Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: julho/2008

E o Delicious f***deu com as minhas “paradinhas”

Por Marmota | 31/07/2008, 23h59

Eu devo ser um dos cinco ou seis usuários apaixonados pelo Delicious, aplicação online que compartilha bookmarks e monta uma espécie de “agenda setting”, mostrando os links e palavras-chaves mais populares. Desde 2003, o sisteminha ensina aos usuários como é divertido postar links, descrevê-los e atrelar tags a eles – a minha preferida, que pincei numa coluna do Diário Gaúcho, chama-se “mundoidao”.

Feliz com a estabilidade e facilidade do Delicious, adotei-o como “compartilhador oficial” deste blog, reproduzindo minhas leituras (ou quase) numa área denominada “rapidinhas” – nominho vagabundo que usava em meu antigo endereço para atirar uma tijolada de links em momentos de crise criativa.

As “paradinhas”, como também são chamadas por aí, eram sem sombra de dúvidas a área mais atualizada do blog – e que certamente, numa futura mudança de template, ganharia destaque logo na primeira rolagem de tela. Mantive esse parágrafo num condicional por conta de uma grata (ou não) surpresa que tive nesta quinta-feira…

Desde que o Yahoo comprou o serviço, em 2005, não havia qualquer melhoria. As mudanças, inclusive, haviam sido anunciadas há mais de ano, a ponto de se transformarem em lenda urbana. Enfim, durante a semana, os usuários foram avisados sistematicamente: “guardem seus logins e senhas, porque vocês vão precisar…”.

Finalmente, nesta quinta-feira, o novo delicious.com (sim, aposentaram o bom e velho del.icio.us) chegou com mudanças visuais (nova interface, menu reorganizado, funções mais dinâmicas envolvendo as tags). Há também, ao que consta, alterações na infra-estrutura: em tese, a plataforma deve ser mais rápida.

Toda mudança é bem vinda… Mas como ficam as minhas “rapidinhas”?

Ao contrário de outros usuários, que replicam os links utilizando versões molezinha (como o código javascript pré-pronto), eu tinha uma exigência: colar as informações no código HTML (mas não da forma porca como se vê por aí, reunindo os links do dia em posts inteiros). Certo dia desejei boa tarde ao Sr. Edney e ele resolveu o meu problema, bolando um código PHP que aproveitava o feed HTML gerado pelo Delicious (no meu caso, del.icio.us/html/marmota).

Nesta quinta, a URL acima apontava para um redirecionamento muito louco. Que, por sua vez, provocou um “auto-refresh” em todas as páginas do blog, durante toda a tarde – era como se cada usuário nem esperasse a página carregar e atualizasse seu conteúdo. Bizarrice total.

Enfim, passei algumas horas procurando o feed HTML do novo Delicious, mas ainda não achei. Assim que souber de algo (provavelmente até o próximo Corpus Christi), as boas e velhas “paradinhas” voltarão. Até lá, guardem este endereço: delicious.com/marmota.

Atualizado: Obrigado, Pedro e Rodrigo, pelo gentil retorno! Na verdade, não era bem isso que eu precisava, mas sim o feed HTML – que os babacas do novo Delicious simplesmente deletaram, sem perguntar aos usuários. Claro que os manés dificilmente vão reativar a bagaça… A única alternativa disponível é a versão JavaScript. Imbecis.

Cinco filmes nacionais que desceram algum morro carioca

Por Marmota | 29/07/2008, 23h43

Ano passado, quando o filme “Tropa de Elite” fez seu barulho dentro e fora dos cinemas – tanto em função dos DVDs piratas que circulavam antes mesmo da estréia quanto por conta dos bordões que se espalharam feito rastilho de pólvora -, a imprensa acordou. Repórteres se infiltraram no BOPE para mostrar ao público a “realidade por trás da ficção”. Troca de tiros entre policiais e traficantes em morros cariocas repercutiram nos programas a la Datena.

Lembro que o diretor José Padilha falou, em inúmeras oportunidades, a respeito do impacto de seu filme na agenda de conversas da população nacional. Em linhas gerais, é mais fácil para as pessoas conversarem sobre objetos descolados da realidade, transformados por profissionais da sétima arte, do que discutir os problemas a seco e engoli-los idem. E ele tinha razão: lembro bem de algumas reportagens envolvendo troca de tiros na Vila Cruzeiro… Aquilo ganhou voz nas ruas especialmente por conta da repercussão de “Tropa”.

Desde sexta-feira passada, outro que mostra os recônditos da Cidade Maravilhosa entrou em cartaz: “Era Uma Vez”. Entre os ecos que pude ouvir por aí, um dos mais repetitivos era: “cacetada, mais uma vez esse tema…”. Não sei se a reclamação vem da saturação ou de uma pretensa falta de criatividade… Ou ainda uma tentativa de reproduzir a fórmula que tornou “Cidade de Deus” uma referência cinematográfica. Não importa: eu penso que, quanto mais filmes trouxerem à pauta discussões relevantes, melhor.

Que venham, pois, mais filmes descendo algum morro do Rio. Como foi o caso de…

#5 “Orfeu” – Preciso confessar algo que me envergonha: ao pensar neste Top 5, pensei um bocado no filme que ocuparia este posto. O primeiro que veio à mente foi “Falcão: Meninos do Tráfico”. Tanto este documentário quanto “Notícias de uma Guerra Particular” mereceriam uma citação honrosa, mas seria melhor escalar uma ficção. Ainda bem que a Luciana assistiu ao filme, baseado na peça do poeta Vinícius de Moraes.

“O Orfeu, que é o cara do Cidade Negra, vive no morro, e o amigo de infancia dele, vivido pelo Murilo Benício, vira traficante. Eles estao voltados pro desfile da escola de samba, e todo mundo é apaixonado pelo Orfeu. Só que ele se apaixona por uma sem graça lá, a Eurídice. Ela morre e ele vai até o inferno buscá-la, mas ele não pode olhar pra trás senão a perde. É tragedia total, tudo no Carnaval”.

Tragédia total é o que permeia esses filmes, inclusive…

#4 “Meu Nome não é Johhny” – O ofício de jornalista-escritor pode render excelentes dividendos, especialmente aos mais talentosos como Guilherme Fiúza. Ele é primo de João Guilherme Estrella, personagem de uma história que retrata o mundo do tráfico mesmo longe dos morros: em uma casa de classe média, nasceu um dos maiores traficantes cariocas da década de 1980. Depois de ser preso e internado, hoje está plenamente recuperado – e dá palestras, ao lado do autor do livro.

Tudo graças ao sucesso estrondoso da película, que levou mais de 1 milhão de espectadores aos cinemas. O exemplo do “Johhny” é mais um sintoma de que a sétima arte precisa mesmo embutir alguma semente nos cérebros dos brasileiros: antes do filme estrear, em 2008, o livro já tinha sido publicado quatro anos antes. E durante os dias que antecederam o lançamento, tudo que perguntavam a Guilherme Fiúza era a respeito da repercussão nas telonas. Sua resposta? “Tudo bem, vai virar filme, mas já é um livro! Que tal lê-lo?”.

Curiosamente, entre os cinco filmes, o único que foi pensado exclusivamente para o cinema foi…

#3 “Era Uma Vez” – Há uma incoerência no título do segundo longa metragem de Breno Silveira, diretor do estrondoso “Dois Filhos de Francisco”. Deveria se chamar “Vai Dar Merda”. Porque é exatamente esta a sensação permanente desde o primeiro encontro do ótimo Thiago Martins (que é aprfesentado ainda criança num trágico flashback) com a lindinha Vitória Frate, quando o vendedor de hot-dog do quiosque da Vieira Souto se apresenta como surfista. Como esperado, os dois se apaixonam… A tendência a dar merda só aumenta, especialmente com o retorno do irmão mais velho ao Morro do Cantagalo.

Antes de ir ao cinema, esteja devidamente preparado para o final, certamente a grande ressalva do filme. Já dá para imaginar o que acontece apenas com a sinopse: “inspirado livremente na história de Romeu e Julieta”. Resumidamente, todos sabem desde o início que vai dar merda. A questão é: precisava ser daquele jeito?

Se bem que… Não é justo limitar a sensação de “vai dar merda” apenas aqui. O mesmo percebe-se claramente em…

#2 “Tropa de Elite” – Capitão Nascimento está doido para curtir sua paternidade, mas precisa treinar seu substituto antes de pendurar o fuzil. Descobre dois novatos numa ação sangrenta, provocada pela frágil PM no Morro da Babilônia. Até que finalmente passa o bastão para o novato sobrevivente, no instante em que este vinga a morte do amigo. Mas a história é o que menos interessa na trama dirigida brilhantemente por José Padilha (o mesmo do Ônibus 174).

“Tropa de Elite” conquistou as massas por várias razões. Primeiro por circular entre os espectadores antes mesmo da estréia: um vazamento fez com que milhões de cópias do filme circulassem em DVDs piratas, redes P2P e pen drives do país. O impacto foi percebido com clareza em qualquer diálogo durante semanas: “pede pra sair”, “nunca serão”, “traz a sementinha do mal”, “o conceito de estratégia”, “bota na conta do Papa”, “cadê o Baiano”… Entre outras expressões que já se tornaram clichês.

Apesar do Urso de Ouro em Berlim, “Tropa” ainda ficou atrás do mentor de todos os “filmes de morro”…

#1 “Cidade de Deus” – Não confundir com “Cidade dos Homens”, apesar dos artistas, do enredo, da produtora, enfim, de uma porção de coisas bem parecidas. Cidade de Deus foi o primeiro a chocar a nação. O primeiro a fazer com que os cariocas dissessem “é, tem alguns estereótipos, mas nem tanto assim”. O primeiro a concorrer ao Oscar fora da categoria “melhor filme estrangeiro”. O primeiro a catapultar a carreira do diretor Fernando Meirelles e da atriz Alice Braga a outros trabalhos em Hollywood.

Enfim, o filme que nos trouxe Dadinhoeocaráleomeunomeagoraézépequenoporra.

Ah, sim: antes que venham questionar, eu sei que Cidade de Deus não é exatamente um morro, mas sim um bairro construído para alojar ex-moradores de favelas, desabrigados de enchentes. Mas sejamos francos: há possibilidade de outro filme ocupar o topo dessa lista?

A misteriosa fórmula da felicidade

Por Marmota | 25/07/2008, 23h55

Sempre achei que felicidade era algo simples de se conseguir: basta fazer o que estiver ao seu alcance para fazer os outros enxergá-la e proporcionar-lhes o tal sentimento, multiplicando-o sempre. Sempre. Quando olhar para trás, vai ver que não perdeu seu tempo com ninguém, mas fez o que pôde para transformar o mundo ao seu redor. Trata-se de uma teoria simples, mas que costuma funcionar bem.

O problema é quando nem todo mundo que está na sua volta acredita que a tal felicidade só pode existir agora, sendo volátil demais para inventarmos de estocá-la – ou pior, para imaginar que ela está impregnada nas coisas que possuímos, sejam elas materiais ou não. Existem ainda aqueles que perdem tempo esperando outra pessoa lhe entregar felicidade de bandeja – e em casos extremos, acham mesmo que as outras pessoas serão capazes de adivinhar o que fazer, correndo o risco de ver pessoas queridas não corresponder a nenhuma expectativa.

A verdade é que eu não conheço ninguém que não procure ser feliz. Bom, tem aqueles que não precisam de inimigos, já que preferem só trabalhar, reclamar e se desvalorizar. Acabam fazendo o trabalho do vilão sozinhos. Mas mesmo essa turma sonha, lá no fundo, em encontrar a felicidade – não acredito que esse povo goste dessa sensação interminável de frustração e impotência.

Quando você sentir seu chão desabar, lembre-se desta informação importantíssima: pesquisadores britânicos calcularam o estado emocional de mil pessoas, convidaram psicólogos e afins para analisar os resultados e chegaram à misteriosa fórmula da felicidade.

Anote: F = P + 5E + 3A.

Entendeu? Não? Ok, vamos analisar a fórmula com cuidado.

F: Trata-se do nosso objetivo final, esse negócio que a gente teima em não encontrar (ou simplesmente nega sua presença). Precisa dizer mais?

P: É o seu lado pessoal, as características que formam sua personalidade e fazem com que você se adapte ao mundo e aos outros. Para aumentar esse valor, o segredo número um é se conhecer melhor. Quem é você? O que você acredita ser certo ou errado? Responda isso sempre que estiver perdido e vai saber exatamente quais são seus pontos fortes e fracos. Leia mais, vá ao cinema, procure se informar sobre assuntos que lhe interessam… Tudo isso vai te ajudar a dar respostas. Com isso em mente, concentre-se em seus valores. Isso vai refletir diretamente nas suas tarefas do dia-a-dia – é aquela velha história de fazer aquilo que nos faz bem.

E: Está ligado à sua existência e a forma como você se relaciona com o mundo. É o item mais importante dessa equação, por isso tem peso cinco. Aqui a chave está nos relacionamentos. Família, amizades, amores… Conviva com o maior número de pessoas, buscando harmonia e maior visão de mundo – abusando não apenas da sinceridade, mas também do “bom dia”, do “por favor” e do “obrigado”. Ninguém é igual a você, mas isso não impede que você compreenda e respeite o ponto de vista dos outros. Pode ser que, vez ou outra, você prefira ficar sozinho, com os seus problemas. Tudo bem, desde que você não se isole demais. O tempo passa, e a felicidade só existe no presente. Além disso, está para nascer aquele que consegue ser feliz sozinho.

A: Esse pode ser de auto-estima, mas é composto por toda sorte de coisas intangíveis, como expectativas, ambições, emoções em geral. Aqui, cabe um mantra precioso: problemas não são uma exclusividade sua. Todo mundo sente raiva, angústia, tristeza, insegurança… Mas nem todo mundo consegue identificar exatamente sua origem e se sentir bem. Especialmente quando o mundo estiver desabando. Nesse caso, saiba exatamente o que você quer da sua vida e o que realmente importa para você. Auto-estima também reside nos pequenos prazeres diários, coisas que estão sempre embaixo do nosso nariz: uma surpresa, um sabor, um olhar, um sorriso… Se conseguir absorver intensamente os detalhes, vai conseguir ainda comemorar as pequenas vitórias pessoais e, porque não, a vitória final após nosso empenho diante de um objetivo. Também é relevante para chegarmos à tal felicidade, por isso o item tem peso três.

Enfim, a equação parece simples, mas ninguém disse que é fácil. Felicidade não é palpável, por isso não é remédio, nem produto de consumo. No fim das contas, tudo aquilo que “devemos fazer” para ser feliz é ruim, afinal de contas, ninguém gosta de fazer algo por obrigação. A simples existência de uma equação pode ser um problema: na tentativa de igualar a felicidade a uma receita de bolo, a gente esquece de tentar coisas diferentes, limita-se a repetições para tentar os mesmos resultados… E a felicidade não se sustenta em rotinas enjoadas.

A felicidade é meu grande objetivo de vida, mas como diria Dona Milú, vai continuar sendo um mistério.

(Postado em 20/03/2006)

Consegui cancelar meu cartão de crédito!

Por Marmota | 22/07/2008, 23h51

- Boa tarde. Seja bem vindo ao atendimento Credebobo. Se você deseja estar informando a perda ou o roubo de seu cartão, disque zero. Para estar conversando com um de nossos atendentes, disque dois.
- (dois)
- Aguarde um momento, que iremos atendê-lo.
- (musiquinha durante cinco minutos)
- Credebobo, Suely, boa tarde, com quem eu estou falando?
- Oi, Suely, eu sou o André, e gostaria de cancelar o meu cartão de crédito.
- Perfeito. Senhor André, preciso estar confirmando algumas informações com o senhor. Qual a data do seu nascimento?
- É sete de maio de mil novescentos e setenta e sete.
- Obrigado por confirmar, senhor André. Aguarde um instante, vou transferir o senhor para o departamento do cartão gold.
- Ok.
- (musiquinha durante três minutos)
- Atendimento Credebobo, Pâmela, boa tarde, em que posso ajudá-lo?
- Oi, Pâmela, então, como eu dizia para a Suely, eu gostaria de cancelar o meu cartão de crédito gold.
- Entendo. Qual o nome do senhor mesmo?
- É André.
- Ah, sim. Senhor André, por questões de segurança, eu preciso confirmar alguns dados. Qual é o seu CPF?
- É duzentos e quatorze trezentos e cinquenta e nove quatrocentos e oitenta e três vinte e sete.
- Obrigado por confirmar, senhor André. Vamos estar transferindo o senhor para o nosso setor de relacionamento ao cliente.
- Tá, e isso demora muit…
- (musiquinha durante cinco minutos)
- Central de Relacionamento Credebobo, Jorge, boa tarde.
- Boas, Jorge. Tudo bem?
- Tudo, obrigado por perguntar. Com quem eu estou falando?
- Então, como eu falava para a Pâmela e para a Suely, eu me chamo André, e gostaria muito de cancelar meu cartão de crédito.
- Só um minuto, senhor André. Eu preciso confirmar uma informação, para efeito de segurança. Por favor, diga o número do seu RG.
- É vinte e sete trezentos e quarenta e nove oitocentos e quinze cinquenta e seis.
- Obrigado, senhor André. O senhor poderia estar me contando o motivo do cancelamento?
- Puxa, pensei que ninguém fosse me perguntar isso. É que eu pedi outro cartão equivalente, mas um daqueles com plano de acúmulo de pontos e vantagens. E eu não pretendo ficar com dois cartões, não preciso disso.
- Entendo. Esse outro cartão pertence a outra operadora?
- Não, e isso é muito engraçado… O cartão também é um Credebobo Gold, só que eu me informei há algumas semanas que, apesar de ter o mesmo nome, são empresas diferentes.
- Perfeitamente, senhor. Houve uma separação da empresa, uma parte pertence agora ao banco Citibost e outra ao Itacrú. E a carteira de clientes também foi dividida.
- É, achei curioso isso. Então eu peço um cartão novo e, de repente, fui informado que meu cartão Credebobo viraria Credebobo Bost, e pelo simples fato de ter dividido a clientela, isso não é uma simples troca de cartão, mas sim um contrato com uma empresa nova e o cancelamento com a velha. Eu, que sou um pobre cliente, não merercia essa dor de cabeça, o senhor não concorda?
- Entendo, senhor. Estou fazendo a verificação no sistema, e estou percebendo que o senhor também possui um plano de capitalização referente ao seu Credebobo Bost Gold.
- Sim, é verdade. E também já sei que, graças a essa separação bacana, eu não posso transferir esse plano para o meu outro cartão.
- Perfeitamente, senhor. Antes de estar procedendo o cancelamento, o senhor precisa estar resolvendo a situação do seu plano. Vou transferir o senhor para o setor de capitalização. Só um momento.
- Mas Jorge, depois eu volto a falar com voc…
- (musiquinha durante dois minutos)
- Credebobocap, Silvana, boa tarde, com quem eu falo?
- Oi Silvana, meu nome é André, e pretendo cancelar meu cartão de crédito Credebobo Gold. Mas para isso, eu preciso interromper meu plano de capitalização. Poderia fazer isso por mim, por gentileza?
- Ah, sim, senhor André. Antes de prosseguirmos, eu preciso confirmar com o senhor um negocinho. Qual é o nome da sua mãe?
- É Helena.
- Obrigado por confirmar, senhor André. O senhor deseja cancelar seu título de capitalização. Poderia me explicar o motivo exato?
- Então, Silvana, como te disse há alguns segundos atrás, eu pretendo cancelar meu cartão. Antes de tomar essa decisão, eu pensava que seria possível transferir esse plano para outro cartão Credebobo que pedi, mas descobri que não dá, porque meu cartão novo é do Itacrú, e esse velho é do Citibost.
- Sim, o senhor está certo. Bem, senhor André, de acordo com nosso sistema, o senhor pagou trinta e seis parcelas do plano de sessenta meses, portanto o senhor terá direito ao resgate de oitenta e dois porcento do valor total aplicado. O senhor confirma o resgate e o cancelamento do plano?
- Infelizmente, eu não tenho outra escolha a não ser deixar essa graninha extra com vocês.
- Entendo. Senhor, quando o senhor esteve começando com o plano Credebobocap, o senhor provavelmente tinha planos para estar usando esse dinheiro no futuro, não é mesmo?
- Bem, na verdade, eu só comprei esse plano porque alguém do telemarketing da Credebobo me ligou há uns três anos, num sábado pela manhã, falando que eu poderia economizar todo mês e ainda concorrer a prêmios. Queria desligar logo e autorizei a cobrança mensal na minha fatura. Se soubesse que cancelaria o cartão e perderia um pouquinho de dinheiro, jamais teria aceitado essa encrenca.
- Entendo, senhor. Mas o senhor tem algum sonho, não tem?
- Sim, todos temos sonhos. Mas o que isso tem a ver com o meu cancelamento do plano de capitalização de vocês?
- Então, senhor André, o senhor sabe que com o plano Vip Sessenta da Credebobocap, o senhor concorre todo mês a um fabuloso prêmio em dinheiro, e o senhor poderá realizar todos os seus sonhos!
- É, Silvana o seu nome, né?
- Sim, senhor.
- Silvana, você é solteira ou casada?
- Sou solteira, senhor.
- Pois é. A chance de eu ser sorteado com esse plano é a mesma de um sujeito milionário encontrar você na saída do seu trabalho e lhe dizer, Silvana, você é a mulher da minha vida. Quero me casar com você agora mesmo. Então, Silvana, o seu sonho, assim como o meu sonho, não dependem exatamente do seu plano de capitalização.
- Entendo, senhor. Vou estar providenciando o cancelamento do plano e o depósito do valor resgatado em sua conta corrente. Aguarde um momento, por favor.
- Obrigado, Silvana.
- (cinco minutos de silêncio)
- Mais um momento, senhor André.
- (seis minutos de silêncio)
- Por favor, senhor André, mais um instante.
- (quatro minutos de silêncio)
- Obrigado por aguardar, senhor André, e peço desculpas pela demora. Confirmando então o cancelamento do seu plano Vip Sessenta da Credebobocap e o depósito do valor de cento e duzentos cruzeiros na sua conta corrente. Algo mais?
- Legal, Silvana, agora eu gostaria que você me transferisse pro Jorge, do setor de relacionamentos, para eu tentar cancelar meu cartão.
- A Credebobocap agradece a sua ligação e está lhe desejando uma boa tarde.
- Pra você também, bom trab…
- (musiquinha durante dois minutos)
- Central de Relacionamento Credebobo, Pablo, boa tarde. Com quem estou falando?
- Oi, Pablo. Eu me chamo André, Como eu estava dizendo, quer dizer, como eu DISSE ao seu colega Jorge, eu gostaria de cancelar meu cartão de crédito. E já estou há uma meia hora no telefone, tempo suficiente para acabar com o meu plano de capitalização e conhecer a voz de umas três ou cinco pessoas.
- Entendo… Senhor André, o senhor poderia confirmar por gentileza o seu CEP?
- Ah, é pra minha segurança, né? É zero oitenta e dois quarenta e sete zero setenta.
- Obrigado, senhor André. Para nós, da Credebobo, é muito importante que o senhor esteja permanecendo conosco. Por isso gostaria de estar ouvindo do senhor os motivos do cancelamento.
- Então, Pablo, já contei essa historinha pro seu amigo Jorge e pra outra moça solteira, a Silvana. Mas tudo bem, eu conto pra você também. Ocorre que eu pedi um novo cartão Credebobo Gold, daqueles que somam pontos a cada pagamento. E eu imaginava que poderia substituir um pelo outro, com facilidade. Mas fui surpreendido por uma operação empresarial fascinante, que simplesmente separou os rebanhos de clientes em dois grupos, os do Citibost e os do Itacrú. E são dois grupos incompatíveis, praticamente concorrentes, apesar dos dois estamparem em seus cartões a marca da mesma empresa, Credebobo. É confuso, não acha?
- Entendo, senhor André. Pelo que estou verificando aqui, o senhor possui nosso Credebobo Bost Gold Masterplus desde noventa e seis…
- Sim, faz tempo. Ainda era o Credebobo universitário, um cartão azul bem mequetrefe. Mas graças a ele, fiz as minhas primeiras compras na Booknet, que hoje virou Submarino… Enfim, não sei se você lembra.
- Pois então, senhor André, o senhor pode estar usufruindo todas as vantagens de ser um cliente Credebobo Bost Gold, com descontos em inúmeros estabelecimentos, promoções espetaculares, além de serviços de crédito indispensáveis! Imagine, senhor André, o senhor vai levar mais dez anos para conseguir os mesmos benefícios usando seu novo cartão…
- Bom, Pablo, vou ser franco. Em dez anos, eu só usei meu cartão para concentrar despesas e pagar tudinho de uma vez no começo do mês. É uma necessidade particular, para controlar com mais facilidade as minhas contas, que nunca tiveram lá muito controle. Então, num belo dia, descobri que poderia ter um cartão que junta pontos, e só por isso decidi trocar. Não faz sentido pagar duas anuidades de dois cartões, só pra continuar usufruindo das suas vantagens bacanas, sabe?
- Entendo, senhor André… Mas se a motivação do senhor para estar possuindo um novo cartão foi a fidelização dos pontos, nós temos aqui o Credebobo Bost Cashcash, onde os pontos não correspondem a serviços específicos, mas sim a dinheiro vivo, em reais!
- Olha, Pablo, deixa eu te dizer outra vez, eu não preciso de dois cartões, eu…
- Desculpe interrompê-lo, senhor André, mas gostaria de lembrá-lo que, em nome da Credebobo, eu ressalto a importância de contar com o senhor como nosso cliente. E se o problema for, por exemplo, o valor da anuidade, podemos acertar um valor compatível com as suas despesas, para que na prática, o senhor pague uma quantia semelhante a de um cartão!
- Enfim, como eu estava te dizendo, eu não me importo com as suas vantagens, nem com o tempo que sou cliente. Eu até compreendo a sua atitude heróica em me convencer a ficar com o cartão, mas veja, não é como uma separação depois de dez anos casado. Não é pra ser assim, dolorido. Eu não tenho nenhuma queixa aos bons serviços prestados pela Credebobo, tanto é assim que, na minha ingenuidade, sem levar em conta a divisão da empresa, eu pedi um novo cartão que também traz a palavra Credebobo em cima.
- Eu entendo, senhor André. Agora, tudo que eu lhe peço é uma oportunidade para pensar a respeito das vantagens do cartão Credebobo Bost Gold Masterplus Cashcash, permaneça com ele, poderá ser útil…
- Pablo, eu estou tentando dizer que eu não preciso de dois cartões, como é que ele vai ser útil? Sem falar que, nesse mês, a fatura desse cartão velho já veio com a cobrança da primeira parcela de anuidade… Não tem mais tempo pra pensar…
- Senhor André, pense comigo. O senhor não usa o seu cartão para pagar contas diversas, como água, luz e telefone?
- Bom, na verdade, essas contas entram no débito automático, nem sabia que podia usar o cartão…
- Pois o senhor pode, e vou mais longe, pode ainda pagar qualquer boleto bancário usando o seu cartão, até mesmo a fatura do seu outro cartão!
- Como é? Pagar um cartão com outro?
- Isso! Se o senhor efetuar o pagamento do seu cartão Itacrú, que é de um banco, usando o do Citibost, por exemplo, o senhor recebe os pontos das vantagens do primeiro cartão, e ao mesmo tempo, recebe os pontos do segundo!
- Mas isso é… É… É ridículo!
- Não é, senhor André. Veja um exemplo. O senhor tem um cartão vencendo no dia cinco. Mas por algum motivo, não tem dinheiro para pagar a fatura. Você paga usando o seu outro cartão, que vence no dia vinte, por exemplo, pagando uma taxa de um virgula nove porcento por cada boleto, e tem mais tempo para pagar!
- A há! Então tem porcentagem quando eu pago um cartão com outro, então eu perco dinheiro!
- Não, senhor André, o senhor ganha! Pense comigo. Se o senhor não tivesse dinheiro, pagaria três virgula cinco porcento de juros por cada dia de atraso, mais os encargos. Usando o cartão Cashcash, o senhor paga apenas um virgula nove porcento, e ainda soma mais pontos para resgatar em dinheiro quando desejar. Pense, senhor André, é uma grande vantagem!
- Pablo, eu tenho que tirar o chapéu para você. Estou ao telefone há pelo menos uma hora, tentando um procedimento simples de cancelamento de cartão, e ainda não consegui. Mais do que isso, diante de todo o seu esforço, eu tinha era que continuar com ele e viver com dois cartões que fazem exatamente a mesma coisa, porque isso é muito legal. Parabéns, Pablo.
- Obrigado, senhor André.
- Parabéns, mesmo. Mas olha, você não está conseguindo fazer com que eu mude de idéia. Tudo bem, não é culpa sua. Por exemplo, em quem você vai votar?
- Eu? Bom, eu vou votar no Lula.
- Pois é, eu também. E boa parte dos brasileiros vão fazer o mesmo, e já decidiram isso há muito tempo. Agora imagine o Geraldo ao seu lado, conversando por uma, duas, cinco horas intermináveis, tentando convencer você das vantagens que ele apresenta, de como ele pode ser tão bom ou até melhor que o outro… Vai adiantar?
- Bem, eu…
- Eu digo pra você, Pablo. Não vai adiantar piciroca nenhuma, porque você já tomou a sua decisão. Já viu que o Geraldo é um banana, e que o Lula, por pior que seja, é melhor que ele. É igual com o meu cartão, Pablo. Quando eu pedi o novo, eu já tinha decidido cancelar o antigo. Minha decisão já estava tomada muito antes de pegar meu telefone do gancho há duas horas atrás e resolver esse problema. Enfim, eu preciso cuidar da minha vida, e você, provavelmente, precisa persuadir outros clientes, então que tal resolvermos isso agora de um jeito simples e rápido, hein? O que me diz?
- Bom, senhor André, já que a sua decisão de não estar fazendo mais parte da nossa família é definitiva, eu vou estar prosseguindo com o procedimento de cancelamento, o senhor confirma?
- Uffff… Confirmo.
- Obrigado, senhor André. Por gentileza, aguarde um momento. Permaneça na linha.
- (quatro minutos de silêncio)
- Mais um momento, senhor André. Por favor, não desligue.
- (dez minutos de silêncio)
- Por favor, senhor André, não desligue, eu insisto. Estamos providenciando o cancelamento.
- (doze minutos de silêncio)
- Obrigado por aguardar, senhor André. Sua solicitação de cancelamento foi aceita com sucesso. Algo mais?
- Puxa, é só isso? Acabou?
- Sim, senhor.
- Então tá, né? Acho que é só isso então.
- A Credebobo agradece o seu contato e está lhe desejando uma boa tarde.
- Pra você também, Pablo. Bom trabalho.

Vitória da teimosia diante da burocracia! O próximo passo é cancelar a linha telefônica extra que tenho em casa. Essa é mais difícil: preciso tirar cópias do RG e CIC originais, escrever uma carta de próprio punho explicando os motivos do cancelamento, enviar pelo correio (isso ainda existe) e aguardar por dez dias. Cancelar coisas assim devia ser fácil como comprá-las.

(Postado em 06/10/2006. Calhau em homenagem ao Doni)

Eiros, “istas”… Existe mesmo alguma diferença?

Por Marmota | 20/07/2008, 23h38

Tem horas em que me sinto um idiota. Tá, é verdade, é mais fácil calcular o tempo em que não me sinto um. Mas enfim, dependendo do assunto, a impressão é que meu grau de tolice é ainda maior. Vez ou outra, sou alçado a um debate sobre temas que não chegam a nenhum resultado valioso, só fazem espuma. Por exemplo: há meses, ouço falar em uma polêmica idiota entre duas atividades que desempenham o mesmo ofício. Imaginava que meu silêncio seria suficiente para não embarcar nessa ladainha, mas quando me dei conta lá estava eu agitando uma discussão sem fim, sem propósito.

Ora, sejamos francos: pra quê perder tempo elucubrando sobre o que faz um boleiro e um futebolista?

Então um dia alguém vindo de fora trouxe ao Brasil uma bola. Começou a chutá-la sozinho, tocou-a para um colega da rua… Outros começaram a vir, acharam aquilo muito divertido e começaram a jogar, ainda de um jeito despretensioso. Mais bolas chegavam, mais pessoas brincavam… Até que um grupo de boleiros decidiu chamar outro para uma partidinha mais séria. Estabeleceram regras entre eles, convidaram uma platéia e… Voilá, deram um pontapé certeiro em uma tal “profissionalização”.

Muitos anos se passaram. Jogar futebol tornou-se um ofício à medida em que uma estrutura se formou ao seu redor. Clubes, federações, campeonatos, regulamentos… Modelos de negócio fizeram do futebolista um profissional valorizado: venda de ingressos para campeonatos regulares, cotas de transmissão para TV e rádio…

Mas a bola é democrática. Qualquer um pode dar seus dribles a qualquer instante: em casa, sozinho, na parede suja do quintal; na rua, na praia, no sítio; pode armar dois ou três times, sendo que um fica “de próximo”; pode ser “gol a gol”, “três dentro três fora”, “bobinho”… Você mesmo pode aproveitar noventa minutos de sua vida e, com alguma disposição, fazer a mesma coisa que um jogador de futebol profissional faz: correr atrás da bola e ajudar seu time a fazer gols.

Quer dizer, “mesma coisa” é jeito de falar. Futebolistas profissionais cumprem rigorosas jornadas de treinos e concentrações. Passam os finais de semana a serviço de seus clubes ou seleções. São funcionários como em qualquer profissão. Mas um boleiro amador pode fazer uma vaquinha com os amigos e alugar uma quadra. Ou, se tiver habilidades suficientes com a pelota nos pés, pode pedir alguma colaboração aos seus espectadores ou mesmo descolar patrocínios. Da mesma forma, jogadores que se dedicam no dia-a-dia podem perfeitamente bater uma bolinha descompromissada num momento de relax.

Boleiros e futebolistas desempenham atividade semelhante, trabalham com o mesmo instrumento e sentem prazer diante dele. Boleiros amadores podem se tornar futebolistas profissionais, desde que se dediquem ao máximo e não desistam nunca. Mas não é preciso virar futebolista para ser feliz: até quem bate bola aos finais de semana podem ganhar reputação entre os conhecidos, ganhar medalhas, troféus ou mesmo uns trocados. Alguns bons jogadores, ao se aproximarem dos boleiros, podem servir de referência a estes, tornando-os mais hábeis e relevantes.

E como em qualquer área de conhecimento humano, é possível encontrar boleiros excepcionais com talento e capacidade muito superior a muito futebolista picareta. E vice-versa: quantos futebolistas gente boa e boleiros mascarados e egocêntricos você conhece?

Eu realmente me sinto um idiota, alimentando discussões estéreis sobre “boleiros que querem ocupar o lugar dos futebolistas”, ou “boleiros que precisam seguir as mesmas regras do futebolista”, ou pior: “boleiros podem juntar suas forças e derrubar qualquer futebolista metido a besta”. É tão fácil perceber o quanto somos livres para fazer o que quisermos com uma bola… Quer brincar em casa com o irmão? Quer fundar um clube ou uma associação? Quer ganhar dinheiro inflando suas habilidades parcas “caçando público” no meio da multidão? Quer ser apenas espectador diante de bons jogos? Odeia futebol e não quer nada disso? É um direito seu, e você é livre para se feliz com algo que gosta – até o instante em que você é contratado para jogar, e assim seguir determinadas regras. Simples assim.

Enfim, como ainda é possível compartilharmos momentos de pura limitação intelectual, ao participar de um embate enfadonho e repetitivo entre gêneros tão semelhantes? Chega de conversa fiada e vamos convidar mais gente pra bater bola.

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Em tempo: a Ceila conseguiu convidar muita gente boa para o Newscamp, que felizmente, não se limitaram a debates infrutíferos sobre boleiros e futebolistas, diplomados ou não. A avaliação final é realmente complexa: é possível aproveitar coisas boas e ruins em uma mistura de idéias, egos, filosofias e clichês variados. No fim das contas, o que fica das conversas muitas vezes rasas ou perdidas, são as boas relações com gente bacana.

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Uma última coisa: sou só eu ou mais alguém acha desnecessário quando um texto de blog recebe toneladas de comentários do tipo “excelente, genial, brilhante, perfeito, clap clap, parabéns…”? De tão inócuo, acaba tendo efeito semelhante a um “que lixo”, não?

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