É muito fácil criar uma polêmica no jornalismo esportivo. Pegue um jogador que costuma dar declarações pavorosas, faça uma pergunta idiota, registre a frase absurda que virá e pronto: você terá em mãos um factóide bacana para alimentar bate-papos em centenas de mesas em botecos do Brasil inteiro.
Ainda bem que esse tipo de bafafá dura pouco. Não é nada saudável criar polêmicas de verdade, capazes de atravessar os anos. Só mesmo o profissionalismo histórico da CBF e do Clube dos 13, entidade que reúne os times mais representativos do país, para conseguir sustentar uma discussão durante vinte anos!
Em 1987, dezesseis clubes declararam independência, capitaneados pelo Clube dos 13, e disputaram uma competição paralela, com o pretexto de fortalecer o futebol brasileiro. Desprestigiada, a CBF organizou o “módulo amarelo” com os times restantes. Um duelo de bastidores culminou com um quadrangular envolvendo os campeões dos dois torneios, mas que jamais foi realizado. “Donos da bola”, a CBF decidiu oficializar o Sport Recife, vencedor do “módulo amarelo”, como campeão brasileiro daquele ano.
Até semana passada, o interminável debate parecia esquecido na gaveta. Veio o título do São Paulo e a história de uma taça permanente, que fica com quem vencer três vezes consecutivas ou cinco no total. No calor da conquista, o Doni (que refez seu discurso) e o Gravatai comemoraram o feito do “único pentacampeão brasileiro”. Único?
A pergunta voltou com toda força, haja vista o impacto deste desabafo do Gustavo de Almeida: afinal de contas, quantos títulos brasileiros tem o Flamengo?
Para que cada um possa formar sua própria resposta, convidei quatro amigos para incrementar o papo (a quem, desde já, agradeço imensamente). Nesta parte 1, você vai ler os argumentos de dois torcedores pró-Mengão. Para eles, o Flamengo já é pentacampeão desde 1992. Na parte 2, temos dois comentários pró-Sport.
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Pedro Cirne, o eterno editor do UOL Tablóide:
Do site da Gazeta Esportiva.Net:
“Quando tudo parecia definitivamente encaminhado, a CBF decidiu alterar o regulamento, pressionada politicamente, durante a competição. Criou um quadrangular final entre o campeão e vice dos módulos verde e amarelo, de onde sairia o campeão brasileiro de 1987.”
Repare: “pressionada politicamente, durante a competição”.
O regulamento foi alterado durante a competição. Por motivos políticos.
Cada um acredita no que for conveniente.
Houve uma briga política em 1987, e o Clube dos 13 foi derrotado pela CBF. Talvez, hoje, o futebol brasileiro fosse mais bem comandado. Talvez não.
Com ou sem política, houve um Campeonato Brasileiro em 1987, vencido pelo Flamengo.
A CBF também não organizou a Copa João Havelange, em 2000. Há algum flamenguista que negue que o Vasco foi o campeão nacional de 2000? Não há. Porque foi. O campeonato era aquele.
O Vasco foi o campeão brasileiro de 2000.
O Flamengo foi o campeão brasileiro de 1987.
Quem diz que não foi o Flamengo? Muita gente. Quem diz que foi? Muita gente. Quem tem razão? Não sou Deus. Não sou o juiz de toda a razão. Mas não me importo. O prejuízo já houve em 1988, quando o Flamengo deixou de disputar a Libertadores. E a conquista já houve em 1987, quando o Zico ergueu a taça, em um campeonato disputado, em comum acordo de que o vencedor seria o campeão nacional, por Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Goiás, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santa Cruz, Santos, São Paulo e Vasco.
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Raphael Perret, jornalista e mestre em Informática
A CBF determinou que Flamengo, Internacional, Sport e Guarani disputassem um quadrangular para indicar o campeão brasileiro de 1987. Os times carioca e gaúcho se recusaram a jogar e, entre paulistas e pernambucanos, deu Sport, aclamado com o título, depois confirmado pela justiça comum. Por que, então, o Flamengo põe na sua conta a conquista da Copa União de 20 anos atrás e, com isso, afirma ter sido o primeiro time a ganhar cinco títulos brasileiros?
Simples: porque o Flamengo foi, de fato, o campeão brasileiro de 1987.
Naquele ano, a CBF admitiu que não tinha condições financeiras de montar um campeonato nacional. Assim, os quatro grandes clubes do Rio, os quatro de São Paulo, os dois de Minas, os dois do Rio Grande do Sul e o Bahia fundaram o Clube dos 13 e assumiram a responsabilidade de organizar o torneio.
A CBF passou a apoiar o planejamento do campeonato pelo Clube dos 13, desde que Goiás, Santa Cruz e Coritiba fossem incluídos no torneio. Pedido atendido, a Copa União começava a ganhar forma e respaldo oficial.
Porém, outros clubes estavam descontentes por ficarem fora da festa, principalmente o Guarani, vice-campeão de 1986, e o América do Rio, que perdera a semifinal do Brasileiro de 1986 para o São Paulo. Para atendê-los, a CBF resolveu montar, por conta própria, um campeonato com outros 16 clubes. Em seguida, anunciou que este torneio seria o módulo amarelo da Copa União, enquanto o campeonato organizado pelo Clube dos 13 seria o módulo verde. Os dois primeiros colocados de cada um dos módulos disputariam o título brasileiro.
E, assim, começa a confusão. Era patético o clube vencedor do módulo verde, com os maiores times do país, correr o risco de perder um título em dois ou três jogos contra dois clubes provenientes do módulo amarelo, considerado a “segunda divisão” pela imprensa, na época.
O Clube dos 13 rejeita a fórmula e garante que não vai disputar o quadrangular. Ocorrem os dois torneios. Flamengo e Internacional, finalistas do módulo verde, mantêm-se firmes e se recusam a entrar em campo contra Sport e Guarani, vitoriosos do amarelo. Então a CBF dá o título ao Sport, etc. etc.
É comum acusarem o Flamengo e o Inter de quebrarem as regras do campeonato por não terem disputado o quadrangular. Mas se houve rompimento de acordo, partiu da própria CBF, ao trair o Clube dos 13 e promover a ridícula fórmula depois de combinar a Copa União. A mesma acusação de quebra de regras se aplica ao próprio Sport e ao Guarani, que ignoraram o regulamento do jogo e dividiram preguiçosamente o título do módulo amarelo, após uma disputa de pênaltis que se estendeu até o placar de 11 a 11.
Afinal, que moral tinha a CBF de decidir quem seria o campeão brasileiro se ela mesma assumiu não ter condições de montar o campeonato?
Campeonato que foi organizado e disputado pelos treze maiores clubes do país, os mesmos que acumularam mais pontos, que tiveram a melhor média de público, o maior número de jogadores convocados para a seleção e os maiores artilheiros da competição desde o seu início, em 1971, segundo artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 15 de julho de 1987.
Campeonato que obteve a terceira melhor média de público da história (20.877 torcedores por partida), marca que, até hoje, segue inalcançada.
Campeonato que obteve 91% de aprovação dos torcedores, segundo pesquisa do Ibope ao final do torneio.
Campeonato, portanto, mais do que legítimo.
Pois o Flamengo conquistou este campeonato nacional legítimo, depois de 19 jogos, superando Internacional (na decisão), Atlético-MG (na
semifinal), Cruzeiro, Grêmio, São Paulo, Fluminense, Palmeiras, Botafogo, Vasco, Bahia, Coritiba, Goiás, Santa Cruz, Santos e Corinthians.
É por tudo isso que o Flamengo é, desde 1992, pentacampeão brasileiro. Hoje, com alegria e respeito, o rubro-negro recebe um vitorioso colega no grupo que inaugurou, o dos times com cinco títulos nacionais. Seja bem-vindo, São Paulo. Quinze anos depois, finalmente temos uma companhia.
(Mais sobre a Copa União de 1987: no site Trivela, no artigo “Crise, revolução e traição”, e no livro “Passes e impasses – Futebol e cultura de massa no Brasil”, de Ronaldo Helal, lançado pela Editora Vozes)
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Se puder, segure um pouco sua opinião: a parte 2 não vai demorar, confie em mim.
(Postado em 07/11/2007)