Preciso pedir desculpas ao Ian por ter “invadido” sua proposta sem pedir. Mais do que isso, outra vez eu vou acabar desvirtuando sua idéia original: sua série de cinco coisas boas de algumas cidades do Brasil partem do pressuposto que o nativo, ou o morador do lugar, possa levá-los a cantos inexplorados.
Infelizmente, eu não moro em Porto Alegre. Mas não é segredo para ninguém: se eu pudesse, embarcaria agora mesmo com a minha malinha e passaria o resto dos meus dias por lá. O fato é que de tanto pensar nisso, além de conversar com amigos de lá – especialmente aqueles que não vêem a hora de morar em São Paulo, onde as coisas acontecem – acabo invariavelmente relegando esse plano para o fim da lista. É provável que eu só realize esse sonho quando estiver aposentado.
É uma pena que eu não conheça Porto Alegre como eu gostaria. Infelizmente nunca estive na cidade durante a Feira do Livro, nos arredores da Praça da Alfândega. Nem durante a apresentação de Tangos e Tragédias no Teatro São Pedro. Menos ainda na Semana Farroupilha, espécie de “feriado nacional” do estado, onde o “entre outras mil és tu Brasil ó pátria amada” dá lugar ao “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”. Ou, como diz o Marcelo Träsel, “assistir aos gaúchos comemorarem fantasiados de peões de estância uma guerra separatista que na verdade perderam”. Deve ser uma coisa de louco.
Apesar disso, eu me sinto muito à vontade para escrever sobre cinco coisas que só dá para fazer na capital gaúcha, o que a torna tão apaixonante. Evidentemente, fica muito mais fácil quando contamos com o auxílio de outros amantes da cidade, que me ajudaram a formatar este “Porto Alegre essencial” com alguns de seus encantos.
#5 Assistir a um jogo do Inter no Beira-Rio – “Dá para saber que está acontecendo um jogo da dupla Gre-Nal, mesmo não tendo conhecimento. A mobilização nas ruas é muito grande”, lembra a Joanna. É claro que você pode visitar aquele estadiozinho esquisito, encravado na avenida da Azenha. É legalzinho também. Mas se você tiver apenas uma chance de acompanhar um time de futebol na cidade, prefira o templo batizado com o nome do comandante das suas obras, José Pinheiro Borda.
Claro que, se for fazer, faça direito. Comece sua peregrinação no Shopping Praia de Belas – especialmente se você for de carro, estacione ali mesmo. A caminhada em direção a avenida Padre Cacique, em direção ao Parque Gigante, é acompanhada pelos “brigadianos”, pelos vendedores de flâmulas, camisas, bandeiras e almofadinhas (há quem leve a sua para as arquibancadas), além da movimentação intensa dos Colorados – com ou sem radinho de pilha à tiracolo.
Antes de ir ao seu portão, não deixe de contemplar a grandiosidade do Beira-Rio e passar na lojinha para comprar algum souvenir vermelho e branco. Se a Renata Pimentel convidar você, certamente você vai se instalar ao lado das torcidas organizadas. Provavelmente você vai encontrar o José Antônio, o Xuxu, torcedor-símbolo do Inter e figura conhecidíssima no Brasil inteiro.
Mas também dá pra se divertir nas cadeiras numeradas, onde também passam os tradicionais vendedores de cerveja, refrigerante… E café! (Não conheço outro estádio com esse tipo de ambulante). Ou, sem querer, esbarrar com o Luciano Périco, o Lucianinho, repórter da Rádio Gaúcha, campeão no quesito “animação de torcida” e sujeito de um coração enorme.
Evidentemente, o passeio fica ainda melhor quando o Inter vence.
#4 Ir à CCMQ e arredores da Rua da Praia – “Gosto de andar de trem, sendo que na verdade é metrô”, diz o Rodgers Sabbath’s, outro fã da cidade. “A gente usa o metrô, mas chama de Trensurb”, corrige a Dani Koetz (que, infelizmente, é gremista). De fato, o sistema de transportes públicos é muito bem organizado: quem vem de Trensurb da Grande Porto Alegre e desembarca na estação Mercado pode, a partir dali, pegar um ônibus com facilidade para qualquer região da cidade – o Parcão, por exemplo, que fica no sofisticado bairro Moinhos de Vento. Outras nove linhas, chamadas transversais, servem os bairros mais distantes.
Mas o mais gostoso é caminhar pela cidade. Subir a Borges de Medeiros até a Duque de Caxias, encontrando o Palácio Piratini, a Assembléia Legislativa, o Momumento à Júlio de Castilhos, a Catedral… Dali caminhar pela Rua Riachuelo e descobrir, em algum sebo, aquele livro ou revista que você julgava esquecido no tempo.
Algumas quadras dali e, finalmente a Rua dos Andradas – cujo nome original no Século XIX era Rua da Praia. Em alguns pontos do calçadão, os postes de luz arredondados já se perderam no meio das centenas de prédios comerciais, sem falar nas milhares de pessoas que passam ali todos os dias. A Rua da Praia é passagem de alguns dos pontos turísticos mais conhecidos, como a Igreja de Nossa Senhora das Dores.
Mas a verdadeira unanimidade desse pedacinho da cidade é a Casa de Cultura Mário Quintana, onde funcionava o luxuoso Hotel Majestic. O meu poeta preferido morou ali no quarto 217 entre 1968 e 1982, por isso o lugar se transformou em centro cultural, em 1990.
E enquanto você toma um café no terraço e medita às margens do Guaíba, “todos esses que aí estão / atravancando meu caminho, / eles passarão… / eu passarinho!”
#3 Passear na Redenção num domingo – A Renata Pimentel acorda cedo para não perder esse programa: ao lado dos amigos, e munida de cuia, bomba, erva e garrafa térmica, se manda para o Parque Farroupilha. Minha amiga Ana Rosa, que morou lá por quatro anos, lembra ainda que “ao andar pela rua num domingo e ver todas as churrasqueiras dos prédios fumegando”. A grosso modo, ou o porto-alegrense fica em casa assando carne ou vai para a Redenção.

O parque é o maior da cidade, e em domingos agradáveis, enche mesmo – o melhor a fazer é deixar o carro em casa e desembarcar no bairro Bom Fim, arredores da João Pessoa ou Oswaldo Aranha. Com sorte, dá até para entrar sem filas no Café do Lago, só para ver o tempo passar. Se a lotação não permitir nada além de caminhadas, marque com seus amigos no Monumento aos Expedicionários, um duplo arco do triunfo que serve como ponto de encontro, antes de circular todo pimpão e serelepe.
A grande atração do domingo é o Brique da Redenção, tradicional feira de artesanato e antiguidades. Nada muito especial: quem já foi a Benedito Calixto em São Paulo, ou a feirona da Afonso Pena em Belo Horizonte, não vai se emocionar. Também não é o lugar mais barato para comprar presentes.
Mas o grande barato do brique são as criaturas peculiares, que convivem com as barraquinhas. Diversos artistas de rua, desde as manjadas estátuas vivas, passando por palhaços tarados, pintores expressionistas que usam apenas giz e asfalto, militantes do PT… Sem falar no tiozinho com o “gato no saco” (sem maldades).
Ele usa sua desenvoltura e técnicas rudimentares de ventriloquismo para vender pequenos “apitos”, feito com bambu e tiras de balões de ar. Daqueles que se colocam sobre a língua e, ao soprar, emitem um som parecido com o ronronar de um bichano. O performático usa um linguajar popular para interagir com o “gato” e com a platéia, garantindo algumas risadas.
#2 Virar a noite na Cidade Baixa – Essa é a parte que o Márcio Zé Pedroso adora, a qualquer hora do dia ou da noite: beber uma cerveja Polar bem gelada na companhia dos amigos. A Cidade Baixa, um dos mais antigos bairros da cidade, é o lugar perfeito pra isso.
Não tem como não passar a noite inteira conhecendo o local preferido dos boêmios da cidade, invadindo os bares da Lima e Silva, República e João Alfredo. “E não enjoar de ver tanta mulher bomita num lugar só”, lembra o Sabbath’s. “Ah, até cobrador de ônibus ou balconista de farmácia são lindos”, completa a Ana Rosa. Aaahhh, as gaúchas…
A Cidade Baixa também é um bom lugar para comer. “Dá pra se acabar na lasanha monstro da lanchonete Copão”, diz o Zé. “Eu prefiro pegar fila pra comer no Tudo Pelo Social”, diz o Sabbath’s. Pessoalmente, compartilho da mesma sugestão da Joanna: comer “xis” com muita maionese no Cavanhas.
Aliás, sugestões nesse quesito não faltam. Se você não gosta do ambiente mais “popular”, pode tentar algo mais requintado na Avenida Goethe. O Dado Bier, perto do Shopping Iguatemi, é outro lugar muito badalado. O Träsel sugere ainda o pernil de cordeiro da churrascaria Porto-Alegrense, no bairro Navegantes. Também dá para comer outro tipo de carne, nas boates Gruta Azul, Carmen’s Club ou La Barca… Ok, estas são para virar a noite de um outro jeito. Aaahhh, as gaúchas…
#1 Ver o pôr-do-sol no Guaíba – Impossível não dizer que esta opção foi simplesmente unânime, o que nos leva a crer que o final da tarde em Porto Alegre é um negócio sagrado, que deve ser celebrado sempre que possível.
Na última vez que fiz isso, preferi não subir ao terraço da Usina do Gasômetro, ou ao Hotel Majestic. Fiquei na calçada da avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira Rio, a mercê dos transeuntes – e dos guris que me olhavam com cara feia, como se quisessem me assaltar.

“O mais legal dessas coisas todas é levar amigos para conhecer tudo e ainda ensinar a letra de Tertúlia, Canto Alegretense, Porto Alegre é Demais, Deu Pra Ti e o Hino do Grêmio”, finaliza a Dani Koetz. Tem ainda aquela que começa com “glória do desporto nacional”.
Faltou alguma coisa? Não deixe de me contar, para que eu possa descobrir um pouco mais da minha cidade preferida assim que puder.