quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Mensagem natalina de um amigo relapso

E aí, rapaz! Tudo em paz? Espero que sua vida e a de sua família estejam em ordem!

Cara, pra falar a verdade, eu já devia ter escrito essa mensagem há bastante tempo. Lembro que, no nosso último contato, combinamos um almoço na região da Paulista… E isso foi em junho de 2005, meses depois de você digitar seu nome no Google, cair no blog e dar de cara com aquela foto “cheia de gente feia” da nossa sala de aula… Lembra disso?

Pois é… Tempos depois você comentou comigo que passou sem querer pelo Salgado Filho na mesma época em que eu estava em Porto Alegre. Faltou pouco para a gente se cruzar por lá. Então você me deu o número do celular, que obviamente só lembrei no dia do seu aniversário. Era feriado, e eu estava de plantão quando peguei você almoçando numa churrascaria, ao lado de uma galera bem antiga, que eu morro de saudades. Você estava meio alto já, certamente nem lembra do que eu falei… Sobre a primeira vez que saí sozinho de carro quando tirei a carteira de motorista. Foi para ir até a sua casa, quando você completou dezenove anos, há uns dez…

Fiquei mesmo frustrado aquela tarde – até saí num horário decente, mas já era tarde demais. Mesmo antes daquilo fiquei de ir atrás do resto da turma, pra tentar resgatar pessoas e histórias. Cheguei a encontrar, perdido numa das muitas caixas que acumulo em casa, aquele jornalzinho mequetrefe que nós fizemos, ainda no tempo da máquina de escrever. Bons tempos.

Nossa, fiquei tentando lembrar quando foi a última vez que nos vimos pessoalmente… Foi no dia do seu casamento! Aquele que eu perdi a cerimônia por causa de um maldito cinto que fui comprar naquela tarde, e que me tomou minutos preciosos. Tempo que poderia ter compartilhado com você.

No fim das contas, a vida, se é que ela serve de desculpa, manteve nossa distância, e de minha parte, peço mesmo desculpas por ter deixado isso acontecer. Se serve de consolo, não foi exclusividade sua: ando bastante relapso com muitos amigos.

Apesar da correria e das poucas mudanças no campo profissional, assunto é o que não falta pra gente conversar. Daquele nosso último e-mail até hoje, seu time foi campeão da Libertadores e ainda conquistou um Mundial, roteiro que o meu pretende fazer nesse 2006. Deu tempo ainda de fazer um curso na Alemanha, meses antes dessa Copa que ninguém quer lembrar. Também foi tempo suficiente para convencer alguém a ficar comigo e, pouco tempo depois, ela se dar conta de que não era nada daquilo.

Também fui conhecer o Uruguai – e eu lembro de uma vez que você argumentou comigo, só porque eu não queria ver o Uruguai em uma Copa do Mundo. Foi em uma das nossas longas noites ao lado dos amigos, jogando conversa fora no boteco. Lembro que você sempre quis saber mais detalhes daquela minha aventura no Guardião. Quando você disse aquela frase célebre, “pessoas de direita também não perderiam tempo discutindo, estariam ocupadas demais tentando ganhar o primeiro milhão”. Puxa, e hoje eu trabalho tanto, sem aqueles papos de mesa de bar, e não tenho grana sequer para realizar pequenos prazeres…

Mas voltando. Essa semana soube de uma história triste. Duas amigas que se conheceram no primeiro grau, e que também tiveram suas histórias separadas por conta dos percalços que afligem todos nós: trânsito, trabalho, pessoas malas, más vibrações em geral. Apesar de tudo, sempre houve aquele desejo mútuo de “tomar aquele cafezinho” para colocar a conversa em dia. Até que uma delas faleceu. Dá para imaginar uma situação dessas?

Ei, longe de mim rogar praga em você! Nada disso! Essa história me fez realmente pensar mais uma vez o que ando fazendo com a minha vida, e especialmente, com os meus amigos. Só que a nossa inércia é gigantesca, eu sei, e não vai ser em uma simples resolução de ano novo que ela vai mudar.

Mas enfim, apesar das pequenas decepções do dia-a-dia, ainda tenho esperanças na humanidade. Nosso encontro, seja um almoço, um café, um esbarrão ou seja lá como vier, ainda está de pé. E não vou bancar o otimista: sei que, em dezembro, que é um mês mais curto já que vai só até o Natal, temos aquela ânsia de resolver tudo aquilo que deixamos pendentes – essa mensagem é um exemplo disso…

De qualquer forma, seria bem legal se conseguíssemos nos ver ainda esse ano. Que, pra mim, não foi dos melhores. Nem pretendo passar longos minutos enviando aqueles spams de Natal, que pouco valem diante de tanta impessoalidade. Um encontro frente a frente superaria qualquer mensagem dessas, além de se transformar em um momento inesquecível, tão necessário diante de tantas passagens desagradáveis.

Enfim, acho que é isso. Um grande abraço, e caso essas palavras se percam, tenha um feliz ano novo e um próspero Natal.

(Pronto. Só preciso escrever e enviar mais uma dezena de mensagens dessas.)

(Postado em 04/12/2006. Esse ano, essa sensação só piorou…)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Agarrar

Olha, algumas palavras são como pessoas:
o contexto é capaz de transformá-las.
Observe o verbo “agarrar”, por exemplo.
A não ser que você já tenha maldade em mente,
agarrar pode ser um simples gesto com as mãos.
Num gramado, bons goleiros precisam agarrar firme.
Num texto, as primeiras linhas também querem isso:
agarrar você até o último ponto final.
Também pode ser uma oportunidade que se abre,
uma chance para agarrar com unhas e dentes.
Pensando assim, agarrar não parece malicioso.
Até que eu te peça pra pensar numa palavra
pra sussurrá-la, bem baixinho, no ouvido…
Adivinhe o que estou pensando em fazer quando te encontrar.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ranquinite (ou: fim da blogosfera? É porque você quer aparecer…)

Segure-se na cadeira, salve tudo no pen-drive e não esqueça de colocar o smartphone no bolso: já ecoam com força as trombetas do apocalipse. Tudo porque os profetas deixaram suas cavernas para proclamar. “A blogosfera vai acabar! É uma cilada, Bino! Fuja para as montanhas!”.

Duas fagulhas relacionadas a essa hecatombe caíram na rede nas últimas semanas. Uma é o artigo da Wired, assinado por Paul Boutin, que desanima qualquer blogueiro iniciante: suas opiniões não serão lidas por ninguém, quando muito por um comentarista idiota e anônimo. Além disso, é possível fazer no Twitter tudo que se conseguia com o blog em 2004.

A outra gerou algumas faíscas a mais. Artigo do The Economist lembra que Jason Calacanis, fundador da rede Weblogs Inc, desistiu de blogar em função “da pressão e do trabalho que dá em permanecer na lista dos top-top”. Conclusão: o fato dos blogs atingirem certo destaque, especialmente em grandes corporações, e entrarem no “mainstream”, vai matá-los. Mais trombetas.

As duas provocações culminaram com alguns desdobramentos, como o de Nicholas Carr, no blog Rough Type. Para ele, os blogs chegaram à “crise de meia-idade” em função da sua importância exagerada. Além disso, nos últimos anos, o ato de blogar passou por transformações que sufocaram a informalidade e descompromisso da época áurea do “blog moleque”.

Mas voltando ao apocalipse: então a blogosfera vai acabar. Mas o que é “blogosfera” para você? Se a sua resposta for algo como “aquele grupo de páginas elaboradas por caras bacanas que sempre aparecem na crista da onda, onde ainda vou fazer parte”, dá para entender as razões desse assassinato.

Muito se especulou a respeito do impacto das inovações tecnológicas na comunicação. Teríamos condições de promover inteligência coletiva, construida a partir dos múltiplos nós da rede e da presença de ferramentas colaborativas – como ocorre na conversação entre blogs, por exemplo. O que se vê, no entanto, é o oposto: propostas puramente individuais com objetivos relacionados a influência, reputação ou popularidade.

É lógico que ninguém escreve suas idéias sem que pessoas ao redor comentem, reconheçam, construam uma imagem positiva. Agora, de uma forma bem generalista: quem começar a brincadeira apenas pela busca ao título de Miss Cangaíba, provavelmente não vai conseguir, vai se frustra e, por fim, desistir.

E isso não é de hoje. Nesta análise da cobertura política norte-americana, os autores observaram que, ao contrário da propagada “democratização da web”, a relação não é igualitária. São poucos os que conseguem atenção, referências e consequente tráfego. Isso atingiu um fenômeno batizado “googlearchy”, e explica perfeitamente as razões pelas quais boa parte das ações envolvendo redes sociais costumam envolver sempre os mesmos.

Ainda avaliando o “mainstream brazuca”, poderíamos incluir outro termo, consequência desse: ranquinite. Doença contagiosa que denota o real sentido em criar um espaço na rede: aparecer no topo da cadeia alimentar. Aliás, “ranquinite” é a melhor definição para boa parte das reações adversas à brincadeira do J. Noronha. Porque ao invés de conversar, colaborar ou participar de maneira inteligente, deve ser mais fácil conquistar autoridade no grito ou com arroubos de personalidade.

De verdade? Tomara que a ranquinite se torne a gripe espanhola da rede, matando essa “blogosfera nociva” e varrendo para a insignificância plena todas as cabeças vazias que perambulam fazendo barulho e espuma. No fim, restará esse tal “mainstream” definido pela “googlearchy” – inteligente, profissional e relevante, por que não? – e, bem longe daí, infinitas comunidades interconectadas, formada por leitores e autores convivendo pacificamente com outras formas de informação – não é, Lu?

Enfim, tomo emprestado as palavras do Silvio Meira: “a escrita na rede ainda está nascendo. Ainda falta muito pra que se saiba o que estamos fazendo. Mas este não é o problema. Vamos continuar fazendo e tentando descobrir…”.

A propósito, essa inversão de valores provocada pelas hierarquias dos rankings, em contraponto à construção de inteligência coletiva, poderia se transformar em um pré-projeto de mestrado muito interessante. O que acham, amigos acadêmicos?

Atualizado: não parece irônico que, depois de um artigo apontar para uma reflexão a respeito do “mainstream blogueiro” e seu impacto, a revista Época elaborar uma seleção de 80 blogs? Óbvio que essa matéria representa alguns aspectos positivos – aquela velha idéia de que o público-alvo de uma revista de circulação nacional, em tese, não conhece blogs. Para os heavy-users, fica aquele misto de orgulho dos amigos e sensação de déjà vu. Enfim, dê uma navegada pelos comentários da revista e divirta-se com os ataques de ranquinite.

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