Marmota, mais dos mesmos

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Arquivos: julho/2009

Schumacher visita o túmulo de Senna!

Por Marmota | 31/07/2009, 01h32

Estamos na alegre e movimentada semana do GP Brasil de Fórmula 1, onde gente do mundo inteiro desembarca em São Paulo para comer rodízio de carne, dar um alô às amigas do Oscar Maroni Filho e, no domingo, participar de uma corrida – que, pela terceira vez, será decisiva. Já que muita gente está nesse clima, essa é uma boa hora para rememorar uma das mais sensacionais histórias vindas dos bastidores.

Tudo indicava uma quarta-feira comum em uma das mais tradicionais redações esportivas da capital paulista. Mas naquela manhã de 18 de outubro de 2006, um dos mais competentes jornalistas deste país recebeu uma informação digna de manchete: Michael Schumacher, alemão que estava prestes a se despedir das pistas em Interlagos, havia passado no Cemitério do Morumby no dia anterior, para visitar o túmulo de Ayrton Senna.

A notícia era espetacular. No início da carreira, Schumacher até revelou que Senna era um de seus ídolos. Chegaram a competir juntos por três anos – o futuro heptacampeão estreou em 91, ano do tricampeonato de Senna. O confronto acabou na terceira prova de 1994 , na curva Tamburello. Aliás, muita gente passou a detestar o alemão só pelo fato dele ter continuado na pista em Ímola, ao lado de todos os pilotos, naquele 1º de maio. Um desrespeito, diziam. Ora, mas ele teria ido homenagear Senna antes de sua última prova…

Mas faltava confirmar. A informação oficial era outra: Schumacher só chegou a São Paulo às 4h30 da quarta, e foi direto para Botucatu, onde passou o dia ao lado de Felipe Massa comendo churrasco e jogando bola. Assim, ele jamais estaria num cemitério na terça. E se estivesse, a Ferrari não teria problema algum em divulgar isso… Ou será que teria? Pensando bem…

Não custava nada checar no próprio cemitério. Foram vários telefonemas, seguido pelas perguntas triviais a uma porção de funcionários. Muitos confirmaram a visita de Schumacher. Disseram que chegaram a pedir autógrafos. Nenhum tirou fotos. Enfim, ainda faltavam alguns detalhes. “Quem era o responsável pela portaria quando ele esteve aí?”, perguntou. A chamada foi transferida para Romildo, O Segurança.

Nos minutos seguintes, o jornalista ouviu um relato detalhado feito por Romildo, O Segurança. Schumacher teria aparecido discretamente, por volta das 15h30 de terça-feira, acompanhado por pelo menos 15 pessoas. “Veio uns cinco taxis com ele. Todos que deviam trabalhar com ele na Fórmula 1″. A visita teria sido muito rápida, apenas 20 minutos. “Ele chegou aqui, ficou ali olhando e depois saiu”.

Era difícil não se deixar levar pela riqueza de informações, mas essa nem era a declaração mais impactante de Romildo, O Segurança. “Ele mostra respeito. Toda vez que tem corrida, ele vem aqui. Agora deve ser o último, né?”. Toda vez que tem corrida? Minha nossa, o cara aparece todo ano no cemitério, é isso???

Aquilo não poderia ser mentira. Por isso, no começo daquela tarde, o mundo leu a matéria: “antes do último GP, Schumacher visita túmulo de Senna”. Uma bomba. Furo mundial. Em poucos minutos, os sites nacionais já reproduziam a informação – poucos, digam-se, deram crédito ao jornalista ou ao veículo responsável pela notícia. Normal, isso acontece a todo instante, em todo lugar, com qualquer um.

Antes da noite chegar, a visita de Schumi ao cemitério já tinha ido parar em respeitosos periódicos europeus. O mais impressionante: todos eles, pegos de surpresa, simplesmente “embarcaram” no boca-a-boca, sequer questionaram a informação oficial da Ferrari.

Nem todos. Flavio Gomes, tarimbado repórter de automobilismo, confirmou o “não” de todas as fontes oficiais. E quando foi conversar com Romildo, O Segurança, ouviu exatamente o que precisava para derrubar a notícia. “Olha, ver eu não vi, mas me disseram que era ele. Parece que veio!”. Maldito Romildo!

“Internet é uma ótima ferramenta, mas está formando jornalistas preguiçosos”, desabafou Gomes, em seu blog, naquela noite. Com toda razão. Para o tradicional site de esportes, que chegou à informação após consultar uma porção de fontes e publicou um texto assinado, comprando a versão de Romildo, O Segurança, era fácil chegar a um desfecho digno.

Foi o que aconteceu na quinta-feira, durante a entrevista coletiva de Michael Schumacher – aquela que ficou famosa graças ao presente dado ao alemão pelo Vesgo, do Pânico: a tartaruga Rubens. Antes, o repórter escalado para aquela cobertura fez a pergunta óbvia, e ouviu um “não fui ao cemitério”. Nova matéria: “Schumacher nega visita ao túmulo de Senna”. Perfeito.

Só não fiquei sabendo como os outros “jornalistas preguiçosos” trataram seu público. Alguns simplesmente tiraram o link do ar, como se nada tivesse acontecido. Outro conhecidíssimo site, atrelado a um famoso jornal esportivo, sequer acompanhou o burburinho provocado pela concorrência: na quinta-feira, despejou um verdadeiro samba do crioulo doido.

“De acordo com notícia divulgada no site espanhol “As”, o alemão Michael Schumacher, da Ferrari, teria visitado o túmulo do tricampeão mundial Ayrton Senna nesta quinta-feira, em São Paulo. Segundo a notícia, o heptacampeão foi acompanhado de mais 15 pessoas, mas sem a presença da imprensa… Schumacher passou o resto do dia no sítio de um cantor famoso acompanhado de seu companheiro de equipe Felipe Massa”. Reparem: errou a fonte primária, o dia da suposta visita… E ainda imaginou que, no mesmo dia (!!!), foi ao sítio!

No fim das contas, a maioria dos repórteres atribuiram a “visita” ao Robson, aquele sósia do Schumacher que sempre aparece em São Paulo (ou aparecia, enquanto o alemão corria) na semana pré-GP. Enfim, o desmentido já estava pronto quando ouço o competente jornalista, responsável pelo maior furo mundial de sua vida, chegar à minha mesa com uma reportagem do JT: diversão predileta dos pilotos em São Paulo é ir a rodízios de carne. Nela, a frase: esta foi a primeira parada de Michael Schumacher na cidade, na terça-feira “Só te lembro que a Corinna (esposa de Schumi) não costuma vir a São Paulo. E ao que eu saiba este ano foi a primeira vez que ela veio durante o GP Brasil. E mais: se ele não foi ao cemitério, ele também não esteve nesta churrascaria”.

Convenhamos: quando a lenda se torna muito mais legal que o fato, publique-se a lenda.

(Postado em 16/10/2007. Só para registrar duas coisinhas breves. 1: o Senna era melhor que o Schumacher; 2: estou curioso para ver que tipo de lição um “aposentado” com um carro não tão competitivo pode dar aos pupilos.)

Atari? Não, meu primeiro videogame foi um Odyssey.

Por Marmota | 17/07/2009, 13h02

Vou confessar uma fraqueza pessoal: há semanas coloquei na cabeça minha necessidade em planejaro segundo semestre, dedicando um bom tempo a atividades acadêmicas e projetos pessoais. Mas uma brincadeirinha saudosista está me desconcentrando um bocado. O atraso não se limita aos afazeres, mas também à tecnologia envolvida: um console que nada tem a ver com Playstation 3, Nintendo Wii ou simuladores de última geração.

Uma revirada nas minhas gavetas me levou de volta ao dia das crianças de 1984. Meu pai chegou em casa com uma caixa enorme, embalada com o papel vermelho e branco da Ultralar. Arregalei os olhos, comemorei e o abracei bem forte quando vi do que se tratava: um videogame absolutamente diferente daqueles que invejava dos amiguinhos.

Dentro da caixa do meu Odyssey Phillips, uma “máquina de escrever eletrônica” com fonte de alimentação e controles embutidos – os fabricantes não imaginavam como seria fácil desplugar essas coisas ou substituí-las em caso de pane. O manual do proprietário apresentava o trambolho em letras garrafais. “Parabéns, você acaba de comprar a última palavra em videogames! Ele é mais sofisticado que a maioria dos jogos de fliperama, empregando um microprocessador que executa funções eletrônicas complexas, tecnologia de ponta inimaginável há alguns anos!”.

Aquele manual dizia que meu videogame, bem conservado, seria diversão garantida durante anos. Talvez o engenheiro mais otimista sequer imagine que eu (e certamente outros nostálgicos doentes) ainda vibrem com tamanha ação em oito bits. Não exatamente diante do aparelho, mas sim ao emulador para Mac OS (versão pra PC aqui). Não tenho vergonha em dizer: poderia buscar simuladores que remetem ao meu passado nerd, como Mega Drive, Super Nintendo ou mesmo Atari. Preferi aquele que me dá mais saudade.

Alguns mil cruzados – Minha estréia foi diante do jogo de Fórmula 1 (espécie de “Enduro” do Atari, mas contra o relógio e com fundo lilás). Tinha outros dois jogos no mesmo cartucho: Interlagos (para duas pessoas, disputa automobilística que chegou a ser prova do Bozo) e Criptologic (jogo da forca, um dos três ou quatro jogos onde o teclado alfanumérico fazia sentido).

Cada cartucho, extremamente bem acabado e com um preocupado manual de instruções, custava o equivalente a meio salário do meu pai. Com um agravante: a inflação que adorava pregar peças, mesmo com os fiscais do Sarney tentando segurar o Plano Cruzado. Por conta disso, tinha poucas opções. Come-Come (variante batuta do Pac Man), Demon Attack e Q-Bert (versões do Atari), Serpente do Poder (horrível, tremenda compra perdulária!)…

Com o emulador devidamente instalado, tratei de revê-los todos, além de testar alguns que sempre quis ver como é, mas passei a infância sem saber como é. Senhor das Trevas, Tartarugas, Abelhas Assassinas, Popeye, Batalha Medieval…

É isso aí, pissit! – Nenhum deles conseguiu reacender o mesmo fascínio do clássico Didi na Mina Encantada, uma bela mistura de Pitfal com Donkey Kong. Se hoje qualquer jogo é capaz de proporcionar experiências gráficas bem reais, imaginar um enredo diante de linhas e pixels limitadas pode parecer idiota. Mas não importa: era uma delícia.

A associação com o filme “Os Trapalhões na Serra Pelada”, de 1982, foi perfeita: com uma picareta em mãos, Renato Aragão se transforma em um aventureiro em busca de ouro. Além de atingir pedras que rolam sem parar, o trapalhão caminha, salta e se agacha, movimentando-se entre escadas e crateras. Em pouco tempo, sua ferramenta quebra: para continuar a saga, é preciso atenção: o choque entre duas rochas pode revelar uma nova picareta ou uma chave, que lhe abre passagem para outra área da mina.

Esqueça os games com diferentes cenários, desenvolvimento, “chefões” a cada nível e desfecho feliz: a mina é interminável. Quer dizer: só acaba quando o cearense é atingido por uma pedra sem picareta. Uma comparação do que se vê na tela com a capa do manual explicam o que, nos anos 80, poucos sabiam: tanto na versão européia quanto na norte-americana, lançada no final dos anos 70, o jogo chamava-se Pick Axe Pete (Pedro Picareta). Como era, na verdade, um “boneco de pauzinho”, a Phillips poderia ter licenciado com qualquer famosão da época – Menudos na Mina Encantada, Fofão na Mina Encantada, Gugu Liberato na Mina Encantada…

Enfim, talvez não deixasse tanta saudade, a ponto de tomar meu tempo 25 anos depois.

Tina Oiticica Harris e eu

Por Marmota | 09/07/2009, 09h42

Não sei se um ano é tempo suficiente para que um episódio seja esquecido, digerido ou provocado alguma reflexão. Também nunca tive pretensão em julgar o que os outros pensam ou fazem, apenas defendo o direito de todos eles em defender suas idéias livremente. Na verdade, nada disso importa. O que você verá a seguir é apenas uma descrição sobre como desenvolvi minha conexão virtual com uma amiga que perdi há um ano, e o que aprendi com isso. Pode ser que não sirva para você, mas enfim.

Em junho de 2006, fiz um textinho bem vagabundo sobre minha rotina durante a Copa. Fui surpreendido por um comentário, mmmhhh, complexo.

Um dos comentários seus leva o bolão se dependesse de mim. Sou apaixonada por futebol. Nos tempos da FAU-UFRJ, íamos dois amigos e eu para a geral três vêzes por semana. Um é Framengo, o outro é Fluminense e eu sou Botafogo. Há vinte anos moro na minha terra natal, os EUA. Perdi muito o interesse pelo futebol e pior: vi a seleção ao vivo em Pasadena contra a Suécia; foi um purgante de jalapa aquele jogo. Recentemente colocamos a Rede Bobo pra dentro da casa. Dá pra ver o futebol do Brasil. Chego no ponto do bolão já-já. O futebol jogado no Brasil mudou. Não ligo pra campeonato nacional. Você venceu: torço é pro Botafogo; ainda mais, o quê me interessa é o campeonato carioca. O escrete canarinho, dizer o quê? Vi uns poucos jogos do Gaúcho, vi aquela vergonha contra a França, não gosto desde então do Ronaldo Fenômeno. João Saldanha dizia que a camisa pesa. Cheguei aqui através do blog Pensar Enlouquece.

A quantidade de informações encadeadas num único parágrafo chama a atenção de qualquer um. Acabei que não dei qualquer retorno – sequer agradeci a visita, como normalmente faço. “É por isso que seus visitantes somem”, pensei. Não foi bem assim. Ela voltou em outubro, intervindo num texto meu de proposta bem clichê: resolva seus problemas chutando aquilo que não lhe faz bem.

Alhear-se de pensamentos negativos é um exercício de força de vontade muito além da que tenho. Sou obsessiva, remôo todos os lados da questão que me injuria, falo pra caramba, escrevo, acordo de volta ao assunto e não esqueço. Acho que só um Maracanã de fósforos pra mudar minha idéia ou o Botafogo ser campeão. Valeu a retórica, ao menos.

Se não havia motivo para ignorá-la da primeira vez, agora havia. “Deve ser difícil lidar com essa mulher”. Ah, vá! Demorou mais algumas semanas até surgir a primeira cutucada. Lembro quando ela reapareceu em janeiro de 2007, quando escrevi um texto simplinho sobre a cratera do Metrô de São Paulo. Cheguei a conversar com a Luciana: “ei, já ouviu falar na Tina? Olha esse comentário aqui e me diz: ela não é maluca?”. Aqui, além das múltiplas informações encadeadas, veio uma atropelada leve.

Multiplique por vários milhares e você terá a cobertura do 9/11. Só soube hoje porque a Time Warner é malvada e nos deixou sem Internet; todos aqui no sul da California estamos com problemas. O buraco? Provavelmente erro na construção, desleixo no estudo geológico... A ponte Rio-Niterói deu problema porque os peões embuxavam os furos na estrutura com jornal, segundo um dos meus professores na FAU-UFRJ. Houve aqueles prédios na Barra, foi erro na construção, ganância. Meus votos de dias melhores a toda São Paulo. Isso não tem a ver com Serra ou PT. A indústria de construção civil é fogo na estopa. Olha só o bode de Nova Orleans e foi o exército USA quem construiu a proteção teórica da cidade. Para mim a palavra mais apropriada, com sua licença, é responsabilidade, não culpa. Culpa é coisa de religião. Com todo respeito.

Devo ressaltar aqui minha admiração aos que, mesmo diante da interface eletrônica que a rede oferece, agem exatamente como se o interlocutor estivesse diante dos seus olhos. Conheço quem goste de entrar em uma boa discussão… Há quem elabore argumentos como se não houvesse amanhã e sinta prazer quando percebe o oponente partir para a ofensa, demonstrando fraqueza.

Não é o meu caso. Minha cota de interação com pessoas esquentadas costuma esgotar no âmbito profissional, onde “convivência” vira sinônimo de “sobrevivência”. Preferi ser educado, agradecendo finalmente a visita e sinalizando um ajuste no texto. Novo comentário dela no texto seguinte, mais um e-mail simpático de retorno. No primeiro e-mail que recebi dela, pincei uma entre inúmeras idéias descritas – creio que nunca mais verei alguém com estilo de texto parecido ao dela.

Muito obrigada pelas palavras gentis. Sou petista e Libelu. Espero que não mude sua opinião sobre mim. Tenho fama de barraqueira entre os blogueiros. Treteira. Pois é.

Decidi ignorar solenemente os adjetivos que ela usou, mantendo a cordialidade – o que fez com que eu descobrisse mais a respeito dela. Ao redigir uma mensagem para qualquer pessoa, costumo começar com “espero que esteja tudo bem com você”, ou algo assim. Logo percebi que devia ter deixado isso bem claro a ela.

Esses dias perguntei um lance e quando você tiver tempo me responda, por favor. Por quê você tomou a iniciativa, duas vezes, de saber como estou? Fiquei intrigada, é só isso.

Minha explicação resultou em algo que não se vê todos os dias. Ela me respondeu como estava de maneira sincera, aberta, surpreendente. Usou para isso um longo arquivo em word, onde revelou muitos detalhes sobre sua vida. Contou suas idas e vindas entre Estados Unidos e Rio de Jaqneiro, hoistórias permeadas com a ditadura militar e sua carreira como professora de inglês. Detalhou seus problemas de saúde, de origem nervosa, e suas cirurgias. Uma delas explica seu discurso peculiar: como tinha dificuldades para digitar, seus textos eram concebidos por um programa de reconhecimento de voz.

Ah, sim. A segunda parte do mesmo arquivo trouxe uma história envolvendo sua relação tensa com alguns blogs, algo que ela levava a sério demais – infelizmente. Considerei que a primeira parte do relato explica o fato de sua mente criar conexões estranhas entre expressões aparentemente inocentes, pregando-lhe peças. Uma vez, por exemplo, coloquei um link para a Ana Brambilla – cujo blog chama-se Libellus. E não é que a Tina veio brigar comigo, sentindo-se perseguida e ofendida por ter sido da Libelu?

Sim, a Tina era uma pessoa difícil de lidar. Mas eu a respeitava, exatamente por identificar o que estava por trás disso. Segui ignorando o que a pudesse fazer mal: limitávamo-nos a conversar sobre os assuntos de nossos blogs. Eu aprendi a lidar com seu temperamento, e admito que não era tarefa simples.

A própria Luciana (que também adora um barraquinho, vai) perdia a paciência facilmente. Em boa parte dos casos, bastava parodiar o Balão Mágico para seguirmos em frente, dando risada: “dizem que é lelé da cuca, mas a Tina é gente fina e companheira”. Na briga mais feia que elas tiveram, ela desabafou e, ao final, perguntei:

- Lu, a Tina é mau-caráter?

- Não, não é…

- Então releve, Lu.

Nunca soube se a Tina gostava ou não dessa vida de implicante. Ela não parava de se enrolar, mas ao mesmo tempo pedia, vez ou outra, conselhos para sair destas saias justas. Foi assim quando proliferaram alguns posts com temática “essa tina é louca” na mesma semana que, coincidentemente, a mãe dela faleceu. No fundo, sinto que ela queria apenas ser ouvida por alguém. Era o que eu fazia, além de respondê-la sempre de um jeito parecido.

Oi, Tina! Sei que já passou um tempo desde que aquela multidão chegou ao seu blog por causa de alguns posts aí. Confesso que estava um pouco atarefado, por isso não acompanhei essa repercussão. Ao mesmo tempo, não presto atenção em relações virtuais quando elas não passam de simples troca de links ou tuitadas.

Mas enfim, como já te disse antes, a melhor coisa a fazer sempre nessas situações todas é ignorar completamente as pessoas que nos fazem mal. Eu também ando bastante entediado com pessoas que medem seu valor numa escala fraca - fulano é top te linha porque Fudêncio falou nele... Batizei essas relações de "suflê": são infladas, mas sem sustância, entende?

Sabe, às vezes sinto em você uma necessidade (muito positiva) em responder com firmeza, demonstrando seu ponto de vista com veemência. Só que, dependendo de quem estiver do outro lado, os efeitos dessa argumentação podem te fazer mal. E sabe o que mais? Ficar incomodada com "relações suflê" é perder um tempo que poderia ser ocupado com coisas melhores.

No seu lugar, Tina, eu pensaria assim: "bom, até esses dias, fulano conversava comigo por alguma razão. Agora me agride, me dispensa... Ou vai ver que está se dedicando a outras prioridades, o que pode ser bom pra ele. Se qualquer dessas coisas o faz feliz, viva. Eu vou seguir minha vida, cultivando aquilo que me faz bem".

Resumidamente: não tem como agradarmos a todos, e espero realmente que você use esse episódio como uma excelente oportunidade: limpe sua caixa de entrada e largue quem te decepciona. Valores baseados em "relações suflê" não fazem bem. Relações verdadeiras, baseadas na amizade e no respeito, sim.

Acredito que ela nunca tenha conseguido ignorar relações virtuais. Pode ser que ela realmente identificasse relevância em se aproximar de conexões e insuflá-las, pegando carona em “hubs sociais”. Mas como disse, nada disso importa. Há pouco mais de um ano, a Luciana me estimulou a fazer algo que já tinha vontade há tempos: “por que não gravamos um podcast especial com a Tina?”.

Tínhamos alguns bons pretextos: a Tina ouvia constantemente nosso experimento, o LoveLive. Ao mesmo tempo, o aniversário dela estava próximo. Assim, formalizamos o convite e, via Skype, ficamos umas três horas jogando conversa fora. Tive uma certeza: a “Tina oral” não se aproxima em nada da “Tina verbal”, a ponto de me arrepender por não ter tomado essa iniciativa há mais tempo.

Talvez por isso eu tenha ficado tão chocado com a súbita morte da Tina, dois dias depois daquela conversa tão rica, tão cheia de vida, de planos futuros (sobre isso, Luciana e o Doni já disseram o que eu penso). Fiquei mais triste ainda pelo marido Nicolas e o filho Gabriel, que diante de tantos elos enfraquecidos na web, eram suas conexões mais valiosas. Foi assim que a Tina se despediu, horas depois do nosso bate-papo:

Quero agradecer pelo papo no Skype, que deixou de incluir vários dos temas propostos mas foi super-legal pra mim. Espero poder vê-los LIVE aqui em Santa Monica, onde nossas portas estão abertas para vocês.

Duas coisas que aprendi sobre o André, confirme ou não Luciana pois você o conhece bem melhor que eu. Primeiro, a memória dele me assustou, pois é tão boa e detalhista quanto a minha. Segundo, me parece que ele exerce sua liderança usando a lei do menor esforço. Ele não briga, não força a barra, apenas caga e anda, o que minha tchurma chamava de "lesmar" para o que vá desgastá-lo.

Finalmente, vai ser uma puta tranqueira (meu) editar três horas e doze minutos de papo. Estou com pena adiantada dele.

Para mim foi muita emoção. Luciana, volte a blogar por favor porque sinto falta dos teus posts. André, desculpe-me pelo abuso do seu tempo. Seja incisivo e me corte de saída na próxima.

Beijos pra vocês e até breve nos comentários da vida na blogosfera.

A Tina nem imagina o trabalho que tive para editar… Preferi não mexer nessa gravação, esperar nossas vidas seguirem. Até para convidar a todos para guardarem todos os adjetivos para si, sejam eles bons ou ruins, e simplesmente curtir as boas vibrações propagadas por nossas gargalhadas. E já que você conseguiu ler até aqui, não custa nada ouvir mais uns setenta minutos e, ao final, cantar “parabéns a você” ao som do Talking Heads.

Sim, ela era uma pessoa dificil de lidar. Isso explica facilmente os muitos comentários negativos que ela recebeu – tanto em vida quanto depois. Também cometo minhas gafes, não sou perfeito. Sem falar que, como Tina bem disse no LoveLive, de perto ninguém é normal. Sem julgamentos, encerro com uma das reflexões possíveis, tomando emprestado a mensagem mais feliz que recebi sobre o tema, há um ano.

Eu nem sabia quem era a Tina. Mas por causa de seu falecimento, aprendi uma lição sua que nunca mais vou esquecer. Agora toda vez que estou brigando ou irritada com alguém, penso: "essa pessoa é mau-caráter?". Isso põe as coisas em perspectiva. Sempre.

Sarnar, verbo regular transitivo direto

Por Marmota | 03/07/2009, 02h20

Segue um serviço de utilidade pública, diante da movimentação política dos últimos dias. Um ex-presidente da Reública que, graças a um feudo familiar no Maranhão (e uma movimentação escabrosa no Amapá) apronta altas confusões com uma galera do barulho nas sessões da tarde no Congresso Nacional. Seu método de trabalho veio à tona só agora e gerou manifestações na Internet (que, como diria Ashton Kutcher, não serão mais eficientes que a força do voto).

Como são muitas ações, convém lembrarmos da existência de uma expressão pouco popular, mas que faz parte do nosso léxico desde 1989, quando Belmiro Ferreira o conjugou pela primeira vez em 1989, num livrinho chamado “No País do Vale Tudo”. O verbete, também citado na prestigiosa Desciclopedia, voltou à plena carga, graças à crise instaurada no senado. Aproveite a manifestação virtual, a ebulição em nossa capital federal e o inferno astral do atual presidente de nossa casa legislativa: vamos propagar a definição e as conjugações do verbo…

Sarnar. sar.nar vtd bras ch 1 Importunar, molestar e aborrecer, como uma sarna, sem que remédios ou mesmo a lei possa o atinja. 2 Infectar e contagiar instituições públicas usando troca de favores e gratificações entre seus colegas. 3 Parasitar repartições através da contratação de parentes. 4 Alterar decisões administrativas por meio de boletins suplementares publicados sem informações completas. 5 Aprovar pagamento de horas extras para colaboradores sem a devida comprovação. 6 Criar cargos desnecessários e agraciar tais contratados com privilégios e vencimentos acima do teto constitucional. 7 Alocar salários de mordomos, empregadas, motoristas e outros serviçais no centro de custo da população. 8 Negar qualquer quebra de decoro e alegar invencionices, ou aribuir problemas históricos à instituição e não a si mesmo. 9 Acumular anos de vida pública executando procedimentos políticos questionáveis e, ao mesmo tempo, transmitir uma imagem de justiça e honestidade. 10 Acreditar que pode ocupar o mesmo cargo, na certeza de que todos os escândalos serão esquecidos rapidamente pela opinião pública, quando finalmente poderá deixar tudo como está. pres indic: sarno, sarnas, sarna, sarnamos, sarnais, sarnam. pret: sarnei, sarnaste, sarnou, sarnamos, sarnastes, sarnaram. imp: sarnava, sarnavas, sarnava, sarnávamos, sarnáveis, sarnavam. pret m-q perf: sarnara, sarnaras, sarnara, sarnáramos, sarnáreis, sarnaram. fut: sarnarei, sarnarás, sarnará, sarnaremos, sarnareis, sarnarão. fut pret: sarnaria, sarnarias, sarnaria, sarnaríamos, sarnaríeis, sarnariam. pres subj: sarne, sarnes, sarne, sarnemos, sarneis, sarnem. imp subj: sarnasse, sarnasses, sarnasse, sarnássemos, sarnásseis, sarnassem. fut subj: sarnar, sarnares, sarnar, sarnarmos, sarnardes, sarnarem. imper: sarna, sarne, sarnemos, sarnai, sarnem. ger: sarnando. part: sarnado.

(Vídeo pinçado daqui.)

Atualizado: O Pedro Doria recordou um breve histórico do Sarney, escrito pelo Marcelo Tas, que pode ser útil para uma futura atualização deste post.

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