Não é difícil concluir, diante do ritmo de atualizações deste espaço, que o tempo anda curto para trivialidades. De qualquer forma, em meio aos afazeres de sempre, adoraria passar ao menos algumas horas dos próximos dias preocupado com algumas questões do tipo:
- Será mesmo que a “Família Dunga” conseguirá atingir seus objetivos?
- Depois do vice na Copa das Confederações, os EUA chegarão mais longe no Mundial?
- Teremos, finalmente, alguma nação africana entre as quatro melhores do mundo numa Copa?
- Só eu lembro do refrão de “70 Neles”, musiquinha da Gal Costa durante a Copa de 86?
- Por que o McDonalds desistiu do sanduíche de calabresa entre os favoritos da Copa?
- Já assistiu a “Todos os Corações do Mundo”? “Invictus”? “O Milagre de Berna”?
- Qual destas palavras representa algo mais assustador: Jabulani ou Vuvuzela?
- Quem acredita realmente que levantar os braços e gritar “tcha tcha” é um novo jeito de torcer?
- E a Copa do Mundo no Brasil, vai ser parecida com a que veremos na África do Sul?
Talvez não dê tempo de dar palpites sobre tantos assuntos… Mas esse é o objetivo do Blog da Copa, espécie de “garagem enfeitada” do Portal Dialética. Além de mim, todos os moradores do condomínio também possuem a chave do portão: dentro das nossas possibilidades humanas, você também vai encontrar textos de outros apaixonados (ou não) por Copa do Mundo.
Sendo assim, aponte seu navegador para o Blog da Copa. As atualizações (naquele ritmo lento) voltarão por aqui após a grande festa do futebol mundial.
Desde setembro de 2007, quando Lello Lopes e eu caminhávamos pelas ruas de Copenhague, sou perturbado por um fantasma em forma de pergunta. Descansávamos durante um agradável fim de tarde na grama aparada do Oerstedparken, mas logo um jovem casal de namorados chamou nossa atenção. O rapaz, de pulôver listrado, calça preta e aparência emo, caminhava de mãos dadas com uma ruivinha de saia, meias de lã, blusa branca e larga. Então pararam de andar, deitaram na grama, abraçaram-se e, ignorando qualquer transeunte, demonstraram fisicamente a força de seu amor, ali mesmo.
“E se fosse sua filha, André?”. Confesso que, por mais que procurasse uma resposta qualquer entre o controle e a anarquia, não soube responder.
Imaginava ainda que, na perspectiva de constituir minha própria família, alguma luz poderia contribuir para uma resposta definitiva. Já se passaram quase três anos e o fantasma se tornou ainda mais assustador. “E Se Fosse Sua Filha?!?” poderia ser, por exemplo, o título de “As Melhores Coisas do Mundo”, uma visão cinematográfica do ambiente juvenil em uma escola de classe média paulistana, capitaneada pela diretora Laís Bodanzky.
Inevitavelmente, repeti a fatídica pergunta diante da personagem Valéria, a loira boazuda que, não bastassem suas estripulias sexuais públicas e privadas, ainda fuma. Ou a “jornalista blogueira” Dri Novais, que está ali para lembrar quanto nossa autonomia tecnológica para compartilhar conteúdos pode ser perversa. Mesmo a protagonista Carol, que só por usar moleskine e caneta merece meu respeito, dá suas rateadas. Num espasmo pós-sessão, diria sem pestanejar que as três, assim como a ruiva dinamarquesa, mereciam uma surra.
A realidade, assim como os defensores da psicologia familiar e dos limites, consegue superar a ficção. Giovanna Maresti Silva e Ana Lívia Destefani poderiam perfeitamente frequentar a escola fictícia de Valéria, Caril, Dri Novais, Mano, Deco e Fiuk, ops, Pedro. Em junho de 2008, Ana pediu R$ 250 para a mãe, queria um sapato novo. Também aproveitou o fato de ser quinta-feira para ir ao cinema com Giovanna e pagar ingressos mais baratos. Na saída, tiveram uma idéia genial: “São Paulo é um saco. A gente não gosta mesmo daqui. Tô com uma grana no bolso. Vamos para Buenos Aires?”.
Seguiram numa aventura alucinante. Do cinema, na rua Augusta, foram de carona ao Terminal Barra Funda. Pegaram carona de desconhecidos, que ainda lhe pagaram as refeições – quando não ofereciam outras coisas. Foram parar em Porto Alegre, onde foram assaltadas num bairro da pesada. Giovanna vendeu um celular e o óculos e, com o dinheiro, chegaram a Uruguaiana, mas não conseguiram atravessar a fronteira. Acabaram em direção a Santa Catarina: quando chegaram a cidade de Curitibanos, pensando em trabalhar. Até que, finalmente, foram encontradas pela polícia, aliviando o desespero dos pais e familiares.
Nem sempre o desfecho é feliz. Imagine sua filha comemorando a formatura num cruzeiro marítimo, e durante comemorações infindáveis regadas a muita bebida, ela morre a bordo. Sem falar em casos onde o controle não está exatamente nas mãos da sua filha, como na clássica tragédia da Eloá Pimentel em Santo André.
Não é preciso ir longe para se apavorar. O próprio Lello, esses dias, compartilhou uma angústia parecida: “andar na Augusta na sexta à noite faz repensar a ideia de ter filhos”. Pessoalmente, não tenho muita escolha: a provável mãe da minha filha não cansa em dizer que teremos em casa uma “versão miniatura” de si mesma… O que não deixa de ser preocupante, não? (Piada fraca…).
As dúvidas persistem, e certamente só vou resolvê-las após esse boeing decolar. Por hora, tudo o que posso dizer é que minha filha jamais vai se prestar a um papel como este aqui em rede nacional.