Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

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Uma única proposição para 2010

Por Marmota | 31/12/2009, 10h50

Entre todas as 52 semanas do ano, esta última é a que reúne a maior quantidade de filosofias particulares – desde atos solidários até pedidos de perdão, afinal “é Natal” – e, para completar, todas aquelas resoluções impraticáveis. Fazer ginástica, viajar mais, atualizar o blog, tocar aqueles projetos eternamente adiados…

Pois eu já não me iludo mais. Entre todas as propostas que tenho para 2010, ficarei feliz se conseguir cumprir ao menos uma: fazer o possível para viabilizar a maior quantidade possível de “descompromissos importantes”, diante da enxurrada de “compromissos urgentes”. Quando estes últimos ocupam boa parte dos nossos dias, algo está errado.

Aproveite seus “descompromissos importates” já nas últimas horas de dois mil e love. E, como de praxe, feliz ano novo e um próspero Natal pra você. A gente se vê no ano que vem.

Nova carta (ecológica) do Papai Noel

Por Marmota | 26/12/2009, 00h34

Eu sou um ativista de sofá típico. Sei que nosso planeta está sendo assolapado pelo homem, mas continuo tomando banho quente e guiando um veículo poluente por longos quilômetros diariamente. Poderia dedicar parte do meu tempo estimulando pessoas a praticar uma boa ação, só que continuo sedentário e barrigudo. E se num passado remoto eu perdia um dia inteiro escrevendo cartões de Natal personalizados – sim, aqueles de papel, envelope e selo – e despachando-os pelo correio, agora me envergonho daqueles que, em dois ou três cliques, juntam imagens pescadas no Google com um texto de “autor desconhecido” e enviam pra todos de sua lista. É uma vergonha idiota, já que não costumo dar bom dia aos vizinhos e, ultimamente, ando longe de atividades sociais por total inércia doméstica. Difícil dizer, mas é como se tanta conectividade fosse inversamente proporcional ao espírito natalino.

Mas deve ser só falta de costume. Mesmo na ressaca da festinha de aniversário do filho da Dona Maria com o Seu Zé, aquele tio gordo do menino, que passa o ano coçando e enchendo o saco vermelho no meio do Ártico, ainda tem tempo de escrever alguma historinha edificante. Obrigado mais uma vez, velho batuta.

— original message —
From: Papai Noel <santa@laponia.gov>
Date: 25/12/2009 22:45:27
To: André Marmota <uma@igualaquinzequilos.com>
Subject: Feliz Natal, e que não seja o último!

Ho ho ho, meu desajeitado amigo de mechas brancas e ainda com espírito de criança! Adivinhe quem lhe escreve novamente nessa data feliz?

Antes mesmo de começar, preciso lhe advertir, bom rapaz: minha fábrica não possui tecnologia para desenvolver artefatos metafísicos, portanto não consegui lhe entregar seu pedido: um relógio capaz de espichar as horas. Mas vou lhe dizer: ainda que fosse possível, não lhe daria. Você precisa aprender a viver cada minuto de sua vida com intensidade e responsabilidade, ao invés de perder lindas alvoradas só porque prefere ficar mais tempo rolando na cama. Que coisinha mais feia, hein?

Mas não precisa ficar apavorado. Como sei que existe uma boa alma neste seu corpo adiposo, fiz com que chegasse em suas mãos uma marmota de pelúcia. Aliás, veja que curioso: enquanto na Mongólia não é mais saboreada pelo homem há séculos, em outras áreas, como no Canadá, a quantidade de habitantes da espécie local foi reduzida pela metade em um período de vinte anos. Triste, não acha?

Felizmente, existem pessoas engajadas para salvar marmotas. Também temos outras organizações pelo planeta, preocupados com outras minorias. Sei que não é o teu caso, mas veja: mesmo neste Natal ignorei uma porção de cartinhas, enviadas por crianças que se comportaram muito mal. Pedem os melhores presentes em troca de suas boas notas, mas que parecem solidários apenas na última semana do ano. Em todas as outras, adotam como palavra de ordem um sonoro “que se dane a Natureza”.

Parece engraçado, não? De fato, é possível enxergar este bordão num cenário onde animaizinhos em extinção significam a sobrevivência alimentar de uma espécie. Alguma coisa como “não existem alternativas pra quem não tem nada”. Também entendo o quanto parece comum e banal dar às costas pra questões ambientais quando se tem mais o que fazer da vida, como cuidar da casa, do trabalho, das pessoas ao redor… Há uma linha tênue entre tantas normalidades da vida ao que poderia ser visto, de uma forma extrema, como “egoísmo”, não acha?

Ah, meu bom rapaz… Tanto as palavras “egoísmo” como “sobrevivência” recebem conotações tão cinzentas diante do desenvolvimento da espécie humana, não é verdade? Tenho certeza de que muita gente já está consciente da situação do planeta, mas como normalmente acontece, há um abismo entre o pensar e o fazer. Eu mesmo estou pensando em abrir mão de alguns tipos de matéria-prima em minha fábrica – mesmo mágica e não-poluente, ela favorece o consumismo dentro desta estranha lógica que vivemos. É uma pena, mas há muita gente inteligente que considera estas preocupações como “rabugices”. Como se o descarte de materiais quimicamente complexos resultassem no fim do Natal!

Mas olhe, a essa altura espero realmente que você não esteja me abominando, como muitos defensores de causas acabam se tornando. Prefiro o fato de ninguém acreditar na minha existência do que demonizá-la. Sabe, não existem culpados individuais. Nem mesmo aqueles sujeitos importantes, que estiveram perto de casa esses dias, na Dinamarca. Veja que coisa: desde os anos 70 estes líderes da raça humana se encontram, tentam conciliar a tal sobrevivência com o tal desenvolvimento… E o que acontece? Eu, que devia ficar triste, acabo gargalhando mais! Ho, ho, ho!

E aqui, um aparte curioso: imagine se este evento fosse realizado num Natal… Já pensou? Seria lindo se os gerentes todos, sentados à mesa diante da ceia, estivessem sensibilizados – mesmo com o volume de peças publicitárias, destas mensagens capazes de influenciar gente sem personalidade – e pudessem realçar o “espírito de amor e solidariedade”. Mas, se levarmos em conta o que estamos fazendo com nossas vidas, atirando pedras uns nos outros, é provável que um debate climático nessa época representasse, definitivamente, o último Natal da humanidade…

Talvez estes debates infrutíferos não levem a lugar algum. Desprezar quem defenda marmotas ou compre presentes também só dissipa energia. Sei que poucos acreditam em mim, mas sabe esse discurso “a natureza que se dane”? Isso inclui todas as espécies, inclusive os seres inanimados, que ainda moram nos bons corações do mundo. Antes mesmo do Pólo Norte derreter e levar minha morada, outras vítimas de furacões, secas, enchentes e ondas de calor virão.

Bem, meu caro, lembra-se do que dizia Einstein – e que Parreira, em 2006, ignorou solenemente durante a Copa do Mundo? É uma insanidade fazer sempre a mesma coisa, inúmeras vezes, esperando resultados diferentes. O problema está na inércia. É lamentar os efeitos que já sentimos e, ao mesmo tempo, continuar enxergando o próximo como alguém longe da família. Certamente a mudança virá apenas quando ocorrer um significativo abalo coletivo. Igual ao desses blockbusters do gênero catástrofe, sabe? E é uma pena, porque aí talvez seja tarde, e os danos e as perdas já terão sido causados.

Sabe estes gestos que, vez ou outra encontramos no Natal e que, surpreendentemente, viram notícia de jornal? Deveriam ser constantes, normais. Só teremos um feliz Natal e um ano novo realmente próspero se muita gente, mas muitos mesmos, acreditarem em uma maneira diferente de agir. Como te escrevi lá no comecinho, não tenho condições de preparar presentes com ingredientes imateriais. Mas se pudesse, trataria de embutir uma nova forma de amar. Tanto a nós mesmos quanto tudo o que possamos definir como vida.

Seria ótimo, não? Mas enfim, este é o presente que só o homem poderá embrulhar e entregar. Não eu.

Pense nisso. Se puder, publique esta carta em seu blog, como você sempre faz. Pode ser que ajude alguém. E, para não perder meu costume de sempre, feliz fim de Natal. Mas que não seja o fim das nossas esperaças! Ho ho ho!

Papai Noel
www.correionatalino.com.br

Ah sim, a marmota de pelúcia é real – obrigado de coração, Lúcia!

Não deixe de perder ainda:

- Carta do Papai Noel
- Nova carta (oriental) do Papai Noel
- Nova carta (ferroviária) do Papai Noel
- Nova carta (romântica) do Papai Noel
- Nova carta (vermelha) do Papai Noel
- Nova carta (quintanizada) do Papai Noel

Quantos títulos brasileiros tem o Flamengo, parte 2

Por Marmota | 03/12/2009, 23h25

Vamos continuar a discutir quem são os verdadeiros campeões brasileiros? Claro que, se tomarmos apenas o caso de 1987, já temos muito pano pra manga (a ponto de dividirmos o debate em duas partes), mas é possível ir além. Existe diferença entre a Copa União e a Taça Alambrado em 2000, o maior campeonato do mundo (tinha 116 clubes!!!) sem o Gama, mas com Fluminense e Bahia no módulo principal? Se bem que o Vasco merece aquela taça só por ter estampado o logo do SBT na camisa…

Quer mais? E se eu disser que o primeiro pentacampeão brasileiro é o Santos? Sim, porque antes da oficialização do campeonato brasileiro, em 1971, disputava-se a Taça Brasil, torneio criado em 1959 reunindo todos os campeões estaduais para indicar o time brazuca na Libertadores. O time de Pelé faturou cinco títulos seguidos, entre 1961 e 1965. Em 1967, veio a taça Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, que durou até o ano do tri. Foi o último ano da Taça Brasil, e o Palmeiras venceu ambos – pois é, dois títulos nacionais no mesmo ano. Os dois podem ser considerados, perfeitamente, campeonatos nacionais – como a Copa União de 1987 e a Copa João Havelange, em 2000. Assim, Santos (61/62/63/64/65/68/02/04) e Palmeiras (60/67/67/69/72/73/93/94) são os maiores campeões do nosso futebol. Além disso, teríamos outros bicampeões: Bahia (59/88), Cruzeiro (66/03), Fluminense (70/84) e Botafogo (68/95).

Se bem que, lançando mão de outra polêmica – o fator Márcio Rezende de Freitas – , o legítimo campeão brasileiro de 1995 é o Santos (nove títulos, hein?). Pelo mesmo motivo, o Internacional é tetra (76/77/79/05).

Mas enfim, são assuntos para outra discussão. Voltando ao assunto Flamengo x Sport: para que cada um possa reforçar (ou mudar) sua opinião sobre o título de 87, convidei quatro amigos para escrever sobre o tema. Na parte 1, você viu os argumentos de dois torcedores pró-Fla. Agora, na parte 2, você vai ler dois comentários pró-Sport.

No fim das contas, talvez você queira compartilhar da opinião de Luiz Fernando Bindi: por que não dividir o título de 1987 entre Sport e Flamengo e partir para outra polêmica?

***

Marcos VP, agora também no Nossa Via:

Contra fatos não há argumentos. Por exemplo, alguém contesta que o São Paulo Futebol Clube conquistou, em campo e segundo os regulamentos vigentes, cinco títulos de campeão brasileiro? E o Palmeiras quatro? e o Internacional de Porto Alegre, três? E por que há tanta contestação sobre um dos supostos cinco títulos rubro-negros? é simples. É porque há um entrave jurídico nele. E o Flamengo sabe disso. Tanto sabe que antes mesmo que o São Paulo fosse declarado campeão, os rubro-negros da Gávea já estavam em pânico. Não se falava no embuste do penta porque até então, ninguém tivera cinco títulos reais para contestar essa enganação. Agora, o São Paulo tem. E está coberto de razão ao reivindicar para si, de forma definitiva, a taça das bolinhas.

O fato é que o Flamengo, do capo Márcio Braga, sempre se achou acima de tudo e de todos. Dessa forma, conseguiu, diante da pusilanimidade dos dirigentes da época, atropelar o regulamento da Copa União de 1987 e declarar-se vencedor sem disputar a última partida, contra o Sport Clube do Recife. O Flamengo tinha time para vencer o Sport? sem dúvida. O maior ídolo do time pernambucano, à época, era o boquirroto e descompensado técnico Emerson Leão, que ao final, ainda ganhou o direito de afirmar que o Flamengo teve medo de disputar a final contra o Sport. Então, eu me pergunto: o que era mais um jogo para aquele timaço do Flamengo? Eu imagino que jogadores como Zico e Andrade, dignos que eram, jamais se recusariam a disputar a partida, cumprir o regulamento e levar com honra a taça pra casa. Mas não.

Só que a sabedoria popular diz que mentira tem perna curta. E não a tôa, essa mentira persegue o clube desde então, feito um fantasma. Não fosse assim, essa turma não apregoava de vez em quando que o Vasco da Gama, tetracampeão brasileiro, também não tem direito a esse epíteto, já que em 2000, o campeonato brasileiro não ocorreu, sendo disputada a copa João Havelange. É patético. Em 1987, aconteceu exatamente a mesma coisa com a Copa União. Se nenhum desses torneios valesse como campeonato brasileiro, o Flamengo seria tetra e o Vasco tri. Apesar disso, o Vasco venceu a copa João Havelange em campo, segundo o regulamento, até o fim, ao contrário do que fez o rubro-negro que, em um dos momentos de maior arrogância de sua história, não quis “se misturar”. Preferiu colocar em sua sala de troféus uma réplica da taça e espalhar a mentira de que era campeão.

Quem faz isso não merece a glória do título. O Flamengo apelou. Hoje ele está perdendo, finalmente.

***

Evilasio Tenorio, mestre-blogueiro e torcedor do Sport:

Pois é, meu irmão. O Brasil, país tão desorganizado como é, não foge à regra no que diz respeito à administração do seu futebol. Em 1987, após uma briga de ‘caciques’, a CBF deixou o Clube dos 13 organizar uma liga paralela com seus integrantes, enquanto ela organizaria outra com o ‘resto’ dos times do país.

A regra que foi aceita por todos antes do início do campeonato era de que os campeões dos módulos deveriam se enfrentar para decidir qual seria o campeão (vale salientar que não houve imposição ou posterior alteração da regra pela CBF, já que leis da FIFA proíbem alterações de regras de campeonatos quando eles estão em andamento, e tais normas são anteriores a 1987). O Flamengo, apoiado pela Rede Globo, que comprou o módulo do C13, mais o próprio C13, foi declarado campeão brasileiro sem disputar com o Sport, campeão do módulo da CBF, a final que deveria ocorrer.

O Flamengo, a partir de uma reunião com os dirigentes do C13 (coincidentemente, o presidente do C13 na época era um ex-presidente são-paulino), decidiu que não iria disputar tais finais, já que o módulo que disputara continha os principais times de futebol do país. A CBF não aceitou e marcou dois jogos, um no Maracanã e outro na Ilha do Retiro. O time do Sport foi para ambos os jogos e entrou em campo, mas o Flamengo não apareceu, perdendo por W.O.

A partir daqui houve um processo na justiça esportiva onde o Sport e o Guarani (vice-campeão) ganharam, e o Flamengo foi pra Justiça Comum. Perdeu novamente, onde foi dada uma autorização para a CBF fazer uma nova final, para que Sport e Guarani disputaram o título. O Sport empatou o primeiro e ganhou o segundo jogo, isso já em 1988 (depois das brigas judiciais), e foi homologado campeão pela CBF e pela própria FIFA, tendo sido o representante brasileiro na Libertadores daquele ano. Inclusive o troféu está na sede do Sport, na Ilha do Retiro.

Questionar o título do Sport é questionar a existência da própria CBF, órgão máximo do futebol brasileiro. Este é a única instituição capaz de organizar e intitular campeão brasileiro de futebol uma equipe, e não uma rede de televisão.

Eu, como torcedor fanático do Sport, não abro mão deste título. Acredito que talvez o Sport nem fosse campeão mesmo se viesse a enfrentar o Flamengo de Zico e cia. (um verdadeiro timaço), mas a verdade é que ‘regra é regra’, e deve ser respeitada sob todas as hipóteses. Não houve imposição de novas normas, apenas deveria ter sido cumprido o rito acertado anteriormente. Tanto que o Flamengo perdeu em todas as instâncias cabíveis, e na sede do glorioso da Ilha tem o troféu de campeão brasileiro de 87. E esse ninguém nos tira (embora a Globo tente dizer que não).

E a CBF, carioca por natureza, não tiraria o título de campeão brasileiro do time do Rio de Janeiro com maior torcida em todo o país pra dar a um time do Nordeste (terra longínqua e ‘atrasada’, segundo muitos sulistas), cuja expressão nacional não se assemelha ao rubro-negro carioca, se não estivesse respaldada por lei.

Mas este é o tipo de discussão que nunca vai acabar. Afinal, leis no Brasil servem para enfeite nos livros jurídicos, poucos são os que respeitam. Não dá pra esperar muito mesmo, num país com o histórico como este nosso.

No mais, Salve o Tricolor Paulista, único penta-campeão brasileiro.

***

Convém lembrar que esta é a parte 2 do debate. Não deixe de ler ainda a parte 1.

(Postado em 12/11/2007)

Quantos títulos brasileiros tem o Flamengo, parte 1

Por Marmota | 02/12/2009, 00h40

É muito fácil criar uma polêmica no jornalismo esportivo. Pegue um jogador que costuma dar declarações pavorosas, faça uma pergunta idiota, registre a frase absurda que virá e pronto: você terá em mãos um factóide bacana para alimentar bate-papos em centenas de mesas em botecos do Brasil inteiro.

Ainda bem que esse tipo de bafafá dura pouco. Não é nada saudável criar polêmicas de verdade, capazes de atravessar os anos. Só mesmo o profissionalismo histórico da CBF e do Clube dos 13, entidade que reúne os times mais representativos do país, para conseguir sustentar uma discussão durante vinte anos!

Em 1987, dezesseis clubes declararam independência, capitaneados pelo Clube dos 13, e disputaram uma competição paralela, com o pretexto de fortalecer o futebol brasileiro. Desprestigiada, a CBF organizou o “módulo amarelo” com os times restantes. Um duelo de bastidores culminou com um quadrangular envolvendo os campeões dos dois torneios, mas que jamais foi realizado. “Donos da bola”, a CBF decidiu oficializar o Sport Recife, vencedor do “módulo amarelo”, como campeão brasileiro daquele ano.

Até semana passada, o interminável debate parecia esquecido na gaveta. Veio o título do São Paulo e a história de uma taça permanente, que fica com quem vencer três vezes consecutivas ou cinco no total. No calor da conquista, o Doni (que refez seu discurso) e o Gravatai comemoraram o feito do “único pentacampeão brasileiro”. Único?

A pergunta voltou com toda força, haja vista o impacto deste desabafo do Gustavo de Almeida: afinal de contas, quantos títulos brasileiros tem o Flamengo?

Para que cada um possa formar sua própria resposta, convidei quatro amigos para incrementar o papo (a quem, desde já, agradeço imensamente). Nesta parte 1, você vai ler os argumentos de dois torcedores pró-Mengão. Para eles, o Flamengo já é pentacampeão desde 1992. Na parte 2, temos dois comentários pró-Sport.

***

Pedro Cirne, o eterno editor do UOL Tablóide:

Do site da Gazeta Esportiva.Net:

“Quando tudo parecia definitivamente encaminhado, a CBF decidiu alterar o regulamento, pressionada politicamente, durante a competição. Criou um quadrangular final entre o campeão e vice dos módulos verde e amarelo, de onde sairia o campeão brasileiro de 1987.”

Repare: “pressionada politicamente, durante a competição”.

O regulamento foi alterado durante a competição. Por motivos políticos.

Cada um acredita no que for conveniente.

Houve uma briga política em 1987, e o Clube dos 13 foi derrotado pela CBF. Talvez, hoje, o futebol brasileiro fosse mais bem comandado. Talvez não.

Com ou sem política, houve um Campeonato Brasileiro em 1987, vencido pelo Flamengo.

A CBF também não organizou a Copa João Havelange, em 2000. Há algum flamenguista que negue que o Vasco foi o campeão nacional de 2000? Não há. Porque foi. O campeonato era aquele.

O Vasco foi o campeão brasileiro de 2000.

O Flamengo foi o campeão brasileiro de 1987.

Quem diz que não foi o Flamengo? Muita gente. Quem diz que foi? Muita gente. Quem tem razão? Não sou Deus. Não sou o juiz de toda a razão. Mas não me importo. O prejuízo já houve em 1988, quando o Flamengo deixou de disputar a Libertadores. E a conquista já houve em 1987, quando o Zico ergueu a taça, em um campeonato disputado, em comum acordo de que o vencedor seria o campeão nacional, por Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Goiás, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santa Cruz, Santos, São Paulo e Vasco.

***

Raphael Perret, jornalista e mestre em Informática

A CBF determinou que Flamengo, Internacional, Sport e Guarani disputassem um quadrangular para indicar o campeão brasileiro de 1987. Os times carioca e gaúcho se recusaram a jogar e, entre paulistas e pernambucanos, deu Sport, aclamado com o título, depois confirmado pela justiça comum. Por que, então, o Flamengo põe na sua conta a conquista da Copa União de 20 anos atrás e, com isso, afirma ter sido o primeiro time a ganhar cinco títulos brasileiros?

Simples: porque o Flamengo foi, de fato, o campeão brasileiro de 1987.

Naquele ano, a CBF admitiu que não tinha condições financeiras de montar um campeonato nacional. Assim, os quatro grandes clubes do Rio, os quatro de São Paulo, os dois de Minas, os dois do Rio Grande do Sul e o Bahia fundaram o Clube dos 13 e assumiram a responsabilidade de organizar o torneio.

A CBF passou a apoiar o planejamento do campeonato pelo Clube dos 13, desde que Goiás, Santa Cruz e Coritiba fossem incluídos no torneio. Pedido atendido, a Copa União começava a ganhar forma e respaldo oficial.

Porém, outros clubes estavam descontentes por ficarem fora da festa, principalmente o Guarani, vice-campeão de 1986, e o América do Rio, que perdera a semifinal do Brasileiro de 1986 para o São Paulo. Para atendê-los, a CBF resolveu montar, por conta própria, um campeonato com outros 16 clubes. Em seguida, anunciou que este torneio seria o módulo amarelo da Copa União, enquanto o campeonato organizado pelo Clube dos 13 seria o módulo verde. Os dois primeiros colocados de cada um dos módulos disputariam o título brasileiro.

E, assim, começa a confusão. Era patético o clube vencedor do módulo verde, com os maiores times do país, correr o risco de perder um título em dois ou três jogos contra dois clubes provenientes do módulo amarelo, considerado a “segunda divisão” pela imprensa, na época.

O Clube dos 13 rejeita a fórmula e garante que não vai disputar o quadrangular. Ocorrem os dois torneios. Flamengo e Internacional, finalistas do módulo verde, mantêm-se firmes e se recusam a entrar em campo contra Sport e Guarani, vitoriosos do amarelo. Então a CBF dá o título ao Sport, etc. etc.

É comum acusarem o Flamengo e o Inter de quebrarem as regras do campeonato por não terem disputado o quadrangular. Mas se houve rompimento de acordo, partiu da própria CBF, ao trair o Clube dos 13 e promover a ridícula fórmula depois de combinar a Copa União. A mesma acusação de quebra de regras se aplica ao próprio Sport e ao Guarani, que ignoraram o regulamento do jogo e dividiram preguiçosamente o título do módulo amarelo, após uma disputa de pênaltis que se estendeu até o placar de 11 a 11.

Afinal, que moral tinha a CBF de decidir quem seria o campeão brasileiro se ela mesma assumiu não ter condições de montar o campeonato?

Campeonato que foi organizado e disputado pelos treze maiores clubes do país, os mesmos que acumularam mais pontos, que tiveram a melhor média de público, o maior número de jogadores convocados para a seleção e os maiores artilheiros da competição desde o seu início, em 1971, segundo artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 15 de julho de 1987.

Campeonato que obteve a terceira melhor média de público da história (20.877 torcedores por partida), marca que, até hoje, segue inalcançada.

Campeonato que obteve 91% de aprovação dos torcedores, segundo pesquisa do Ibope ao final do torneio.

Campeonato, portanto, mais do que legítimo.

Pois o Flamengo conquistou este campeonato nacional legítimo, depois de 19 jogos, superando Internacional (na decisão), Atlético-MG (na
semifinal), Cruzeiro, Grêmio, São Paulo, Fluminense, Palmeiras, Botafogo, Vasco, Bahia, Coritiba, Goiás, Santa Cruz, Santos e Corinthians.

É por tudo isso que o Flamengo é, desde 1992, pentacampeão brasileiro. Hoje, com alegria e respeito, o rubro-negro recebe um vitorioso colega no grupo que inaugurou, o dos times com cinco títulos nacionais. Seja bem-vindo, São Paulo. Quinze anos depois, finalmente temos uma companhia.

(Mais sobre a Copa União de 1987: no site Trivela, no artigo “Crise, revolução e traição”, e no livro “Passes e impasses – Futebol e cultura de massa no Brasil”, de Ronaldo Helal, lançado pela Editora Vozes)

***

Se puder, segure um pouco sua opinião: a parte 2 não vai demorar, confie em mim.

(Postado em 07/11/2007)

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