quarta-feira, 29 de abril de 2009

E ainda vou ter que pagar imposto de renda?

Normalmente, minha maior frustração ao recuperar minha papelada antes de declarar meu imposto de renda é: “esse informe de rendimentos deve estar errado, não ganhei tudo isso ano passado”. A sensação de pobreza por incompetência aumenta logo depois: não-sei-o-que-contribuição-previdenciária, não-sei-o-que-imposto-retido, não-sei-o-que-rendimentos-com-tributação exclusiva… Nunca me preocupei com esses detalhes semânticos. Talvez por isso continue sem grana.

De qualquer forma, sempre fui solidário aos contribuintes que são obrigados a preencher os mais loucos campos de uma declaração detalhada. Dependentes, despesas, doações, direitos, ônus, espólio, dívidas… Em alguns anos na função de “chapa do leão”, o máximo que fiz foi dizer quem me pagou salário, quanto vale meu carrinho e quanto ainda tem na conta poupança que meu avô fez pra mim quando nasci. Simples assim.

Confesso que nunca me preocupei com outros detalhinhos, mas esse ano tive uma surpresinha. Ao finalizar, cliquei todo pimpão no resumo da declaração, diante da expectativa recorrente ano a ano: quanto será a restituiçãozinha, que vai garantir alguma compra perdulária no Natal? Sim, pois em toda minha experiência acumulada na Receita Federal, meus parcos dividendos nunca geraram distorções capazes de me tornar um devedor.

Isso foi até agora. “Como assim pagar duzentos reais???”!!!

Então é assim: além de conseguir transformar ganhos na casa das poucas dezenas de reais anuais em quase nada, o mago das contas malfeitas aqui ainda atingiu a capacidade magnânima de recolher imposto referente a essa mixaria!!! Mas por que é que esses caras não rapelaram esses duzentos reais antes? Ou um pouco mais, sei lá, apenas pra que eu tenha aquela sensação idiota de que é o Governo que me deve, e não o contrário?

Mostrei minha papelada ao meu irmão, que entende um pouco mais de numerologia e algoritmos maliciosos. “Imagino qual tenha sido seu problema. Sua fonte pagadora A recolhe em uma faixa, já que o valor do seu salário é X. Já a fonte pagadora B, que te paga a metade de X, recolhe menos imposto, por estar em uma faixa abaixo. A distorção acontece ao somar ambas, já que sua renda aumenta”. Mas que pilantras!

Enfim, indignado mesmo ficou meu pai, que recebeu uma graninha extra de um plano de previdência privada mas que, ao ser estampada na declaração, gera uma sensível cobrança. “Sempre achei que salário não devia ser considerado renda. Agora, preciso considerar que aposentadoria também é renda! Francamente”, resignou-se.

Ao menos me resta um consolo: com duzentos reais não é possível comprar passagem aérea para lugar nenhum.

Atualizado: Estou com Alexandre Inagaki e Luiz Carlos Prates, que nos lembram como somos trouxas ao pagar imposto de renda “para gente que não tem vergonha na cara mandar amigos sirigaitear em Miami, Paris, Roma, aonde quer que seja. E não vai lhes acontecer nada, porque este é um povo estúpido que não reage”.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lei da simplicidade

Seu tempo é dividido entre dois tipos de tarefas. As que te dão prazer estão relacionadas ao que você gosta, incluindo pessoas especiais. As outras são aquelas pautadas por algum número – pode ser alguma meta profissional ou simplesmente seu salário.

Dedique todas as suas emoções no primeiro tipo de tarefa. Todas elas. Não encane desperdiçando-as no segundo tipo. Para eliminar qualquer dor de cabeça, trate-as como elas são exatamente: apenas números. E dane-se o resto. Você verá como sua vida se tornará mais simples.

Ah sim, existe um livro chamado As Leis da Simplicidade, de John Maeda (já traduzido no Brasil). Não li, mas deve detalhar o que escrevi acima.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Que tal um livro reunindo entrevistas com blogueiros?

O texto que segue logo após os asteriscos foi publicado aqui em 3 de abril de 2007, e vem a calhar no instante em que a editora Digerati lançou a versão em português (castiço, segundo as críticas) do livro “Blogging Heroes”, de Michael Banks. Basicamente uma conversa com 30 blogueiros angloparlantes considerados influentes, sobre técnicas, filosofias e motivações.

Independente dos tropeços na tradução, Tiago Doria revela boas razões não apenas para dar uma folheada, mas especialmente recuperar a proposta de uma versão brasileira. Segundo ele, o livro “foge das cansativas conversas de fórmulas prontas sobre como ganhar dinheiro com blogs, rankings, SEO e outras coisas do tipo. São conversas com autores de blogs que estão trabalhando no dia-a-dia, tem um trabalho consistente, estão mais preocupados com conteúdo, publicam um post já pensando em escrever o próximo, não vivem apenas de uma suposta fama adquirida com rankings ou auto-premiações”.

Esse parágrafo me fez pensar em algo que escrevi aqui, há dois anos: “minha lista de potenciais entrevistados deve ser bem parecida com a da maioria”. Isso porque nem sempre aqueles blogs que a maioria lembra revelam boas histórias (ou mesmo alguma que não tenha sido contada no Blogumentário). Nesse sentido, faz mais sentido uma proposta como a do Adilson: longe de ser um catadão de respostas às mesmas perguntas (como em “Blogging Heroes” ou no português “Blogs”, de 2003), as entrevistas se transformariam em perfis.

Uma das referências lembradas pelo Pedrox é o documentário paraense “Invisíveis Prazeres Cotidianos” tente imaginar uma versão nacional e por escrito deste. Bom, partindo da premissa de que “blog com sucesso” não é necessariamente aquele que reúne mais buscas por “Ana Carolina na Playboy”, é possível alternar personagens empreendedores com amantes do “blog-moleque” e definir alguns nomes brazucas para uma pré-seleção, não acham?

Se bem que… Como já falaram por aí em “fim dos blogs”, de repente essa idéia deveria ter sido executada em 2006…

***

Não quero ser injusto, muito menos posar como “pai da idéia”. Já ouvi algumas vezes, de diversas vozes, a seguinte proposta: por que não selecionamos alguns bons blogs, de variados ramos de atividade e objetivos, fazemos uma boa entrevista com cada um de seus autores e reunimos esse material num livro? Visões plurais de gente acostumada a essa ferramenta culminaria com um retrato interessante do momento atual dessa tal “blogosfera”, além de algumas boas razões para motivar pessoas interessantes, com algo a dizer, a fazer um.

Não é a invenção da roda, é claro. Certamente você conhece um ou outro blog bacaninha que utiliza o recurso da “entrevistinha rápida”, seja com aquele cara bacana que é leitura de todo dia, seja com um desconhecido que bolou alguma nova ferramenta. Todo dia tem uma entrevistinha em algum blog nacional, demonstrando a eficiência desse formato consagradíssimo.

Mas apesar disso, nenhum livro sobre blogs publicado no Brasil explora essa diversidade de mentes. A maioria explica o que é, traz um guia de como se dar bem com ele no mundo dos negócios, republica os melhores posts… Entre os que conheço, talvez o que mais valorize essa diversidade é o da tese da Denise Schittine, que vale a leitura. O expediente da entrevista é similar ao de muitos mestrandos e doutorandos. E no caso dela, as fontes embasaram a análise de um tema específico: blogs como diários íntimos e pessoais.

Fora do Brasil, a proposta de contextualizar o momento da blogosfera a partir de blogueiros já foi realizada. Paulo Querido, jornalista e criador da rede portuguesa TubarãoEsquilo, escreveu em 2003, ao lado do advogado Luis Ene, o livro Blogs. As entrevistas pingue-pongue, com seis expoentes da blogosfera portuguesa na época, complementavam as explicações de praxe sobre como se faz um blog.

Talvez o livro que mais se aproxime da proposta “conheça os caras e entenda o fenomeno” seja Blog!: How the Newest Media Revolution is Changing Politics, Business, and Culture, de David Kline e Dan Burstein. Um catatau de 320 páginas com a pretensão de explicar como essa “nova mídia” está revolucionando o país. Está dividido em três partes: política, negócios e cultura. Em cada uma delas, uma completa introdução e longas entrevistas com o que os autores chamam de “A-list bloggers”. Entre as dezenas de personalidades, Adam Curry, pioneiro dos podcasts, Joe Trippi, coordenador da campanha de Howard Dean, e Nick Denton, criador do Gawker Media, estão lá.

Temos que admitir duas coisinhas. Primeira: a realidade socio-politico-economico-cultural do Brasil é bem diferente da portuguesa (e ainda mais distante da norte-americana). Segunda: a dinâmica dos blogs acompanha a velocidade da rede, fazendo com que os dois livros acima envelheçam depressa demais. Mesmo assim, eu teria muito interesse em ler uma publicação reunindo alguns nomes que souberam usar a ferramenta para fazer algum barulho. Inclusive, minha lista de potenciais entrevistados deve ser bem parecida com a da maioria. Não acha?

Se você gostou da idéia, aproveite algum feriado para começar a trabalhar. Lembre-se: alguém pode até ter pensado nisso, mas se ainda não fez, a chance é toda sua.

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