Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: junho/2007

Cinco clipes de poperô unânimes (e cinco que eu gostava)

Por Marmota | 30/06/2007, 23h58

Não sou especialista em música, mas sei que a minha geração, que moldou sua personalidade nos anos 90, foi intensamente influenciada por avanços tecnológicos e pela presença maciça da informática em praticamente todos os aspectos de nossas vidas. Inclusive no som que chegava aos nossos ouvidos.

Então o barateamento e a capacidade adequada de processamento dos modernos computadores fizeram com que DJs do mundo todo (especialmente na Europa) experimentassem toda sorte de batidas eletrônicas com uma letra bem rasa e descompromissada (ou alguma música antiga que fique joinha com roupagem nova), vocais de hip hop e uma voz feminina afinada para o refrão. Com o exagero da expressão “pump it up” nesse tipo de experimento, nascia o que os adolescentes da minha época chamavam de poperô – espécie de balaio (ainda que errôneo) que congrega tudo que, oficialmente, chama-se eurobeat, dance music, new wave, flash house, techno, oréver.

E eu não tenho a menor vergonha em dizer: fui um adolescente apaixonado por poperô. Tudo bem, passava a maior parte das baladinhas na mesa… Mas quando começava o poperô, eu pulava dali e chacoalhava meu tecido adiposo no ritmo do bate-estaca. Era praticamente uma catarse individualista. Tenho certeza de que eu não era o único: a maioria das FMs paulistanas, principalmente Jovem Pan e Transamérica, aproveitaram a popularização do poperô e massificaram sua programação. A 97FM, que até hoje reserva um espaço dedicado, entre outras velharias, ao poperô, começou como rádio rock, mas se vendeu à música eletrônica, abarcando mais fãs.

Mas enfim. Como a onda nostálgica está cada vez mais forte, vamos aproveitar esta noite de sábado para fazer uma pequena festinha anos 90. Com vocês, dois Top 5 dedicados ao nosso passado saltitante. A começar com…

Cinco poperôs unânimes

#5 Technotronic – Pump Up The Jam – Não tinha como não colocar os bregas belgas e a música que praticamente deu origem a todo o movimento.

” color=”#CC0000″>#4 Corona – Rhythm Of The Night – Tenho certeza que muita gente começou a curtir “poperô” por causa da carioca Olga de Souza, que projetou para o mundo o nome da ducha.

” color=”#CC0000″>#3 Double You – Please Don’t Go – Esse carinha, batizado William Naraine, foi uma espécie de ícone. Essa música (e todas do seu primeiro CD) tinham exatamente a mesma fórmula – o seguinte, The Blue Album, era bem mais batuta.

” color=”#CC0000″>#2 Haddaway – Rock My Heart – Em 1993, esse cururu estourou nas paradas com What Is Love. Logo depois veio Life e a baladinha I Miss You. Mas desse primeiro álbum (e único que presta), essa era a mais legal.

” color=”#CC0000″>#1 L.A. Style – I’m Raving – Em 1995, o poperô chegava ao seu auge, prestes a iniciar sua curva decadente (ou evolução, como queiram). Mas ainda dava para cantar “ô né né, né né ô né né” (em tempo, essa música é de 1993 – obrigado, Marcelo!).

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Agora, vamos aos meus…

Meus cinco poperôs preferidos

#5 Dr. Alban – It’s My Life – Devo ter a musiquinha desse nigeriano-sueco em umas três ou quatro fitas cassete diferentes…

” color=”#CC0000″>#4 MC Sar & The Real McCoy – Another Night – A fita cassete desse projeto era uma das minhas preferidas. “Run Away” talvez tenha feito muito mais barulho, mas essa me traz lembranças melhores.

” color=”#CC0000″>#3 2 Brothers On the 4th Floor – Dreams – O ano de 1994 já havia consagrado este projeto e muitos outros, a começar por “Never Alone” (legal também). Mas dançar essa era mais divertido.

” color=”#CC0000″>#2 Sunscreen – Love U More – Provavelmente ninguém lembra desse grupinho inglês. Conheci essa música numa viagem ao RS em julho de 1993, numa época em que a Rede Atlântida (a FM da RBS) também despejava poperô na programação.

” color=”#CC0000″>#1 AB Logic – The Hitman – Aplica-se a mesma regra: no fim daquele ano de 1993, a Atlântida ainda abusava do Poperô. Usou essa musiquinha até para apresentar um programa especial do tradicional concurso Garota Verão. Enfim, fora essas reminiscências locais, ainda acho bacana.

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Puxa, faltou Ace of Base, Ice MC, DJ Bobo, Masterboy, La Bouche, Nicki French e a maioria dos nomes que se repetiam nas Sete Melhores da Pan. Esse é o tipo de post que exige um volume 2, não acham?

Os eternos bichinhos do Seu Armando

Por Marmota | 29/06/2007, 23h00

Era um final de expediente como outro qualquer. Nossa turma de amigos estúpidos (que hoje, infelizmente, se vê raramente) bebericava e beliscava acepipes em uma das mesas do complexo de bares da “Prainha Paulista” – aqueles que a gente acaba se acostumando, apesar dos apuros no atendimento.

Entre tantos personagens corriqueiros, como pedintes e vendedores, um sempre aparecia por ali: Armando Rafael Colacioppo, o Seu Armando. Um simpático tiozinho de barba grisalha, roupas leves e uma pequena bolsa tipo carteiro, repleta de bonequinhos de feltro, feitos pela esposa, a Dona Vera. Era uma figura popularíssima tanto ali quanto em outros bares da capital, especialmente na Vila Madalena.

Mas naquele momento, não estávamos muito dispostos a comprar um dos bonequinhos dele. Quando ele apareceu, tratou de começar seu ritual: tirar um bichinho por vez, apresentá-los e concluir o papo com seu bordão “compra um?”. Os mais populares eram a Cobrinha Azul, o Zé Celso, a Bruxinha, o Pássaro do Novo Milênio, a Dorotéia, o Marciano Erótico… Desta vez, ele tratou de apresentar o Elefante.

- Elefante? Já bastam os que estão nessa mesa – disse um dos “pesados” amigos.

Era para ser uma piadinha boba, mas aquilo enfureceu o Seu Armando – eu nunca o tinha visto tão irritado. Emendou com um discurso pesadíssimo, sobre pessoas que trabalham honestamente, e que não precisam ficar ouvindo comentários burgueses, de pessoas que não dão a mínima para valores básicos.

Foram longos segundos cabisbaixos, sérios, sem ter muito o que falar até Seu Armando ir embora. Naquela altura, imaginávamos que ele sempre lembraria daquela noite horrorosa, e sempre nos interpelaria com alguma mensagem politizada, ridicularizando nossa insignificância…

Que nada. Semanas depois, lá estava ele, inspirado e alegre e sorridente como sempre. Nem lembrava dos elefantes que estavam naquela mesa.

Talvez por ter ficado com aquela imagem, tratei de comprar um Snoopy do Seu Armando. Nos últimos anos, ainda comprei um pinguim e um saci. Cinco reais cada um. Estão todos em lugar privilegiado da casa – mais do que uma simples valorização de seu trabalho, era praticamente um pedido de desculpas velado pelo episódio do elefante.

Nas últimas vezes que encontrei com Seu Armando na região da Paulista, celebrava com ele a entrevista concedida ao Guia da Vila, ao lado de sua esposa. Também comemorava com alegria o crescimento da comunidade Compra Um do Orkut, onde ele mesmo mantinha seu perfil e participava, de vez em nunca.

Essa semana, recebi uma notícia triste. Era o fim de mais uma noite vendendo seus bonequinhos, quando Seu Armando passou mal. Talvez tenha levado algum tempo até ser atendido, ou simplesmente o infarto veio num momento ingrato, mas determinado pelo destino.

Agora, a Cobrinha Azul e seus companheiros se transformaram em uma história. Talvez num boteco, lá na frente, a gente o encontre com seus bichinhos.

Atualizado: Tem mais homenagens aqui, aqui, aqui e aqui.

Resolução de ano novo

Por Marmota | 28/06/2007, 23h36

Nossas atitudes diante de alguns desafios diários podem ser divididas em quatro níveis de aprofundamento, a saber. Nível zero: decisões erradas com informações na mão (burrice). Nível mínimo: decisões erradas sem informação alguma (o que é normal). Nível bom: decisões certas com as informações (inteligente). Nível metafísico: decisões certas sem informações (gênio ou deus). Para o Adilson, existe ainda o nível -1: situações em que você sabe que deveria ter feito algo, mas protelou por toda a vida e ficou na pior (trouxa).

Posso dizer que, no campo pessoal, já consigo tomar decisões que se encaixam no terceiro nível, sem grandes turbulências. O desafio é fazer o mesmo no campo profissional – onde é muito mais cômodo escolher qualquer coisa sem explicar os motivos, caindo fatalmente no estúpido nível zero e se tornando um perfeito imbecil.

Outra forma fácil de decidir errado e se dar muito mal é seguir ao pé da letra um dos mais terríveis conselhos que já tiveram coragem de inventar: “siga seu coração”. Uma biruta. Faça isso literalmente e corra o risco de se ver isolado num mundo só seu, gritando aos quatro cantos coisas como “alguém me salve” e vendo a maioria responder de volta: “se vira”.

Mas enfim. Papai Noel, anote aí: não quero só decidir coisas, mas principalmente saber qual a melhor forma.

(Postado em 16/12/2005, como pedido de Natal para o ano de 2006. Provavelmente, jamais serei atendido.)

O sucesso da marmota dramática

Por Marmota | 27/06/2007, 23h50

Esse post é baseado na coisinha ridiculamente boba abaixo. Em inglês, chama-se Drama Prairie Dog (ou Dramatic Chipmunk), e recebeu o rótulo de “os cinco segundos mais engraçados da internet”.

Você achou alguma graça nisso? Veja quantas vezes quiser e tente responder como é possível essa brincadeirinha ter se tornado o maior viral dos últimos dias, ultrapassando 1,5 milhões de views em uma semana – sem contar as cópias disponíveis dentro e fora do YouTube.

Mais de UM MILHÃO E MEIO!!! E subindo!!! Como pode uma coisa dessas? Como???

Pois eu tenho absoluta certeza de que o autor da brincadeira não fazia a menor ideia do que estava fazendo quando decidiu mexer com o programinha japonês a seguir.

Repare que a viradinha de cabeça misteriosa, seguido por um olhar espantado, é um trechinho muito pequeno dessa inofensiva apresentação de um cão da pradaria, espécie de esquilo comum na América do Norte (não, não é uma marmota), a um bando de criancinhas. Fosse eu que tivesse “inventado”, certamente acharia uma porcaria. Sequer mostraria para alguém.

Pois os cinco segundos foram parar no site de vídeos humorísticos CollegeHumor no último dia 19. No dia seguinte, já estava no BoingBoing e no YouTube. No Brasil, chegou a alguns blogs até ir parar ao “hub” do Kibe Loco no dia 25, que tratou de associar o roedor a frases de efeito dramático, do tipo “Eu matei Odete Roitman!”, “mãe, eu sou gay!” e “Luke, eu sou seu pai!”.

Estava executado o rastilho de pólvora da semana. Gente reproduzindo o vídeo, fazendo todo tipo de remixagens e ajustes, ou simplesmente simulando o olhar tenebroso do animalzinho. O esquilo/marmota/cão de pradaria já estampa camisetas, à venda por um precinho camarada!

Falando em camisetas, o dono da mais popular camiseteria da web Fábio Seixas está metido também no negócio dos vídeos mais bacanas da web: trata-se do site WeShow, capitaneado por um dos maiores especialistas em viral do Brasil: o criador do prêmio IBest Marcos Wettreich.

Quem sabe eles consigam explicar o segredo da marmota desesperada – se é que existe algum.

Atualizado: O esquilo dramático ganhou um blog só para suas repercussões mundo afora. E o canal de entretenimento europeu VH1 elegeu “Dramatic Chipmunk” como o assunto da semana. Agora aguenta.

Como é duro trabalhar na selva

Por Marmota | 26/06/2007, 23h14

“Cara, você não está bem. E dá pra ver pelo seu blog”, disse hoje um amigo, preocupado com o relaxo deste espaço. “Não tem como enganar: para cada texto simplório inédito, você republica quatro! E o que era aquela piadinha cretina e sem graça de ontem? Ainda que fosse nova, mas era mais um dos seus calhaus!”, argumentou com veemência, entrando para o cada vez mais popular TCCM (Todos Contra o Calhau do Marmota). Ele tem razão: como todo blog, ele reflete exatamente o pensamento e o estado de espírito de seu autor. No meu caso, tanto o primeiro quanto o segundo exibem o rótulo “exausto”.

Tudo porque, graças a alguns motivos particulares (entre eles o carro na oficina por tempo indeterminado), eu me obriguei a uma experiência sócio-biológica, que já completou dez dias: depois de algumas dezenas de meses, optei por trabalhar cedo. Ao contrário do que eu imaginava, meu “célebro” seguiu o coro das “minhas junta”, reclamando sistematicamente e exigindo o retorno imediato das manhãs em ritmo lento e tardes e noites no auge criativo. Qualquer hora dessas eu desperto – se bem que, antes disso, vai ser preciso dormir muito.

Digo que foi uma reação orgânica inesperada porque já cumpri essa rotina diversas vezes na vida. A pior das fases foi durante os primeiros anos da Escola Técnica Federal, onde a primeira aula começava as sete – foram três anos acordando as 4h30, somados a outros longos períodos cruzando as léguas que separam minha casa da civilização no fim da madrugada. Desta vez, passo manhãs e tardes tentando me reanimar à base de água no rosto e doses de café. Claro que, à noite, não sobra muita coisa.

O próprio Tuca, quando nos vimos após a estréia do Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado na última quinta, estranhou ao me ver indo embora de fininho, sem sugerir qualquer encontrinho rápido ao fim da noite. “Quem diria, hein? Difícil imaginar aquele cara animado, que conversa por horas noite adentro, pudesse ficar nesse estado”. Será a idade?

“Não reclama, seu moleque… Você é um guri novo, na flor da juventude. E tem mais, todo mundo trabalha nesse horário”, bradou a minha mãe, enquanto engolia o café dias atrás. Pois aí é que mora o grande problema: é todo mundo ao mesmo tempo. Com raras exceções, o pobre coitado que não tem por onde escapar do trânsito atravessa densos oceanos de veículos cuja maré é determinada por motociclistas engraçadinhos, motoristas estressados ou caminhoneiros despreparados.

Já quem opta pelo transporte coletivo encontra grandes amontoados em ônibus, metrô e trens pretensamente expressos – como suportar a agonia entre o Brás e a Luz? São corredores, catracas, escadas rolantes e plataformas (que mais parecem bretes para contenção de gado) tomadas por uma quantidade interminável de povo mal-educado – desde o boboca que ignora o aviso de “assento preferencial” até o apressado-empurrador-de-gente-indefesa, passando pelo estressadinho que não perde a chance de usar a frase “não reclama e pega um táxi”.

Eu até admito que eu estou ficando ranzinza cedo demais. Posso até comparar esse estado semi-letárgico com aquela sensação pós-estréia na academia de ginástica: seu corpo acostuma depois de algumas semanas, mas na primeira oportunidade, dizemos “basta”. Mas não há como negar que o sistema de transportes está no limite, sempre na beira do caos. E por mais que seja totalmente necessário, ou que o dia-a-dia nos faça dizer “ah, não tem outro jeito”, isso não é vida.

É como se milhares de pessoas fossem processadas diariamente em uma centrífuga, sendo despejadas em pontos diversos da cidade como se estivéssemos na selva. São todos heróis, mas que amanhã podem ganhar um epitáfio do gênero “sempre levando a vida, até que um dia a levaram”. Credo, nem é bom pensar nessas coisas. Vou parar de falar bobagem e pegar mais um café.

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