Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

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2008, o ano que choveu

Por Marmota | 31/12/2008, 18h22

Pelotas (RS) – Não foi apenas Santa Catarina que sofreu com a chuva. Nem o norte do Rio, no show da Madonna, nem Minas Gerais, muito menos a capital paulista (ah, vá!). Choveram votos, carregados de esperança, para Barack Obama. Também despencaram chacotas sobre o Vasco do Brasilleirão, o Fluminense da Libertadores e a Sarah Palin – que continua governadora, ao contrário daquele que foi pego na chuva com aquele mulherão de Vitória. Em Cuba, esperam por tempos melhores após a saída de Fidel. Nos Jogos onde choveram mentirinhas na festa de abertura em Pequim, choveu medalhas de ouro para os chineses em Pequim, e muitos bronzes para os brasileiros. Choveram iPods desbloqueados, tuitadas sobre o terremoto em São Paulo, computadorezinhos com telas de sete polegadas, mas também defeitos na hora de ligar o faraônico LHC. Choveram tiros colombianos na selva equatoriana – pior para as Farc, melhor para Ingrid Betancourt. Choveu títulos sub-prime apodrecidos, varrendo do planeta a confiança financeira nos EUA (além do Lehman Brothers) e semeando a crise. Apesar de ter chovido dinheiro graças ao tal grau de investimento. Ainda deve ter caído alguns trocos naquele banco que agora, além de ter sido feito pra você, nem parece mais banco. Deve chover petróleo do pré-sal brasileiro e pesquisas em células-tronco. Choveram faturas de cartões de crédito corporativos, coletados num dossiê “segura, Dilma”. Também choveu tranquilidade nas cabeças dos ex-ministros Gilberto Gil e Marina Silva, além de habeas-corpus no colo de Daniel Dantas. O tempo fechou para o padre baloeiro, para o Gabeira (culpa de um domingo de sol) e Ronaldo Fenômeno – graças a três travecos, mas a tempestade maior foi provocada pela vibração da Fiel. Choveram títulos para o Tricolor paulista e o Colorado gaúcho, campeões de praticamente tudo. Choveu na horta da Mulher Melancia – o que não se pode dizer da Amy Winehouse. Choveram socos e pontapés entre Luana e Dado. Choveu crueldade num porão da Áustria e numa área de serviço de Goiânia. Choveram drogas, sexo e rock`n roll no cruzeiro universitário onde estava Isabella. Sua homônima, de seis anos, fez chover toneladas de manchetes sensacionalistas após ser jogada do sexto andar. Chuva de lágrimas também proporcionadas por Dercy Gonçalves, Paul Newman, Dorival Caymi, Heath Ledger, Ruth Cardoso, Waldick Soriano, Rubens de Falco, Dora Bria, Jamelão, Lindemberg, Nayara e Eloá.

Só não choveu nas lavouras do Sul, no sertão do Nordeste e no Piauí. E, talvez, no reservatório pluviométrico de sua vida. Enfim, tenho certeza de que o ano novo vai lhe trazer uma inundação de excelentes notícias, permeadas com todo o amor daqueles que te cercam. Feliz dois mil e love pra você, e até o ano que vem.

2008, o ano em que Papai Noel plagiou Quintana

Por Marmota | 25/12/2008, 08h58

Tradição é tradição, e vice-versa. Como nos últimos cinco anos, o bom velhote batuta aproveita sua turnê pelo globo terrestre, arrastando seu saco, para enviar um e-mail para mim. Pelo horário da mensagem, dá pra ver que, ao contrário dos anos anteriores, o balofo vermelho disparou esta correspondência a bordo de seu trenó, ao lado de suas inseparáveis renas. Pior: o barbudo flácido acha mesmo que ignorei o presente que ganhei ano passado e… Pasmem: surrupiou versos inteiros do meu poeta predileto para formar parágrafos inteiros! Francamente, que vergonha, Noel…

— original message —
From: Papai Noel <santaclaus@laponia.gov>
Fecha: 25/12/2008 04:39:12
To: André Marmota <uma@igualaquinzequilos.com>
Subject: Natal com Quintana

Ho, ho, ho! Adivinhe quem é, meu garotinho?

Mas que final de ano mais xexelento em seu lar, rapaz. Não encontrei aquelas lampinhas formosas na garagem, sequer uma árvore enfeitada na sala. Sabe, decidi aproveitar essa feliz onda contra o consumo depravado e não deixei presente nenhum para você. Contente-se com esta carta. Afinal, quem foi que disse que eu escrevo para as elites, para o bas-fond? Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia, para o João Cara de Pão. Para você, que está com este jornal na mão, e de súbito descobre que a única novidade é a poesia. O resto não passa de crônica policial-social-política. E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”… Mas eu escrevo é para você, João e Maria, que quase sempre estão em situação crítica!

Até porque, aquele livro com a obra completa do Mario Quintana, que entreguei há um ano, continua no mesmo lugar da estante. Sendo assim, Quintana é o seu presente, de novo. Provavelmente você ainda não sabe exatamente o que é um poema – chama-os, inclusive, de poesia, ora! Um poema não é para te distraíres, como com essas imagens mutantes de caleidoscópios. Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe. Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre. Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente… E não a gente a ele! São pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti.

Sabe, no fundo eu entendo esse ritmo de vida, longe da poesia. O poetinha também achava que a vida é louca. A vida é uma sarabanda e um corrupio. A vida múltipla dá-se as mãos como um bando de raparigas em flor, e está cantando em torno de ti: “como sou bela, amor! Entra em mim, como em uma tela de Renoir enquanto é primavera, enquanto o mundo não poluir o azul do ar! Não vás ficar aí, como um salso chorando na beira do rio…”.

Ao mesmo tempo, sua desatenção com as questões natalinas, com os livros e com a sarabanda da vida reflete em seus atos. Aqueles problemas da gente, onde o pior é que ninguém tem nada com isso. Eu também nada entendo da questão social. Eu faço parte dela, simplesmente… E assim como você sei apenas do meu próprio mal, que não é bem ou mal de toda a gente. Nem é deste Planeta… Por sinal, que o mundo se lhe mostra indiferente! E enquanto o mundo em torno se esbarronda, vivo regendo estranhas contradanças no meu vago País de Trebizonda (pensavas que era o Pólo Norte?). Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças, é lá que eu canto, numa eterna ronda, nossos comuns desejos e esperanças!

Mas tudo bem, meu jovem. Eu entendo que, diante desse turbilhão de sensações, o maior dos desejos é manter a calma. Tão bom viver dia a dia… A vida assim jamais cansa. Viver tão só de momentos como estas nuvens no céu. E só ganhar, toda a vida, inexperiência… Esperança… E a rosa louca dos ventos presa à copa do chapéu. Quintana também dizia: nunca dês um nome a um rio, sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atire a rosa do sonho naquelas mãos distraídas…

Sim, eterno gorduchinho. Não tem como lhe presentear com poemas sem falar em amor. Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante? Essa é a questão: o amor pode ser como um fio telegráfico da estrada aonde vêm pousar as andorinhas. De vez em quando chega uma e canta (não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!). Canta e vai-se embora. Outra, nem isso. Mal chega, vai-se embora. Teve uma que passou e limitou-se a fazer cocô no seu pobre fio de vida, lembra?

No entanto, o amor é sempre o mesmo. As andorinhas é que mudam. E esse é o segredo do amor: buscar a andorinha mais distante. Se as coisas são inatingíveis… Ora, não é motivo para não querê-las! Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas! Quem ama inventa as coisas a que ama, e talvez ela chegaste quando tu sonhavas. Então de súbito acendeu-se a chama. Era a brasa dormida que acordava! O amor é quando a gente mora um no outro.

Pausa para um rápido comentário: o leitor que Quintana mais admirava é aquele que não chegou até a presente linha. Mas sim aquele que, neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

Onde estava? Ah, sim, o amor. O amor chegou quando tu sonhavas. Um ritmo divino? Oh! Simplesmente o palpitar de corações batendo juntos e festivamente. Ou sozinhos, num ritmo tristonho… Ah, o seu grande amor distante, nem sabem o bem que faz haver sonhado… E ter vivido o sonho!

E sonhar é acordar-se para dentro: de súbito me vejo em pleno sonho e, no jogo em que todo me concentro, mais uma carta sobre a mesa ponho. Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada! E quase que escurece a chama triste… E, a cada parada uma pancada, o coração, exausto, ainda insiste. Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem? O meu parceiro… eu vejo que ele tem um riso silencioso a desenhar-se numa velha caveira carcomida. Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce… Como também disfarce é a vida!

A vida é curta, por isso ame. Mas faça-o baixinho. Não grite de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos, a mim! Se realmente a queres,
enfim ….. tem de ser bem devagarinho ….. amada ….. que a vida é breve ….. e o amor ….. mais breve ainda. Não consultem os relógios. Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira. Essa vida eterna, somente por si mesma, é dividida: não cabe, a cada qual, uma porção. E os Anjos entreolham-se espantados quando alguém – ao voltar a si da vida – acaso lhes indaga que horas são…

Antes de terminar, um último recado para o seu ano novo: neste mundo, que tanto mal encerra, não basta saber amar, mas também saber odiar. Não só servir a paz,mas também ir para a guerra. Seguiremos assim o próprio exemplo de Jesus, que tanto amor pregou na Terra, quando Ele, que num ímpeto de cólera, a relhaço expulsou os vendilhões do templo!

Bom, meu nobre apaixonado por Quintana, vou desconectar aqui. Aproveite que o ano novo ainda não tem pecado: é tão criança… Vamos embalá-lo… Vamos todos cantar juntos a seu berço de mãos dadas, a canção da eterna esperança. Agora – que desfecho! – Já nem penso mais em ti… Mas será que, a cada ano, nunca deixo de lembrar que te esqueci?

Feliz fim de Natal! Ho ho ho!

Papai Noel

http://www.papainoel.com

Não tive tempo de checar, mas como não vi nenhum “um dia descobrimos…”, “quem não entende um olhar tampouco entenderá uma longa explicação”, “o segredo não é correr atrás das borboletas”, “deficiências”, “felicidade realista” e outros falsos Quintanas que circulam impunemente pela web… Isso quer dizer que o único deslize do gordão é a falta de criatividade natalina.

2008, o ano em que decidi acampar em São Paulo

Por Marmota | 24/12/2008, 04h22

Mesmo estabelecendo minhas bases num ponto inóspito da capital, nunca me senti afastado do mundo. No final dos anos 80, época em que só sabia ir “pra cidade” a bordo do ônibus executivo da CMTC, descobri que era mais barato caminhar até a estação de trem, ficar de olhos bem aberto nos arredores da falecida estação Engenheiro Trindade e desembarcar no Tatuapé. Sem falar nos coletivos que levavam mais de uma hora para desembocar na Vila Matilde ou no novíssimo Terminal Itaquera.

Então, nos primórdios dos anos 90, frequentava a ETFSP (atual CEFET-SP), com aulas a partir das sete da manhã. Mesmo no último ano, com aulas apenas à noite, continuava madrugando, já que meu primeiro emprego foi no IPT, na Cidade Universitária. Aliás, até o terceiro ano da faculdade de jornalismo, continuava atravessando a cidade de leste a oeste. A redenção chegou bem depois, a bordo do meu primeiro carro zero (um Mille ELX comprado num esquema louco de duas parcelas, uma agora e outra dali a alguns meses para fugir do ágio).

Os dez anos seguintes reafirmaram meus dois maiores parceiros de labuta: a Avenida Paulista e o caminho que a separa de casa. Ajudou muito o fato da minha cota “matutina xtreme” ter acabado na formatura: nesse período, descobri o quanto funciono melhor à noite, especialmente ao usufruir de horários fora do pico em meus deslocamentos.

Vista paulistanaQuem vive em São Paulo e contabiliza algumas horas de idas e vindas (algo como vinte anos, por exemplo) tem total convicção de que a coisa está cada vez pior. Não sei se é a idade, colapso urbano ou ambos. Mas em 2008, descobri que minha casa ficou ainda mais distante do mundo real. Entre os muitos percalços que corroboraram esse ponto de vista, o mais doído foi o 14 de abril, quando levei quatro horas para chegar à insuportável Vila Olímpia. Definitivamente, São Paulo estava me deixando ainda mais desmotivado.

Fico pensando em dar uma nova chance ao transporte sobre trilhos. Afinal, o aspecto grotesco da antiga linha variante do trem acabou em 2008 – precisa ver como ficou bacana a estação do Itaim Paulista, parece até o Metrô. Mas para chegar ao trabalho, eu teria que ir até o Brás, tomar o Metrô para Barra Funda, fazer uma nova baldeação até Osasco (!!!) e dali para a Vila Olímpia, totalizando mais de duas horas… Talvez o trajeto fique mais rápido no dia em que a “linha da cratera” funcionará, daqui uns… Mmmhhh… Enfim.

Voltando ao horror paulistano, mas antes que eu tivesse um dia de fúria, lembrei do antigo convite de um amigo. Ele herdou dos pais um amplo apartamento muito bem localizado, na avenida Nove de Julho. Mas para continuar morando ali, precisava de companheiros dispostos a compartilhar as despesas – que não são poucas. Na ponta do lápis, minha parte do rateio seria equivalente aos meus gastos semanais em combustível. E caso desse certo, trocaria algumas horas de engarrafamento por outras, fazendo qualquer outra coisa. Dormir mais, principalmente.

Acampando em SP“Meu, eu topo a parada!”, anunciei ao final de maio. Na mesma semana, fui atrás de um colchão mequetrefe para oficializar a instalação – descobri que praticamente ninguém mais vende aquela espuma ensacada sustentada por um estrado de madeira. A onda agora é a tal “cama box”! Encomendei uma dessas, um travesseiro e um edredon. Assim que a encomenda chegou, transformamos o antigo escritório em minha trincheira semanal. Não bastava um simples agradecimento, nem mesmo pagar mensalmente os custos. Tratava-se de uma honra compartilhar um espaço tomado por toda sorte de livros, páginas que fizeram a cabeça do saudoso pai de meu amigo.

“Quero só ver até quando você aguenta essa história”, desdenhou minha mãe. Por razões evidentes: ainda que as horas no carro fossem perdidas, a compensação estava justamente na presença dela, organizando toda a minha vida. “Relaxe, mamãe. Considere que o apartamento da Nove de Julho é um acampamento. Sim, porque só estarei lá para dormir e acordar, entre segunda e sexta. Não vou conseguir sequer cuidar das minhas roupas!”. Não ria, vá. Estou admitindo minha incompetência doméstica com total sinceridade. Vou mais longe: graças ao contato permanente com minhas duas colegas de quarto, as inquietas gatinhas Nina e a Jade, nem minha mãe conseguiu lidar direito com minhas roupas.

Acampando em SP“Mas nem comida você vai fazer?”. Outra pergunta óbvia. De fato, as habilidades que tenho nas questões elementares de administração doméstica parecem enormes quando comparo com meus dotes na cozinha. “Não vá encher o carrinho no supermercado de Ebicen!”, alertava minha mãe. Não cheguei a esse ponto, mas nos primeiros dias instituí a dieta do iogurte. No café da manhã, uma fruta (preferencialmente banana) e um copo de iogurte. No almoço, um daqueles pratos indiscriminados em qualquer self-service da Vila Olímpia. E antes de deitar e contemplar os sons da cidade no alto do 13º andar, mais um copo de iogurte.

Logo percebi que, caso prosseguisse, iria parar no soro. Assim, no decorrer das semanas, larguei a dieta do iogurte e passei a alternar o cardápio com outras opções rudimentares de alimentação. O bom e velho miojo, a boa e velha lasonha congelada (aglutinação dos termos “lasanha” e “bisonha”), a boa e velha pizza e, lógico, o bom e velho restaurante.

Tamanha inaptidão não tirou minha motivação para tentar algo que jamais havia feito em toda minha vida: ir trabalhar a pé. Devo dizer, com orgulho, que consegui driblar minha preguiça e persistir nas caminhadas por praticamente dois meses. E olha que, da altura do Carrefour Pamplona (onde largava) até as proximidades do Via Funchal (linha de chegada), temos cerca de uma hora de longas e ininterruptas passadas. Diariamente, experimentava um novo trajeto: Nove de Julho/São Gabriel ou Av. Brasil/Brigadeiro? Itaim via Juscelino ou Santo Amaro?

Acampando em SPLógico que, se nem os corredores exclusivos evitam os ônibus abarrotados, e nem as vias largas evitam os engarrafamentos, alguns cruzamentos e saídas tornam algumas avenidas impraticáveis para pedestres. Não é difícil constatar ainda: se a pé eu corro riscos diante da falta de respeito no trânsito, imagine se eu arriscasse o mesmo trajeto numa bicicleta? É uma pena, pois em pouco tempo conseguiria até imaginar uma maluquice casa-escritório. Como disse à Soninha, não demoraria uma semana para reunir condições de disputar a Volta da França…

Enfim, fui obrigado a reduzir drasticamente as caminhadas. Não foi preguiça, nem os calafrios e o estômago embrulhado após conciliar atividade física desintoxicante com a dieta do iogurte. Ocorre que meu período de reeducação levou um agradável baque em agosto. Cujos detalhes prometo contar a você depois do Natal.

2008, o ano em que larguei o mundo virtual

Por Marmota | 23/12/2008, 03h33

A Bia tem uma teoria interessante: livre-se de seu blog. Pare de escrever religiosamente, dentro de sua periodicidade inexplicável, pois assim você verá seu tempo passar e deixará de viver. E quando ela encontra blogs sem atualizações rotineiras, ao invés de reclamar por novos textos, ela fica feliz pelo tempo ocioso do autor.

Antes fosse, Bia. Tempo continua sendo o meu calcanhar de aquiles, ainda que eu tenha arrancado do quintal uma porção de plantinhas que vinha regando. Este blog foi o mais podado: até o dia 26 de abril, mantinha o hábito de atualizá-lo, seja com uma idéia nova ou um calhau. Dali em diante, foram dois dias sem novidades… Três… Cinco… Um textinho vagabundo por semana… Sem querer, descobri que já executava o slow blogging.

O abandono ficou nítido quando, um dia qualquer, percebi que a enquete simplesmente havia travado. Felizmente a pergunta era idiota: “qual a sua relação com o Twitter?”. A resposta, intuitivamente, é simples: tem a turma que foge de qualquer modinha; tem quem criou login e senha mas não entendeu para que serve; e tem gente como eu, que descobriu as maravilhas do GPRS no celular ou de programinhas como o Twibble para Symbian.

Na prática, tudo que este blog perdeu foi parar no Twitter. O que não quer dizer muita coisa, já que também brinco no mocriblogging uma vez por semana. Sem contar a febre momentânea do Blip – e o perfeito casamento entre seus 140 caracteres. Claro que, também num dia qualquer, descobri que o melhor da brincadeira durou pouco: no fim de novembro, cortaram o barato depois de tanta gente ocupar servidores hospedando músicas sem dono. Mas tudo bem, já não conseguia usar o Blip como outrora.

Outras coisas que gostava desse mundo perderam encanto naturalmente, como os inúmeros “networcamps” (se bem que andei faltando até em alguns excelentes “botecamps”). Enfim, ainda perco algum tempo subindo fotos no Flickr e compartilhando três ou nove leituras por dia no Delicious – cujo feed, aliás, alimenta meus itens compartilhados do Google Reader, sem dúvidas a melhor descoberta internética deste ano. Orkut? Entro uma vez por mês para limpar a favelização dos scraps. Facebook? Nem lembro qual era a senha. Linkedin? Famoso quem?

Provavelmente, quando o primeiro segundo de 2009 chegar, meus itens não lidos em qualquer das caixas de entrada continuarão acima das três casas decimais. Mesmo assim, ainda vejo razões para, nos próximos dias, aproveitar o baixo movimento das festas e olhar para trás antes de virar a folhinha. Fica mais divertido entender o que me fez ocupar o tempo que levaria contando estas histórias, ou mesmo respondendo e-mails.

Sobre a tal realidade (ou: brinquedo novo manchado de sangue)

Por Marmota | 22/12/2008, 01h07

Fiz uma coisa que estava querendo há tempos: a despeito de quem não gostou desse tipo de brinquedinho, investi parte das minhas parcas economias num Positivo Mobo, de onde escrevo estas linhas. Tenho certeza de que vai fazer diferença no meu dia-a-dia, especialmente para tarefinhas corriqueiras, apesar daquela sensação incômoda de ter feito uma compra perdulária (“o consumismo é o consumo depravado“).

Mas essa impressão de “gastança” ficou pequena quando percebi o tamanho do problema que criei. Tudo porque fiz essa comprinha na megasuperfuckingpowerloja das Casas Bahia, no pavilhão do Anhembi.

Loja do terror

Absorvido pelo bombardeio da mídia e por um preço à vista convidativo, ignorei naquela noite um episódio triste, na estrada de Itapecerica, em 10 de novembro.

Alberto Milfonti Júnior levou a namorada e um amigo para comprar um colchão de casal as Casas Bahia, entusiasmado com a futura mudança: estava prestes a casar e mudar com ela e o filho, de cinco meses. Vestindo bermuda e chinelo, Alberto esperava perto da porta enquanto a namorada, na fila, fazia o pagamento. Subitamente, o segurança apareceu.

“Por acaso você tem algum parente parecido comigo?”, perguntou. Alberto disse que não, e ouviu algo como “é que você não para de me olhar…”. E começram a discutir. “Escute aqui, eu sou cliente. Eu comprei e paguei. Por que você está me olhando assim, me tratando diferente?”. Alberto ainda foi em direção à namorada para pegar a nota fiscal para prová-lo. Nesse interim, o segurança sacou sua arma.

“Você quer que eu atire em você?”. Surpreso, Alberto respondeu “Não, você não vai atirar…”. “Você duvida?”, retrucou. “Duvido”. Esta foi a última palavra de Alberto, antes de levar um tiro na cabeça.

A questão é delicada e vai muito além de uma simples abordagem mal-educada. Agora, ao analisarmos a história, é possível interpretar: a loja, ao contratar um profissional que tirou a vida de um pai de família, é responsável por esse crime. Sendo assim, fazer uma compra nas Casas Bahia é ser conivente com o crime, é desrespeitar a dor de uma família que vai passar este Natal e os próximos com essa ausência.

Ou seja: comprar um mini-laptop na megasuperfuckingpowerloja das Casas Bahia foi como ouvir minha mãe, durante toda minha criação, algo como “filho, não se envolva com drogas”. E mesmo que inocentemente, ir a uma boca-de-fumo. Pode parecer exagero, mas qualquer lugar onde pode-se levar uma bala – ainda que pareça inofensivo – é, na realidade, sinônimo de perigo e desrespeito aos valores humanos.

Antes que você concorde com essa idéia, é fundamental enxergar essa história pela maior quantidade possível de possibilidades. Vou me ater a duas delas – e deixo para você a tarefa de acrescentar as outras.

Para a primeira, pedi ajuda ao Danillo Ferreira, do blog Abordagem Policial. Ele se baseou nas declarações pinçadas nas reportagens sobre o caso para definir o episódio como “discriminação, homicídio doloso e psicopatia, não um acidente”. Vem daí minhas dúvidas. Como este cidadão trabalhava como segurança? E já que a maioria das empresas trabalham com serviços terceirizados, como garantir que situações assim não aconteçam? Com a palavra, o Danillo:

“Algumas profissões geram certa atração para indivíduos com algumas pendências psicológicas. Psicopatologias, melhor dizendo. Não é novidade a incidência de pedófilos entre os clérigos, ao tempo em que a profissão policial, ou de segurança, gera enorme atração para pessoas com certas frustrações. Cabe às polícias, e empresas de segurança, se prevenir em seu processo seletivo e em seus cursos de formação profissionais, no sentido de eliminar as possibilidades do ingresso desses indivíduos, ou da manutenção dessa personalidade patológica.

Isso passa por inúmeras variáveis: os psicotestes que são aplicados nos processos de admissão (onde geralmente os reprovados são admitidos por força de recursos na justiça), a detecção dessas características durante o curso de formação (tomando-se as medidas devidas para sanar o problema), a inclusão de disciplinas como direitos humanos na carga-horária dos cursos, o apoio emocional e psicológico aos policiais/seguranças, dadas as peculiaridades da profissão, etc.

Quando esses e outros mecanismos falham, eis que surge-nos casos como o que você me aponta. Mas uma coisa é certa: se todos, ou a maioria, dos mais de quatrocentos mil seguranças particulares brasileiros agissem como esse exemplo, estaríamos praticamente em guerra. Existem muitos esforços para sanar esses problemas, e a sociedade deve sempre fiscalizar para que homens que ajam assim sejam banidos da situação de seguranças”.

Repare que, só nesse aspecto, já dá pra ver incontáveis engrenagens que podem fugir do nosso controle e falhar. Aconteceu nas Casas Bahia, mas poderia ter sido em qualquer outra loja. E aqui já dá pra entrar na segunda possibilidade, que começa exatamente no meu encontro com a vendedora, no estande da Positivo.

Chamava-se Ana Claudia. Cabelos tingidos, óculos de armações fortes e perseverança. Sabia tudo daquele aparelhinho. O tamanho reduzido, a tela de sete polegadas, os dois gigas de memória interna, o processador de um giga, webcam e microfone integrados, Windows XP instalado… Perguntei-lhe sobre a presença dela naquele ponto da loja. Disse que era a primeira vez que participava daquele mega-esforço de vendas. Estava cansada, jamais atendera tanta gente em um único dia como nessa época. Mas apesar da exaustão, estava feliz por garantir um fim de ano gordo para sua casa.

Comprar naquela megasuperfuckingpowerloja dá um trabalho desnecessário: você escolhe sua compra num lado do pavilhão, caminha cinco minutos para pagar do outro lado, volta mais quatro minutos para o quiosque do crediário retirar a nota fiscal, atravessa o lugar até o fim para retirar a mercadoria, volta ao estande da loja para retirar seu brinde. Mas nessas idas e voltas, lembrei do Natal da Ana Claudia e de todos aqueies funcionários enlouquecidos. Certamente nenhum deles se sente ajudando uma instituição criminosa, pelo contrário. São trabalhadores, peças desse louco sistema assim como o Alberto Milfonti Júnior.

Sabe, normalmente a gente passa horas discutindo pequenos esforços para salvar o mundo, ainda que seja uma simples forma de tapearmos nossas limitações. Também questionamos acintosamente quem o faz por exposição gratuita ou simplesmente ignora ações sociais evocando qualquer desculpa…

Imagine se eu tivesse comprado meu Mobo no Magazine Luiza e, logo depois, divulgar aos quatro cantos um papel qualquer provando essa ou qualquer outra benevolência, porque é o melhor a fazer… É muito mais simples pintar a realidade como “certo” ou “errado” e rotular pessoas como “proativas” ou “ignorantes”, sendo que a gama de perspectivas é infinita. O desafio é reunir paciência, senso crítico e respeito ao próximo na hora de escolher as cores da realidade.

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