terça-feira, 29 de abril de 2008

Pantanal: como é voar num ônibus com asas

Pantanal

Se você gosta de viagens aéreas e sente prazer ao conhecer algo diferente e inusitado, considere a possibilidade de voar para qualquer destino oferecido pela Pantanal Linhas Aéreas. É muito interessante e divertido.

Mas vá depressa. Há poucas semanas, a empresa foi ameaçada pela Anac, já que não apresentou documentos que comprovem sua regularidade técnica e fiscal. A agência nacional chegou a marcar data do último vôo: 25 de março. Mas uma liminar mantém a empresa operando suas rotas normalmente: partido de Congonhas, é possível chegar a Marília, Araçatuba, Bauru e Presidente Prudente (SP); Juiz de Fora (é quase RJ, mas é MG) e Mucuri (BA, cidade cuja maior atração é a fábrica de papel ligada à Cia. Suzano). O fim segue próximo: a Trip Linhas Aéreas, de Campinas, está de olho nesse mercado e em pouco tempo deve comprar a simpática companhia, operando as rotas com modernos jatos da Embraer.

Enfim. Compre sua passagem e vá ao aeroporto. Se puder, com pouca bagagem. Tudo que levei para ficar dois dias no interior foi uma mochila de roupas… Que precisou ser despachada: ao contrário de qualquer companhia, o limite máximo a bordo é de apenas 5kg. Depois de etiquetar a bolsa, o atendente a colocou junto de outras, amontoadas bem ao seu lado. Não, não tem esteirinha para levá-las a lugar algum…

Os poucos passageiros do meu vôo tiveram que aguardar mais de uma hora em relação ao previsto. Mas assim que o vôo foi anunciado, foi rápido: todos embarcaram rapidamente no ônibus que nos levaria até a aeronave, posicionada num cantinho ermo de Congonhas. Aliás, todos couberam no mesmo ônibus! Eu nunca tinha visto um ATR42 tão de perto. É realmente pequenino e aconchegante. Para embarcar, foi só subir uns seis degraus da escadinha embutida na parte traseira. A primeira impressão é bem evidente: as 46 poltronas, duas de cada lado do corredor, definem o turbohélice como um ônibus alado.

Apenas duas comissárias nos acompanharam em todo o trajeto. Com as portas fechadas, os barulhentos motores iniciaram seu zumbido constante. Enquanto o aviãozinho se posicionava, uma das aeromoças recitou o procedimento de emergência, enquanto a outra ficou do lado oposto, como de praxe. “Essa aeronave tem janela de emergência na frente, além da porta. Aperte o cinto e leia o cartão. Boa viagem, e simbora!”. Ué, e a máscara? E os assentos flutuantes? E a versão em inglês?

Assim que o comandante anunciou o “tripulação, decolagem autorizada” e a aeronave acelerou na pista, meu cérebro disparou a melodia de Danúbio Azul. Isso porque a bichinha começou a dançar. Para a esquerda, para a direita… Como se quisesse pegar algum “embalo lateral” antes de subir. Vagarosamente, o turbohélice da Pantanal subiu. Por longos minutos, os passageiros tiveram uma bela paisagem: uma fina camada de nuvens contrastando com as fortes luzes da capital paulista em noite de lua cheia.

“Nosso tempo de vôo até Bauru será de 50 minutos”. Minha nossa, é o tempo que leva até o Rio, que fica uns 150km mais longe! Antes do serviço de bordo, ouvi as considerações do comandante. “Senhores passageiros, boa noite! Sejam bem vindos a bordo! Já atingimos nossa altitude de cruzeiro, que é de 18 mil pés, cerca de seis mil metros…”. Puxa, a metade da altura de um avião de grande porte! Era realmente um vôo panorâmico!

Finalmente, chegou a vez do serviço de bordo. O lanche estava ótimo, mas a minha mesinha tinha algum problema técnico: grossas camadas de fita crepe e algo parecido com massa epoxi simplesmente travaram a danada. Por sorte, não havia ninguém ao meu lado: pude usar a mesinha alheia. “Tripulação, preparar para o pouso. Aos que desembarcam em Presidente Prudente, garantimos que nossa escala em Bauru será muito breve”.

Dito e feito. A aeronave encostou no aeroporto, aguardou o desembarque e minutos depois, como se fosse uma simples escala rodoviária, seguiu viagem para o destino final. Mas olha, não foi fácil. Qualquer ventania externa faz com que o pequeno avião balance ao extremo, deslocando até sua própria alma. A noite lá fora dava tons ainda mais sombrios: o aeroporto de Bauru fica longe da cidade: tudo que se via era a pista iluminada, a torre de comando e, ao redor, um descampado a perder de vista.

A maioria dos passageiros desceu mesmo em Bauru. Sobraram poucos para a reta final, que durou mais meia horinha. O deslocamento foi extremamente sossegado, a ponto das comissárias se entocarem atrás para falar da vida. “Não sei o quê não sei o quê meu cabelo que eu modifiquei, não sei o quê não sei o quê meu namorado vai me pegar”… Essas coisinhas.

Não menos sossegado foi o pouso e o desembarque no modesto aeroporto estadual de Prudente. Só faltou pegar a mochila ali mesmo, sem esperar o carrinho despejá-las ao lado da porta… Mas tudo bem: deu tempo de me despedir das comissárias e de alguns passageiros: ainda que o vôo tivesse sido rápido, eram tão poucos que, no fim, parecia que todos se conheciam.

Atualizado – Antes de comentar, reflita sobre o que leu. Ou releia o texto antes de desabafar à toa. Em língua portuguesa, “aviãozinho” é o diminutivo de “avião” – e qualquer um que observasse o ATR o chamaria de “aviãozinho”, por ser um avião pequeno. Além disso, nas primeiras linhas, digo: “considere a possibilidade de andar num desses”. Ou seja, eu quero andar sim, e recomendo sem temor. Em nenhum momento desmereço o trabalho de ninguém, apenas relatei o que senti nessa experiência de forma descontraída – como qualquer passageiro leigo faria com um amigo. Se desejar seguir a linha de profissionais ligados à aviação, indignados com a minha arrogância, será mais um a fazer piada com seus clientes ignorantes. É essa a imagem que você deseja transmitir?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Desvendando o Internauta-padrão, parte 5: o reacionário

No livro “The Salmon of Doubt”, que traz uma coletânea de textos e pensamentos do genial escritor inglês Douglas Adams (famoso graças a sua “trilogia de cinco livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias), há uma explicação perfeita para a reação humana diante do novo.

Tradução livre: “Qualquer coisa que está no mundo quando você nasce é normal, corriqueiro, apenas uma parte natural de seu princípio de funcionamento. Qualquer coisa inventada entre os seus 15 e 35 anos é algo novo, excitante, revolucionário e que certamente você seguirá carreira. E qualquer coisa inventada após seus 35 anos vai contra a ordem natural das coisas”.

Generalizações à parte, Douglas Adams vislumbrou com exatidão como reagem boa parte dos usuários neste vasto mundo de informações. Pessoas que vieram ao mundo nos últimos doze anos não conhecem um mundo sem Internet, e certamente serão conduzidos por caminhos menos tortuosos em relação aos pioneiros – que mesmo nos dias de hoje ainda encontram obstáculos e conflitos éticos.

Outra leva de gente, acostumada com o antigo padrão de consumo midiático passivo, reagiu como se “tudo que existia em seu tempo era infinitamente melhor”.

Quem é o Internauta-padrão reacionário?

Então a linda mocinha decide fazer estripulias com o namorado na praia, sem saber que um paparazzo serelepe registrava tudo em vídeo. Graças à força da comunidade interligada, as imagens circularam a rede como rastilho de pólvora, de maneira incontrolável. Só que ao invés de comemorar o feito com os amigos, o namorado acionou a Justiça. Resultado: a sentença de Reacionário 2, baseada no pedido do Reacionário 1, mandou fechar o maior site de vídeos da Internet. Gênio.

Do outro lado do mundo, o cantor e compositor britânico Reacionário 3 desabafou. “Essa tecnologia toda é uma desgraça para a música. As pessoas se divertem em suas casas e criam suas composições sem uma visão consistente de futuro. E ainda publicam isso em blogs! Depois as pessoas decidem baixar as músicas ao invés de comprar CDs… Devíamos sair às ruas e marchar, protestar ao invés de ficar na frente do monitor! Vamos acabar com a Internet! Vamos recuperar nossas relações e acabar com a destruição da música! Vamos fechar a Internet por pelo menos cinco anos”. Outro gênio.

Voltando ao nosso país, o Congresso Nacional observa com muita atenção toda movimentação criminosa em todos os cantos, inclusive os virtuais. Pensando nisso, o senador Reacionário 4 teve uma idéia genial: seguir os passos da China, do Irã e de outros países com total liberdade de comunicação, exigindo identificação obrigatória de todo usuário da rede, além de armazenar todo o registro de acessos para eventuais checagens de ilegalidade.

Nada muito anormal, já que Arthur Virgílio, seu colega de bancada chegou a discutir na mesma época as ameaças de uma empresa contrária aos interesses da nação. Seria pertinente, não fosse apenas uma campanha publicitária disfarçada. O parlamentar caiu graças a uma notícia publicada sem a devida checagem pelo jornalista Reacionário 5. Ao invés de admitir a mancada, escreveu: “Uma brincadeira de mau gosto! Deviam tirar esse negócio do ar e pedir desculpas ao povo!”. Todos gênios.

Características do Internauta-padrão reacionário

- Como a própria palavra define, é contrário a tudo que rompe com a continuidade histórica de nossa sociedade.

- Assim sendo, é contrário a tudo que vai contra a “ordem natural das coisas” (Douglas Adams), isto é, o novo.

- Sendo contrário, reage com pulso firme, defendendo seus pensamentos com toda força possível.

- Entre as formas mais comuns de defesa, está o “você não sabe com quem está falando, tenho longos anos de experiência em…”, referindo-se a alguma função majoritariamente analógica.

- Normalmente, utiliza-se de idéias arcaicas, podendo culminar com extrema carga de preconceitos.

- Em grau máximo, defende a pena de morte, a tortura e a censura prévia. De qualquer coisa.

Eu sou um Internauta-padrão reacionário!!! E agora???

Resumidamente: se não há realmente a menor chance de absorver novas idéias, relaxe: existem pessoas como você por aí. Para encontrá-las, escreva milhares de cartas, envie para uma mala direta e aguarde respostas via correio. Em poucas semanas, você poderá reunir um grupo, elaborar um fanzine ou periódico, rodá-lo em uma máquina linotipo e executar um brilhante e truncado método de distribuição usando caminhonetes.

Mas antes, faça uma experiência: converse com seu filho adolescente, seu sobrinho precoce ou qualquer criança portadora de celular ou ipod. Deixe-os falar abertamente sobre seus hábitos de consumo, fontes primárias de conteúdo e interação em redes sociais. De repente, pode surgir uma louca vontade em converter seus CDs de música clássica em um único DVD ou Memory Card com arquivos MP3… Já é um bom começo.

Com um pouco mais de tempo, você pode encontrar alguma empresa engajada com as novas mídias, mas que ainda são obrigadas a executar planos e tarefas semelhantes às “do seu tempo”, em busca de resultados a curto prazo. Esta pode ser uma experiência reveladora: vivenciar um período em que parece possível implementar os mesmos modelos de negócio existentes fora da rede, e de repente, sentir o baque de uma provável quebra de paradigma. Quer melhor tratamento de choque?

Por fim, uma última obviedade: lembre-se de jamais subestimar a força da massa conectada antes de impôr qualquer definição ou regra.

Na parte 6: o scanner.

***

No último final de semana, uma iniciativa muito bacana agitou a rede: o Movimento Blog Voluntário contou com 470 participações: cada um deu sua contribuição aos usuários iniciantes, com dicas e informações preciosas aos marinheiros de primeira viagem. Dê uma passada no Technorati e confira algumas delas.

Ainda que eu tenha perdido o prazo para inscrição, fica o recado: se você conhece alguém que pode vir a ser um potencial Internauta-padrão, recomende este ou mesmo algum dos textos anteriores:

- Parte 1: o Internauta-padrão crente

- Parte 2: o Internauta-padrão plagiador
- Parte 3: o Internauta-padrão estrela
- Parte 4: o Internauta-padrão justiceiro

domingo, 27 de abril de 2008

Vai, Rubinho, parte 4: nova dobradinha vermelha

Nos últimos dias, Rubens Barrichello voltou ao noticiário internacional. O brasileiro recebeu convite da Andretti Green para disputar a Indy em 2009. Seria uma troca com Marco Andretti, que iria para a Fórmula 1. Rubinho já negou a história, sonhando em contabilizar 300 GPs em sua atual categoria.

No lugar dele, talvez pensaria de novo. Mais uma vez, o brasileiro da Honda passou em branco, abandonando a prova de Barcelona sem marcar ponto algum… O mais engraçado é que, tanto ele quanto os demais pilotos, passam a pré-temporada inteira dando voltas no circuito da Catalunha…

O mesmo pode-se dizer sobre Nelsinho. O que foi aquele choque com o Sebastien Bourdais, logo depois de sair da pista? Francamente. Enfim, ao menos Fernando Alonso, o queridinho dos espanhóis, também se deu mal… Foi inteligente ao colocar menos combustível no treino classificatório e fez a festa em casa largando em segundo lugar. Mas já na primeira curva, Felipe Massa tratou de garantir seu lugar no pódio. Ah, se ele tivesse pontuado na Malásia…

Pela dobradinha da Ferrari na Espanha, dá até pra apostar que a dupla “bebum” e “zacarias” irá polarizar a temporada. Nem mesmo “robinho”, que chegou em terceiro A propósito, essa é a deixa para a nota preocupante do domingo: seu colega de McLaren Heikki Kovalainen protagonizou o acidente mais feio de 2008, batendo de frente na proteção de pneus. Felizmente, os tempos são outros: a pancada foi forte, mas ele nada sofreu.

(Para acompanhar e entender de verdade o mundo do automobilismo, leia a Bárbara Franzin, o Ivan Capelli, o Livio Oricchio, o Fábio Seixas e o Flávio Gomes).

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