Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: outubro/2007

Fotos que você nunca vai ver. Nem eu.

Por Marmota | 31/10/2007, 23h15

Nem mesmo a garoa fina impediu nossa caminhada úmida entre a nova estação Biljmer Arena e o tradicional estádio do Ajax. Era a terceira vez que eu tentava entrar ali (a segunda com Lello Lopes). Finalmente, conseguimos. Portões, arquibancadas, corredores, gramado… Mas minhas férias, que acabaram há exatamente um mês, reservaram uma porção de lugares inéditos em Amsterdã – se bem que os melhores registros foram todos nos lugares de sempre, como nas estátuas da Rembrandtplein.

Nossa última noite foi em um restaurante português, na Zeedijk – calçadão que corre paralelamente à Red Light District. Nas paredes, tradicionais azulejos azuis -dedicados à Fernando Pessoa e aos grandes navegadores – dão as boas vindas ao lado de cachecóis portugueses e uma flâmula da semifinal da Euro 2004, justamente entre Portugal e Holanda. Além de gostosos, o bacalhau à Brás e o bife à portuguesa que pedimos estavam lindamente apresentados.

Copenhague, capital da Dinamarca, é um pouco mais limpa e organizada. Demos sorte a caminho da Pequena Sereia, símbolo nacional: esbarramos em uma “festinha do peixe” em uma praça perto do Christianborg. O sol estava alto o suficiente para refletir calmamente nos laguinhos que cercavam Kastellet, criando um efeito tão interessante quanto o do “cofrinho” de uma espanhola muito louca, que se atreveu a subir na estátua da sereia. Ah, sim, mais fotos de pratos exóticos: desta vez, um especial com quatro tipos de peixe em um dos restaurantes do tradicional Nyhavn.

O mais legal, no entanto, foi nossa presença em um boteco-balada, em frente ao Tivoli Park, para assistir ao enfadonho Suécia 0 x 0 Dinamarca. Registramos praticamente tudo: nossos uniformes veremelhos, os suecos malas, as belas dinamarquesas… Inclusive a que nos disse a frase mais simpática em toda a viagem: “thank you for support us tonight”!

Finalmente, Estocolmo. Imagens que vão permanecer para sempre na memória, desde os estreitos becos de Gamla Stan, os arredores de Telefonplan em obras ou a vista do morro do observatório. As melhores tomadas, no entanto, foram feitas no alto do Katarinahissen – o “Elevador Lacerda” local. Com direito a luz mais bacana de todo o dia: a do poente, bem atrás do simpático bairro de Slussen.

Foi na Suécia o passeio mais perdulário da viagem: o Globo, arena consagrada como a maior construção esférica do mundo. Fomos a pé de Skanstull, atravessando uma longínqua ponte a pé. Não adiantou muito: por razões quaisquer, não era possível entrar. Aquilo era uma cidade-fantasma. Enfim, ao menos era bem bonito.

Ficou com vontade de ver as fotos destes lugares todos? Pois saiba que eu também. Todas estas memórias fotográficas foram parar em um cartão de memória, substituído justamente quando deixávamos o Globo. Tanto o cartão quanto outros pertences de Lello Lopes foram surrupiados em um cybercafé horrendo, na praça Syntagma, em Atenas. Provavelmente algum picareta inutilizou dez dias que não voltam mais para fumar alguma coisa.

Mas enfim. Não temos imagens novas de Amsterdã, nenhuma de Copenhague e algumas poucas de Estocolmo. Aproveite para passear por aqui e conhecer ainda Praga e Paris. Mas vá logo, antes que algum grego idiota estrague nossa brincadeira outra vez.

Dê os parabéns para elas…

Por Marmota | 30/10/2007, 23h27

Sabe aquela baranga que vive pentelhando você? Ou ainda aquela jabiraca que vive contando vantagem?

Pois o que você está esperando? Vá lá e dê os parabéns a ela, afinal, neste dia 31 de outubro se comemora o dia das bruxas! (piada fraca detected). A festa, que remete ao clássico desenho do Charlie Brown que dá origem ao famoso bordão “e eu, uma pedra”, ganhou força no Brasil graças aos cursos de idiomas e novelas das sete com motivos vampirescos.

Mas você conhece a origem do raloim?

Há cerca de dois mil anos, o povo celta – que vivia em territórios próximos a atual França e Alemanha, festejavam o ano novo exatamente no dia 31 de Outubro, em uma homenagem ao Deus-Sol Baal.

Mas no século IV, já na era cristã, esse rito, considerado pagão, passou a ser interpretado como um ritual para Samhain, um druída conhecido como o Senhor da Morte. Já no século VIII, com a transferência do Dia de Todos os Santos pela Igreja – de maio para primeiro de Novembro, o rito para o Senhor da Morte se transformou em uma vigília chamada Halloweenmass (do inglês Hallow, que quer dizer santificação). As pessoas começavam a aguardar a chegada de fantasmas nessa noite.

No século X, a Igreja dedicou o dia 2 de Novembro à memória dos falecidos. Com isso, o Halloween, o Dia de Todos os Santos e o Dia dos Mortos se fundiram numa mesma tradição.

E o que significa aquela abóbora iluminada – a boa e velha “Grande Abóbora” do charlie Brown? A lenda, de origem irlandesa, conta a história de um homem chamado Jack. Um belo dia, ele fez um pacto com o Diabo, após convidá-lo para beber com ele (parece lenda de boteco). quando Jack morreu, foi recusado no Céu e também no inferno.

Para que ele perambulasse por aí, Jack ganhou do demônio um punhado de carvão. Munido de um nabo (?), criou a conhecida Jack-O’-Lantern, usada pelo fantasma para vagar pela Terra até o dia do Juízo Final. Na antiga Escócia, as crianças preservavam a lenda original, escavando nabos para criar a figurinha. Já na Irlanda surgiram as abóboras, encontradas ainda nos EUA pelos imigrantes no século XVII: eram as lanternas perfeitas.

A festa cresceu nos EUA e ganhou força com as populares máscaras, lençóis brancos e o popular “trick or treat”. No Brasil, a comemoração não é tão popular assim, mas já virou motivo para baladas – principalmente em São Paulo. Quem sabe a sua bruxa não esteja à espreita?

(Postado em 31/10/2002)

Cinco bons motivos para a Copa ser aqui (que podem virar maus)

Por Marmota | 29/10/2007, 23h53

Seria uma cena bastante curiosa. O presidente Lula, uma porção de governadores e ministros, jogadores de futebol, dirigentes, o técnico Dunga, imprensa, artistas, mulatas, bateria de escola de samba… Este verdadeiro trem da alegria, diante de uma tremenda expectativa, até que, subitamente, o presidente da Fifa Joseph Blatter anuncia: “hmmm, pensando bem, acho que o Brasil não vai ser a sede da Copa do Mundo em 2014″.

Claro que isso não vai acontecer, para felicidade da nação do futebol – além dos iludidos que entupiram este blog de comentários ao defender o potencial de algumas das mais inóspitas cidades do país. Vai ser uma terça-feira de festa, e tal farra tem tudo para continuar até 2013, quando os organizadores vão se dar conta: será preciso mais dinheiro para concluir as obras. Esqueçam os R$ 3,8 bilhões superfaturados do Pan: isso é dinheiro de cachaça perto dos R$ 18 bi previstos inicialmente para ajeitar o país.

Mas enfim, já que o circo chegou à cidade, vamos aplaudir. Mas com moderação, afinal de contas até mesmo o que parece bom pode esconder problemas.

#5 Vai ser na nossa casa! – Tirando aquele tio que jura ter visto a final entre Brasil e Uruguai no Maracanã em 1950, daria para imaginar um jogo de Copa do Mundo ali, naquele estádio que esses dias recebeu Santos x Bragantino? Inacreditável. não é mesmo? Mas vai ser ainda mais delicioso conseguir ficar na arquibancada durante este momento histórico. Nem precisa ser o jogo da seleção, basta um Argélia x Arábia no Mané Garrincha. Que demais, não?

Mas vá com calma. A Copa não é nem de longe um evento local. Pelo contrário: a Fifa, com apoio de seus patrocinadores bilionários, praticamente “se hospedam” no país do Mundial durante longos meses. Traduzindo: é como se houvesse um “novo país” chamado Copa do Mundo, e mesmo os brasileiros serão tratados como “forasteiros”. Os ingressos serão vendidos a preços impraticáveis: contente-se em assistir aos jogos do telão no Anhangabaú ou em casa. Isso mesmo: como se a Copa fosse em qualquer outro lugar do planeta.

#4 Vamos ter novos estádios! – Indiscutivelmente, a final da Copa de 2014 será no Maracanã. Mas das dez sedes previstas, praticamente nenhuma reúne condições de receber uma partida. Teremos certamente novíssimos e impecáveis estádios planejados especialmente para o evento. Quem vai ganhar com isso é o torcedor local, que terá qualidade incomparável em futuros jogos.

Quer dizer, isso caso a iniciativa privada assuma os gastos. Ou, mais difícil, os clubes de futebol, a maioria falidos. Exemplo de 2007: o belíssimo Engenhão, erguido pela prefeitura do Rio e assumido pelo Botafogo – lembrando que nenhum outro clube se interessou pela licitação. Não é difícil: qualquer instituição bem gerida consegue transformar arenas novíssimas em máquinas de fazer dinheiro, mesmo sem partidas. Basta um pouco de profissionalismo na gestão. Eu disse profissionalismo? Hahahahaha!!!

#3 O país ganhará em infra-estrutura! – Obviamente, não bastam estádios bacanas para uma Copa do Mundo ser sucesso. Mais do que isso: além das cidades-sede, todas aquelas que receberão as delegações internacionais, e que servirão como “embaixada” para 32 países devem se preparar para receber esse contingente. Hospitais, restaurantes, hotéis, estradas, trens, aeroportos… A Copa vai passar e o legado vai ficar. Bacana, né?

Pena que será preciso uma Copa do Mundo vir ao Brasil… Só assim para mexer com os interesses de quem devia executar todas essas coisas e preparar a nação sem que uma entidade internacional se intrometa. E olhe lá: quando anunciaram o Rio de Janeiro commo sede do Pan, os cariocas ouviram toda sorte de boatos sobre “prolongamento do Metrô, despoluição da Lagoa”… Acredita, mané.

#2 Vamos ganhar muito dinheiro! – Claro que a iniciativa privada (um tiquinho) e o poder público (a maioria) serão responsáveis por gastos perdulários em nome de uma grande festa. Mas o nosso povo criativo e trabalhador saberá capitalizar como nenhum outro a maravilha da Copa do Mundo. Se a quantidade de camisas, cornetas, bandanas, chaveiros, fitas coloridas, perucas, souvenirs e afins já são vendidos a rodo, imagine como não vai ficar nosso “nacionalismo futebolístico” diante de tantos produtos licenciados da nossa Copa. Nem sei qual vai ser o mascote, mas eu já comprei! Sem falar nos gringos, que vão deixar suas economias em uma porção de caixas registradoras brazucas!

A questão é que a Copa é uma gigantesca vaca leiteira, para delírio de uma porção de gente esganada. Muita gente vai faturar um bocado com a Copa legalmente. Mas outro bocado não vai medir esforços para mamar nas obras, na organização, nos patrocinadores, na pirataria, na venda paralela de ingressos… Eh, Brasil.

#1 Nosso futebol vai progredir! – Ao menos temos um alento. Ainda faltam sete anos até a bola rolar, e com um pouco de trabalho organizado, dá até pra fazer uma Copa do Mundo bacana. De repente, até dá para sonhar: vai que a Timemania resolva, que os dirigentes mal-intencionados sumam… Essas coisas que podem dar uma cara profissional ao futebol brasileiro.

Mas é como vem falando o Juca Kfouri: “o que não podemos fazer é repetir o que fizeram na Alemanha, mas sim algo dentro de nossa realidade”. E a nossa realidade tem Ricardo Teixeira no comando da organização do Mundial de 2014, desde a questão operacional até aqueles bate-papos intermináveis com quem costuma mandar nesse país. Acordos que, ao que se vê, esconderão qualquer CPI futebolística até 2014. E aí é que mora o perigo.

Atualizado: não teve a ceninha engraçada, e todo mundo gritou “eu já sabia”. Mais opiniões, bem mais abalizadas, aqui.

A misteriosa definição de “pobrema”

Por Marmota | 28/10/2007, 23h55

Cristovam Buarque já usava essa obviedade como mote de sua campanha eleitoral: a vida do cidadão brasileiro só vai melhorar no dia em que a educação virar prioridade de verdade. Só que o conceito de “educação” é amplo demais. Tem mais a ver com a formação ética e moral do sujeito, em comparação com aquelas disciplinas escolares baseadas no decoreba.

O que se vê hoje são indicadores discutíveis usados como “prova de que estamos no caminho certo”. Avaliam a quantidade de livros na biblioteca ou de professores com rótulo de doutorado. Realizam exames nacionais e tascam uma nota ao aluno e à escola. E daí?

Vejamos, por exemplo, o diálogo real a seguir, testemunhado por um amigo esses dias. Começou quando um dos interlocutores soltou a palavra “pobrema” – o que, para muitos, é uma demonstração evidente de que nosso povo é inculto e despreparado.

- Deixa de ser burro, rapá! Pobrema? Pobrema não existe!

- Burro é você, pô. Claro que existe pobrema.

- Não, animal. É problema. Pro-ble-ma. Entendeu?

- Ah, vá. Problema não é a mesma coisa que pobrema.

- Cuma?

- Vai dizer que tu não sabe qual a diferença entre pobrema e problema?

- ???

- Seguinte: problema é aquela coisa que se estuda em matemática. Meu filho tem isso, tá no livro dele. É quando tem que fazer uma conta para responder um tipo de pergunta. Isso é problema, entendeu?

- Sei.

- Pobrema é outra coisa. É quando eu e você encaramos uma roubada, um negócio que faz a gente perder a cabeça, essas coisas do dia-a-dia. É pobrema, por que vem de pobre. Pobre tem pobrema, entendeu?

- Ah, tá.

Viram como é simples? Não acredito que nenhum acadêmico se deu conta disso antes… Provavelmente estavam preocupados com erros pontuais de gramática. Pra mim, esse sujeito estaria facilmente aprovado.

Atualizado: O mais impressionante é descobrir que a Carol escreveu exatamente a mesma coisa. Sinal que os brasileiros realmente adotaram esta definição. Taí um “pobrema” pros editores de dicionário resolverem.

Violência doméstica: Moçambique é aqui

Por Marmota | 27/10/2007, 23h30

Mulheres, podem me bater diante da confissão a seguir. Mais uma vez, me vi atropelado pelo caminhão de informações não absorvidas, ao me dar conta de um crime essa semana: como eu nunca tinha ouvido falar em Maria da Penha?

Maria da Penha Maia Fernandes se viu sem forças por longos seis anos. Seja por ter levado um tiro do marido (o que a deixou paraplégica), alem de choques elétricos e tentativa de afogamento… Seja por ver esse acéfalo (que era professor universitário!!!) punido apenas após 18 anos de julgamento, e após muitas idas e vindas… Ficou dois anos de cadeia! Dois anos!!! Mas os senhores são uns fanfarrões!!!

Agora, o que mais me deixa perplexo é ter que celebrar a sanção de uma Lei Federal que aumenta o rigor em cima do bandido em casos de agressão em âmbito familiar (que, merecidamente, leva o nome de Maria da Penha). Afinal, por que diabos só em 2006, quando as estatísticas revelavam dois milhões de casos do gênero por ano, desde sopetões até agressões verbais (sem contar os que não aparecem ali) para alguém agir?

Mais do que isso: precisava mesmo uma lei nova para ratificar algo que me parece tão óbvio? Espero que a Denise e suas amigas não me entendam mal, mas eu realmente ficaria feliz ao descobrir, num futuro, o dia que as mulheres não precisassem mais dos gritos de ordem feministas. Dia em que homens e mulheres finalmente descobrirão o significado da palavra “respeito”.

(Aliás, um adendo: minha perplexidade chega a ser ingênua, afinal de contas a pergunta “precisava dessa lei” vale pra tanta coisa…).

Partindo por esse raciocínio, não é difícil chegar a uma nobre (porém perigosíssima) conclusão: se homens e mulheres são iguais perante a Constituição, não haveria razão alguma para favorecer qualquer lado. Reafirmo aqui: seria realmente fabuloso conviver dessa forma. É uma pena que o ser humano não esteja preparado para isso, justificando com facilidade uma lei dessas.

O que dizer, por exemplo, das frases infelizes de um juiz em Sete Lagoas, desqualificando a lei Maria da Penha já que “p mundo é masculino; a idéia que temos de Deus é masculina; Jesus foi homem!”. Ah, francamente.

Vou mais longe: eu me arrisco a dizer que, infelizmente, nossa espécie está cada vez mais despreparada e propensa a atos insanos e covardes, independente da legislação. Li em algum lugar que, quando o marido bate na mulher, não está sendo violento apenas com ela, mas com a ifamília. Instituiçâo que, diga-se, simplesmente se perdeu – e nem é o caso de entrar nesse mérito, haja vista o volume de bebês recém-nascidos em bueiros, latas de lixo e afins…

Comecei a divagar nesse tema não só pela história da Maria da Penha, mas também graças a este registro do meu amigo Arno Rochol.

Ele esteve recentemente em Moçambique, por conta do projeto Rádio e Desenvolvimento Local. As participantes – todas mulheres – elaboraram uma mini-reportagem sobre violência doméstica, problema tão (ou mais) grave quanto aqui. Embaladas por uma musiquinha: “Quem cuida das crianças”, canta uma, e o coro responde: “É a mulher.” E assim vai, com outras perguntas, até o refrão: “Pois é, pois é, pois é, pois é, tem homem sem-vergonha que ainda bate na mulher”.

Enfim, a colonização portuguesa é apenas uma das semelhanças entre Brasil e Moçambique.

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