segunda-feira, 30 de abril de 2007

Sobre o planeta Foston

Salvador (BA) – Em um certo dia de janeiro, época em que este blog parava de pensar por conta própria e reproduzia textos descompromissados de amigos ou sob a licença Creative Commons, surgiu um problema. Republiquei um texto voltado para um aspecto do comportamento humano e, de propósito, usava como pano de fundo um elemento que desperta paixões. Poderia ser sobre o mundo fashion, o mundo do futebol, o mundo das religiões… Optou pelo mundo dos carros modificados.

Alguns apaixonados por tuning encontraram o texto e ficaram ofendidos. Não entenderam que era uma opinião sobre pessoas, e não uma crítica a paixão pelos automóveis – que, convém ressaltar, é admirável e merece total consideração. Na prática, eles apenas reforçaram a idéia do texto e escreveram toda sorte de barbaridades – ameaças que certamente jamais fariam se estivessem pessoalmente.

Em situações como essa, onde os “trolls” aparecem em massa ou mesmo falta o mínimo de respeito humano, o melhor a fazer é tirar o problema do ar e deixar os esquentadinhos irem embora para o reino encantado do beleléu. Mas aquela discussão sobre aspectos do comportamento humano, objetivo original texto, não poderia se perder no éter. Por isso, o pano de fundo foi modificado.

O texto a seguir foi livremente inspirado nas teorias maionésicas de Douglas Adams, uma das inúmeras preferências que divido com o Ricardo Araújo. O nome é uma idéia de um outro amigo, o William Bertolo, que descobriu dia desses esta sensacional marca de produtos eletro-eletrônicos. A premissa do “planeta Foston”, dependendo do meu pique (e do gosto popular), pode até aparecer outras vezes. Vamos ver o que acontece.

De qualquer forma, a idéia nunca foi questionar ou provocar nenhuma das nossas grandes paixões, mas sim encarar relações humanas com um tom de brincadeira. Por isso, o meu desejo: divirtam-se, e sigam alimentando seus amores, sejam eles materiais, intangíveis ou do sexo oposto. Enfim, não leve a sério tudo que encontrar na Internet. Melhor ainda: não leve a vida tão a sério.

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O planeta Terra, nossa galáxia, tudo que o homem conhece ou define como “existência”… Enfim, é uma parcela insignificante do Universo. Se o compararmos ao sistema rodoviário brasileiro, a Via Láctea pode ser considerada uma pequena estrada vicinal, que margeia o Rio Iconha e contorna o Monte Aghá, seguindo por um manguezal até chegar no perímetro urbano da Vila da Barra de Itapemirim, no Espírito Santo.

Mas essa é uma comparação pouco relevante. O fato é que, há alguns anos-luz da Terra, praticamente em outra dimensão do espaço-tempo contínuo, existe um planeta chamado Foston. Está perdido no meio da galáxia ZX-8147, orbitando ao redor de uma estrela de magnitude cinco.

Culturalmente, os habitantes de Foston a batizaram Alussa. Os astrônomos locais acreditam que Foston é o único planeta do chamado “sistema alussiano” onde existe vida inteligente. O Imperador Zukkofriedski VII chegou a assinar uma nova política de fomento à exploração intergaláctica para tirar a dúvida, mas a recessão econômica colocou seu ousado plano na gaveta.

Mas essa é uma informação que não vem ao caso. É importante destacar que os fostonianos apresentam aparência humanóide, com algumas diferenças na textura e tonalidades de cor da pele. Além disso, diferente da Terra, o planeta não possui o que chamamos “movimento de rotação”. Isso quer dizer que Alussa ilumina, permanentemente, uma única face de Foston.

Isso mexe diretamente com sua geografia econômica. Praias artificiais foram estratégicamente posicionadas nos meridianos que correspondem ao nosso início da manhã e ao final de tarde. Grandes conglomerados e usinas de energia fototérmica estão centrados no meridiano do meio-dia. Uma das principais atrações turísticas do planeta é o famoso trem panorâmico transparente, onde é possível simular o ocaso e alvorada. Batizado de Expresso E-cuador.

Mas isso é apenas uma grande coincidência. Evidentemente, os mega-centros de lazer e divertimento estão na face “noturna” de Foston. Como também estão ali a maior movimentação econômica, a maior fonte de empregos e as taxas mais altas de criminalidade. Bares e restaurantes vivem lotados – até porque, a única forma de separar o dia da noite é o deslocamento. As baladas só não são mais fervilhantes por uma inexplicável razão genética: em Foston, existem mais seres machos do que fêmeas. Além de uma parcela de seres adstringentes.

Diante desse quadro, os fostonianos tiveram que se adaptar, como descrevem os cientistas sociais do planeta em seus documentos eletrônicos digitalizados em mídias públicas. Como o Império permite a circulação de espaçonaves particulares apenas em vias autorizadas – o que não é o caso das áreas de burburinho, os nativos precisaram de sapatos com jato de hidrogênio ou pranchas de flutuação magnética, além de vestes fosforecentes para chamar a atenção e driblar as esteiras rolantes. A altitude e a velocidade proporcionados por estes artifícios encantam as moças: é comum encontrar casais flutuando na atmosfera rarefeita de Foston enquanto não estão em algum balcão ou mesa de bar tomando Aguardente Janx ou Dinamite Pangaláctica – as bebidas mais populares do espaço.

Para tornar o pequeno vôo nos arredores uma experiência ainda mais inesquecível, os fostonianos desenvolvem novos apetrechos. Players ultrafinos acoplados ao cinto emitem sons agradáveis a um raio de no máximo cinco metros. Óculos anti-radiação, constantemente usados na outra face de Foston, são adaptados para conter a iluminação intermitente das roupas. Versões mais atuais ainda trazem um dispositivo de aproximação óptica, perfeito para observar a paisagem com mais detalhes.

Mas estas são apenas algumas das inúmeras opções disponíveis nas melhores casas do ramo. Como são equipamentos caros, a recessão econômica (sempre ela) faz com que boa parte dos jovens prefiram guardar suas poucas lascas fostonianas – “e eu uma pedra”, diríam os terráqueos. Outros, impulsionados por toda sorte de publicidade virtual espalhadas pela superfície de Foston, não querem saber: fazem o que pode para entrar na moda. Aos poucos, surgiu uma legião de apaixonados por novidades tecnológicas. Ao mesmo tempo, fostonianos pouco abastados iam atrás da brincadeira, mesmo sem saber o porquê.

Membros do Bluc – sigla que quer dizer “conselho dos moradores do quadrante F do lado escuro de Foston”, alheios ao que, na Terra, chamamos de “sentimentos”, dizem que tais artifícios podem ser considerados um modismo perigoso, alimentando a desigualdade econômica e social, além de atrapalhar a circulação dos moradores das redondezas.

Para o Império Fostoniano, não há problema: cada um faz o que quiser com suas lascas, desde que a paz, a ordem e a circulação intensa de bens de consumo permaneçam nos dois lados do planeta. Resta aos membros do Bluc aprender a conviver com a novidade e aceitá-las.

Ou torcer para os engenheiros biotecnológicos de Foston descobrirem o elemento pluricelular em seu complexo organismo, permitindo a concepção de fêmeas em maior quantidade.

Mas tudo isso, é claro, nada tem a ver com a nossa humilde realidade terráquea.

***

Desta vez, fiz o que pude para que nenhum alienígena de Foston fique ofendido. Longe de mim provocá-los e, de repente, incitar o fim do mundo.

(Postado em 06/03/2005, bem antes do “irmão” de Foston ser descoberto.)

domingo, 29 de abril de 2007

Qualé a do MSN? (Ou breve história dos comunicadores)

Salvador (BA) – Em 1997, quando ainda existia válvula pentodo esquentando a Internet comercial, um israelense alheios a conflitos religiosos (acho) bolou um programinha novo, capaz de trocar pequenas mensagens de texto instantaneamente com qualquer outro cururu que tivesse o mesmo software. Botou a coisa num servidor da garagem, chamou mais alguns amiguinhos para obterem o audacioso “Universal Internet Number” , abriu uma empresa de nome Mirabilis e, usando um trocadalho do carilho, transformou “i seek you” em ICQ.

Começava ali o sucesso absurdo dos comunicadores instantâneos, verdadeira preferência mundial e um dos campos de batalha mais intensos do mercado. O último adversário de peso a entrar na briga foi o Google Talk: é o oráculo apostando em voz sobre IP para conquistar usuários (conseguiu com o Daniel) e se engalfinhar de vez com Yahoo e AOL, que em 1999 comprou aquela empresa israelense e passou a contar com duas tropas: AIM e ICQ.

Também em 1999, a Microsoft decidiu lançar o seu comunicador instantâneo. Aproveitou o nome de sua antiga (e fracassada) BBS, a The Microsoft Network, e lançou o MSN Messenger. Com o desenvolvimento do software, os capangas de Bill Gates trataram de promover o bichinho: incorporaram smiles e desenhos bonitinhos além de joguinhos bacanas; integraram-no ao popular Hotmail e ao sistema operacional Windows; além de promoverem maciça campanha publicitária direcionada ao público jovem.

A conjunção dos três fatores, somado ao excesso de spam do ICQ criou o que o Ricardo definiu, usando outras palavras, de “modinha”: todo mundo largou a antiga florzinha verde e se converteu à borboleta de asas coloridas, obrigando todos seus conhecidos a fazerem o mesmo. Em 2003, o número de usuários do MSN ultrapassou o do serviço mais popular até então. Em 2005 eram 165 milhões de desocupados, contribuindo para a cultura do “nickname mutante” cheios de ícones, e perdendo horas de trabalho diante de uma janelinha azul piscante. É quase um Brasil todo.

Pessoalmente, nunca vi graça no MSN. Acho péssimo não conseguir mandar mensagens offline, como no ICQ. Mais do que isso: muitos amigos, com os quais converso até hoje, descobri no sensacional White Pages do ICQ – aquilo sim era diversão. Também não gosto do excesso de frescuras – tanto que sigo firme com o bom e velho Miranda. Mas não deixo de me apavorar quando me dou conta do óbvio: para cada vinte contatos conectados no MSN, um ou dois heróicos permanecem no ICQ.

A história nos faz concluir que a disputa comercial pela preferência entre comunicadores será longa. Mas deixam questões no ar: qual deles você prefere? É possível dizer que MSN é melhor que ICQ, por isso tem tanta gente? E o GTalk, pegou ou não pegou? Alguém usa Yahoo Messenger ou AIM? Dá para trabalhar tendo tantos programas do gênero abertos? E a mais intrigante de todas: pra quê tantos protocolos – não seria melhor criar um cadastro único, deixando o usuário escolher apenas o programa base, como faz com o navegador?

(Postado em 25/08/2005. Dedicado ao Bruno Torres, que se surpreendeu ao ver o número do ICQ na assinatura do meu e-mail.)

sábado, 28 de abril de 2007

Pira pira pirô: Marmota em Salvadô!

Salvador (BA) – Lembro perfeitamente: uma das minhas cinco metas de ano novo era viajar sempre que possível. Para minha alegria, o Dia do Trabalho é a minha folga do “semestre”. Logo, não pensei duas vezes: é mochilinha nas costas e pé na estrada.

Só faltava um destino bacana, apesar das abundantes sugestões. Para não ser injusto e programar um passeio realmente prazeroso, escrevi o nome de algumas cidades em pequenos pedaços de papel, coloquei num saco plástico e fiz um sorteio absolutamente isento.

Quer dizer… Mais ou menos, vai. Coloquei três “Curitiba”, cinco “Brasília”, dez “Porto Alegre” e quinze “Fique em casa mesmo e economize uma grana”. Também coloquei um a mais para Montevidéu, buenos Aires, Florianópolis, Belém e Recife. Ah, sim: risquei o Rio de Janeiro (até porque os amigos que poderia rever, como o MarcosVP, vão viajar também) e Fortaleza – não quero me indispor com quem denomina qualquer coisinha incompreensível como “marmota”… Além de frequentarem festas em discutíveis.

Diante de testemunhas, fiz o esperado sorteio. Tirei o papelote “Fique em casa” e esbocei um largo sorriso. Mas os auditores ao meu redor protestaram, exigindo tentativas sucessivas até sair uma viagem. Logo no segundo papelucho, veio Salvador. Anúncio seguido de aplausos!

Então é isso. Tratei de anotar todas as dicas da Drosófila, além de outros macetes com o Narazaki, o japonês mais baiano do país. Se por algum acaso você estiver por perto e quiser marcar um acarajé básico com suco de caju ou água de coco, ou regravar comigo o videoclip de Pira Pira Pirô no Farol da Barra, deixe seu recado após o bip.

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