sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Se a perfeição é uma utopia, como descrever um dia perfeito?

Por Luciana Rayol

Olha, a última lembrança que tenho de um dia perfeito na verdade remete a um momento perfeito.

No carnaval de 2008, fui para Santiago com o homem de todas as minhas vidas. Escrevendo assim, parece fácil e trivial, mas não é.

Tivemos a idéia de ir a Santiago em outubro e passamos uns três meses planejando isso, comprando guias, fazendo reservas, pesquisando. Todo mail que trocávamos vinha com um PS chileno, com alguma curiosidade sobre a cidade.

Aí, em nosso primeiro dia lá, um sábado quente e feliz de carnaval, fomos almoçar no Mercado Central. Sentamos como de costume de frente um para o outro e pedimos centolla e coca-cola. Ao fundo, um trio de músicos cantava e tocava Amada Amante em espanhol.

Eu olhava para o homem de todas as minhas vidas ali na minha frente, ouvia a música do Rei, sentia aquela balbúrdia acolhedora do mercado ao redor e não conseguia falar nada, só rir.

E ele me olhava com um grande ponto de interrogação no rosto, sem entender o que eu não conseguia explicar.

Não conseguia explicar aquele momento. Lembro que tentei dizer algo como o quanto me sentia a pessoa mais rica do mundo naquele momento. Mesmo bebendo coca-cola no lugar de champanhe, mesmo estando em um mercado ao invés de um restaurante luxuoso.

Eu estava ali com ele que eu amo tanto, bem no centro daquilo que projetamos, lembrando detalhadamente de todos os passos dados para chegar até lá – não só os do planejamento da viagem, mas desde que nos conhecemos. Do que podia ter sido feito melhor, do que não devia ser mais repetido. Do quanto era bom estar ali, enfim.

Era pleno estar ali com ele e não havia a necessidade de crescer mais, de aperfeiçoar. Apenas cultivar.

Este foi o último post desta série Colônia de Férias, que durante um mês apresentou textos gentilmente preparados por seus amigos enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando. Agradecimentos incontáveis a todos que participaram!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Mais um dia perfeito no Morumbi

Por Adriano Trotta

Julho de 2005. Iria acontecer o jogo mais importante para o São Paulo Futebol Clube nos últimos tempos. Era a final da Copa Libertadores da América, contra o Atlético Paranaense. Sob protestos da diretoria atleticana, o primeiro jogo da final foi marcado para o estádio do Inter, em Porto Alegre, devido à falta de estrutura da Arena da Baixada na época. E, graças à melhor campanha na primeira fase, o Tricolor teria a vantagem de decidir em casa, no estádio do Morumbi.

Desde a era de Telê Santana, o torcedor ouvia que o São Paulo vivia de museu, com o bi mundial conquistado em 93. Porém, após a eliminação em 2004 nas oitavas de final, desta vez a confiança era grande de que o título da principal competição continental seria são-paulino.

Eu pretendia comprar meu ingresso com antecedência, junto com um amigo são-paulino do trabalho. Porém, antes mesmo do jogo de ida, os mais de 70 mil ingressos para o segundo jogo, no Morumbi, já estavam esgotados. Cambistas cobravam R$ 120,00 por ingressos de arquibancada que, na bilheteria, tinham custado R$ 50,00.

— Relaxa — dizia meu amigo —, quando chegar mais perto da final, o preço vai cair.

Nos sites de torcida, o preço subia diariamente. No dia seguinte, um ingresso de cambista já custava R$ 150,00.

— Vai por mim, o preço vai cair! Eu sei do que tô falando.

Mais um dia se passou, o preço estava em R$ 180,00 e não tinha mais arquibancada azul, só vermelha. Resolvemos ir até o estádio na hora do almoço e encarar os cambistas.

Incluindo outros amigos, a missão era comprar 7 ingressos e quem sabe conseguir um desconto. Ao chegar no estádio, havia 15 cambistas para cada torcedor. O primeiro vendia ingressos por R$ 180,00 e, ao ser consultado sobre um desconto, deu risada:

— Se quiser agora é R$ 180,00. Se voltar depois vai ser R$ 200,00!

Mesmo assim, resolvemos procurar mais. Após algumas negativas, eu já estava achando que ficaria de fora do jogo mais importante da história. Até que, finalmente:

— Se levarem 7 ingressos agora, faço por R$ 150,00.

A sorte estava mudando! Ainda sacamos dinheiro do caixa eletrônico do estádio — sob a vigilância de dezenas de cambistas, algo não muito aconselhável — e fizemos a compra. Tudo correu bem.

No carro, comemoramos a vitória! Enquanto voltávamos para o trabalho, eu observava os ingressos, orgulhoso, como se fossem a própria taça de campeão. E foi aí que eu li: “Jogo de 6 de Julho – Estádio Beira Rio – Porto Alegre”.

— Cara… esses ingressos são do primeiro jogo.
— Não, a gente comprou pro segundo jogo.
— Mas ele vendeu ingressos de Porto Alegre.
— Não, Morumbi.
— Tá escrito aqui, Beira Rio! Olha só…

Meu amigo parou o carro. Pegou os ingressos. Olhou. Leu. Fizemos uma conversão proibida e voltamos para o estádio.

Quem disse que encontrávamos o cambista? Perguntamos para os outros — “era um de boné azul, camiseta branca” — e ninguém sabia do maldito.

— Mas o que aconteceu? — perguntou um dos cambistas.
— Seu colega vendeu ingresso errado pra gente! Será que vocês não têm ÉTICA?

Achei que não era hora de tentar explicar para meu amigo que não existe um código de ética para cambistas.

— Ah, isso não pode! Se a gente pega, vai encher de porrada. Ele tá prejudicando nossa categoria!

Pelo menos tínhamos a ilusão de que os outros cambistas estavam do nosso lado.

Quando estávamos quase desistindo, eu vi. Lá estava ele. O mesmo cambista, o mesmo boné azul, a mesma camiseta branca. Descendo a ladeira numa corridinha, saltitante, olhando pro chão, como quem não quer nada. Eu apontei. Ele viu. Parou por um instante. Deu meia volta e começou a subir a ladeira, na mesma corridinha, saltitante, olhando pro chão, como quem não quer nada.

— Não senhor, volta aqui! — gritou meu amigo, nós dois corremos para alcançar o malandro. Eu com a mão no bolso, fazendo de conta que tinha uma faca, ou coisa parecida, sei lá. Certamente não estava enganando ninguém.

— Escuta aqui, meu amigo! Esses ingressos que você vendeu são pro jogo errado!
— Jogo errado?
— Isso mesmo, e você sabe muito bem! Queremos o dinheiro de volta!
— Não, peraí, vamos conversar… vocês querem ingressos pro jogo do Morumbi, não é? Eu consigo pra vocês, vou ali buscar, vocês podem vir comigo.

Fomos. Eu com a mão no bolso e meu melhor olhar ameaçador. Devia estar ridículo. Aparentemente, aquele era um cambista subalterno. O seguimos até um gordão, que deveria ser o cambista-mór (tinha uma mochila). Conversaram. O gordo nos olhou de cima a baixo, tirou lá os 7 ingressos da mochila e entregou para o de boné azul, que trouxe até nós.

— Aqui estão… são R$ 180,00 cada.

Filho da p*ta! Desgraçado! Lazarento! Depois de esgotarmos todo o nosso repertório de xingamentos, resolvemos pagar a diferença e ficar com os 7 ingressos mesmo. Sem deixar de conferir antes! Tudo pronto, fomos embora resmungando… mas felizes. Naquela mesma noite, o São Paulo empataria o primeiro jogo por 1 x 1 com o Atlético Paranaense, lá em Porto Alegre, no estádio Beira Rio.

Quatro dias depois, o grande momento! Às 21h45 do dia 14 de Julho de 2005, o Tricolor Paulista entraria em campo. Com o ingresso (certo) na mão, combinei de encontrar os outros 6 amigos duas horas mais cedo, perto do estádio. Já estava repleto de torcedores nas ruas. Meu ingresso era para a arquibancada vermelha, no lado oposto. Então, eu teria que dar a volta para entrar. Ou eu fazia o caminho mais longo, ou passava pela frente do estádio… no meio da torcida adversária. Escolhi o caminho mais curto.

Estava com um agasalho neutro por cima da minha camisa do São Paulo. Subi o zíper até em cima, peguei minha cerveja gelada, e fui. Quando estava mais ou menos no meio da multidão da torcida atleticana, ouvi uma voz:

— Me dá um gole dessa cerveja.
— Que cerveja, tá maluco?
— Essa cerveja aí, me dá um gole.
— Não vou dar, cara!
— Eu tô ligado que você é são-paulino. Se você não me der um gole, eu grito pra todo mundo aqui.

O distinto rapaz ganhou uma cerveja.

Depois de dar a volta, encontrei por acaso todos os meus amigos. Espera aí… todos? Faltava um.

— Ele disse que está vindo, vamos esperar.

Uma hora se passou, nada do último amigo aparecer. Mais meia hora, nada.

— Não podemos ficar aqui, vamos entrar!
— Mas ele disse que tá chegando!
— Ele encontra a gente lá dentro.
— Só que o ingresso dele tá comigo!
— Liga pra ele, vamos deixar o ingresso em algum lugar.

Era muita gente, a rede de celulares estava sobrecarregada. Depois de muito tentar, conseguimos telefonar para o perdido.

— Vamos deixar seu ingresso com a tia da calabreza! É uma barraca com o toldo azul, você chega aqui e procura. Vamos entrar!

Demos a descrição completa para a tia da calabreza. Se outro loiro de cabelo comprido chegasse lá, levava o ingresso. De qualquer forma, seguimos para a arquibancada vermelha.

O ingresso não passava na catraca. Maldito cambista! Conversamos com o policial, argumentamos. Ele nos deixou passar. A muvuca era grande, não tinha alternativa! Seguimos com a multidão, e vimos que a fila fez uma curva estranha para a direita. Logo estávamos no meio dos loucos da Torcida Independente, na arquibancada laranja! Cambista absolvido, o setor é que estava errado.

Voltamos no contrafluxo, em meio à gritaria e aos tambores. Pulamos a catraca para fora. Demos a volta. Contamos toda a história para o policial, argumentamos. E pulamos a catraca para dentro! A confusão era tanta que ninguém podia falar nada. Estávamos no setor vermelho.

Nunca vi o Morumbi tão lotado quanto naquele dia. A festa tricolor estava maravilhosa! Olhamos para o lado e quem encontramos? O amigo perdido que faltava! A tia da calabreza mandava lembranças. E a galera estava reunida!

Agora sim, todos juntos, assistimos ao jogo. No primeiro tempo, um gol de Amoroso. No segundo tempo, gols de Fabão, Luizão e Diego Tardelli. São Paulo 4 x 0 Atlético Paranaense! Tricolor campeão da Libertadores da América! O goleiro Rogério Ceni foi o artilheiro do time na competição, junto com Luizão, com 5 gols.

É, tudo não poderia ter sido mais perfeito.

Enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Um dia perfeito na Vila

Por Marília Figueiredo

Acordei numa bela manhã de domingo e notei que tinha algo diferente no ar… Os pássaros cantavam mais alegremente, o sol brilhava sem queimar, a brisa batia suave no lençol…

Lilo estava toda contente, com um brilho novo no olhar.

“É hora do passeio”, pensei eu, com minha mente humana limitada.

E, no passeio, encontramos seus amigos caninos, todos com os olhares radiantes. Conversei com seus donos e, também, todos notavam algo diferente, mas não sabiam explicar.

Então aconteceu: as demais pessoas que circulavam pela praça vieram conversar conosco, desejar bom dia, tecer comentários agradáveis e gentis.

Surpresa, resolvi dar uma volta com a Lilo pelo quarteirão: deparei com mais pessoas educadas, pessoas gentis também no trânsito… Reparei que as calçadas estavam limpas e as lixeiras não estavam mais vazias. Não havia pressa no olhar das pessoas, havia, simplesmente, respeito ao próximo.

Entendi que as pessoas estavam menos “humanas” e mais “caninas”.

Explico: há muito andava descontente com os seres humanos e suas atitudes insensatas, principalmente com relação aos animais (abandonos, atropelamentos, maus-tratos…). Andava indignada tentando entender o que poderia levar uma pessoa a maltratar seu cão, um animal tão puro de sentimentos, tão fiel, leal, companheiro. Animais com a hombridade que todo homem deveria ter.

Lembrei que, na noite anterior, fui dormir pensando nisso: em como o mundo seria melhor se cada um pensasse no bem-estar do seu próximo, seja ele bípede ou tivesse quatro patas.

Tive, então, meu desejo realizado!? Como isso seria possível??

Foi então que o despertador tocou. Lilo veio me dar seu costumeiro bom-dia.

Em seu passeio matinal, nada de novo aconteceu.

Triste, voltei pra casa e sentei-me ao chão com ela. Ganhei uma lambida e um olhar, como quem diz: “Ei, estou aqui! Nem tudo está perdido!”.

Suspirei.

Quem sabe um dia as pessoas realmente importem-se umas com as outras…

Vou continuar fazendo minha parte.

E você? Já faz a sua?

Enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos.

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