Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

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Se a perfeição é uma utopia, como descrever um dia perfeito?

Por Marmota | 20/02/2009, 13h35

Por Luciana Rayol

Olha, a última lembrança que tenho de um dia perfeito na verdade remete a um momento perfeito.

No carnaval de 2008, fui para Santiago com o homem de todas as minhas vidas. Escrevendo assim, parece fácil e trivial, mas não é.

Tivemos a idéia de ir a Santiago em outubro e passamos uns três meses planejando isso, comprando guias, fazendo reservas, pesquisando. Todo mail que trocávamos vinha com um PS chileno, com alguma curiosidade sobre a cidade.

Aí, em nosso primeiro dia lá, um sábado quente e feliz de carnaval, fomos almoçar no Mercado Central. Sentamos como de costume de frente um para o outro e pedimos centolla e coca-cola. Ao fundo, um trio de músicos cantava e tocava Amada Amante em espanhol.

Eu olhava para o homem de todas as minhas vidas ali na minha frente, ouvia a música do Rei, sentia aquela balbúrdia acolhedora do mercado ao redor e não conseguia falar nada, só rir.

E ele me olhava com um grande ponto de interrogação no rosto, sem entender o que eu não conseguia explicar.

Não conseguia explicar aquele momento. Lembro que tentei dizer algo como o quanto me sentia a pessoa mais rica do mundo naquele momento. Mesmo bebendo coca-cola no lugar de champanhe, mesmo estando em um mercado ao invés de um restaurante luxuoso.

Eu estava ali com ele que eu amo tanto, bem no centro daquilo que projetamos, lembrando detalhadamente de todos os passos dados para chegar até lá – não só os do planejamento da viagem, mas desde que nos conhecemos. Do que podia ter sido feito melhor, do que não devia ser mais repetido. Do quanto era bom estar ali, enfim.

Era pleno estar ali com ele e não havia a necessidade de crescer mais, de aperfeiçoar. Apenas cultivar.

Este foi o último post desta série Colônia de Férias, que durante um mês apresentou textos gentilmente preparados por seus amigos enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando. Agradecimentos incontáveis a todos que participaram!

Mais um dia perfeito no Morumbi

Por Marmota | 18/02/2009, 13h18

Por Adriano Trotta

Julho de 2005. Iria acontecer o jogo mais importante para o São Paulo Futebol Clube nos últimos tempos. Era a final da Copa Libertadores da América, contra o Atlético Paranaense. Sob protestos da diretoria atleticana, o primeiro jogo da final foi marcado para o estádio do Inter, em Porto Alegre, devido à falta de estrutura da Arena da Baixada na época. E, graças à melhor campanha na primeira fase, o Tricolor teria a vantagem de decidir em casa, no estádio do Morumbi.

Desde a era de Telê Santana, o torcedor ouvia que o São Paulo vivia de museu, com o bi mundial conquistado em 93. Porém, após a eliminação em 2004 nas oitavas de final, desta vez a confiança era grande de que o título da principal competição continental seria são-paulino.

Eu pretendia comprar meu ingresso com antecedência, junto com um amigo são-paulino do trabalho. Porém, antes mesmo do jogo de ida, os mais de 70 mil ingressos para o segundo jogo, no Morumbi, já estavam esgotados. Cambistas cobravam R$ 120,00 por ingressos de arquibancada que, na bilheteria, tinham custado R$ 50,00.

— Relaxa — dizia meu amigo —, quando chegar mais perto da final, o preço vai cair.

Nos sites de torcida, o preço subia diariamente. No dia seguinte, um ingresso de cambista já custava R$ 150,00.

— Vai por mim, o preço vai cair! Eu sei do que tô falando.

Mais um dia se passou, o preço estava em R$ 180,00 e não tinha mais arquibancada azul, só vermelha. Resolvemos ir até o estádio na hora do almoço e encarar os cambistas.

Incluindo outros amigos, a missão era comprar 7 ingressos e quem sabe conseguir um desconto. Ao chegar no estádio, havia 15 cambistas para cada torcedor. O primeiro vendia ingressos por R$ 180,00 e, ao ser consultado sobre um desconto, deu risada:

— Se quiser agora é R$ 180,00. Se voltar depois vai ser R$ 200,00!

Mesmo assim, resolvemos procurar mais. Após algumas negativas, eu já estava achando que ficaria de fora do jogo mais importante da história. Até que, finalmente:

— Se levarem 7 ingressos agora, faço por R$ 150,00.

A sorte estava mudando! Ainda sacamos dinheiro do caixa eletrônico do estádio — sob a vigilância de dezenas de cambistas, algo não muito aconselhável — e fizemos a compra. Tudo correu bem.

No carro, comemoramos a vitória! Enquanto voltávamos para o trabalho, eu observava os ingressos, orgulhoso, como se fossem a própria taça de campeão. E foi aí que eu li: “Jogo de 6 de Julho – Estádio Beira Rio – Porto Alegre”.

— Cara… esses ingressos são do primeiro jogo.
— Não, a gente comprou pro segundo jogo.
— Mas ele vendeu ingressos de Porto Alegre.
— Não, Morumbi.
— Tá escrito aqui, Beira Rio! Olha só…

Meu amigo parou o carro. Pegou os ingressos. Olhou. Leu. Fizemos uma conversão proibida e voltamos para o estádio.

Quem disse que encontrávamos o cambista? Perguntamos para os outros — “era um de boné azul, camiseta branca” — e ninguém sabia do maldito.

— Mas o que aconteceu? — perguntou um dos cambistas.
— Seu colega vendeu ingresso errado pra gente! Será que vocês não têm ÉTICA?

Achei que não era hora de tentar explicar para meu amigo que não existe um código de ética para cambistas.

— Ah, isso não pode! Se a gente pega, vai encher de porrada. Ele tá prejudicando nossa categoria!

Pelo menos tínhamos a ilusão de que os outros cambistas estavam do nosso lado.

Quando estávamos quase desistindo, eu vi. Lá estava ele. O mesmo cambista, o mesmo boné azul, a mesma camiseta branca. Descendo a ladeira numa corridinha, saltitante, olhando pro chão, como quem não quer nada. Eu apontei. Ele viu. Parou por um instante. Deu meia volta e começou a subir a ladeira, na mesma corridinha, saltitante, olhando pro chão, como quem não quer nada.

— Não senhor, volta aqui! — gritou meu amigo, nós dois corremos para alcançar o malandro. Eu com a mão no bolso, fazendo de conta que tinha uma faca, ou coisa parecida, sei lá. Certamente não estava enganando ninguém.

— Escuta aqui, meu amigo! Esses ingressos que você vendeu são pro jogo errado!
— Jogo errado?
— Isso mesmo, e você sabe muito bem! Queremos o dinheiro de volta!
— Não, peraí, vamos conversar… vocês querem ingressos pro jogo do Morumbi, não é? Eu consigo pra vocês, vou ali buscar, vocês podem vir comigo.

Fomos. Eu com a mão no bolso e meu melhor olhar ameaçador. Devia estar ridículo. Aparentemente, aquele era um cambista subalterno. O seguimos até um gordão, que deveria ser o cambista-mór (tinha uma mochila). Conversaram. O gordo nos olhou de cima a baixo, tirou lá os 7 ingressos da mochila e entregou para o de boné azul, que trouxe até nós.

— Aqui estão… são R$ 180,00 cada.

Filho da p*ta! Desgraçado! Lazarento! Depois de esgotarmos todo o nosso repertório de xingamentos, resolvemos pagar a diferença e ficar com os 7 ingressos mesmo. Sem deixar de conferir antes! Tudo pronto, fomos embora resmungando… mas felizes. Naquela mesma noite, o São Paulo empataria o primeiro jogo por 1 x 1 com o Atlético Paranaense, lá em Porto Alegre, no estádio Beira Rio.

Quatro dias depois, o grande momento! Às 21h45 do dia 14 de Julho de 2005, o Tricolor Paulista entraria em campo. Com o ingresso (certo) na mão, combinei de encontrar os outros 6 amigos duas horas mais cedo, perto do estádio. Já estava repleto de torcedores nas ruas. Meu ingresso era para a arquibancada vermelha, no lado oposto. Então, eu teria que dar a volta para entrar. Ou eu fazia o caminho mais longo, ou passava pela frente do estádio… no meio da torcida adversária. Escolhi o caminho mais curto.

Estava com um agasalho neutro por cima da minha camisa do São Paulo. Subi o zíper até em cima, peguei minha cerveja gelada, e fui. Quando estava mais ou menos no meio da multidão da torcida atleticana, ouvi uma voz:

— Me dá um gole dessa cerveja.
— Que cerveja, tá maluco?
— Essa cerveja aí, me dá um gole.
— Não vou dar, cara!
— Eu tô ligado que você é são-paulino. Se você não me der um gole, eu grito pra todo mundo aqui.

O distinto rapaz ganhou uma cerveja.

Depois de dar a volta, encontrei por acaso todos os meus amigos. Espera aí… todos? Faltava um.

— Ele disse que está vindo, vamos esperar.

Uma hora se passou, nada do último amigo aparecer. Mais meia hora, nada.

— Não podemos ficar aqui, vamos entrar!
— Mas ele disse que tá chegando!
— Ele encontra a gente lá dentro.
— Só que o ingresso dele tá comigo!
— Liga pra ele, vamos deixar o ingresso em algum lugar.

Era muita gente, a rede de celulares estava sobrecarregada. Depois de muito tentar, conseguimos telefonar para o perdido.

— Vamos deixar seu ingresso com a tia da calabreza! É uma barraca com o toldo azul, você chega aqui e procura. Vamos entrar!

Demos a descrição completa para a tia da calabreza. Se outro loiro de cabelo comprido chegasse lá, levava o ingresso. De qualquer forma, seguimos para a arquibancada vermelha.

O ingresso não passava na catraca. Maldito cambista! Conversamos com o policial, argumentamos. Ele nos deixou passar. A muvuca era grande, não tinha alternativa! Seguimos com a multidão, e vimos que a fila fez uma curva estranha para a direita. Logo estávamos no meio dos loucos da Torcida Independente, na arquibancada laranja! Cambista absolvido, o setor é que estava errado.

Voltamos no contrafluxo, em meio à gritaria e aos tambores. Pulamos a catraca para fora. Demos a volta. Contamos toda a história para o policial, argumentamos. E pulamos a catraca para dentro! A confusão era tanta que ninguém podia falar nada. Estávamos no setor vermelho.

Nunca vi o Morumbi tão lotado quanto naquele dia. A festa tricolor estava maravilhosa! Olhamos para o lado e quem encontramos? O amigo perdido que faltava! A tia da calabreza mandava lembranças. E a galera estava reunida!

Agora sim, todos juntos, assistimos ao jogo. No primeiro tempo, um gol de Amoroso. No segundo tempo, gols de Fabão, Luizão e Diego Tardelli. São Paulo 4 x 0 Atlético Paranaense! Tricolor campeão da Libertadores da América! O goleiro Rogério Ceni foi o artilheiro do time na competição, junto com Luizão, com 5 gols.

É, tudo não poderia ter sido mais perfeito.

Enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos.

Um dia perfeito na Vila

Por Marmota | 16/02/2009, 13h15

Por Marília Figueiredo

Acordei numa bela manhã de domingo e notei que tinha algo diferente no ar… Os pássaros cantavam mais alegremente, o sol brilhava sem queimar, a brisa batia suave no lençol…

Lilo estava toda contente, com um brilho novo no olhar.

“É hora do passeio”, pensei eu, com minha mente humana limitada.

E, no passeio, encontramos seus amigos caninos, todos com os olhares radiantes. Conversei com seus donos e, também, todos notavam algo diferente, mas não sabiam explicar.

Então aconteceu: as demais pessoas que circulavam pela praça vieram conversar conosco, desejar bom dia, tecer comentários agradáveis e gentis.

Surpresa, resolvi dar uma volta com a Lilo pelo quarteirão: deparei com mais pessoas educadas, pessoas gentis também no trânsito… Reparei que as calçadas estavam limpas e as lixeiras não estavam mais vazias. Não havia pressa no olhar das pessoas, havia, simplesmente, respeito ao próximo.

Entendi que as pessoas estavam menos “humanas” e mais “caninas”.

Explico: há muito andava descontente com os seres humanos e suas atitudes insensatas, principalmente com relação aos animais (abandonos, atropelamentos, maus-tratos…). Andava indignada tentando entender o que poderia levar uma pessoa a maltratar seu cão, um animal tão puro de sentimentos, tão fiel, leal, companheiro. Animais com a hombridade que todo homem deveria ter.

Lembrei que, na noite anterior, fui dormir pensando nisso: em como o mundo seria melhor se cada um pensasse no bem-estar do seu próximo, seja ele bípede ou tivesse quatro patas.

Tive, então, meu desejo realizado!? Como isso seria possível??

Foi então que o despertador tocou. Lilo veio me dar seu costumeiro bom-dia.

Em seu passeio matinal, nada de novo aconteceu.

Triste, voltei pra casa e sentei-me ao chão com ela. Ganhei uma lambida e um olhar, como quem diz: “Ei, estou aqui! Nem tudo está perdido!”.

Suspirei.

Quem sabe um dia as pessoas realmente importem-se umas com as outras…

Vou continuar fazendo minha parte.

E você? Já faz a sua?

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Um dia perfeito na Assis Chateaubriand

Por Marmota | 14/02/2009, 13h24

Por Emanuel Colombari

Muitos momentos na vida de um menino servem como marcos para transformá-lo em um homem: a primeira namorada, a primeira relação sexual, a saída da casa dos pais, a entrada na faculdade, o primeiro emprego, o primeiro carro, entre outras. Pela lista, eu praticamente posso me considerar um homem feito (falta comprar um carro e arrumar o segundo emprego), mas eu sentia que faltava alguma coisa. E sabia exatamente o que era.

Esta “coisa” era uma viagem de carro sozinho. Pegar o carro e enfrentar o desconhecido das estradas, algo que exige coragem e confiança. E algo que eu jamais havia feito – no máximo, havia ido com meu pai até o sítio. Isso, até o dia 24 de janeiro de 2009.

Foi quando eu resolvi aceitar o convite de Julio e ir para Promissão para assistir a Copa Promissão de futebol sub-17. Os dois somos fãs desse lado alternativo do futebol, e sabemos que assistir a um Goiás e Internacional em um estádio ladeado por um barranco sem pagar por isso pode ser uma experiência proveitosa. Por isso, com o carro (e a autorização) da minha mãe, resolvi encarar a estrada.

A jornada não começou bem, porque eu dormi muito pouco na madrugada anterior à viagem – míseras duas horas. Pela manhã, o meu corpo sentia um leve enjôo (aliás, com ou sem acento agora?) que quase me fez desistir da empreitada. Só que, além do carro, de parte da verba e da autorização, mamãe me deu também coragem. Foi assim que, com a mochila pronta, eu peguei os documentos do carro, o som, o mapa, o meu roteiro, as chaves e fui. Eram cerca de 9h30 da manhã.

Sem sustos, com uma temperatura agradável e ao som de Creedence Clearwater Revival, o roteiro era cumprido com tranqüilidade. Ao sair sozinho de Presidente Prudente, passei por Indiana e Martinópolis. Pelo roteiro, o carro deveria seguir pela rodovia Assis Chateaubriand rumo a Rinópolis, Oswaldo Cruz e Parapuã. E assim foi feito. De lá, para as pouco conhecidas Santópolis do Aguaípe e Braúna. E depois de olhar o mapa no acostamento umas quatro vezes e de passar pela não planejada Iacri, assim foi feito.

Os problemas começaram entra as vizinhas Braúna e Penápolis. Apesar da distância razoável entre ambas, a capital nacional de Sabrina Sato é rodeada por estradas confusas. Por falta de placas de indicação, resolvi tomar coragem e entrar à direita em um trevo, após a única placa que indicava uma entrada à cidade de Penápolis (que, diga-se, é surpreendentemente pequena e charmosa). Deu certo – ou quase.

Quase, porque a intenção era passar por fora de Penápolis. Quando eu vi, estava de frente para a placa que indicava a entrada no perímetro urbano penapolense. Como dei com os burros n’água, parei no primeiro posto de gasolina que avistei e, sem qualquer recalque (ainda que as mulheres achem que homens não perguntam direções ao volante), perguntei à frentista como faria para chegar à minha próxima cidade no roteiro, Avanhandava. Resposta que parecia ser pouco animadora.

“Hum… Olha… Daqui fica meio ruim, meio longe pra você”, disse o frentista chamado pela frentista para me indicar o caminho. “Só se…”, animou-me o rapaz. “Só se você for pelo centro da cidade. Vai por ali, vira a direita onde virou aquele Uno e segue reto. Você vai cair na avenida. Aí, vai reto, passa uma cerâmica que vai estar à sua direita, e vira a direita. Vai ter uma placa para Avanhandava ali.”

Certo. Ou o caminho anterior era muito fácil mesmo, ou a chance de eu me embananar no centro de Penápolis era grande. Pelo jeito, o caminho anterior era absurdamente fácil mesmo, porque cortar a cidade de cabo a rabo não foi difícil. Logo eu passei pela tal cerâmica e encontrei a placa para Avanhandava. Passei pela cidade (esta, definitivamente pequena) e finalmente cheguei em Promissão. Missão cumprida e vibração no carro da minha mãe.

Três horas depois de sair da casa dos meus pais, cheguei na cidade e liguei para que o Julio fosse me encontrar em frente a uma igreja (que eu pensei ser a catedral local), na esquina de rua tal com avenida tal. Em dez minutos, o anfitrião apareceu, junto de seu pai e de Diego e Alan, ex-alunos da Cásper Líbero como nós. Fomos almoçar e rumamos para o estádio, onde assistimos o primeiro dos três jogos que vimos no sábado.

Quem quiser acompanhar o que rolou nas partidas, clique aqui. Ainda no sábado, eu precisava voltar para casa antes que escurecesse por ter compromissos na noite do mesmo dia. Por isso, às 18h00, eu já deixava Promissão rumo a Prudente de novo. Pronto para novos problemas e para o cansaço nas costas de dirigir por tanto tempo no mesmo dia.

Sair de Promissão e passar por Avanhandava foi fácil – especialmente quando a segunda cidade é, de fato, cortada por uma única avenida. Os problemas voltaram, é claro, quando eu voltei para Penápolis, onde decidi telefonar para minha mãe e avisar que eu estaria em casa em, no máximo, três horas. Para isso, porém, precisaria fazer o roteiro ao contrário.

Cruzar Penápolis mais uma vez não foi difícil, ainda que eu não tenha feito o caminho da ida. Como a avenida principal é de mão única (!!!), peguei uma rua paralela e fui seguindo o caminho que deveria levar à origem dela. De fato, dez minutos depois, eu estava no posto onde havia pedido informações pela manhã, e de frente para um trevo e para placas pouco elucidativas: de um lado, setas para Alto Alegre e Luiziânia. Do outro, para Araçatuba e, se não me engano, São Paulo.

(Pausa para uma reclamação: um dia, se algum funcionário do DER de Penápolis ler este blog, saiba que o trabalho da sua repartição é horrível. É inconcebível que uma cidade não tenha placas na rodovia que indiquem como chegar à cidade vizinha! Sério, a sinalização de vocês é muito ruim!)

Diante da escolha mais difícil da viagem, resolvi seguir a intuição e optei pela placa que indicava Alto Alegre e Luiziânia – afinal, já havia lido o nome das duas cidades no caminho de ida, o que parecia um bom sinal. Seria mesmo, se eu não tivesse escolhido seguir religiosamente o caminho para Alto Alegre e perdido a provável entrada no trevo para Braúna (que sequer havia sido indicada no caminho). Logo, eu estava arrependido no caminho para Alto Alegre, sem um mísero retorno na esburacada estrada. E xingando. Muito. Em voz alta.

Enfim, parei no “acostamento” (que não era mais do que uma parte com a grama mais baixa na lateral da estrada) e olhei o mapa. Em tese, eu estava em um caminho diferente, e se eu passasse por Luziânia, sairia em Santópolis. O único problema é que Alto Alegre sequer aparecia no mapa. Na dúvida, resolvi confiar no taco e fui reto. Por sorte, cheguei a Luziânia, que também precisei cortar por dentro. Aliás, em Luziânia, fui recebido por uma agradável surpresa: placas praticamente artesanais dentro da cidade, que indicavam o caminho para Santópolis e para Presidente Prudente (chupa, DER de Penápolis!). Realmente, 40 minutos depois, cheguei à Santópolis, a cidade vizinha.

Estava eu de frente para o trevo de Santópolis, e pensando que eu teria que passar mais uma vez por dentro da cidade – a quinta consecutiva, o que não aconteceu na ida. Por sorte, uma placa indicou o caminho para Prudente à esquerda, e eu segui. Logo, estava passando por Parapuã, Oswaldo Cruz e Rinópolis, avançando rumo a Martinópolis. Enfim, eu estava perto de casa.

Já no escuro da noite e com os faróis do carro acesos (e ao som da rádio), tive o grande susto da viagem. Um carro se aproximou da traseira do meu, que estava a uns 90 km/h. Como o limite da estrada era de 100 km/h, resolvi dar seta para a direita e diminuir a velocidade, talvez para uns 85 km/h. O carro de trás não fez menção de ultrapassar, então eu desliguei a seta e voltei a acelerar.

O problema é que o carro de trás acendeu a sirene assim que eu acelerei. No escuro, eu não havia visto que se tratava de um veículo da Polícia Rodoviária. Mesmo estando com tudo em ordem (inclusive sóbrio e com o comprovante do pagamento do IPVA na mochila), fiquei preocupado. Dei seta de novo para a direita, fui para o acostamento e freei, esperando a parada dos policiais à minha frente. Só que eles não estacionaram, e antes que o meu carro parasse completamente, resolvi retornar à estrada.

Ainda vi a viatura em questão por uns bons quilômetros lá na frente, igualmente com a sirene ligada. Mesmo preocupado com o que poderia acontecer ou ter acontecido, passei por Martinópolis e por Indiana. Quando eram 20h40 da noite, finalmente entrei em Prudente, mais uma vez com a missão cumprida. Enfim, se algo aconteceu de errado no caminho, eu não percebi. Sei que cheguei em ordem em casa, bronzeado (muito sol nos jogos lá em Promissão, né?) e pronto para os compromissos da noite.

E, agora, um pouco mais homem.

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Um dia animal

Por Marmota | 12/02/2009, 15h02

Por Rodrigo Figueiredo

Me sinto tão perdida, faz dias que estou andando por aí, sem rumo.

Hoje quase um carro me atropelou… Ninguém me valoriza, quase ninguém me vê – ou pior, alguns que me vêem querem me bater, me tirar dali.

Dormi na rua outra vez. Tenho medo, muito medo.

Não sei mais quanto andei. Amanhece e não sei se quero ver esse dia novo.

Não sei mais o que é carinho ou afeto.

Estou tão cansada e com fome…

Vejo um jovem andando na rua. Não tenho opção, vou atras dele, quem sabe ele possa me dar um pouco de comida…

Por sorte ele me convida a entrar em sua casa!

Desconfiada, entro. Apesar dele e de sua mãe terem um abrigo e ajudarem outros, o clima é estranho. Ninguém se sente em casa. E ainda existe uma sensação de medo grande dentro de mim.

Passam-se quase dois meses comigo nesta casa; estou melhor fisicamente, apesar de ter sofrido uma cirurgia recentemente, não passo fome nem fico na rua, mas ainda tenho medo. Outros vêm e vão e ninguém sabe qual será seu futuro.

Um dia chegam duas pessoas para me ver, uma delas é uma mulher que está super feliz em me ver, não me lembro dela… Mas ela parece se lembrar de mim, ou mesmo de repente eu lembre alguém especial para ela – afinal, como posso ser eu especial para alguém estranho, que nunca vi?

O companheiro dela é mais reservado, me olha com carinho e um certo medo… Não é um medo físico – ele é bem grande – mas parece medo de gostar de mim.

Depois de alguns minutos, estas duas pessoas saem comigo dali. Não sei direito para onde, novamente o medo é a coisa mais real para mim.

Decido tentar conforto com o homem, ele me passa algo mais… Não sei dizer o que é…

Desculpem se minha história começa meio triste, mas é a mais pura verdade e precisava ser contada para poder dar o devido valor ao meu dia perfeito. Já faz mais de um ano da chegada deste casal ao abrigo, e esse foi meu dia perfeito. O dia mais perfeito da minha vida! O dia que ganhei meu pai e minha mãe, que ganhei donos que me amam e cuidam de mim!

Ass: Lilo

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