Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: novembro/2007

Por que eu ainda insisto em participar desses encontros envolvendo gente que escreve você sabe o quê

Por Marmota | 30/11/2007, 23h59

Aviso importante ao meu “público-alvo”: sei que você odeia textos metalinguísticos que trazem essa estranha mistura de “Amaury Jr”, “Bloomberg” e “Fala que eu te escuto”. Por isso, segurei esse relato para um dia com pouco movimento. Torço para que você esteja aproveitando bem o seu final de semana. Assim, quando você voltar por aqui, nossa programação voltará ao normal. Fique com o meu forte abraço.

Quando decidiu voltar do exterior, André Avorio trouxe muito mais do que roupa suja na bagagem. Resumidamente, é como se ele tivesse entrado numa lojinha, descoberto um produto muito bacana e pensado: “cara, esse negócio funcionaria perfeitamente no Brasil”. Tratou de entender como funciona, empacotar, despachar e distribuir nos arredores de sua casa, em Florianópolis. Da ilha catarinense, o negócio chegou a grandes centros do país, como Porto Alegre e São Paulo. Há poucos dias, foi a vez do Rio de Janeiro conhecer “esse bagulho que o Avorio trouxe de Amsterdã”.

O tal “bagulho” é um simples modelo de desconferência. Gente interessada em trocar idéias afins num ambiente sem palestrantes pré-definidos, mas que precisa ser devidamente mapeado e organizado. Parecia inofensivo na primeira vez que provei. Até que eu me peguei no aeroporto de Guarulhos, às seis e pouco da manhã em pleno domingo, embarcando para mais uma distribuição de idéias promovida pelo Avorio e seus amigos. Parti para o bate-volta mesmo imaginando como seria horrível voltar no mesmo dia, ainda mais se a Infraero ignorar os passageiros (como vem fazendo), inventar qualquer desculpinha e fazer com que um vôo previsto para as 22h45 saia apenas às três da madrugada. Como de fato aconteceu.

Pois nada disso importava. Por culpa do André Avorio, descobri que me tornei um viciado em Barcamp, além da variação específica aquele tipo de site com formato simples, que exibem textos em ordem decrescente de data. Um encontro parecido acontece neste sábado, em Curitiba. E apesar de ter voltado da Cidade Maravilhosa com um “belém belém barcamp só no ano que vem”, decidi experimentar outra vez. Mas sem os percalços da aviação civil: os mesmos 400km que separam o destino (só que no sentido sul) serão percorridos num ônibus.

Já tentei refletir nas razões que me fizeram sair de casa nessas condições. Contribuem para essa reflexão a sequência de opiniões negativas sobre eventos do gênero. Apesar das boas intenções, os tais encontros reúnem toda sorte de palpites e devaneios (o que significa, por exemplo, “crise existencial da web 2.0″?). E mesmo durante apresentações mais interessantes e produtivas, misteriosamente aparece algum gaiato destrinchando técnicas de monetização ou métodos infalíveis para acumular leitores. Não há nada de mal em transformar seus espaços em “veículos de massa”, mas a coisa parece feia quando a filosofia da “fama e dinheiro” é adotada por uma quantidade exagerada de mentes medíocres – todas candidatas a miss Cangaíba.

Claro que essas coisas acontecem, mas entre tanta gente que se leva a sério demais, estão outros viciados evangelizados pelo Avorio – como o Fugita e o Tonobohn. No fundo, talvez entorpecido com o sistema de desconferência, minha alucinação faz com que acredite em uma comunicação descentralizada e democrática, onde a colaboração e cooperação entre cabeças independentes ocorra naturalmente.

Além disso, em que outro lugar é possível conversar sobre temas recorrentes a nossa profissão com Raphael, por exemplo? E comer um PF num boteco ao lado do Sérgio F. Lima e o Rafael Silva, e horas depois deixar todas as minhas economias nas mãos do Romullo Pontes? E neste sábado, qual será a minha reação ao rever a Gisele Honscha e conhecer a Fabiane Lima? Vou mais longe: o que teria sido da discutível declaração do Ian a meu respeito se eu estivesse em Belo Horizonte esses dias?

Pois bem, o que faz com que eu insista com esses encontros? As pessoas. Simples assim.

Paulo Leminski oculto

Por Marmota | 29/11/2007, 23h55

Parada Cardíaca

Essa minha secura
Essa falta de sentimento
Não tem ninguém que segure
Vem de dentro

Vem da zona escura
Donde vem o que sinto
Sinto muito
Sentir é muito lento

O poema acima representa uma gota d’água diante do oceano produzido por Paulo Leminski. Reconhecido como um dos escritores mais importantes do país – e verdadeiro ícone da capital paranaense, o ‘poeta marginal de Curitiba’, falecido em 1989, deixou sua marca em crônicas, prosas, ensaios, novelas, quadrinhos, letras de música, roteiros para cinema… E até poesias.

Pois acredite: a figura de Paulo Leminski surgiu durante uma visita ao Espaço Cultural Frans Krajcberg, no Jardim Botânico. Em meio a esculturas de cipós e troncos de madeira queimada – um verdadeiro clamor em favor da preservação da natureza, algumas fotografias de áreas devastadas, entre elas a que está reproduzida abaixo.

Agora repita a sugestão do guia turístico Fernando e observe atentamente a foto. Com pouco esforço, é possível enxergar Paulo Leminski, atrás da arvorezinha central, erguendo seu braço esquerdo.

Conseguiu? Não? Bom, talvez seja mais fácil observar o meu reflexo ao fundo…

(Postado em 28/04/2004. E neste fim de semana, tem mais Curitiba.)

Profecia alvinegra

Por Marmota | 28/11/2007, 23h51

Você pode não acreditar, mas as palavras a seguir foram registradas há quase dois meses, logo após a vitória corintiana por 1 a 0 no clássico diante do São Paulo. Proferidas pelo meu amigo Cassio.

“O Corinthians vai cair para a segunda divisão, e o roteiro está muito bem definido. O time não só vai tropeçar nos jogos fora como vai perder pontos em casa”.

Dito e feito. O empate com Inter e Atlético-PR no Pacaembu, além das derrotas para Náutico e Flamengo fora de casa, deixaram-no ainda mais confiante em sua visão.

“Estou falando, o Corinthians é um time limitado, e vai perder pontos importantes. Olha só: vão empatar com o Goiás no Serra Dourada e ficar com aquela esperança de que vai se salvar. Só que aí vão empatar de novo, com o Vasco. Aí, na última rodada, vai pegar o Grêmio no Olímpico, louco pela Libertadores. Se depender desse jogo, já era”.

Devia ter publicado isso há mais tempo, logo depois do pênalti defendido pelo Felipe em Goiânia, mas enfim. Ainda dá tempo de concordar, especialmente após o alvinegro do Parque São Jorge ter perdido para os cariocas, mesmo com o Pacaembu lotado e animado.

Vou mais longe: na última rodada o Inter vai vingar 2005, dando uma força para o Goiás. Então continuaremos com quatro grandes clubes paulistas na primeira divisão: São Paulo, Palmeiras, Santos e Portuguesa.

Bombeiro incompetente

Por Marmota | 27/11/2007, 23h55

Toda vez que encontro notícias e sites novos, recebo e-mails, ou mesmo quando as idéias para este espaço surgem do nada, recorto e guardo num arquivo texto do meu computador – minha gaveta. Está entupida, com coisas do ano passado, que não sei se ainda vou usar.

Fecho a gaveta e dou de cara com as minhas cento e poucas mensagens na caixa de entrada. Muitas merecem respostas elaboradas. Outras começam com “faça isso, por favor”. Começo a responder a primeira, mas o telefone me interrompe. Minutos depois, alguém grita meu nome: “preciso da sua ajuda”. Ainda ouço coisas como “por que não fizeram o que pedi ontem?”.

Difícil priorizar tudo. A minha volta, percebo que todos tem a mesma dificuldade. Estou cercado por bombeiros egocêntricos, meros apagadores de incêndio preocupados apenas com os seus problemas. Todos querem ajuda, mas não sobra tempo para ajudar ninguém. Ou talvez estejam com preguiça, vai saber.

São horas recheadas de preocupações intermináveis. Quando uma se resolve, aparecem outras dez. E depois de partir pra outra, alguém me avisa: “isso que você acabou de fazer está errado”. Num relance, observo uns e outros indiferentes, acham que está tudo normal. Também tem aqueles que cansaram de se preocupar, resolvem sua vida e exterminam qualquer mal-estar com uma palavrinha mágica: “foda-se”.

Respiro fundo e fecho os olhos, alívio imediato. Em poucos instantes, amigos, família, namorada… Todas as pessoas que fizeram e ainda fazem parte da minha vida, pedindo ao menos um minuto da minha atenção para saber se está tudo bem. E pensar que só posso ver (ver?) muitos deles por e-mail. Paciência. Levanto da cadeira e vou tomar um café.

Ainda com o copo na mão, tento armar minha listinha de prioridades. Chega mais um e-mail importante, outro link engraçado via messenger. Reparo que tem a ver com um livro bacana, que ainda não terminei. Bom, ao menos este eu comecei – tem dezenas deles na estante, esperando por um leitor disponível. Deve ser a mesma sensação daqueles CDs empoeirados, ou daquelas fitas VHS-C esperando por uma carinhosa edição não-linear.

Não há tempo para pensar neles. Surgem novos pedidos, ouço novas reclamações. Também recebo convites interessantes, que serão aceitos com alegria. Claro, se não estiver trabalhando. Dedicando meu tempo para uma infinidade de coisas que parecem não se resolver nunca. E essa droga de café fica intragável quando está frio.

Por que diabos tinha que viver justamente na tal “sociedade da informação”, onde somos obrigados a processar um volume gigantesco de coisas em minutos? Obrigação que me transforma em mais um desses bombeiros incompetentes – não faço a metade do que gostaria, e o que faço não está bem feito? Constatação que amplifica todas as minhas frustrações pessoais e deixa com uma esta terrível sensação de mau humor?

Mas não é só mau humor. É tristeza, indisposição, estafa… Tudo junto. Será doença típica de final de ano, quando parece que tudo se acumula? Pode ser apenas tontura, já que o mundo gira depressa demais. Bom seria se pudesse saltar fora, deixar tudo rodando aqui dentro e ficar deitado na beira da praia, até a coisa ruim passar.

Ou simplesmente levantar a cabeça, encarar um dia após o outro e esperar pacientemente pelo final de dezembro. Afinal, é nessa época que costumamos dizer: ano que vem vai ser melhor.

Tomara. Espero que sobre tempo ao menos para esvaziar a gaveta.

(Postado em 28/11/2003. Não mudou muita coisa.)

Sobre a Associação dos Indignados Temporários

Por Marmota | 26/11/2007, 23h51

No começo do ano, descobri um excêntrico grupo de pessoas. Dezenas delas, que se reúnem num canto da cidade para compartilhar suas impressões cotidianas. Na minha primeira visita, o bafafá era grande.

- Gente, não me conformo com essa cratera em Pinheiros. Uma barbaridade.
- É impressionante. Estão gastando nosso dinheiro com obras de segunda mão.
- E pior: só vão entregar essa obra na véspera da eleição… Vê se pode!
- Onde é que esse país vai parar, Deus do céu? E as famílias desabrigadas? Pobre gente.
- É, a minha ex-namorada trabalha no prédio da Abril, ali na frente…
- Sério? Puxa, mas ela está bem?
- Infelizmente. Devia ter caído no buraco, aquela vagabunda…
- É isso aí. Morte às ex-namoradas! Iiiiééééhhh!!!

Fiquei com a impressão de ter ouvido o tal grito estridente até o encontro seguinte, em fevereiro.

- Gente, de verdade, não tem como não ficar indignado com essa história do João Hélio.
- Impressionante, moçada. A violência chegou a um ponto em que nem dá vontade de sair pra rua.
- E quer saber mais? Qualquer um de nós está sujeito a um sequestro-relâmpago.
- Ai, meu Deus do céu… Onde é que esse país vai parar, hein? Francamente? E a família do menino…
- Cara, na boa. Por que é que não pegam essa gente e…
- Nem precisa completar. Deviam fazer isso mesmo, aqueles vagabundos.
- É isso aí. Morte aos bandidos vagabundos!!! Iiiiééééhhh!!!

Ainda com medo daquela segunda manifestação efusiva, preferi voltar só em agosto.

- Olha, gente… Eu não em conformo com essa palhaçada que provocou o acidente com o avião da TAM.
- Impressionante, né? Essa Infraero tá uma tremenda esculhambação.
- Vou mais longe: nunca mais coloco os pés naquela espelunca de aeroporto.
- Mas onde é que esse mundo vai parar, minha Nossa Senhora… E as famílias… Deus nos defenda. As famílias!!!
- Meu, deviam privatizar toda essa estrutura e mandar embora aqueles controladores incompetentes.
- Verdade. Podiam mandar embora todos esses incompetentes que atravancam nossa aviação.
- Deviam mandar eles é pra outro lugar!!!
- Issaê. Morte aos burocratas atrasados!!! Iiiiééééhhh!!!

Perdi o encontro de setembro, mas em outubro eles continuavam repercutindo o mesmo assunto.

- Moçada, ainda não consegui engolir… Como é que aqueles pilantras absolveram o Renan? Me diz!
- Definitivamente, não existem mais políticos de caráter naquele congresso…
- Mas onde é que esse mundo vai parar, Deus do céu… Enquanto isso, tantas famílias passando fome, na miséria…
- Então, lembra da minha ex-namorada, aquela da Abril? então, ela se mudou pra Brasília.
- Nossa, mas foi fazer o quê? Trabalhar?
- Que nada. Ela quer é seguir os passos da ex-jornalista e se dar bem lá, aquela vaca.
- Muito bem. Morte aos ladrões de dinheiro público e as safadas!!! Iiiiééééhhh!!!

Enfim, essa semana o pessoal marcou o penúltimo encontro do ano.

- Olha, patota, estou enojado com a pobre moça do Pará, enclausurada com um bando de selvagens em uma cela.
- Ah, mas aquilo é uma falta de respeito ao ser humano. Então nos transformamos em animais agora? Que é isso.
- Jesus amado… Mas onde vamos parar com essa pouca vergonha??? Ai, nem quero pensar na família daquela jovem… A família, Deus do céu!!!

Enfim, depois de quase um ano frequentando a associação, decidi levantar a mão, antes que começassem a gritar e falar em matar alguém.

- Pois é, turma. É uma inversão de valores, como foi com o João Hélio, lembram?

Silêncio na sala. Até que um deles pergunta:

- Quem?

Estranhei aquela pausa sepulcral, mas tratei de refrescar a memória deles.

- O menino, que foi arrastado pelas ruas do Rio… Ah, foi no começo do ano, lembram?
- Aaaaaahhhh – responderam, em coro.
- Mas isso não é exclusividade nossa. Tão chocante é a repressão aos monges do Mianmar, um país em estado permanente de tensão…

Novo siléncio. A mesma voz repetiu a pergunta.

- Quem?
- Puxa, gente, a antiga Birmânia, os monges, os valores democráticos… Ah, querem saber? Essa turma que não toma atitudes proativas para a manutenção do que realmente importa em nossas vidas, e que perdem um tempo valioso num ritual catártico e totalmente desnecessário não valem nada. São todos uns pulhas.
- Isso mesmo!!! Morte a todos esses pulhas. IIIIIÉÉÉÉÉÉÉHHHHHHH!!!!

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