Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: julho/2007

Trilha sonora para o dia 15 de agosto

Por Marmota | 31/07/2007, 23h36

Todo mundo alardeia o 12 de junho como sendo uma data espetacular, onde sobram motivos para comemorar. Agora que estamos próximos do 15 de agosto, no entanto… Onde estão as propagandas? Cadê o entusiasmo? Por que ninguém fala nada?

Ou vai dizer que você também não sabia que 15 de agosto é o dia do solteiro?

Por motivos diversos (e que renderiam outro blog), podemos definir essa data como parte constante do meu calendário. Mais divertido ainda é resgatar, em um único dia, a memória de todas aquelas que, num passado remoto, fizeram algum esforço para que eu me esquecesse da comemoração.

Por motivos diversos (talvez os mesmos do parágrafo acima), valeu o esforço.

Não tenho dificuldade alguma para lembrar o nome, o rosto, o sorriso, os olhos – e o signo! – de todas elas. Mas não custa nada estimular a mente com recursos extras. Já tenho pronta a trilha sonora, verdadeiro passaporte para uma viagem emocionante ao passado.

Faixa 01: Summertimes, Janis Joplin
Faixa 02: Meu Jeito de ser, Só Pra Contrariar
Faixa 03: One, U2
Faixa 04: If I Can’t Have You, Yvonne Elliman
Faixa 05: Velha Infância, Tribalistas

Faixa 06: Baby Can I Hold You, Tracy Chapman
Faixa 07: Frisson, Tunai
Faixa 08: I Could Fall in Love, Selena
Faixa 09: Ainda Lembro, Marisa Monte
Faixa 10: Bitter Sweet Symphony, The Verve
Faixa 11: Todo Azul do Mar, 14 Bis

Faixa 12: Stand by Me, Ben E. King
Faixa 13: Você Vai Lembrar de Mim, Nenhum de Nós
Faixa 14: Age of Aquarius/Let the Sunshine (Hair), 5th Dimension
Faixa 15: Nem Pensar, Kleiton & Kledir

Quando o dia 15 de agosto chegar, lembre-se de dizer “feliz dia do solteiro” a quem você gosta.

(Postado em 10/08/2004)

Top 5 dos Jogos Pan-americanos Rio 2007

Por Marmota | 30/07/2007, 21h23

Alegria alegria, moçada! O Pan acabou! Chega de ouvir o Galvão Bueno fingir que as vaias não são com ele; basta das mesmas entrevistas sem graça de sempre com a Dona Rose, a mãe de Thiago Pereira e torcedora-padrão; nem de aturar os comentários vibrantes da Andreia João na ginástica. E antes que alguém diga “agora, só em Guadalajara” (que, diga-se, competiu sozinha para receber o Pan 2011, sinal que ninguém quer essa bomba), lembre-se que ano que vem teremos os Jogos Olímpicos de Pequim. Assim como em Sydney-2000, quando os eventos aconteciam em nossa madrugada, serão longas noites torcendo por um punhado de medalhinhas (sim, o nível das Olimpíadas deixam os Jogos Abertos do Interior das Américas no chinelo).

Enquanto os chineses nem os mexicanos não começam suas festividades, vamos relembrar alguns momentos batutas que rolaram na Cidade Maravilhosa nos últimos 15 dias. Conto com a ajuda dos três ou quatro amantes do esporte que pintam por aqui para me ajudar a completar as tradicionais listinhas.

Cinco números do Pan 2007:
- Mais de 5.500 atletas de 42 países.
- 657 atletas brasileiros, que faturaram 161 medalhas, 54 de ouro.
- Orçamento de R$ 3,8 bilhões, 800% a mais que o valor inicial.
- 6000 homens da Força Nacional de Segurança, que vão embora e deixar o Rio como era antes.
- R$ 600, salário de Diogo Silva, primeiro brasileiro a levar ouro do Pan.

Cinco atletas que merecem aplausos:

- Lucélia Ribeiro, a única tricampeã pan-americana (só falta o caratê virar esporte olímpico).
- Sebastian Cuattrin, “argentino” que faturou 11 medalhas em Pans para o Brasil na canoagem.
- Hugo Hoyama, nove ouros no tênis de mesa (e não nasceu na China, como os atuais vencedores “pan-americanos”).
- Marta, a melhor jogadora de futebol do planeta (titular em qualquer time da Série A).
- Thiago Pereira, seis ouros na piscina do Parque Maria Lenk. O Pan do Rio foi dele.

Cinco medalhas de ouro sensacionalmente inesperadas:
- Tênis de mesa por equipes (não foi fácil Hugo Hoyama passar por chineses e conquistar sua nona medalha de ouro em Pans).
- Juliana Gomes dos Santos nos 1500m feminino (claramente inspirada na incrível prata do marido Marilson instantes antes).
- Flávio Saretta, no tênis, no último dia (infelizmente quase sem público), depois de praticamente perder o jogo tanto na final quanto na semifinal. Incrível.
- Pedro Lima, no boxe, depois de ter deixado o campeão mundial Demetrius Andrade (pelo nome vê-se que é dos EUA) tirar a vantagem e virar a contagem.
- Mosiah Rodrigues, na barra fixa, depois dos favoritos norte-americanos caírem (de quebra, isso deu o bronze ainda mais inesperado a Danilo Nogueira).

Cinco modalidades heróicas:
- Boliche, com um bronze inédito em duplas masculinas.
- Badminton, mais um bronze inédito sem qualquer recurso.
- Yane Marques, no pentatlo moderno (onde o atleta compete mais ou menos em cinco provas).
- Patinação artística (engraçado, o Marcel Sturmer só aparece a cada quatro anos).
- Taekwondo, com excelentes resultados sem qualquer investimento pesado.

Cinco injustiças absurdas:
- Natália Falavigna, minha musa, que sofreu absurdamente com aquela prata no peito.
- Flávio Canto, ouro garantido, que sofreu uma luxação no cotovelo durante a semifinal.
- Érika Miranda, que viu o juiz levantar a bandeira a favor dela e mudar de idéia, evento que culminou com a briga generalizada entre brasileiros e cubanos fora do tatame.
- Aline Campeiro , a levantadora de peso que saiu comemorando seu segundo lugar geral antes da decisão, mas machucou o joelho e ficou fora da disputa.
- Bernardo Arndt e Bruno Oliveira, que treinaram, competiram e venceram suas regatas da classe Hobie Cat 16 mas foram surpreendidos por uma eliminação, baseada numa peça estúpida de alumínio usada em seu barco.

Cinco amareladas inacreditáveis:
- Vanderlei Cordeiro, que levou a bandeira na abertura, continuou treinando na altitude e terminou com cãibra (felizmente o Franck Caldeira salvou a pátria).
- Jade Barbosa, líder na disputa do individual geral (mas que compensou o nervosismo no salto sobre o cavalo e no solo).
- Lulinha e os moleques do futebol masculino, que deixaram Equador e Jamaica (Meu Deus!) decidirem o ouro, com direito a Bolívia e México na semifinal.
- Basquete feminino, na despedida de Janeth, ganhando a partida até o terceiro quarto diante das juvenis norte-americanas.
- Vôlei feminino diante de Cuba, como de praxe.

Cinco esportes onde tinha brasileiro, mas não deu em nada:
- Beisebol (se bem que o local dos jogos não passou em branco).
- Tiro com arco (o famigerado “arco e flecha”).
- Patinação e ciclismo de velocidade (ao menos temos um novíssimo velódromo).
- Triatlo feminino (mas as brasileiras competiram com as melhores do mundo).
- Hóquei sobre grama (aquela modalidade onde os atletas foram recrutados pelo orkut).

Cinco exemplos de organização impecável:

- Ingressos vendidos antecipadamente sem assentos marcados nem adversários definidos – teve gente que comprou Brasil x Venezuela mas viu Cuba x EUA.
- Voluntários mal-educados interessados apenas em passear – como os que bloquearam idosos e deficientes nos elevadores do Engenhão, reservados exclusivamente às autoridades e a “Família Pan” (técnicos, dirigentes e atletas).
- Seguranças estúpidos que não permitiam a entrada de qualquer alimento (torcedor tinha que pegar fila e encarar quiosques do Bob´s). E ainda por cima comiam às custas do torcedor!
- Instalações mambembes no Morro do Otário (ops, do Outeiro), onde só as autoridades e a “Família Pan” tinham direito a sombra e cadeiras.
- Sensacional campo de lama desabável para o beisebol – esporte que quase ninguém dá bola em Cuba, EUA, Venezuela, México… Entre outros países latinos para onde supostamente o Brasil queria mostrar alguma coisa boa.

Cinco frases geniais:
- “Evolui. Abre os braços, sempre em círculo. Com brilho, está sem camisa, no estilo de sempre. Estilo malandro, malandro da Lapa.. Gira, gira, gira”. Sérgio Guimarães, correspondente da Rádio Gaúcha no Rio, segurando por quatro minutos a transmissão ao vivo da performance de Marcel Sturmer. Isso mesmo, no rádio.
- “Desse jeito quando as delegações chegarem, os atletas não vão ter onde sentar”. Marcos Vinícius Freire, chefe da delegação brasileira, ao ver alguns voluntários bonzinhos colocar algumas pessoas nas áreas reservadas no Morro do Outeiro (declaração pinçada do UOL).
- “Vai cair, chileno!”. Oscar Schmidt, torcendo contra um ginasta nas arquibancadas.
- “Foi uma surpresa, porque antes da prova ela estava descontrolada”. Coaracy Nunes, presidente da CBDA, ao destacar o bronze de Juliana Veloso – a mesma que reclamou do carpete escorregadio na plataforma do Parque Maria Lenk (se bem que, “descontroladas” mesmo ficaram as meninas do vôlei, com direito ao famoso funk executado para a torcida).
- “Meu amor, nada vai mudar entre a gente depois dessa medalha. Você sabe onde eu tenho aquela tatuagem pra você, naquele lugar que eu não posso mostrar na tevê”. Pedro Lima, ouro no boxe, em entrevista à ESPN Brasil.

Cinco exemplos edificantes de bom jornalismo:
- Cauê descansa em Deodoro: fotolegenda imprescindível, com um enorme boneco deitado em Campo Grande.
- Atletas enlouquecem na boate do Pan: enlouquecem? Chamem uma ambulância!
- Free Willy acaba com o Brasil: na verdade, é uma atleta norte-americana do softbol um pouco cheinha.
- Hugo Hoyama usa cueca do Palmeiras: ah, tá explicado porque ele faturou a medalha de ouro por equipes.
- Atletas falam sobre “pegação” na Vila: claro, pra quê falar em chance de medalha?

Cinco cenas inesquecíveis das festas de abertura e encerramento:
- Elza Soares cantando o Hino Nacional (nunca mais, hein?) e Chico César de branco!!!
- Caglos Agthur Nugzman dando uma de pastor evangélico em seus discursos.
- Fernanda Abreu cantando “me dá um dinheiro aí” e transformando o Maracanã num baile funk.
- Mário Vázques Raña, que ao ver seu “hoy” virar “oooiii” se transformou em uma figura simpática para a galera.
- As “homenagens” a Lula e a César Maia (o feitiço virou contra o feiticeiro).

Cinco histórias não-esportivas que fizeram barulho:
- Victor Borges, 11 anos, menino que ganhou medalha de bronze do tênis de mesa (que uma norte-americana desprezou) e ficou ao lado de Paraguai, Honduras e Barbados, entre outras delegações, na 25ª posição no quadro de medalhas.
- As lindas moças do softbol, que posaram em fotos maravilhosas antes dos Jogos e, ao vencerem Porto Rico, ficaram em sétimo lugar (haviam oito países participantes).
- O americano idiota, que não viu o Pan de perto por conta de uma frase infeliz no Centro de Imprensa do Riocentro: “welcome to the Congo”.
- A diarréia de Poliana Okimoto, cuja prata na maratona aquática lhe custou goles de água do mar contaminada com coliformes fecais.
- A vaia, sem dúvida a grande personagem do Pan.

Cinco coisas que os cubanos fizeram no Rio:
- Comprar bugigangas e vender seus próprios uniformes.
- Pegar todas na Vila Pan-americana (inclusive as moças da limpeza).
- Fugir da ilha em busca de oportunidades profissionais.
- Voltar para a ilha de repente, a mando do tio Fidel.
- Ver os brasileiros inventarem uma competição idiota pelo segundo lugar no quadro de medalhas.

Cinco esportes que vão nos salvar em Pequim:
- Vela, com Scheidt na classe Star (talvez o Bimba).
- Judô, umas duas ou três, como de praxe.
- Natação (Thiago, Cielo e/ou Kaio Márcio).
- Atletismo (Fabiana Murer e/ou Jadel Gregório em um excelente dia).
- Vôlei, na praia e na quadra (exceto as mulheres).

Cinco boas apostas olímpicas:
- Natália Falavigna e Diogo Silva (ambos quarto lugar em Atenas).
- Hipismo por equipes (Rodrigo Pessoa e mais quatro, se ninguém refugar).
- Futebol masculino (sim, eu vou me iludir outra vez).
- Diego Hypólito no solo (se não der “complexo de Daiane” nele).
- Futebol feminino (ao menos a torcida é grande).

Cinco perguntas que ficaram sem resposta:

- Por que a organização cortou um pedaço do Hino Nacional em quase todos os pódios brasileiros, menos na ginástica rítmica?
- Há relação entre o slogan e refrão do hino do Pan (o “viva essa energia”) ser exatamente igual à campanha da Petrobrás, um dos patrocinadores-master do evento?
- Será que Bernardinho tinha certeza que levaria o ouro escalando qualquer equipe, por isso decidiu dar um tempo no trivial embate de egos e cortar Ricardinho?
- Os cubanos realmente fariam uma deserção em massa, e por isso foram levados um dia antes para o aeroporto, ignorando o bronze no vôlei? Então como explicar os atletas de Cuba que estiveram na cerimônia de encerramento?
- Se sabiam que julho era um mês tradicionalmente chuvoso e sem ventos, prejudicando o tênis no Marapendi, o pântano da Cidade do Rock e até as regatas da Marina da Glória, por que não deixaram para outra época?

O melhor lugar para se dizer “quanto tempo”

Por Marmota | 29/07/2007, 23h27

Está pensando em reunir a maior quantidade de pessoas possíveis, em especial aqueles que há tempos você não vê? Existem duas soluções bastante eficazes: morra ou contraia matrimônio. Velórios e casamentos, normalmente, são perfeitos para trazer à tona pessoas submersas, principalmente familiares.

Por motivos evidentes, escolha a segunda opção.

Certamente foi o que aconteceu com meu amigo-quase irmão Fernando Capelari, que deve ter soltado, ao lado de sua amada Cristina, uns vários “quanto tempo” durante a cerimônia deste sábado (que, diga-se, merece um texto só para ela). Eu mesmo tive meu momento “quanto tempo” ao rever o Argemiro, colega de classe que eu não via desde 1995. Enfim, foi assim há um tempo com a Patrícia, uma amiga do ginásio, mais uma que engrossou a longa lista de conhecidos meus que já se casaram.

Era minha vez de bancar o reaparecido naquele sábado à noite: fazia um bom tempo que não a via. O mesmo se aplica aos pais dela, que vieram me cumprimentar efusivamente. A mãe, principalmente.

- Nooossa… Lembro quando você fazia os trabalhos com a Patrícia, era aquele rapaz magrinho… E vejam só… Como você cresceu!
- É, engordei um bocadinho… Coisas da idade…
- Engraçadinho… Você está ótimo!

Normal. Em uma festa desse naipe, onde todos vestem seus melhores trajes, qualquer um está ótimo. Mas enfim. Logo surgiu outro semblante conhecido entre os vários amigos e parentes dos noivos: outra amiga da nossa turma, mãos dadas no marido e filhinha no colo.

- E aí, sumido! Quanto tempo, hein? – olha o “quanto tempo” aí.
- É verdade… Nem sabia que você já tinha herdeiros…
- Pois é, meu amigo… E o tempo passa…

Nem parecia que estava diante de uma mulher madura que, há mais de quinze anos era uma jovem companheira nas aulas do colégio. Surgiu em minha cabeça a imagem da galera, todos casados… Sentamos perto do altar, de onde dava pra sentir o nervosismo da noiva. Depois do sermão, do “sim” e da consagração final, os comentários inevitáveis.

- Ainda não consigo acreditar nisso. A Patrícia era a mais desajustada da turma…
- Realmente… Ela sempre fazia o papel da maluca nos nossos teatrinhos…
- Nossa, era muito engraçado. E ela chorava por qualquer coisa, lembra?
- Normal, ela é de Câncer… Falando nisso, e aquele aniversário na casa dela na sexta série, quando vocês queriam que eu ficasse com ela?
- Ah, mas eu sempre imaginava vocês dois juntos no fim da história.
- É, disso eu lembro… Mas o tempo é sábio.
- É nada. Reparou que o noivo se chama André?

Não deu tempo de responder: estava na hora dos noivos cumprimentar os convidados, sempre acompanhados pelo cinegrafista e seu assistente de iluminação. E ainda tem as fotos, bom tirar antes de pegar a fila do buffet.

Atualmente, uma festa de casamento sai caro. Em compensação, o retorno sob a forma de recordações, tanto do momento quanto as de um saudoso passado, pode valer o investimento.

(Postado em 24/04/2004 e alterado para a ocasião. Em tempo, prosperidade, felicidade e vida longa aos noivos!)

O pequeno exército de Branco Leone

Por Marmota | 28/07/2007, 23h45

No Canto da Madalena

Semana passada tive o privilégio de reencontrar muitos amigos, além de conhecer gente bacana no Canto da Madalena. O pretexto era literário: Alex Castro e Luiz Biajoni lançaram suas novidades imperdíveis sob a batuta d’Os Vira Lata.

Estava no “canto do canto” trocando figurinhas com o Doni, o Tiago Dória e o Roger quando um garotinho simpático surgiu com uma máquina fotográfica. “É a mini-equipe de reportagem!”, brinquei. Ele sorriu.

Mas eu estava enganado. Ele não era simplesmente a mini-equipe de reportagem. Pedro era engrenagem fundamental para o sucesso daquela editora independente. Não demorou para que o jovenzinho reaparecesse, ao lado de Anna, a irmã mais velha. Exibiam uma folha plastificada, com a relação de livros disponíveis, preços e ofertas. “Vocês querem ver o cardápio?”, diziam.

E eu caí na besteira de de segurar o cardápio. Fiz pior: perguntei “o que vocês recomendam?”. Os dois não só apontavam para as sugestões “combo” (que incluia todos os lançamentos da noite) como ofereciam a “xepa”, com publicações mais antigas (incluindo uma a R$ 5, para quem “não tinha troco”).

No Canto da Madalena

Eu não tinha muito tempo para hesitar: a duplinha insistia, usando artifícios pesados. “Compra, tio! Por favor! Se ninguém comprar, não vamos jantar esta noite!”, diziam. “Mas isso não pode, é exploração infantil!”, retrucava. “Não, tio. Estamos nessa vida por que a gente quer”, devolviam. Definitivamente, não havia como driblar a eficiência da “mini-equipe de vendas”. “Tio, aproveita e leva esse aqui. É muito bom, tá todo mundo comprando também. Vale muito a pena”, reforçava Pedro, indicando Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone. Cujo autor, numa dessas coincidências estranhas do destino, é o responsável pela editora. E pai das crianças.

Antes de cometer injustiças, reproduzo a explicação oficial: “Alex Castro, chantagista profissional, percebendo o poder comercial da pedochantagem, instrui meus filhos para o corpo-a-corpo que deveriam impetrar sobre os que passassem por perto (ou nem tão perto assim) das mesas do lançamento. Quando dei por mim, Anna e Pedro, como moscas na bosta, colavam em todo desavisado que passasse por ali, compra tio, compra tio, mendigos mirins vendendo chicletes num semáforo. Deprimente. Cheguei a ver os dois agarrados às pernas do Inagaki que, por instantes, ficou sem saber o que fazer. Quase comprou os livros de novo, tendo-os”.

Você também pode achar a estratégia discutível, mas eu achei sensacional. Tanto que fiz questão de “rapar a banca” e comprar um de cada. A alegria e o entusiasmo das crianças foi tanta que, para celebrar, decidi que Pedro e Anna deveriam autografar o livro do Branco Leone. “Pelas recomendações de todos, e principalmente minha, você acaba de receber um ótimo livro”, escreveu Pedro, sem qualquer influência ou sugestão minha. “Quando eu crescer, vou escrever meu livro também”, revelou, entusiasmado. Tomara, Pedro. “Ah, eu quero assinar também”, interpelou Anna. “Obrigada por comprar estes livros, você está nos ajudando muito”.

No Canto da Madalena

Enquanto os marmanjos se divertiam madrugada adentro, os pequenos heróis terminaram a brincadeira, escolheram uma das mesas, cochilaram e sonharam um pouco mais, alheios a tudo. Como toda criança deve fazer.

Ah, sim. Para conhecer Pedro e Anna, os irmãos precoces, basta assistir ao comercial do livro. Quer mais fotos? A Sandra colocou várias aqui.

Uma salva de vaias para o Pan

Por Marmota | 27/07/2007, 23h28

Os Jogos Pan-americanos acabam (finalmente) neste final de semana – ou seja, ainda dá tempo do Brasil conhecer algum outro grande nome que vá se sobressair na competição. Candidatos não faltam: Thiago Pereira, Marta, Hugo Hoyama, Janeth, Marcelinho… Independente dos destaques esportivos, eu me arrisco a dizer que o grande nome do Pan é a vaia.

Nunca se falou tanto nesse tipo de manifestação quanto nas últimas duas semanas. A começar, é bom lembrar, com a cerimônia do Maracanã – estádio onde os apupos surgem até em minuto de silêncio, como dizia Nelson Rodrigues. Logo nos primeiros instantes, vaiaram o presidente (eu também vaiaria); vaiaram os norte-americanos (talvez um ou dois tenham gritado “yankees go home”); e vaiaram as delegações da Venezuela e da Bolívia (hmmm… precisava?). Enfim, como elas se concentraram no efelenfíssimo, o assunto ganhou conotação política – especula-se até hoje se César Maia teria combinado com meia dúzia de três ou quatro, assim as dezenas de milhares de espectadores pegaram o embalo. Pode ser.

Começaram os eventos e as vaias não diminuiram. Pelo contrário, ficaram cada vez mais frequentes, em várias praças esportivas, antes, durante e depois das provas. O primeiro caso com alguma repercussão pós-Lula veio na ginástica artística: enquanto o sistema de som da arena multiuso, em Jacarepaguá, pedia aplausos dos espectadores para todos os atletas, Oscar Schmidt, ex-jogador, comentarista e torcedor de carteirinha, incentivava as vaias aos norte-americanos. Protagonizou ainda uma das frases marcantes do Pan: “Vai escorregar, chileno. Vai cair!”, dizia o Mão Santa ao ginasta Enrique Gonzalez.

Tem gente que é contra – “Adoro torcida, principalmente os brasileiros, dão muita energia. Só não gostei das vaias. Os adversários estão aqui para fazer a parte deles. Ginástica não precisa disso. Não é um jogo de futebol, vôlei ou basquete. E se você torce contra, algum dia volta para você”, alfinetou Laís Souza, após o turbilhão de manifestações anti-americanas.

Ok, em uma primeira análise, é uma questão de costume: brasileiros não estão acostumados a torcer em eventos de ginástica, então podemos deixar passar. Também é assim quando o país recebe etapas da Copa Davis de tênis: assim como na ginástica, o atleta precisa de concentração. Mas o público, muito longe de ser os comportadinhos espectadores de Wimbledon, perturbam o tempo todo, inclusive na hora do saque ou em momentos decisivos de disputa.

Mas enfim. A polêmica aumentou no domingo seguinte, graças a dois eventos considerados lamentáveis pela organização. O primeiro não teve nenhuma influência da torcida, apesar da rivalidade forte entre brasileiros e argentinos: a briga generalizada entre jogadores na final masculina no handebol, vencida pelo Brasil, aos olhos de Mário Vázquez Raña, presidente da Odepa. O segundo, no judô, começou com vaias aos juízes, copos e papéis atirados na tribuna cubana e nova confusão. Cuba, que estava ali quietinha, entrou no rol de países hostilizados pelos torcedores.

“Vamos aplaudir todos os atletas. Eles se esforçaram muito para chegar até aqui nesta disputa”, insistia ainda mais o locutor do Engenhão, durante as primeiras provas de atletismo. Não adiantou. Enquanto Fabiana Murer conquistava a medalha de ouro no salto com vara, a norte-americana April Steiner era homenageada com uma salva de vaias a cada tentativa. Havia aplausos também, é claro. Sempre que um estrangeiro falhava.

Mesmo com a redução significativa, as manifestações ganhavam comentários pesados. Todos atrelados à imagem transmitida lá fora: a do brasileiro que não tem educação. “Essa gente que usa tênis Nike, come no McDonalds, veste uniforme da NBA e curte Black Eyed Peas, mas que na hora da confraternização dos povos, só sabe vaiar atletas que nada tem a ver com o governo Bush”, trata-se do discurso padrão cutucando a grande maioria, que no embalo das vaias, é taxado (com alguma razão) de ignorante.

Mas será que é para tanto? – Nem tanto para o lado do “povinho despreparado”, nem para o da “liberdade total de expressão”. O que deve ser levado em conta sempre é: vaiar por quê? De fato, não acho inteligente contribuir para a falta de equilíbrio psicológico de ginastas, tenistas, saltadores ou até cavaleiros – aliás, dava para ouvir claramente os inúmeros “shhh” durante a passagem de César Almeida nos obstáculos do hipismo, sinal de respeito. Mexer com o brio de atletas em disputas individuais realmente é complicado. Soa como ofensa, maldade mesmo.

Mas nas modalidades coletivas, onde as vaias se espalham pela equipe toda, elas são perfeitamente aceitáveis, e fazem parte do espetáculo. Quer dizer, na maioria dos casos. Hostilizar o Bernardinho pelo corte do melhor jogador do mundo por um motivo besta é compreensível. Mas vaiar o Bruninho Resende só por ele ser filho do treinador, respingando em uma equipe que já mostrou ao país sua capacidade vencedora, é um negócio esquisito.

Agora, normalmente, a reação típica de qualquer estádio de futebol pode ser levada a qualquer confronto. Responda francamente: imagine você no Maracanãzinho, assistindo a Brasil x Cuba, pelo vôlei feminino. As adversárias, acostumadas a lidar com pressão da torcida, provocam não só as atletas brasileiras, como também a própria arquibancada. O que fazer? Aplaudir? Respeitar o adversário? Uma banana. Elas merecem a maior quantidade de “uhhh” possível.

Você pode achar esse papo de “rivalidade” a maior bobagem, mas admita: ela faz parte do esporte. E quem busca excelência técnica, precisa ir atrás da excelência psicológica. Nas palavras da Carol: “é divertido ver jogos altamente competitivos, repletos de provocações, decisões polêmicas da arbitragem, torcida xingando e nervos à flor da pele que não raramente culiminam em briga”. Simples assim.

Ah, não poderia deixar passar o comentário do Fábio: “o episódio Lula no Maracanã só não foi perfeito porque faltaram as vaias ao César Maia e ao Carlos Arthur Nuzman. Aplaudir esses dois é piada, né?”. Realmente.

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress