tanta água na cabeça, não sei mais se sou ou se dou. Só me diz uma coisa: essa tempestade vai passar ou vou ter que sair daqui? Posso gritar do alto daquela pedra alguma palavra mágica, capaz de quebrar o encanto e nos deixar felizes de novo?

- Encanto? Não parou pra pensar que estas interpéries são obras da natureza? Você devia aproveitar esta oportunidade pra pensar em você. Agora me diga: que coisas surgem em sua mente quando pensa em Anadiômena?

- Ah, as mais doces, amorosas, intensas… Não consigo mais imaginar minha vida sem esse lugar aqui.

- Ótimo. E como você demonstra isso a ela?

- Mmmhhh… Eu fico admirando o horizonte… Atiro conchinhas para ela…

- Conchinhas? CONCHINHAS???

- Ué… O que tem? Ela coleciona conchinhas, gosta delas.

- Sim… Mas… Só conchinhas??? Eu… Pensei que você a amasse!!!

- Poxa, Ossanha, tem várias formas de mostrar isso, não acha? Observe outras praias por aí. Repare como tem gente atirando toda sorte de coisas na água, sem nenhum critério ou razão. Há uma banalidade tão forte nisso tudo… Eu mesmo já dei presentes por aí que me arrependo… Lembro daquelas cestas jogadas ao mar e vejo um vazio danado…

- Certo. Mas perceba: o vazio não está naquela cesta. Está em você.

- Cuma?!

- Meu amigo, esqueça o passado. Se você quer oferecer algo maior do que sua admiração e algumas conchas, mas só consegue ver o vazio de um cesto antigo, é porque ele espera que você o preencha. Seus traumas, bobagens… Tudo de ruim que você associou a esta ausência antes de subir naquela pedra pela primeira vez… Nada disso cabe entre você e sua amada Anadiômena. Você consegue entender isso?

- Cacetada… Estou me sentindo um idiota. Lógico que eu poderia ter feito mais, mas sabe… Eu julgava que eu pudesse ter deixado meus sentimentos claros, tudo esclarecido…

- Entendo perfeitamente, meu caro. Agora, pense: agir assim significa pedir para não mexer no que te trava. Como se você dissesse: “é assim que eu vejo, eu sou desse jeito”. Mas você precisa mesmo agir desse jeito? Não consegue questionar? Se você nunca ofereceu algo mais a ela por algum presente mal entregue no passado…

- Eu preciso agir, lógico! Mas… Essa chuva… Esse vento… Não sei o que posso fazer agora.

- Bom, como disse, o mais importante agora é se acalmar. O tempo é sábio, e você saberá decidir com serenidade. Sobre o presente… Já pensou em palavras dentro de uma garrafa?

- Palavras?

- Sim. A palavra tem força, meu caro. Você diz que desvalorizou presentes no passado pois não via mais sentido neles… Uma palavra entregue com certeza, com significado… Ela marca uma vida. É maior que qualquer medo. E dependendo do que escrever, você vai demonstrar que está todo ali, naquela pedra, vulnerável… Mas é a única maneira de se entregar, meu rapaz. É se deixar levar, a despeito de todos os traumas.

Acordei daquele sonho tenso, mas entusiasmado para arremessar todas as garrafas que estavam ao meu alcance, antes que o tempo pudesse virar, na praia de Cassandoca. Todas com uma conchinha dentro e um papelzinho com a frase: “imagine que cada conchinha que te dei fosse como se eu lhe dissesse eu te amo, e pense em cada garrafa dessas como se eu desejasse enchê-la com todo o amor que pudermos acumular juntos”.

Desde então, perdi meu medo das ondas, da chuva, do frio, da vida.

***

Hoje é aniversário da minha amada Anadiômena, e há dias não paro de pensar em duas coisas. Uma é o fato de não estar lá, diante dela, para dizer meus votos de felicidades, desejos, experiências e tudo o que vier à cabeça: só posso me contentar em fechar meus olhos e sentir a areia entre o dedos, a água chegando de mansinho, a brisa e o calor do sol.

A segunda é que, mesmo se pudesse, seria apenas eu, e não o Capitão Neruda.

Toda la noche he dormido contigo
junto al mar, en la isla.
Salvaje y dulce eras entre el placer y el sueño,
entre el fuego y el agua.

Tal vez muy tarde
nuestros sueños se unieron
en lo alto o en el fondo,
arriba como ramas que un mismo viento mueve,
abajo como rojas raíces que se tocan.

Tal vez tu sueño
se separó del mío
y por el mar oscuro
me buscaba
como antes
cuando aún no existías,
cuando sin divisarte
navegué por tu lado,
y tus ojos buscaban
lo que ahora
—pan, vino, amor y cólera—
te doy a manos llenas
porque tú eres la copa
que esperaba los dones de mi vida.

He dormido contigo
toda la noche mientras
la oscura tierra gira
con vivos y con muertos,
y al despertar de pronto
en medio de la sombra
mi brazo rodeaba tu cintura.
Ni la noche, ni el sueño
pudieron separarnos.

He dormido contigo
y al despertar tu boca
salida de tu sueño
me dio el sabor de tierra,
de agua marina, de algas,
del fondo de tu vida,
y recibí tu beso
mojado por la aurora
como si me llegara
del mar que nos rodea.

Da minha vontade de ser pai

Por Marmota | 08/08/2010, 20h05

Ainda tem quem se surpreenda com esses encontros que começam casualmente pela Internet e acabam durando uma vida inteira. Mais distante ainda é lembrar que, antes dos bits trocados por computadores, laços parecidos eram constituídos via ondas eletromagnéticas.

Meg Ryan que o diga. Antes de dar um beijo apaixonado em Tom Hanks em Mensagem pra Você após encontrá-lo na AOL, fez o mesmo anos antes ao ouvi-lo num programa de rádio em Sintonia de Amor.

Longe dos roteiros de Hollywood, temos a impressão de que a vida escreve histórias ainda mais surpreendentes. Quem poderia imaginar que um desses pedidos apaixonados em ondas curtas seria capaz de dar ao velho Alencar Antunes, casado com a “tia” Maria, um final de vida tão triste quanto sua existência, mas ao menos digno?

***

O tal “recadinho do coração” foi propagado no início dos anos 90, mas é preciso voltar às primeiras décadas do século passado para entender o contexto. Os caminhos abertos entre Pelotas e cidades próximas como Canguçu, Bagé e Jaguarão mudaram a vida de famílias consolidadas naqueles campos. Houve quem montou armazéns ou entrepostos, mas também casas à beira da faixa que sempre representaram um mistério – especialmente num ambiente em que todos se conheciam e se tratavam pelo nome das famílias. Era o Rui dos Maciel, a Helena dos Peter…

E haviam os “filhos do pequeninho”. Sabia-se que mantinham um paradouro na estrada, mas nunca exatamente o que ofereciam aos viajantes que passavam por lá. Ou vai ver que sabiam, mas evitavam falar para não chocar as famílias.

Pensando bem, talvez comentassem sim, carregando nas tintas e dando corpo a um ambiente ainda mais impróprio para menores do que, de fato, era… Mas enfim, o fato é que uma das “filhas do pequeninho” era também a mãe do Alencar.

A então Mariazinha nem desconfiava, mas provavelmente chegou a acenar para o jovem Alencar uma ou duas vezes, quando era incumbida de tocar as vacas de casa para o arroio do Passo das Pedras – o único lugar onde era possível banhar os animais após tratamento com veneno para carrapatos. E é estranho imaginar que, se a aproximação entre os dois fosse naquela época, o enredo poderia ser bem diferente. Jamais saberemos a razão pela qual Alencar cresceu num ambiente sem amor.

***

Alencar não fazia idéia de quem era o seu pai – nem sua mãe, desconfia-se. Entendeu mais ou menos o conceito de “família” quando a enigmática “filha do pequeninho” decidiu casar com o Antunes, dono de um empório bem sucedido, viúvo e com quatro filhos. Generoso, assumiu o enteado, registrando-o em seu nome. Imaginava encontrar gente que poderia acolhê-lo, mas se viu sob o jugo da tresloucada mãe. A casa nova virou sinônimo de masmorra, com direito a toda sorte de maus tratos físicos e verbais.

Não demorou para que abandonasse logo seu lar. Trocou uma vida de sopapos por uma carreira de garçom em diversos bares e bailões das redondezas, uma das poucas diversões daquela juventude rural. Aliás, foi assim que meus pais se conheceram e, lógico, fofocavam com os amigos – entre eles, Maria.

As mesas e balcões se tornaram a sala de aula do Alencar. A clientela faceira e bailarina, seus professores. A bebida e o cigarro, seus melhores amigos. Desenvolveu na boêmia seu estilo, sua prosa, virtude que levou por toda a vida. Também foi ali que o álcool e a fumaça começaram a minar sua força de vontade: não faltavam relatos de companheiros, preocupados Alencar atirado em uma cadeira ao fim da noite. Não à toa, a jovem Maria nunca daria bola para um sujeito desses.

Incrível como situações inesperadas (há quem as definas simplesmente como “Deus”) tentam abrir novos caminhos. Foi graças a sua longa presença na noite que Alencar conheceu sua primeira mulher. Dessa relação, nasceu Rosana.

Só que esse episódio não teve lá um destino dos melhores: desorientada, a moça largou companheiro e filha. Mais desorientado ainda, Alencar fez o que esteve em seu curto alcance: Rosana ficava um tempo com a família dela, outro com os irmãos adotivos…

***

Alencar nunca teve um pai, muito menos alguém que o amasse. Natural que entregasse apenas isso para sua primeira filha, que não demorou para seguir a sina dos pais e sumir do mapa. Difícil perceber quem sentiu mais solidão e desprezo.

Alencar era a personificação do que podemos chamar de ausência. A tia Maria, curiosamente, era exatamente o oposto: enquanto via seus irmãos deixarem a casa para casarem e construírem seus próprios lares, ela continuava ali, dedicada aos pais. Quando a relação entre o trabalho no campo e os dividendos passou a ser desfavorável, esteve ao lado deles na mudança para a cidade.

Sempre que eu passava o final de ano em Pelotas, dava um jeito de visitar a “tia” Maria. E era impressionante como, a cada ano, as coisas estavam exatamente iguais. Hoje eu fico me perguntando o que faltou para que ela pudesse “soltar as amarras”, ao menos um tiquinho, e aproveitar melhor sua vida…

Enfim, agora não é momento para perguntas complexas. Porque não muito longe dali, o Alencar buscava por uma guinada em sua vida. Sua formação como garçom o motivou a tentar a carreira de vendedor. Investia cada centavo conquistado em novas mercadorias para comercializar. Como empreendedor, mostrou ter boa lábia, mas péssima estratégia: era comum acumular mais quinquilharias do que cruzeiros.

Foi como vendedor que Alencar conheceu sua segunda mulher – e dessa vez fez o possível para acertar. Casou-se no papel, como manda o figurino. Foram morar numa bela casa alugada – a garagem, lógico, virou depósito de bugigangas. Tiveram três filhos e, finalmente, uma família que parecia encaminhada.

Não fosse por um detalhe: sua mulher faleceu, quando o filho mais novo tinha três anos. As más línguas dizem que foi puro desgosto, já que Alencar nunca soube o que é amar alguém de verdade. Nada disso importa: ao contrário da irmã doidivanas Rosana, os três outros filhos de Alencar foram morar com parentes da mãe – cada um com um tio, ao que parece. Melhor para as crianças, apesar de Alencar se ver, mais uma vez, sozinho.

***

Peço ajuda e desculpas aos meus amigos psicólogos pela simplificação grosseira. Mas ouvi certa vez que, dentro de uma das filosofias possíveis, todo ser humano pode ser categorizado entre psicóticos, neuróticos, geológicos, narcóticos… Não vou lembrar exatamente, mas entre estes rótulos, é possível identificar pessoas que, inconscientemente, estarão predispostas a preencher vazios. Outras, da mesma forma, esperam encontrar alguém que o preencha. Normalmente, são perfis cuja atração é inevitável.

Lembrei disso agora ao me dar conta que a tia Maria é tudo. E Alencar, o nada. Fatalmente seria um encontro explosivo, um “big bang”. Eles só precisariam de algum daqueles truques inexplicáveis – aquilo que muitos definem como “Deus”, lembra?

A tia Maria era ouvinte de um programa noturno, repleto de músicas grudentas e recadinhos românticos. Em uma realidade sem aglomerações egoístas, telefone ou Internet, é possível entender que algumas destas mensagens eram enviadas por solteiros e solteiras em busca de um amor. Pois é, garotada: antes do disque-amizade ou da sala de chat, os “encontros no escuro” funcionavam com cartas ao locutor da estação.

Ela nunca falou abertamente sobre isso, mas é fato que foram alguns os pretendentes encontrados desta forma. Em um dos finais de ano que estive lá, ela estava namorando um rapaz muito falante e divertido. Parecia um sujeito boa praça, carinhoso e amigo. Soou maluquice quando soube, antes do Natal seguinte, que o namoro havia acabado – e que ela já havia marcado casamento com outro!

A essa altura, eu fico pensando: provavelmente a tia Maria deve ter saído com uma porção de galanteadores após sintonizá-los em casa à noite. Evidentemente, nenhum deles era perfeito, e nessas circunstâncias, é fácil criar confusão. Talvez aquele cara bacana não tenha lhe dado flores, não saía para beber, nem dito palavras doces ou algo assim. Pior pra ele. Enfim, não me admira que nosso inconsciente possa identificar opções diversas e decidir, inexplicavelmente, apenas pelo simples fato de que “eu posso preencher o vazio dele” e vice-versa.

É óbvio assim: o autor das palavras doces, que deve ter entregue flores à tia Maria e acabou casando com ela há vinte anos, era o Alencar.

***

Ganha um brinde, comprado na loja de R$ 1,99 e comercializado pelo Alencar, quem puder dizer como foi a relação entre os dois pombinhos. O pai da tia Maria pouco a aconselhou: morreu dois anos depois, semanas após o nascimento do Fernando, uma das crianças mais queridas que já conheci.

O Alencar sempre gostou muito de seu quinto filho, mas não demorou para a tia Maria conhecê-lo de verdade… E não foi fácil. As vendas iam mal, mas problemas de saúde o impediam de procurar um trabalho. Acabava em casa, diante da TV, enquanto a mulher sustentava a família. A relação com os parentes degringolou quando foi a vez da mãe dela padecer, debilitada. Na tentativa de se dividir entre seu trabalho, a casa e os cuidados da mãe, Alencar chegou a dizer que “ela devia receber, dos outros irmãos, um salário para cuidar da sogra”.

Cheguei a visitá-los uma vez. Tudo o que fiz foi brincar e dar risada com o Fê, enquanto meus pais, na cozinha, se impressionavam com os modos de Alencar. Maltratava não só os convidados, mas também a própria. Eram frequentes os comentários inacreditáveis dos conhecidos: “fomos lá na Maria e o Alencar não saiu da cama sequer pra dizer oi”. Ou “antes de se retirar, o Alencar ainda disse pra Maria guardar as panelas e parar de comer, pois estava gorda como uma porca”… Humilhante assim.

Eu me sinto até mal em lembrar que, em qualquer comemoração reunindo família e amigos, só a tia Maria e o Fernando apareciam… E não me importava com a ausência do Alencar. Na única festa de reveillon que participamos juntos, não consegui abraça-los à meia-noite, pois precisavam “voltar logo para casa”. Mas… Por que ele não estava lá? Pois o amargurado não media palavras ao confidenciar para a esposa que “odiava toda essa gente”. Então tá.

***

Quando estive em Pelotas em janeiro deste ano, para o casamento de uma prima, vi a tia Maria e o Fernando rapidamente, na cerimônia. Eles não puderam ir à festa, pois queriam ficar em casa com o Alencar. O próprio foi buscá-los, de carro, em frente à catedral. Fui até eles para me despedir dos dois e, ao menos, dar um aperto de mão no sujeito – ele podia me odiar, mas eu não tinha nada com isso.

Alencar estava irreconhecível. Abatido. Sombrio. Eram nítidos os efeitos implacáveis do álcool e do cigarro no decorrer dos anos. Perguntei a ele se, ao menos naquela noite, não valeria a pena esquecer qualquer coisa e curtir uma festinha ao lado de gente querida. A negativa, junto com uma breve despedida, foram as últimas palavras que troquei com ele.

Soube esses dias que Alencar havia sido internado na UTI, com enfisema pulmonar em estado muito avançado. Nos últimos dias, tinha sido transferido para um quarto, onde ficou até dar seu último suspiro essa semana.

Numa prosa que teve conosco há pouco, a tia Maria revelou todos estes e muitos outros detalhes da vida deste homem, que passou a vida inteira tentando descobrir o que é o amor. Ao que tudo indica, teve uma lição definitiva antes de morrer. Nas palavras dela, um dos últimos diálogos, que partiu de Alencar:

- Sabe… Agora eu me pergunto por que eu agi assim… De um jeito tão… Tão desumano, menosprezando tanta gente… Eu também me surpreendo porque, mesmo comigo agindo assim, você cuidou de mim… Sempre esteve ao meu lado…

- Ah, eu te amo, e você sabe… E sinto uma saudade muito grande da gente junto.

E seguraram a mão um do outro, bem forte. Não era preciso dizer mais nada.

***

Alencar foi embora lamentando não ter feito muita coisa boa em sua vida. Partiu sem se despedir direito da mãe ou dos parentes emprestados de sua primeira família num passado muito distante. Deixou este plano sabendo que sua primeira filha, a Rosana, morreu numa prisão na Espanha, após ser presa por tráfico, e que seus três filhos do segundo casamento estão encaminhados, formados, felizes.

Nunca soube, no entanto, quem era o seu verdadeiro pai. Nasceu e morreu com essa mágoa. Enfim, dos males, o mais tênue: se dependesse apenas de seu histórico, o velho Alencar Antunes talvez não tivesse um velório, ou sequer uma história para ser lembrada.

Queria muito dar um abração na tia Maria e outro no Fernandão, que agora precisa lembrar que é o homem da casa. Por fim, esse longo episódio nos deixa uma lição: ao invés de se arrepender por algo que fez ou deixou de fazer, a melhor coisa do mundo é viver.

E hoje, mais do que nunca, acordei com vontade de ser pai.

A minha resposta ao tempo

Por Marmota | 02/08/2010, 08h24

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho tempo tempo tempo tempo vou te fazer um pedido tempo tempo tempo tempo compositor de destinos tambor de todos os ritmos tempo tempo tempo tempo entro num acordo contigo tempo tempo tempo tempo por seres tão inventivo e pareceres contínuo tempo tempo tempo tempo és um dos deuses mais lindos tempo tempo tempo tempo que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho tempo tempo tempo tempo ouve bem o que te digo tempo tempo tempo tempo peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso tempo tempo tempo tempo quando o tempo for propício tempo tempo tempo tempo de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido tempo tempo tempo tempo e eu espalhe benefícios tempo tempo tempo tempo o que usaremos pra isso fica guardado em sigilo tempo tempo tempo tempo apenas contigo e migo tempo tempo tempo tempo e quando eu tiver saído para fora do círculo tempo tempo tempo tempo não serei nem terás sido tempo tempo tempo tempo ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos tempo tempo tempo tempo num outro nível de vínculo tempo tempo tempo tempo portanto peço-te aquilo e te ofereço elogios tempo tempo tempo tempo nas rimas do meu estilo tempo tempo tempo tempo…

A Oração ao Tempo, do Caeteano Veloso, pra ver se ele me dá uma força.

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