Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: abril/2007

Zeca-feira é o cacete

Por Marmota | 25/04/2007, 16h56

Zeca-feira? Blé.

Já está enchendo os pacová. Há duas semanas (desde o último dia 11), Zeca Pagodinho e sua claque de menestréis invadem rádios, tevês e outros meios, propagando uma idéia da agência de propaganda África – aliás, inspirada em outra já usada na Argentina.

A novidade? A quarta-feira virou sexta! Ou melhor, “é a Zeca-feira no meio da semana, a quarta agora é sexta-feira também”. A proposta é aproveitar o meio da semana para quebrar a rotina, recuperar o fôlego e relaxar num bar com os amigos. Ou seja, cerveja (ops, esse slogan é da Nova Schin, aquela que o Zeca já tragou ao ouvir o mundo gritar “experimenta”).

A propagação dessa idéia é maciça. Tiveram a audácia inclusive de pagar um noticiarista da Bandnews FM para passar a manhã inteira dizendo que “hoje é Zeca-feira”. Tudo bem, é pra ser um negócio irreverente e relaxante. Mas não deixa de ser propaganda de bebida alcoólica, com o único intuito de encher o bolso da Ambev – eu, ingênuo, acreditava em horários e regras rígidas pra isso… É algo a ser pensado.

No meu caso, tudo que eu posso dizer é: muito obrigado por nada. A única comparação que consigo fazer entre quarta e sexta é quando temos feriado na quinta – o que, dependendo dos plantões, também não quer dizer absolutamente nada. Para piorar, quarta-feira é o meu dia mais cheio, e só costumo sair do trabalho na madrugada. Ah, sim, tem outro detalhezinho que me mantém bem longe do público-alvo: eu detesto cerveja.

Portanto, Zeca, aproveite o happy hour como quiser, e se beber não dirija. Mas não tente me enganar: hoje é simplesmente quarta-feira.

O Sol, a Terra ou nossa espécie: o que vai acabar primeiro?

Por Marmota | 24/04/2007, 15h53

A premissa do filme Sunshine – Alerta Solar, uma opção muito bacana de entretenimento, é a de que o Sol está perdendo a sua força, e daqui a apenas 50 anos, só uma mega-bomba nuclear seria capaz de reascender a estrela central do nosso sistema. Antes de se impressionar ao sair do cinema, não se preocupe. Vai levar muito tempo até que essa ameaça aconteça de verdade. Até lá, a humanidade vai dar cabo de sua própria extinção.

Ou não. A expressão de ordem é aquecimento global e suas inseparáveis conseqüências climáticas: aumento do nível do mar, derretimento dos pólos, maior quantidade de furacões e ciclones, áreas atingidas por secas e desertos… Nunca se debateu tanto a respeito do aumento da temperatura no planeta e sua relação com as maldades do ser humano, emissores de lixo, gás carbônico, desmatamento…

Muitas vezes o embate envolvendo as facções xiitas dos ecochatos e os malfeitores do meio-ambiente transformam discussões produtivas em brigas desnecessárias, e que só contribuem com a deterioração das relações humanas. No meio desse entrevero, ações mais interessantes, porém isoladas, se ofuscam. Quem é que sabia, por exemplo, da blogagem coletiva proposta pela Lucia Malla e seus amigos, mantenedores do coletivo Faça a sua Parte?

A proposta é simples, apesar da execução ser difícil – afinal, só eu, você e mais alguns que pensaram no assunto vão fazer. Quem aceitasse o desafio apontaria uma meta a ser atingida no que se refere à economia de recursos. O texto seria publicado no último domingo, 22 de abril, o Dia da Terra, data que marcou um dos primeiros protestos contra o aumento da poluição no planeta. A primeira vista, parece perfeito: se cada um tivesse um espasmo de consciência, provavelmente não estaríamos discutindo nada disso no futuro. Sem falar que é melhor tomar uma atitude, por menor que seja, do que não fazer nada e esperar alguém nos salvar.

Conversei muito sobre o assunto com um amigo, o Arno Rochol. Ele tem uma visão de mundo especial, fundamentada em valores humanos em detrimento ao material. Ele é um entusiasta da Teoria de Gaia, lançada nos anos 70 pelo cientista britânico James Lovelock. Gaia é o nome de uma divindade grega, a “Mãe Terra”. Também é o nome dado ao conceito de que todos os seres que nasceram dela precisam se respeitar. Segundo a Teoria de Gaia, a Terra é um ser vivo, capaz de gerar e manter as suas próprias condições de meio-ambiente.

Isso significa que o comportamento da nossa espécie no planeta poderia influenciar na saúde da Terra, e se nós perdermos o controle, Gaia, a Mãe Terra Gaia, trata de se livrar do problema (ou seja, nós) e seguir seu caminho. Faz todo sentido, não?

Baseado nesse ponto de vista, Arno fez algumas ressalvas sobre simplesmente fazer a minha parte. “A idéia de reduzir o consumo de energia, mesmo sendo o caso combustível do carro, é boa. Mas esse discurso é antigo. Há muito que não está em jogo salvar a Terra, mas sim A NOSSA SOBREVIVÊNCIA! Talvez tu próprio ainda sentirás na própria carne as conseqüências de nossa ações atuais. E o que falar dos filhos de nossos filhos? Não será economizando uns litros aqui, outros ali, que vamos resolver. Seria preciso muitíssimo mais”.

Ele vai além. “A abordagem, a meu ver, não é por aí. Esse tipo de salvação é igual aos muitos projetos de ‘responsabilidade social’, de ‘ajuda ao desenvolvimento’… Remendinhos, assistencialismo, paternalismo. O que precisamos, realmente, é de justiça! Justiça ambiental, social. Dar a cada ser o que merece por ser o que é! E não economizar combustível… Precisamos pisar no freio e puxar a trave de mão e dar marcha ré. Tudo ao mesmo tempo! Ou será que já não estamos voando pelo espaço de um precipício, achando que estamos numa ponte?”.

A preocupação do meu amigo Arno se materializou num site lançado, coincidentemente, no Dia da Terra: o Grupo Gaia. Por enquanto, a página traz apenas os seus ideais, contra à desagregação social e destruição ambiental, alem da proposta para a criação de uma comunidade sintonizada com seus valores de respeito à vida.

Pena que nossos limitados valores humanos, que invocam coisas como “meu grupo de defesa do meio-ambiente é melhor que o seu”, ainda inviabilizem qualquer grande idéia. Mas tanto o Faça a sua Parte quanto o Grupo Gaia e muitos outros que eu não conheço podem, ainda que separadamente, funcionar como um “choque de gestão”. E talvez ainda dê tempo de salvar a nossa espécie bem antes do dia em sejamos obrigados a reacender o sol.

Não deixe de ler também os textos do Chico e do Edney sobre o filme Sunshine, além dos dois parágrafos sensatos do prodígio Ibrahim Cesar (seguido de comentários muito engraçados sobre o apocalipse).

Cinco coisas boas para se fazer em Porto Alegre

Por Marmota | 23/04/2007, 21h34

Preciso pedir desculpas ao Ian por ter “invadido” sua proposta sem pedir. Mais do que isso, outra vez eu vou acabar desvirtuando sua idéia original: sua série de cinco coisas boas de algumas cidades do Brasil partem do pressuposto que o nativo, ou o morador do lugar, possa levá-los a cantos inexplorados.

Porto Alegre é assim Infelizmente, eu não moro em Porto Alegre. Mas não é segredo para ninguém: se eu pudesse, embarcaria agora mesmo com a minha malinha e passaria o resto dos meus dias por lá. O fato é que de tanto pensar nisso, além de conversar com amigos de lá – especialmente aqueles que não vêem a hora de morar em São Paulo, onde as coisas acontecem – acabo invariavelmente relegando esse plano para o fim da lista. É provável que eu só realize esse sonho quando estiver aposentado.

É uma pena que eu não conheça Porto Alegre como eu gostaria. Infelizmente nunca estive na cidade durante a Feira do Livro, nos arredores da Praça da Alfândega. Nem durante a apresentação de Tangos e Tragédias no Teatro São Pedro. Menos ainda na Semana Farroupilha, espécie de “feriado nacional” do estado, onde o “entre outras mil és tu Brasil ó pátria amada” dá lugar ao “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”. Ou, como diz o Marcelo Träsel, “assistir aos gaúchos comemorarem fantasiados de peões de estância uma guerra separatista que na verdade perderam”. Deve ser uma coisa de louco.

Porto Alegre é assim Apesar disso, eu me sinto muito à vontade para escrever sobre cinco coisas que só dá para fazer na capital gaúcha, o que a torna tão apaixonante. Evidentemente, fica muito mais fácil quando contamos com o auxílio de outros amantes da cidade, que me ajudaram a formatar este “Porto Alegre essencial” com alguns de seus encantos.

#5 Assistir a um jogo do Inter no Beira-Rio – “Dá para saber que está acontecendo um jogo da dupla Gre-Nal, mesmo não tendo conhecimento. A mobilização nas ruas é muito grande”, lembra a Joanna. É claro que você pode visitar aquele estadiozinho esquisito, encravado na avenida da Azenha. É legalzinho também. Mas se você tiver apenas uma chance de acompanhar um time de futebol na cidade, prefira o templo batizado com o nome do comandante das suas obras, José Pinheiro Borda.

Claro que, se for fazer, faça direito. Comece sua peregrinação no Shopping Praia de Belas – especialmente se você for de carro, estacione ali mesmo. A caminhada em direção a avenida Padre Cacique, em direção ao Parque Gigante, é acompanhada pelos “brigadianos”, pelos vendedores de flâmulas, camisas, bandeiras e almofadinhas (há quem leve a sua para as arquibancadas), além da movimentação intensa dos Colorados – com ou sem radinho de pilha à tiracolo.

Marmota em Porto AlegreAntes de ir ao seu portão, não deixe de contemplar a grandiosidade do Beira-Rio e passar na lojinha para comprar algum souvenir vermelho e branco. Se a Renata Pimentel convidar você, certamente você vai se instalar ao lado das torcidas organizadas. Provavelmente você vai encontrar o José Antônio, o Xuxu, torcedor-símbolo do Inter e figura conhecidíssima no Brasil inteiro.

Mas também dá pra se divertir nas cadeiras numeradas, onde também passam os tradicionais vendedores de cerveja, refrigerante… E café! (Não conheço outro estádio com esse tipo de ambulante). Ou, sem querer, esbarrar com o Luciano Périco, o Lucianinho, repórter da Rádio Gaúcha, campeão no quesito “animação de torcida” e sujeito de um coração enorme.

Evidentemente, o passeio fica ainda melhor quando o Inter vence.

Porto Alegre é assim#4 Ir à CCMQ e arredores da Rua da Praia – “Gosto de andar de trem, sendo que na verdade é metrô”, diz o Rodgers Sabbath’s, outro fã da cidade. “A gente usa o metrô, mas chama de Trensurb”, corrige a Dani Koetz (que, infelizmente, é gremista). De fato, o sistema de transportes públicos é muito bem organizado: quem vem de Trensurb da Grande Porto Alegre e desembarca na estação Mercado pode, a partir dali, pegar um ônibus com facilidade para qualquer região da cidade – o Parcão, por exemplo, que fica no sofisticado bairro Moinhos de Vento. Outras nove linhas, chamadas transversais, servem os bairros mais distantes.

Mas o mais gostoso é caminhar pela cidade. Subir a Borges de Medeiros até a Duque de Caxias, encontrando o Palácio Piratini, a Assembléia Legislativa, o Momumento à Júlio de Castilhos, a Catedral… Dali caminhar pela Rua Riachuelo e descobrir, em algum sebo, aquele livro ou revista que você julgava esquecido no tempo.

Algumas quadras dali e, finalmente a Rua dos Andradas – cujo nome original no Século XIX era Rua da Praia. Em alguns pontos do calçadão, os postes de luz arredondados já se perderam no meio das centenas de prédios comerciais, sem falar nas milhares de pessoas que passam ali todos os dias. A Rua da Praia é passagem de alguns dos pontos turísticos mais conhecidos, como a Igreja de Nossa Senhora das Dores.

Porto Alegre é assim Mas a verdadeira unanimidade desse pedacinho da cidade é a Casa de Cultura Mário Quintana, onde funcionava o luxuoso Hotel Majestic. O meu poeta preferido morou ali no quarto 217 entre 1968 e 1982, por isso o lugar se transformou em centro cultural, em 1990.

E enquanto você toma um café no terraço e medita às margens do Guaíba, “todos esses que aí estão / atravancando meu caminho, / eles passarão… / eu passarinho!”

#3 Passear na Redenção num domingo – A Renata Pimentel acorda cedo para não perder esse programa: ao lado dos amigos, e munida de cuia, bomba, erva e garrafa térmica, se manda para o Parque Farroupilha. Minha amiga Ana Rosa, que morou lá por quatro anos, lembra ainda que “ao andar pela rua num domingo e ver todas as churrasqueiras dos prédios fumegando”. A grosso modo, ou o porto-alegrense fica em casa assando carne ou vai para a Redenção.

Porto Alegre é assim

O parque é o maior da cidade, e em domingos agradáveis, enche mesmo – o melhor a fazer é deixar o carro em casa e desembarcar no bairro Bom Fim, arredores da João Pessoa ou Oswaldo Aranha. Com sorte, dá até para entrar sem filas no Café do Lago, só para ver o tempo passar. Se a lotação não permitir nada além de caminhadas, marque com seus amigos no Monumento aos Expedicionários, um duplo arco do triunfo que serve como ponto de encontro, antes de circular todo pimpão e serelepe.

Porto Alegre é assimA grande atração do domingo é o Brique da Redenção, tradicional feira de artesanato e antiguidades. Nada muito especial: quem já foi a Benedito Calixto em São Paulo, ou a feirona da Afonso Pena em Belo Horizonte, não vai se emocionar. Também não é o lugar mais barato para comprar presentes.

Mas o grande barato do brique são as criaturas peculiares, que convivem com as barraquinhas. Diversos artistas de rua, desde as manjadas estátuas vivas, passando por palhaços tarados, pintores expressionistas que usam apenas giz e asfalto, militantes do PT… Sem falar no tiozinho com o “gato no saco” (sem maldades).

Ele usa sua desenvoltura e técnicas rudimentares de ventriloquismo para vender pequenos “apitos”, feito com bambu e tiras de balões de ar. Daqueles que se colocam sobre a língua e, ao soprar, emitem um som parecido com o ronronar de um bichano. O performático usa um linguajar popular para interagir com o “gato” e com a platéia, garantindo algumas risadas.

#2 Virar a noite na Cidade Baixa – Essa é a parte que o Márcio Zé Pedroso adora, a qualquer hora do dia ou da noite: beber uma cerveja Polar bem gelada na companhia dos amigos. A Cidade Baixa, um dos mais antigos bairros da cidade, é o lugar perfeito pra isso.

Porto Alegre é assimNão tem como não passar a noite inteira conhecendo o local preferido dos boêmios da cidade, invadindo os bares da Lima e Silva, República e João Alfredo. “E não enjoar de ver tanta mulher bomita num lugar só”, lembra o Sabbath’s. “Ah, até cobrador de ônibus ou balconista de farmácia são lindos”, completa a Ana Rosa. Aaahhh, as gaúchas…

A Cidade Baixa também é um bom lugar para comer. “Dá pra se acabar na lasanha monstro da lanchonete Copão”, diz o Zé. “Eu prefiro pegar fila pra comer no Tudo Pelo Social”, diz o Sabbath’s. Pessoalmente, compartilho da mesma sugestão da Joanna: comer “xis” com muita maionese no Cavanhas.

Aliás, sugestões nesse quesito não faltam. Se você não gosta do ambiente mais “popular”, pode tentar algo mais requintado na Avenida Goethe. O Dado Bier, perto do Shopping Iguatemi, é outro lugar muito badalado. O Träsel sugere ainda o pernil de cordeiro da churrascaria Porto-Alegrense, no bairro Navegantes. Também dá para comer outro tipo de carne, nas boates Gruta Azul, Carmen’s Club ou La Barca… Ok, estas são para virar a noite de um outro jeito. Aaahhh, as gaúchas…

#1 Ver o pôr-do-sol no Guaíba – Impossível não dizer que esta opção foi simplesmente unânime, o que nos leva a crer que o final da tarde em Porto Alegre é um negócio sagrado, que deve ser celebrado sempre que possível.

Na última vez que fiz isso, preferi não subir ao terraço da Usina do Gasômetro, ou ao Hotel Majestic. Fiquei na calçada da avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira Rio, a mercê dos transeuntes – e dos guris que me olhavam com cara feia, como se quisessem me assaltar.

Porto Alegre é assim

“O mais legal dessas coisas todas é levar amigos para conhecer tudo e ainda ensinar a letra de Tertúlia, Canto Alegretense, Porto Alegre é Demais, Deu Pra Ti e o Hino do Grêmio”, finaliza a Dani Koetz. Tem ainda aquela que começa com “glória do desporto nacional”.

Faltou alguma coisa? Não deixe de me contar, para que eu possa descobrir um pouco mais da minha cidade preferida assim que puder.

Oh la la Paris decoup est rolaux!

Por Marmota | 22/04/2007, 15h14

Se há uma coisa que estou fazendo pouco nesses últimos dias é dormir. Quando consigo chegar à cama, mal dá tempo de apagar a luz e, de repente, é hora de levantar. A última vez em que fiquei tempo suficiente para não fazer absolutamente nada sobre o colchão, consegui até lembrar do que sonhei – isso porque sonhamos toda noite, mas raramente nos preocupamos com esse detalhe.

Pois bem. De repente, estava sentado em uma poltrona à esquerda de uma composição qualquer. Absolutamente perdido, sem qualquer referência espaço-temporal. Como estava no corredor, custei para saber do que se tratava: o veículo corria como um trem, mas era compacto como um ônibus. Vai ver era um bonde… Mas isso não vem ao caso. Fora do comboio, uma paisagem muito verde passava ligeira. Dava até para identificar, vez ou outra, uma ou outra árvore.

Só tive certeza de que era uma viagem turística quando vi, no banco da frente, uma família de japoneses entusiasmados. Fotografavam tudo e a todos, com sorrisos quase artificiais estampados na face. Algum tempo depois, reconheci (acho) uma ou outra palavra balbuciada pelos nipônicos. Era português!

Enfim, como trata-se de um sonho, a explicação para o idioma não está clara. Pode ser a tecla sap do meu córtex. A bem da verdade é que não dá para saber exatamente as palavras, apenas reconhecer a sensação. Como toda sandice desencadeada durante o REM, os japoneses poderiam perfeitamente ter dito algo como “Okuta, melhor recolher o liquidificador para o bagageiro, afinal de contas vai chover e eu quero meu sanduíche de rosbife passado na chapa, sem paralelepípedos”.

Arregalado, entendi o porquê da língua familiar quando o bólido se aproximou da zona urbana. Tenho convicção absoluta: tratava-se da Grande São Paulo. O verde virou cinza. Avenidas estranhas e entroncamentos confusos; carros enroscados em congestionamentos; placas sem qualquer sentido. E o bondinho, com velocidade reduzida, não parou um minuto sequer. Nem os japoneses.

Bem mais devagar, o carro turístico chegou a uma rua larga e bastante movimentada. Prédios baixos com sobrelojas chamativas, toldos coloridos e incontáveis produtos diversos. Todas abarrotadas de gente carregando sacolas. No final da rua, uma última placa verde, com uma seta orientada à direita apontando para uma última saída. Estava escrito, na sequência: São Mateus, Sapopemba e Retorno.

Permanecíamos ignorando quaisquer orientação e seguimos em frente, até uma ponte de defensas baixas. As margens do rio eram distantes, o que tornava a travessia uma verdadeira eternidade. A ansiedade baixou quando vi dezenas de barcos, alguns luxuosos, circulando naquele marzão de água amarelada. Já em terra firme, o veículo anunciou o fim da viagem.

Desembarquei e, pasmo, vi um imenso luminoso, daqueles com lâmpadas incandescentes piscando ao redor e letras pretas tamanho king size:

Bienvenue a Paris!

Meu espanto e abobalhamento era tamanho que despertei logo após mais um flash dos nipônicos – nem pude ver para que lado ficava a torre Eiffel a partir daquele ponto. Pensando bem, foi até bom não ter visto: as chances de uma decepção seriam grandes.

Saí da cama com as imagens do passeio e duas conclusões inabaláveis. A primeira: nada como se sentir uma pedra enquanto dorme. A segunda: mesmo se Paris fosse ligada à um Brasil com pinta de Paraguai por um monotrilho, ainda haveria japoneses fotografando.

(Postado em 13/04/2005)

O incrível Brasil das Placas, de volta

Por Marmota | 21/04/2007, 12h13

Em 2003, a Editora Abril, usando a marca da revista Superinteressante, aproveitou uma idéia genial do editor dos editor dos Guias 4 Rodas José Eduardo Camargo. Em suas viagens pelo país, o jornalista ria sozinho ao encontrar placas como “borracharia bocada”, “lanchonete dois irmões”, “temos strufts” (???), entre outras placas engraçadíssimas.

As imagens se transformaram numa divertida exposição em 2002, um ano antes da Abril lançar a primeira edição de O Brasil das Placas. Cada placa inusitada publicada no livro ganhou um cordel do escritor L. Soares (pseudônimo de André Fontenelli), conjunto apresentado através de uma fonte batizada “brasilêro”, criada pelo designer Crystian Cruz.

Passado um tempo, o livro sumiu das bancas de jornais. A explicação, junto com uma notícia sensacional, chegou ao meu e-mail esses dias, assinada pelo próprio José Eduardo Camargo:

Opa! Beleza? Então, relancei em abril o livro O Brasil das Placas (lembra dele?), desta vez em versão para livrarias (a primeira foi só para bancas, ficou dois meses e esgotou) pela Panda Books, com o dobro de fotos, 144 páginas e mais cordéis. O site do livro é www.brasildasplacas.trampo.com.br. Um abração!!!

Maravilha! Já adicionei a nova edição do livro na minha listinha de presentes!

Retrato fiel da alma do povo, as placas e mensagens públicas inusitadas é um dos assuntos preferidos em blogs de humor – não tem como não se surpreender com esse tipo de imagem. Durante um bom tempo, a Clarice Maia Scotti (que sumiu!) também se divertia com o tema, mantendo os fotologs A Voz do Povo e Faixa Brega. O bom uso (?) do idioma também reflete no outro lado do Atlântico, no já tradicional Portugal no Seu Melhor.

Serviço: compare preços do livro O Brasil das Placas no Buscapé.

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