quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O mundo vai acabar na mão das “teles”

Nas últimas oportunidades em que pude conversar com profissionais envolvidos com Internet e conteúdo, o papo sempre descamba para a mesma lacuna: “ainda não encontramos a melhor maneira de ganhar dinheiro com isso”. Uma boa explicação pra isso é a mesma de Luís Nassif neste artigo: em dez anos, os veículos permanecem presos à inércia das velhas práticas, sem um modelo comercial próprio. “Em um sistema de mercado, a ausência de competição atrofia”, diz. Tudo que essa turma sonha é com a migração das verbas publicitárias para a web – e de repente, se o tal “bolsa banda larga” funcionar e tivermos 90 milhões de usuários até 2014, provavelmente o dinheiro da publicidade vai junto.

Infelizmente, o que torna o modelo capitalista discutível (e matriz de infrutíferas discussões ideológicas) é a ganância. Acho justo faturar uma grana, desde que outros indicadores de desempenho também sejam considerados na planilha final, como “qualidade dos serviços”, “satisfação dos clientes” ou mesmo variáveis intangíveis como “evolução e amadurecimento do negócio”. Para empresas pequenas buscando “clareiras na selva”, a política dos resultados acima de tudo é compreensível diante da batalha. Mas não dá pra botar a mão na cabeça de quem está por trás de qualquer plano envolvendo infra-estrutura de banda larga, entre outras benesses: as famigeradas “teles”.

Então a Telebrás, mantenedora de uma rede telefônica sucateada e de difícil expansão (a ponto de uma linha da velha Telesp ser leiloada por empresas ou ser usada para dar entrada na compra de um carro ou uma casa) foi repartida pelo Governo por empresas privadas, política similar à que contribuiu não apenas para a proliferação de telefones fixos, celulares, transmissão de dados, etc. Todo esse terreno é explorado atualmente por meia dúzia de três ou quatro empresas, concentradas graças a sucessivas incorporações – como a recente fusão de Brasil Telecom e Telemar, hoje simplesmente Oi.

Essas empresas têm concessão para operar o serviço até 2025, e em tese, são reguladas e fiscalizadas pela Agência Nacional de Telecomunicações – a Anatel. Processo que funciona perfeitamente: ou você já se preocupou alguma vez com a queda de serviços no modem ADSL, cobranças misteriosas na fatura, serviços de redes wireless atrelados à operadoras, atendimento fantasma e inoperante, entre outras agruras? Tais corporações ainda estão metidas em outras áreas da sua vida – inclusive em empresas de comunicação como portais de Internet e emissoras de TV à cabo.

Quando vi a notícia do “bolsa banda larga”, lembrei na hora da lendária “transmissão de dados via rede elétrica”, que está em testes há anos e pronta para ser utilizada em larga escala. Ingênuo, sonho com o dia em que empresas subsidiárias das concessionárias elétricas possam entrar na concorrência, forçando melhoria nos preços e serviços. Descobri, frustrado, que a chamada tecnologia PLC (powerline communications) funcionará assim, de acordo com a legislação: a rede elétrica terá que ser “alugada” para empresas específicas do ramo das telecomunicações, mediante licitação. Ou seja: se a Eletropaulo abrir um leilão, há o risco da Telefônica, e não uma “Eletropaulo Telecom”, ganhar a concorrência. Aí dançamos outra vez.

Agora imagine os bastidores políticos por trás desse lodaçal. Queria ser uma mosca para ouvir os diálogos que definiram a volta da venda do “Speedy”, após panes catastróficas. Qualquer hora dessas algum jornalista “kamikaze” poderia desenvolver uma série de reportagens sobre a relação fraterna entre as teles e a Anatel, capaz de render (entre outras histórias não publicadas) ao menos um processo judicial por inconstitucionalidade, movido pela Pro Teste, associação de defesa dos direitos dos consumidores.

Por hora, tudo que posso fazer é lamentar: somos reféns desses caras, e no caso da telefonia celular (que atende a aproximadamente 170 milhões de clientes no país), nem mesmo a portabilidade numérica nos anima: uma busca rápida na rede nos dá inúmeros resultados para qualquer operadora associado às palavras “eu odeio”. E esse preâmbulo gigantesco foi apenas para lembrar quem está por trás da minha mais recente dor de cabeça.

Animado com a possibilidade de experimentar outra empresa após o fim do período de carência, lá fui eu para a Oi com a conta da antiga Claro (que, diga-se, nunca tinha sinal em casa) animado com a oferta de meu novo plano. Lógico que não consegui desbloquear meu aparelho para usar o chip novo (“o sistema tá fora do ar”, alegaram a cada investida). Acabei resolvendo o problema da maneira mais fácil: consegui um novo, batuta.

Foram apenas dez dias de uso. De repente, uma surpresa: meu número simplesmente está bloqueado. Longos minutos no atendimento e uma descoberta assustadora. “O senhor só terá seu telefone liberado mediante depósito identificado do valor acumulado de serviços utilizados, que ultrapassou a sua franquia”. Fiquei imaginando quais usos extras eu teria feito: alguns megabytes a mais de transmissão de dados, alguns telefonemas em roaming e interurbanos… Nada muito diferente do que eu já gastava na operadora antiga. “Estranho, mas tudo bem. Qual o valor?”

Caí da cadeira quando ouvi “mil duzentos e trinta e quatro reais e vinte e um centavos”.

Nem se eu tivesse viajado para a África do Sul e habilitado roaming internacional, se tivesse baixado todos os ringtones s e aplicativos, se eu tivesse entrado em alguma jogatina ao estilo “o dobro ou nada”… É humanamente impossível consumir essa fortuna em serviços de telefonia por dez dias. O mais surpreendente é que a operadora também não faz idéia: não há uma descrição detalhada do que eu usei, tal informação só estará disponível para mim no fechamento da fatura, em duas semanas. Até lá, ou eu pago ou fico sem meu número de celular, usando o aparelho apenas como MP3 player…

Algo me diz que este foi meu primeiro e único mês na operadora nova – ao menos, como ressaltam na propaganda, tenho total liberdade para permanecer com eles o tempo que eu quiser, sem multa ou algo assim. É uma pena que esse exemplo de desrespeito seja uma parte ínfima de um monte malcheiroso e enlameado, amontoado por esse cartel de exploradores e com total anuência do poder público – ambos devem ilustrar seus cafés no corredor com historinhas do gênero, em meio a gargalhadas.

Em tempo: é provável que, em breve, eu precise de um advogado com experiência em defesa do consumidor. Sugestões?

Atualizado: acabo de receber um e-mail, do tipo “estou tentando falar com você no celular urgentemente, mas não consigo”. Enfim, dos males o menor: se a operadora tentar me ligar para cobrar, também não vai conseguir. Rá!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Onde você estava na noite de 11 de março de 1999?

“Nunca havia acontecido isso”. A declaração de Jorge Samek, diretor de Itaipu, diz respeito ao fato dos 18 geradores da usina terem sido desligados completamente na noite deste dia 10 de novembro. Outra evolução nos últimos anos diz respeito ao complexo sistema elétrico, praticamente todo interligado – funciona assim: quando um gerador deixa de funcionar, a energia produzida por outras fontes é “redirecionada”, tentando cobrir as falhas. Ao menos na zona leste de São Paulo, a luz havia voltado duas horas depois, graças ao funcionamento ininterrupto de usinas como Henry Borden, em Cubatão.

O ineditismo acaba aí. A luz apagou às 22h13 desta terça, decretando debandada geral para quem estava fora de casa, somado a gritos histéricos e manifestações caóticas. Minutos depois, graças ao infalível AM, já era possível saber que o problema não era apenas do prédio, da rua, do bairro… Veio na minha lembrança a memória do dia 11 de março de 1999: “isso tem jeito de pane no sistema de transmissão a partir de Itaipu, como há dez anos”. Então o ministro das Minas e Energia anunciou “dez estados afetados”, lançando mão das “interpéries meteorológicas”. Meu revival tornou-se completo.

O texto a seguir, publicado em 10 de março de 2008, me ajudou a rever outros detalhes, em busca de comparações. Naquela ocasião, consegui usar o celular tranquilamente; nesta madrugada, foram apenas dois telefonemas entre inúmeros erros de conexão e longas ausências de serviço. Naquela noite, alguns semáforos a caminho de casa permaneciam no amarelo piscante; desta vez, predominava o breu. O impacto foi semelhante, mas fiquei com a impressão que os transtornos foram maiores desta vez. Seguem minhas lembranças não apenas pela evidente referência, mas também pelas últimas linhas: será que, quem devia lembrar daquele apagão de 1999, fez isso mesmo?

***

Avenida Paulista, 900. No quinto andar, as aulas prosseguiam normalmente na Faculdade Cásper Líbero. Em uma das salas, alunos do 4º JO D acompanhavam as imperdíveis aulas do professor Carlos Guardado. Em nosso antigo currículo, aquelas últimas aulas de quinta-feira correspondiam à disciplina ” videotexto e informática em jornalismo”. Convém lembrar que, em 99, a Internet já tinha pelo menos quatro anos, e ninguém lembrava (se é que sabiam) o que era “videotexto”.

Ainda estávamos no início do bimestre, com aulas muito interessantes e produtivas. Essa não era diferente: Guardado usou de todos os seus conhecimentos para explicar aos impacientes quartanistas como funciona o hardware de um computador. Passavam das dez da noite quando o assunto chegou à memória RAM – ainda me soa estranho imaginar as razões para um aluno de jornalismo precisar ouvir isso em sala de aula.

- Pessoal, essa memória tem esse nome por ser de acesso aleatório. Os dados não são armazenados nela, apenas enquanto estão sendo usados. Ou seja, é uma memória volátil. Se você estiver trabalhando em seu computador sem salvar os dados, e de repente faltar energia…

Eram 22h16 quando as luzes da sala apagaram. “Puxa vida, eu não dava nada pela aula do Guardado e vejam só o efeito bacana que ele conseguiu…”, pensei. Apenas as luzes de emergência do quinto andar continuaram acesas nos minutos seguintes. Em uma sala próxima, Lello Lopes, então no terceiro ano, tinha aula com Claudio Arantes, professor de política famoso por lembrar o nome de todos os seus alunos (se bem que ele sempre me chamou de César). Enquanto todas as salas estavam sendo esvaziadas, lá estava ele, em pé, diante da lousa.

- Gente, a aula ainda não acabou! Não vão embora! Ainda não terminei o tema da aula de hoje! Podemos continuar, mesmo no escuro!

Logo uma multidão de alunos tomou o saguão e a área dos elevadores. Mesmo sem orientação, todos desceram as escadas até o térreo alto, na saída para a Paulista pelo famoso escadão. Muitos gritos, assobios e piadinhas envolvendo o “fim do mundo” ecoavam pelo prédio. Muitos deles saídos da minha boca e na do meu amigo Marcus Tadeu.

O papo de “fim do mundo” era ingênuo. Até porque, naquele instante, o que se pensava era num problema elétrico no prédio da Gazeta, que seria consertado naquela madrugada para tudo voltar ao normal no dia seguinte. Mas a imagem da avenida era caótica: carros parados, pouca iluminação e muita gente perdida. A extensão da falta de luz era bem maior que os nossos olhos pudessem alcançar.

Decidi ficar sentado no escadão, observando aquele movimento anormal. Alguns amigos também sentaram, esperando por caronas que só viriam uma hora depois. Eram muitos na mesma situação: esperando, fazendo companhia, temendo assaltos ou simplesmente contemplando a multidão insana. Só por volta da meia-noite, quando liguei o rádio do carro, comecei a entender o que se passava.

Era um blecaute de grandes proporções. Foram dez estados e 60 milhões de pessoas atingidas nas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Enquanto os âncoras das emissoras AM tentavam repercutir com bombeiros, defesa civil e outras autoridades, além de identificar as causas e o tamanho do problema, as ruas de São Paulo estavam vazias, mas com algumas luzes acesas apesar dos semáforos embandeirados. Muitos ainda estavam presos em estações do Metrô ou em elevadores. Ao chegar em casa, só o radinho de pilha fazia companhia para a família – a Globo precisou passar dois capítulos de Chiquinha Gonzaga no dia seguinte, pois estava fora do ar.

A situação só seria reestabelecida por volta das quatro e pouco da madrugada. Mas o problema levaria muito mais tempo. Nessa altura, o Governo Federal já tinha dado a causa: um raio na região de Bauru. O blecaute fez com que o Brasil convivesse com o eminente risco de “apagão”, fez com que FHC anunciasse medidas preventivas para a queda no consumo elétrico (claro que pagamos o pato, com as metas domésticas). Anos mais tarde, quando todos já haviam esquecido, as autoridades finalmente admitiram o que todo bauruense já sabia: se a causa foi um raio, ele não caiu em Bauru. Aliás, nem choveu ali naquela noite.

Faz tempo que ninguém ouve mais falar em “economizar energia”. Vez ou outra o Governo Federal é questionado novamente em relação ao aumento de demanda e a falta de investimentos tanto na geração de eletricidade quanto na manutenção do sistema. Já são nove anos desde o instante em que o país chacoalhou com o caos e, a última notícia do gênero foi um novo apagão em São Paulo. As ameaças estão prestes a voltar, pois quem devia lembrar daquela quinta-feira já esqueceu.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um ano de Dialetica.org

Olha, você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim. Tantas decepções eu já vivi… Aquela foi de longe a mais cruel. Um silêncio profundo e declarei: “só não desonre o meu nome”. Ainda tem o seu perfume pela casa. Ainda tem você na sala. Porque meu coração dispara quando tem o seu cheiro dentro de um livro, dentro da noite veloz, na cinza das horas. Tem os olhos cheios de esperança de uma cor que mais ninguém possui. Me traz meu passado e as lembranças, coisas que eu quis ser e não fui… Você, que nem me ouve até o fim, injustamente julga por prazer. Cuidado quando for falar de mim. A cabeça cheia de problemas? Não me importo, eu gosto mesmo assim. Perceba que não tem como saber, são só os seus palpites na sua mão. Sou mais do que o seu olho pode ver. Você vive tão distante, muito além do que eu posso ter. E eu, que sempre fui tão inconstante, te juro, meu amor, agora é prá valer. Será que eu já posso enlouquecer? Ou devo apenas sorrir? Não sei mais o que eu tenho que fazer pra você admitir que você me adora, que me acha foda. Não espere eu ir embora pra perceber. Olha, vem comigo aonde eu for. Seja amante, amor… Vem seguir comigo o meu caminho e viver a vida só de amor. Entre por essa porta agora e diga que me adora. Você tem meia hora pra mudar a minha vida. Vem, vambora, que o que você demora é o que o tempo leva.

Ei, hoje aquela idéia que você teve e eu ajudei a executar completa um ano. Pensei em escrever algo diferente, mas decidi pegar três musiquinhas e sintetizar parte da alma que está por trás dessa URL. Longa vida ao nosso miniportal e a outros projetos comuns denominados “familiar”!

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