quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Táubua! Táubua! (Ou: histórias estudantis)

Não tenho dúvida: toda sala de aula nesse país deve ter algum grito recorrente, que identifique a turma, tornando-a única. Na minha faculdade de jornalismo, por exemplo, as pessoas gritavam “Ralf! Ralf!” na chamada, quando nosso colega homônimo era acionado.

Na mesma época, em uma cidade mais afastada, um enngenheiro civil ministrava aulas de física para uma turma de segundo ano do nível médio. Invariavelmente, em todo exercício envolvendo leis de mecânica, dizia:

- Imagine uma superfície plana. Uma táubua.

A turma não perdoava. Todos gritavam, em uníssono, socando o ar: “Táubua! Táubua!”.

O mais impressionante é que o professor nunca se dava conta, e continuava errando… Provavelmente, até hoje este cidadão deve falar em “táubua” por aí.

Enfim, essa história lembra uma antiga idéia: começar um blog reunindo histórias absurdas e hilariantes envolvendo professores e alunos. Deve sair junto com o meu podcast, meu blog paraquedista para ganhar dinheiro e o estatuto do Clube dos Procrastinadores Anônimos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O taurino na festa da aquariana

Quem visita este blog com alguma frequência já conhece a minha reação adversa com as pessoas de Aquário. Especialmente as moças, em função de alguns relacionamentos que não deram certo. Claro, nada demais: conheço muita gente nascida sob este signo – aliás, este post não deixa de ser uma homenagem aos visitantes aquarianos, já que todos comemoram seus aniversários nesses dias.

Enfim, de tão fascinado que sou por essa estranha diferença das aquarianas – que só os taurinos enxergam, não pude deixar de reparar nesses detalhes na festa de uma grande amiga, há pouco tempo.

Na chegada:
Ela – Oiii!! Ué, não vi você chegar…
(Aquarianas estão sempre ligadas em seu grande universo, mas ao mesmo tempo aparentam viver no mundo da lua).

Ele – Pois é, desculpe a demora. Estava trabalhando.
(Taurinos podem até perder horas de diversão, mas não dispensa a sua rotina diária. Além disso, são lentos).

Sobre o local:
Ela – Então, gostou daqui? Repara nos motivos ligados a cultura dos Maias…
(Aquarianas detestam o lugar comum. Criatividade não lhe falta, concedendo até um ar de excentricidade).
Ele – É, bacaninha. Vamos sentar ali?
(Taurinos preferem as mesmas coisas de sempre, de preferência um ambiente confortável. E são perigosamente sinceros).

O presente:
Ele – Aqui está. Tomara que você não ache ruim…
(Taurinos são demasiadamente modestos. Mas dificilmente seu bom gosto lhe deixa na mão).

Ela – Nossa, é a sua cara! Você sempre me surpreende…
(Aquarianas são imprevisíveis. Logo, faça você também o impensável para agradá-las: você nunca vai ficar na mão!).

O bate-papo:
Ela – Vamos comigo neste sábado na passeata contra a guerra? Eu vou fazer a minha parte, claro!
(Aquarianas são líderes formidáveis, humanitarismo e solidariedade são adjetivos que deviam vir no sobrenome delas).
Ele – Hmmm… Logo na minha folga sagrada? Não sei, não…
(Taurinos, além de lentos, são os seres mais preguiçosos da face da terra… É preciso um grande motivo para que eles se movam).

Na pista de dança:
Ela pouco fala e vai abrindo espaço, dançando levemente

(Aquarianas prezam a liberdade e a independência. Se pudessem, viveriam apenas sob suas próprias regras).
Ele – Minha nossa! Essa música é de 98, lembro que tocava nas rádios ná época que nos conhecemos… Lembra daquela vez que você insistiu para que eu fosse logo te pegar para sair, ver aquele filme do Brad Pitt no Tibet…
(Taurinos preservam tudo que possa lhe trazer lembranças. Muitas delas inúteis, algumas negativas – o que os deixam um tanto rancorosos).

No caixa:
Ela – Reparou que o seu convite é vip? Only for very important people!
(Aquarianas valorizam demais todas as suas amizades. Mais até que os namorados – que no fundo, precisam ser, antes de tudo, bons amigos. Daqueles que adoram conversar. E ouvir).
Ele agradece, a abraça e lhe dá um beijo na face
(Taurinos acumulam defeitos, mas sempre demonstram gratidão, independente do gesto feito por outra pessoa).

Na saída:

Ela – Ok, vamos embora.
(Aquarianas são convictas em seus pensamentos, mas absolutamente instáveis em seu comportamento).
Ele – Espere, você aceita um convite meu para um pit-stop na lanchonete?
(Taurinos só pensam em comer. Bando de gente gulosa).

No fim da noite:
Ele – A festa estava ótima, viu? E vê se não some!
(Taurinos gostam de aquarianas. Só tem medo daquilo que não conhecem bem…).
Ela – Tudo bem…
(Aquarianas estão nitidamente ao seu lado, mas vez ou outra parecem que estão pairando no ar).

A despedida:

Ele – Tsc, tsc, tsc… Você não mudou nada, né?
Ela – É… Você também não…
(Taurinos e aquarianas são inflexíveis, podem passar a vida inteira dizendo que são diferentes uns dos outros. Dois teimosos, que preferem deixar tudo como está).

Duas criaturas estranhas, não acham? Mas ao mesmo tempo bem bacanas.

(Postado em 20/02/2003)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Namoro em estado de choque

De uns anos pra cá, passei a questionar veementemente os relacionamentos à distância. Entendo que os laços ficaram mais estreitos graças à rede e os computadores… Mas entre trocar bits e fluidos, ainda prefiro o segundo. Muitas vezes, o preço de um rótulo com os dizeres “comprometidos” nas testas do casal é bem elevado. São comuns histórias envolvendo tropeços na falta de convivência, em algumas mentirinhas ou omissões, e até mesmo incidentes nos deslocamentos – responsáveis pelos poucos momentos efetivamente juntos.

Mas até agora, não tinha ouvido nada parecido com o que um amigo contou recentemente. Ele estava voltando do interior de São Paulo quando um rapaz, completamente exausto, perguntou: “me diga, da Barra Funda até o Tietê… É difícil chegar á pé?”. A resposta veio acompanhada de uma testa franzida e olhar desconfiado: a caminhada, além de grotesca, é desnecessária, graças ao Metrô.

Por mais idiota que a pergunta se pareça, meu amigo logo perceberia que ela não veio à toa. O rapaz esbaforido, engenheiro, conheceu a moça, também engenheira, num desses fóruns web totalmente profissionais. Trocaram e-mails, telefones, endereços e, depois de algumas semanas, carícias e afins: ela, que vive no interior paulista, foi visitá-lo no Rio de Janeiro. Exatos 800 quilômetros. E não há ônibus direto: São Paulo era escala obrigatória.

Seria o segundo passeio de mãos dadas entre os engenheiros enamorados. Desta vez, era ele que percorreria a via-crucis. A menina, certamente com pena do rapaz, combinou um ponto de encontro mais fácil: a rodoviária de uma cidade entre São Paulo e a casa dela. Uma excelente idéia, mas que se revelaria trágica: ao desembarcar, ele simplesmente não a encontrou lá.

Dezenas de ligações para o celular da amada (o único número que dispunha), que caiam insistentemente na caixa postal. Num cybercafé, tratou de buscar o sobrenome dela na lista de assinantes. Foram mais seis ou nove telefonemas, até encontrar a residência dela. Alguém atendeu, ainda mais preocupado: a moça realmente havia sumido do mapa.

Nosso herói apaixonado tratou de viajar para a cidade de sua donzela em perigo. O calor da tarde só aumentava seu nervosismo e preocupação. Horas mais tarde, munido de um papel com o endereço anotado, pegou um táxi até a casa dos futuros sogros. Portões trancados, janelas fechadas. Campainha, palmas… Nada. Um vizinho apareceu, dizendo: “acabaram de sair, e estavam com muita pressa!”.

Todos os sentimentos derivados da frustração, do desânimo e do desespero se misturaram ferozmente. Mas se acalmaram antes do sol se pôr, com um toque em seu celular. Era o número da namorada. Alegria! Ela estaria bem, afinal!

“Alô, pois não? Qual sua graça? Ah, sim, e o que o senhor é da senhorita Barroso? Positivo, senhor. Eu sou o Sargento Mococa, aqui da Equipe da Polícia Rodoviária Federal da 7ª Delegacia de Jaboticabal. Encontramos o seu número entre as chamadas recebidas pela senhorita Barroso nas últimas horas”, anunciou, contando toda a história.

Ela estava a caminho da tal rodoviária, quando um dos pneus de seu carro furou. Subitamente, dois sujeitos apareceram e ajudaram-na com o macaco e o estepe. Porém, com segundas intenções: com o veículo em ordem, os cabras anunciaram um sequestro. Rodaram com ela pelas estradas paulistas, em busca de um caixa eletrônico e todo o dinheiro que pudessem roubar. Largaram-na sem o carro, justamente em Jaboticabal – local que, diga-se, nada tinha a ver com a história.

Enfim, soube que ela estava internada na Santa Casa, em estado de choque. Sem pensar duas vezes, pegou o último ônibus para Jaboticabal para saciar de uma vez por todas sua inquietação. Pensava que todo o castigo já havia acabado… Não é preciso imaginar como ele ficou ao saber que nada daquilo havia adiantado: pouco tempo antes de chegar no hospital, a engenheira da Internet já tinha recebido alta.

Gargalhadas. Chutes no poste. Socos nas paredes. Lágrimas. E mais gargalhadas. Tudo o que ele precisava naquele instante eram poucas horas de sono e um caixa eletrônico para garantir uma volta tranquila. Acredite: seu nervosismo era tamanho que, ao tentar sacar alguns trocados, conseguiu digitar errado sua senha. Três vezes. Perdeu, preibói. Cartão bloqueado.

Com os poucos caraminguás em seu bolso, comprou uma passagem para São Paulo. Tinha o suficiente para chegar ao Rio, mas para isso, teria que ir a pé do Terminal Barra Funda, onde chegaria, até o Tietê, de onde saem os ônibus para a capital fluminense. Comovido com esse relato inacreditável, meu amigo fez questão de pagar um bilhete de Metrô, com sinceros votos de melhor sorte da próxima vez.

Tanto quem contou este causo quanto outros da mesa, que também ouviram, mostraram uma esperada face embasbacada… Só que foram complacentes ao comentar a história. “Tem coisas que dariam um filme… Mas são coisas da vida, acontecem…”. Pois eu tenho absoluta certeza que a culpa é da distância: se os engenheiros morassem na mesma cidade, isso jamais aconteceria.

Tudo bem, haveriam outros problemas, admito. Mas esse não.

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