domingo, 28 de setembro de 2008
Raciocina, segurança!
Se você conhece pessoalmente um rapaz educado, cortês e inteligente que exerça a função de segurança, cumprimente-o e comemore com ele. Certamente é o único num raio de alguns quilômetros. Aliás, não entendo como podem os profissionais dessa área se conformarem com a pecha de acéfalo mal-educado, sem tomar iniciativas contundentes para acabar com essa generalização.
Talvez a culpa nem seja deles. Não me surpreenderia se soubesse que as empresas interessadas querem exatamente isso: “tem que ser grosso e cumprir ordens sem pensar”. Imagino como seria um fictício processo seletivo. Algo como “sente aí e escreva uma redação”. Quem retrucasse, questionando a razão de um teste do gênero, seria eliminado. Quem redigisse um texto e entregasse rapidamente, também. Os eleitos seriam os cururus sentados na carteira, sem conseguir completar a tarefa. Se o candidato sequer passasse da primeira linha, viraria chefe de segurança.
Lembro de um desses na entrada de um megashow, daqueles cuja marola empesteava a fila antes mesmo da festa começar. Mas a preocupação dos homens de preto, ao revistar as bolsas e mochilas, não era exatamente a busca por entorpecentes. Tive que deixar uma inofensiva caneta Bic nas mãos de um deles. “Isso pode virar uma arma”, dizia. E o que dizer da brita usada pela organização do evento para forrar o chão? Mas que gente esperta…
Encontrei o último espécime desse tipo num respiro rápido na Fnac Paulista. Assim que entrei pela Alameda Santos, fui surpreendido pelas capas de Veja e Carta Capital. Enquanto a primeira comemorava a intervenção do governo dos EUA após a eclosão da crise e a falência do banco de investimento Lehman Brothers, a segunda adverte que o pacote de 700 bilhões de dólares oferecido por Bush só ameniza, mas não resolve. O curioso é que este “salva-não salva” foi ilustrado pela mesma figura: Tio Sam, com cara de bonzão, oferecendo grana.
Como tinha certeza de que esqueceria disso nos dias seguintes (talvez sequer tivesse tempo pra postar sobre as tais capas), decidi fotografá-las com o celular. Aproximei o aparelho da capa de Veja e cliquei. O barulhinho da câmera chamou a atenção do segurança, que veio em minha direção antes que pudesse me aproximar da Carta Capital.
- Senhor, é proibido tirar fotos aqui dentro.
A razão deve ser puramente comercial. Fotografar gôndolas pode caracterizar espionagem, não é legal, enfim. Deve haver uma explicação clara e correta, mas de total desconhecimento do cumpridor de ordens.
- Não estou fotografando a loja, mas a capa da revista. Veja, é só a capa. Vou te explicar o significado da palavra “reprodução” em fotojornalismo…
Eu devo ser mais idiota que o segurança. Ora, tentar explicar algo a ele…
- Senhor, é proibido. Meu gerente vai chamar a atenção…
- Ah, chama ele aqui. Vamos conversar. Assim não preciso explicar o que é “reprodução” em fotojornalismo duas vezes…
A cara feia do homem aumentou. Eles não conseguem dialogar: provavelmente repetem três ou quatro palavras decoradas após o treinamento e, caso não saibam mais nenhuma, ameaçam. Desisti da segunda foto e parti para a saída, chamando-o de algum adjetivo qualquer.
No corredor da loja, observo um carrão em exposição, chamando a atenção dos consumidores. No mesmo instante, um gordinho aficcionado sacou sua máquina digital para registrar o bólido. Não pensei duas vezes. Voltei ao segurança para argumentar.
- Olha ali, ó. Tá tirando fotos. Vai lá falar com ele.
- Ah, do carro pode.
Arregalei meus olhos e ergui meus braços, com ar de “como assim?”. O sujeito de terno simplesmente deu risada e voltou ao seu posto, disposto a cumprir suas ordens e cair na próxima contradição.

Igor Ribeiro e Fabrício Teixeira assinam a matéria “Igual, mas diferente” da
Certamente a resposta mais adequada ao texto veio do veterano jornalista e blogueiro novato 

