quinta-feira, 29 de maio de 2008

Eu sou embromeiro

Nunca em tanto tempo eu senti tamanha necessidade em compartilhar com o mundo as minhas angústias procrastinadoras quanto agora. Devo ter uma legião de pessoas inconformadas com minha total ausência, seja um simples “recebi seus votos de feliz aniversário” ou mesmo perguntas mais elaboradas, destas que eu faço questão de dizer “pode deixar, te mando” e que acabam em algum cantinho dos itens recebidos.

Já está mais do que na hora de convocar os amigos e fundar, de uma vez por todas, o Clube dos Procrastinadores Anônimos, com direito a forte divulgação. Quem sabe semana que vem. Se bem que, nos poucos momentos de ócio cerebral, pintou uma idéia vagabunda a respeito da campanha: uma simples paródia a uma dessas insistentes propagandas de cerveja.

Foi a agência Africa, de Nizan Guanaes, que bolou coisículas como “zeca-feira”, “zeca-hora”, “zeca-cete” e agora “brahmeiro”. É aquele sujeito batalhador, que sai cedo para se matar no dia-a-dia e, antes de ir para casa, dá uma passadinha no boteco para tomar todas com moderação. Partindo da mesma definição – a de um brasileiro que tem fé na vida e não desiste nunca – não foi difícil chegar a um novo adjetivo, que pode ser usado como sinônimo de “procrastinador” de um jeito muito mais simples e claro: embromeiro.

Eu sou embromeiro. Ser embromeiro é ter milhares de planos, começar uns quinze deles e cumprir dois ou três. Ser embromeiro é trocar o que importante por inesperadas causas urgentes. Ser embromeiro é andar com smartphone mas lamentar os constantes atrasos da agenda. Ser embromeiro é descobrir que o dólar subiu, que o time perdeu ou que alguém morreu depois do amigo ter contado horas depois. Ser embromeiro é chegar em casa tarde, acreditar que pode resolver tudo amanhã e acordar mais cansado que na noite anterior. Ser embromeiro é imaginar como explicar o que é ser embromeiro e conseguir redigir poucas linhas apenas dias depois.

Eu tinha imaginado inclusive algumas sutis modificações no jingle original, cantado por Zeca Pagodinho, mas já dá pra imaginar: não tive tempo de pensar em nada brilhante. “De manhã cedo a preguiça… lá laiá la… eu vou trabalhar… Eu não consigo fazer nada… na na na na… tenho que adiar… E no final daquele dia… ô ô ô tchu-tchu-ru-ru… não deu mas de novo eu vou tentar… EU SÔ EMBROMEERO AMOOOR… EU SÔ EMBROMEEEEERO! Não-sei-o-quê não-sei-o-quê não-sei-o-quê eu sou brasileeero!”.

Tenho certeza que a campanha ficaria muito melhor com um modelo de camiseta personalizada, com pessoas comuns e seus rostos exaustos, diante do computador, olhando para o nada… Ou mesmo algum destes selinhos piscantes para enfeitar templates de blogs… Enfim, talvez eu consiga elaborar algo assim em breve.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Vai… Vai quem? Parte 6: cuide bem do seu ídolo

Eu poderia discorrer longos parágrafos sobre o eletrizante final de semana automobilístico e as duas mais tradicionais provas do mundo. Começando com o charmoso GP de Mônaco, onde a Ferrari fez Massa perder a chance de chegar ainda mais perto da liderança. Ainda viu Hamilton vencer e superar Raikkonen na classificação, além de aplaudir os dois primeiros pontos de Rubinho após longos meses de jejum (mas também, com tanto acidente…). Depois, as 500 Milhas de Indianápolis – que só fica boa nas voltas finais, ainda que a maioria dos brasileiros tenham ficado para trás.

Também poderia atender ao pedido da Tina e escrever um pouco mais sobre futebol. Mas ainda é cedo pra especular qualquer coisa. Tudo que podemos dizer é: no fim do ano, o Internacional poderá depender de uns seis pontos para conquistar o título, então vão lembrar das derrotas lamentáveis para Palmeiras e Flamengo. Ah sim, também dá pra garantir que o Corinthians vai subir com o pé nas costas – e se vencer o Sport na final da Copa do Brasil (vai, Sport!), terá uma nova chance na Libertadores antes mesmo do previsto.

Mas o domingo pertence a um outro personagem. Um jovem manezinho da ilha de Santa Catarina, que começou a jogar tênis graças ao incentivo de seu pai. Tinha oito anos de idade quando viu ele falecer. Levou mais seis para conhecer seu “segundo pai”: Larri Passos, que o levou ao profissionalismo no esporte em 1995.

Nos últimos dez anos, me arrisco a dizer que não houve atleta como Gustavo Kuerten. Quando conquistou o título de Roland Garros em 1997 aos 20 anos, vindo do qualifying e de maneira inesperada, ninguém jamais tinha ouvido seu nome antes. Ganhou capas de jornais, revistas semanais. Como qualquer candidato a ídolo no Brasil, recebeu do país aquela estranha expectativa de “ir além do que nós realmente podemos”, representado pela pressão por bons resultados.

Até o começo deste século, Guga conseguiu driblar o falatório dos corneteiros e algumas contusões. Entre 2000 e 2001, quando conquistou o Grand Slam francês outras duas vezes, conquistou o Masters de Lisboa e sagrou-se número um do mundo, estava em seu auge. Fenômeno que transbordou para fora das quadras: nunca se vendeu tanta bolinha, raquete, camisa… Nunca se viu tanta criança em escolinhas de tênis como naquela época.

Pude ver como a “Gugamania” mexeu com o tênis no Brasil por duas vezes, durante a mais vibrante competição do gênero: a Copa Davis. Em 2002, na repescagem entre Brasil x Canadá, a torcida carioca empurrou Guga e Meligeni nas duas primeiras partidas do Clube Marapendi; no sábado, em duplas, o catarinense jogou ao lado de André Sá e fecharam o confronto em 3 a 0. Era um ano complicado: após a primeira cirurgia, havia vencido apenas o Brasil Open, na Costa do Sauípe – ao contrário dos 11 nos dois anos anteriores.

Já nas quartas-de-final da Davis em 2001, Gustavo Kuerten estava em um momento bem melhor, e talvez por isso muito mais pressionado. O grandioso palco armado na avenida Beira-Mar, em Florianópolis, praticamente convidava o país a conferir a força de Guga e seus amigos a caminho da segunda semifinal consecutiva. E diante da Austrália, que havia massacrado o Brasil no ano anterior em Brisbane… Não tinha como perder.

Então Guga enfrentou Patrick Rafter, que desistiu contundido. Veio o Fininho, que como de praxe, lutou muito mas caiu. Foi contra Hewitt, que formou dupla com Rafter no sábado e não deu chances para Guga e Jaiminho (que, apesar de ser exímio duplista, infelizmente sacava mal pra burro). Para vencer o confronto, os brasileiros precisavam da vitória dos dois jogos no domingo. Guga levou dois sets ao tie-break, mas viu Lleyton Hewitt inspiradíssimo. O próprio australiano admitiu: “ainda bem que estava na casa do Guga: a pressão que ele sentiu me ajudou muito…”.

Foi um dos momentos ruins na carreira de Guga – a ponto dos brasileiros falarem coisas como “ih, esse aí não é de nada”. Calaram-se semanas depois, com o tri de Roland Garros. Mesmo na pior fase, conseguiu derrotar o imbatível Roger Federer em 2004 por 3 a 0. Em fevereiro, convidou aqueles que sempre o apoiaram para avisar: “não é que eu não queira jogar, eu até peço desculpas, mas é que realmente eu não consigo mais…”.

Enfim. Como qualquer um se diz jogador de futebol, é fácil revelar algum fenômeno ou mesmo escalar seleções de craques a qualquer época (dá até para enganar com algum perna-de-pau infiltrado). O crescimento do vôlei e nossa escola vencedora vem mantendo a excelência na quadra. Por outro lado, quando Senna morreu, ficamos ávidos por um novo fenômeno nas pistas – e ainda estamos até hoje. Nas piscinas, nos aparelhos de ginástica e em alguns ringues, temos a impressão que só um fenômeno pode nos salvar. Esperamos novos gugas surgirem espontaneamente para explorá-los até o limite. Então voltamos a nossa mediocridade de sempre, até alguém se dá conta: “não soubemos aproveitar melhor os nossos ídolos”.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Diálogos furtados na Guanabara

Rio de Janeiro

- Alô, Viva? Sou eu! Sim, estamos bem, curtindo uma refeição feliz num lugar muito romântico… O KFC do Largo do Machado!
- Romântico??? Bah.

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- Liguei pra Viva. Ela vai passar aqui na praia em poucos minutos.
- Mmmhhh… Vai só passar e dar um alô ou vai pegar a gente?
- Vai só dar um alô. Vai abrir os vidros do carro, passar a uns 60 por hora e abanar. Fica de olho, daqui a pouco ela aparece.

Rio de Janeiro

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- Então, como fazer para chegar ao Corcovado?
- A gente vai de ônibus, tem que descobrir aonde pegar o Coooooiiixxxmmmeeee Velho.
- Mas a gente precisa ir bem cedo.
- Tá. Podemos tomar café no Boooooiiibbbxxx.

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- André, faz a pose cliche de braços abertos na frente do Cristo…
- Pra qual lado? Aquele onde Didi Mocó escalou e se dependurou no braço da estátua?
- Não, aquele onde Roberto Carlos andou sobre a murada sem dublê…

Rio de Janeiro

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- Não-sei-o-quê, não-sei-o-quê… Copacabaaana…
- Puxa, você está há cinco minutos maltratando os versos de Dorival Caymmi… E já mudamos de praia!
- Ah, tá. Não-sei-o-quê, não-sei-o-quê… Ipaneeema…

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Rio de Janeiro

Na sexta-feira, tempo nublado:
- Ih, nem sei o que vieram fazer aqui. Vi que o final de semana inteiro vai ser de chuva…

No sábado, muito sol:
- Você é uma bruxa!

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Rio de Janeiro

- Você devia fazer um “Marmota Indica” do Bracarense…
- Ok. Os bolinhos de camarão estão ótimos, mas ainda estamos de pé…

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- Olha, os arcos da Lapa! E o bondinho!
- Quê??? É nesse negócio que você queria andar, ao lado daquela gente toda saindo pra fora, quase caindo??? Tá maluca???

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- Moço, adoraria trabalhar aqui nesse sebo! São tantos livros e prateleiras… Ficaria minha vida toda!
- Mas olha, cuidado, ela não preenche um dos requisitos pra trabalhar aqui: tem medo de gatos!

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- Puxa, nós compramos todas essas garrafas de água?
- Sim. Olhe: papai minalba, mamãe minalba e minalbinha!

Rio de Janeiro

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- Aqui no Rio Scenarium todo mundo é publicitario, jornalista… Menos eu, que sou formada em engenharia…
- Ah é? Pááá-rabéns!

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- Viva, não foi naquela avenida perto da sua casa que um sujeito levou um tiro na perna esses dias?
- Não. Foram dois tiros, na barriga e no peito. E foi ali mesmo, perto de onde vocês pegaram o táxi.

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Já estou com saudades do Rio… Quem sabe no próximo feriado? Se bem que… Xi, agora só no Natal.

Em tempo: não deixe de perder o LoveLive desta semana, gravado na antiga Capital Federal.

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