sexta-feira, 31 de agosto de 2007

E não é que o BlogDay pegou?

Em 2005, o israelense Nir Ofir teve uma idéia bacana. “Nos últimos meses, eu senti que, a medida em que surgem mais blogs, perco menos tempo com eles. Com o excesso de informações, visito apenas meu blog favorito. Então por que não incentivamos nossos visitantes a conhecer novos blogs?”. Poderia ter escolhido qualquer dia do ano, mas optou pelo 31 de agosto por razões semióticas: em inglês, 31-Aug vira 31-Og, que vira 31OG – já dá pra ler a palavra blog escondida ali?

Em 2005, Nir Ofir lançou a idéia em um sitezinho vagabundo construído a toque de caixa no Wikispaces. Chamou a brincadeira de “blogday”, e como toda comemoração que nunca havia sido feita, chegou até mim repleto de questionamentos. Afinal, se alguém quisesse inventar o “dia mundial do blog”, as possibilidades eram muitas. Antes do israelense bolar sua data, já existia o International Weblogger’s Day, onde desde 2004 a comunidade comemora o fato de muita gente se mobilizar diante de assuntos palpitantes, transformando até mesmo a forma na qual o povo se informa e distribui informações. A data escolhida: 14 de junho.

Vou mais longe: o criador do termo “weblog”, o norte-americano Jorn Barger, citou a palavrinha pela primeira vez em dezembro de 1997, época em que BBSs, fóruns, newsgroups e afins já promoviam conversações na rede. Daria pra usar o 17 de dezembro, data do primeiro post, como data simbólica.

Mas enfim, até agora o “dia internacional do blog” era apenas um conjundo de boas idéias, mas que só faria sentido com alguma continuidade, algo como “opa, então combinamos assim, esse será o dia e todo ano vamos fazer o mesmo ritual”. Até imaginei que, no auge das sacadas geniais, algum cururu elaborasse o genial e criativo “dia nacional do blog”. De qualquer forma, o BlogDay do Nir Ofir pegou: foram 300 indicações no Technorati em 2005, e quase o dobro no ano seguinte. Nem imagino quantas virão agora.

Independente disso, é fato que diariamente surgem iniciativas do gênero “coloque links pra cinco blogs bacanas”. Entre as inúmeras, duas fizeram um bom barulho aqui recentemente: o “Thinking Bloggers Award” e o “Power of Schmooze” (que me fez lembrar de Shmoo, A Foca Fofa, mas isso é outra história). Óbvio que essa “lincagem” toda compõe a essência da blogosfera, mas deixemos a ingenuidade de lado: essa necessidade em fazer troca-troca reflete apenas a necessidade dos envolvidos em galgar posições em mecanismos de busca.

A coisa é descarada, a ponto da maior fonte de receita blogueira enfatizar uma de suas regras de boa conduta, punindo seus afiliados que fazem “escambo de links” em excesso. É aquilo que eu sempre defendi: um link neste blog indica algo que encontrei e gostei, e não representa em hipótese alguma um pedido de troca. E vice-versa: se você faz referência a quem não te cita e recebi link de pessoas diversas, não há problema algum.

Assim sendo, ignore as famigeradas “parcerias” e vamos comemorar o BlogDay. Parabéns! Êêêêêê!

As instruções são as mesmas dos anos anteriores: encontre cinco novos blogs que você acha interessante. Preferencialmente de países, áreas de interesse, ponto de vista e atitude diferentes do seu (não é obrigatório). Recomende-os em seu blog, sem esquecer de linkar a tag para registro no technorati (http://technorati.com/tag/BlogDay2007) e o site do projeto (http://www.blogday.org). Ao fazê-lo, escreva uma descrição. A postagem deve ser feita neste dia 31 de agosto.

Então vamos lá.

- Fator W: Não acredito que você não conheça esse. O W é de Walmar Andrade, jornalista especializado em assuntos de enorme interesse a qualquer um que se meta a brincar de Internet: acessibilidade, arquitetura de informação, usabilidade, conteúdo, design, SEO… Ah, francamente: não há lista de blogs sem aquele óbvio, que todo mundo já viu.

- Laurinha muda de idéia: Faz mais de um ano que eu não vejo a Laura, o que considero imperdoável. Não cometa esse mesmo despautério e acompanhe seu registro de idéias, comentários musicais e cinematográficos… Antes que ela mude de idéia novamente e acabe com mais um blog – seria o 28º ou 49º desde 2001… Ah, é por aí.

- Sítio do Sérgio Léo: Você deve conhecer uma porção de blogs mantidos por jornalistas (e se chegou até aqui, é porque conhece ao menos um). Este chama a atenção não apenas pelos textos claros e contextualizados, ou pelos comentaristas que mantém o nível do debate… Mas pelo seu perfil. O que ele já fez até se tornar colunista do Valor é de tirar o fôlego…

- Limão Expresso: Confesso que, quando entrei pela primeira vez no blog da Priscilla Santos, fiquei assustado: o que diabos ela quer dizer com aqueles textos feitos pra ninguém entender? Ela mesmo explica que, por mais estranho que possa parecer, existe sempre um contexto… O fato é que ela consegue transformar sinais gráficos em sentidos, e isso é muito interessante.

- Vida de astrônomo: Já se perguntou em algum momento que fim levou o autor daquele blog que sumiu? Conheci o blog do Hemerson Brandão e sua forma clara de lidar com o céu e seus astros ainda nos tempos de Blogger Brasil. Ele sumiu por um tempo, mas está de volta, com direito a uma revista eletrônica sobre astronomia.

E ano que vem tem mais, hein?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Meu futuro é ser um proto-escritor

Talvez perca alguns pontos com você diante do que pretendo confessar aqui: há uns três anos, comecei a escrever uma série de histórias. Juntas, poderiam ganhar a forma de um livro. Sem qualquer pretensão: cada capítulo descreveria, de maneira tragicômica, um dos meus relacionamentos amorosos frustrados. Tenho material para uns quinze. Já me arrisquei a rascunhar uns seis, e algo me diz que, se a idéia fosse mesmo levada a sério, teria que viver mais para escrever uns cem.

Pois esse desejo adolescente passou por um duro golpe assim que eu terminei de ler O Cabotino, do Paulo Polzonoff Jr. Mesmo com a advertência inicial sobre o tom das palavras usadas neste manual de “anti-ajuda” para escritores, confesso que passei mal. A idéia da minha história, segundo ele, é a mesma de uma centena de indivíduos medíocres, que estão degradando a nossa literatura com suas histórias de vida sem importância, poesias concretas ou quaisquer textos herméticos absolutamente descartáveis. Por mais que eu não vislumbre uma noite de autógrafos para reunir os amigos e lançar meu modesto livrinho, fui realmente convencido de que meu esforço seria uma tremenda perda de tempo.

Mas eu sou um sujeito persistente. Não queria desistir. Corri para a livraria e tratei de pegar um antídoto aos conceitos de Polzonoff. Achei um que tem a cara do meu pretenso “worst seller”: chama-se Ria da Minha Vida Antes que Eu Ria da Sua, de Evandro Daolio. Atenção para o detalhe que faz toda a diferença: trata-se do volume três, “A busca de um grande amor”. Significa dizer que o autor já lançou dois livros que, juntos, reúnem seus tropeços do dia-a-dia – o último deles, com mulheres. Uma espécie de “blog impresso”, de linguagem direta e coloquial, com o nobre intuito de se tornar uma lição de vida para nós, pobres mortais.

Fico imaginando a reação de um lendo o livro do outro. Provavelmente, os dois chorem – cada qual com suas razões…

Enfim. Logo nos primeiros capítulos, Daolio conta que precisou dar carona para alguém que mora “num lugar horrível, onde era preciso cruzar a Radial Leste para chegar”… Ou seja, aqui perto da minha casa. Independente dessa falta de respeito aos moradores da periferia, o negócio é um sucesso! O cara arrebatou fãs no país inteiro, vendeu milhares de livros e reúne centenas de admiradores em seus encontros e palestras. Tudo sem usar um pingo de ficção, apenas contando a verdade.

Mas o que é, afinal, a verdade? Certa vez, Moacyr Scliar contou outra de suas histórias extraordinárias e concluiu, sempre escolhendo as palavras como um bom artista, que a verdade é relativa para quem trabalha com a arte de escrever, pois ela surge invariavelmente da imaginação. Como se um bom escritor fosse, em linhas gerais, um mentiroso com papel e caneta nas mãos. Mais uma vez, é tudo uma questão de palavras… Sempre elas, as ferramentas de trabalho para a literatura.

Basicamente, isso quer dizer que Polzonoff tem razão. Pessoalmente, estou mais perto do estilo Daolio de escrever, a alguns anos-luz de Moacyr Scliar, onde dificilmente vou cheguar. Talvez me contente em ser apenas um proto-escritor e exportar meu livrinho para um arquivo PDF e espalhar pela Internet, tornando-se efêmero como a rede para a maioria. Ou com alguma importância para um incauto qualquer. O esforço já terá sua validade.

(Postado em 05/03/2004. E quando o PDF sair, esta será a apresentação.)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A desvantagem de comprar roupas com pressa

Se há uma coisa que não costumo fazer com frequência é comprar roupas. Meu ritual básico – escolher uma única loja; separar calças, camisas, meias e roupas íntimas; provar algumas e descartar o que for à prova de gordos; pagar e sair – acontece no máximo duas vezes por ano, durante poucos minutos. Sem essa de passar o dia batendo perna em ruas especializadas ou num shopping center. Também não me importo em passar dias, meses, anos… Com os mesmos panos de sempre.

Esses dias, no entanto, descobri um problema nesse trivial procedimento semestral. Apertei minha agenda e consegui executá-lo em tempo recorde: entrei na loja lá pelas três da tarde, fiz o que precisava fazer e corri para a labuta, às quatro. Foi só colocar os pés no elevador e pegar o celular, para tirá-lo do modo silencioso (padrão em trânsito) e constatar dez chamadas não atendidas.

Uma era da minha casa. As outras nove eram de um número desconhecido. Havia ainda uma mensagem de voz, que ouvi assim que chegava ao meu posto de trabalho: “Oi, é a Gertrudes, vendedora aqui da loja… Mil desculpas, senhor, mas a moça do pacote separou suas cuecas, mas esqueceu de colocá-las na sacola…”. Puxa vida, hein? E a Gertrudes me pareceu tão atenciosa, inclusive entregou minhas compras em mãos e me acompanhou até a porta… Jamais imaginaria que ela pudesse cometer um lapso desses.

Mas não acaba aí. Antes de retornar o telefonema da loja, tratei de acionar a base central e tranquilizar minha mãe. “Meu filho, ligou uma tal de Gertrudes aqui, desesperada, querendo o número do seu celular. Ela não queria me dizer pra quê era, mas logo me contou. Como assim esquecer as cuecas? Só você mesmo, sempre com a cabeça na lua… Imagina que a vendedora chegou a anunciar seu nome no shopping, de tão preocupada!”.

Minha nossa! Então uma atitude simples para ganhar algumas horas fez com que eu perdesse a primeira oportunidade de ouvir algo como “atenção, senhor André, favor procurar com urgência um funcionário deste estabelecimento”. Droga. Preciso começar a sair com pessoas normais e aprender com elas os prazeres da perda de tempo em vitrines e mostruários. Minhas cuecas perdidas no balcão agradeceriam.

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