Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

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1ª Campanha Nacional de Luta contra o Humor

Por Marmota | 23/02/2007, 13h47

O que acham de uma campanha com esse nome, além do slogan “tá rindo do quê?”. Se der tempo prometo falar mais sobre isso ainda hoje.

Atualizado: Agora sim.

Esses dias, ao lado de Lello Lopes, esbarrei em Pedro Cirne e sua família, em mais uma dessas madrugadas festivas em um Franz Café. Sem querer, enquanto falava sobre suas incursões jornalísticas preferidas, Pedro soltou essa pérola:

“Então, uma vez eu estava cobrindo a campanha nacional de luta contra o humor…”

A reação da mesa foi imediata: gargalhadas incontroláveis. Temos a primeira conclusão: a premissa de uma manifestação dessas é, antes de mais nada, uma piada.

Quase controlado, Pedro tentou corrigir. Queria ter dito “contra a aids”. Mas o assunto já tinha virado. Os minutos seguintes se transformaram em uma tentativa de elaborar a tal campanha. Tudo que conseguimos foi o infame slogan: “tá rindo do quê?”.

Se o Nelson Moraes estivesse na mesa, teria sugerido ali mesmo a paródia do filme “Abaixo o Amor”, aquele com a Renée Zellwegger e o Ewan McGregor. Mas desconfio que nem os mais criativos seres do planeta conseguissem elaborar uma campanha dessas sem rir.

(Ok, pensando bem, existem pessoas assim. Mas antes da campanha ficar pronta, elas já teriam cometido suicídio).

A idéia é tão nonsense que uma busca no Google (até agora) por “luta contra o humor” fornece zero resultados. Mas depois de refletir um pouco, até que não seria uma causa tão despropositada assim. No fim das contas, a Campanha Nacional de Luta contra o Humor seria mais uma tentativa bem humorada de enfrentar a vida.

Esse preâmbulo todo embute um objetivo secundário: vá ver Borat, a comédia-documentário-fake que estréia nesta sexta-feira nas melhores salas do ramo.

Não vou aqui endeusar Sacha Baron Cohen, como se ele fosse o novo mestre do humor. A fórmula “vamos juntar bons esquetes até virar um filme” não é nada original (para mim, o melhor exemplo do gênero é O Sentido da Vida, de Monty Python). Mas toda a polêmica envolvendo a cultura norte-americana, além das centenas de vídeos no YouTube, transformaram Borat, inegavelmente, em um fenômeno.

Tive a grata oportunidade de assistir a comédia mais divertida do ano há pouco mais de um mês, no Noitão do Belas Artes. E confesso nunca ter visto tanta gente reunida sofrendo tamanhos espasmos de riso ao mesmo tempo. Claro que, na mesma sala, haviam pessoas chocadas, estarrecidas diante de algumas situações bizarras, no limte extremo do mau gosto. Mas a coisa é tão ruim, mas tão ruim, que no fim das contas, fica bom.

Está lançado o desafio, portanto: veja alguns filmes do Monty Phyton e dos Irmãos Zucker, além de Borat. Depois tente esboçar a Campanha Nacional de Luta contra o Humor. Ou não vai sair nada, ou você será o “gênio da comédia” da próxima semana.

Para saber mais, de verdade, sobre Borat:

- Veja a crítica “oficial” do Interney Blogs, assinada pelo Chico F.;

- Comentário do Tuca Hernandes, que se contorceu ao meu lado no Noitão do Belas Artes, ao lado da Pat, da Lu e do Inagaki;

- Perguntas pertinentes no Blog da Fer: “o que é engraçado para você?”, ou “até onde é válido humilhar alguém publicamente?”;

- Comentário do Renato Thibes, que faz uma deliciosa salada com Turistas, Seinfeld, e Bruxa de Blair;

- Por último, mas não menos importante, a crítica do Omelete.

Blog-moleque e post-arte não ganha campeonato?

Por Marmota | 22/02/2007, 13h59

BloguiadoAgora que já estou devidamente instalado, preciso confessar minha preocupação diante da expressão que define o mais novo portal de blogs do Brasil: “reunindo blogueiros profissionais pela primeira vez”.

Isso quer dizer que agora eu sou um blogueiro “profissional”. Até ontem, eu era mais um desses coitados, que fazem dos seus diarinhos pessoais a Casa da Mãe Joana. Compartilhei esse comentário com o Edney, que invocou uma expressão atribuida ao Mr. Manson: “acabou-se o tempo do blog-moleque, do post-arte”.

O que me assusta é saber que esse rótulo transforma as pessoas. Preocupadas com resultados, acabam se levando a sério demais.

Ser “blogueiro profissional” (ou “problogger”, que é bem mais legal) é escrever pensando nos números. Nada contra essa prática: quero mais é que todos que procuram esse caminho transbordem a conta bancária. Agora, com tanta gente em busca das mesmas coisas, tenho uma visão muito pesada sobre o futuro da “blogosfera”, caso ela “amadureça” por esse viés: isso aqui está se transformando em uma Serra Pelada, com gente demais se acotovelando atrás de alguns tostões.

Então cá estou, blogueiro profissional, buscando formas de “monetizar” meu conteúdo; adotando todas as regrinhas de “Search Engine Otimization” para fisgar consumidores; patrulhando os aproveitadores – afinal de contas, além de ser assinado, conteúdo semelhante na rede atrapalha meu posicionamento no Google. Sem essa de compartilhar idéias só para conhecer gente nova ou simplesmente para marketing pessoal: agora, eu quero é ganhar dinheiro. Vou justificar minhas ações na cartilha da ética (e outras totalmente justificadas), mas vou seguir mesmo a lei da selva. E salve-se quem puder.

Tenho medo disso. É o mesmo discurso atribuído a outras áreas competitivas (no caso dos “jornalistas”, é exatamente igual).

Enfim, agora sou um profissional. Mas da mesma forma que eu escolhi minha carreira, não vejo como não manter os mesmos objetivos de 2002, quando eu não passava de mais um amador no fundo do quintal: escrever o que eu penso, sem me preocupar em agradar a maioria, nem em levar a sério o que estou fazendo, como se a minha vida dependesse do blog.

Diante do rótulo, minha definição romântica de “blogueiro profissional” é a seguinte: agora não distribuo mais meus panfletos na frente de casa, mas sim em um lindo stand dentro de um movimentado shopping center. Você pode chegar, pegar um e conversar comigo. Mas também pode passar de longe (nem precisa acenar) e continuar suas compras. E a vida segue.

Acabou o segredo! Mas… Qual segredo?

Por Marmota | 21/02/2007, 21h25

Pois é, moçada. Assim que a quinta-feira der o ar de sua graça, o mundo saberá que vinte e poucos blogueiros decidiram juntar suas forças, sob a batuta de Alexandre Inagaki e Edney Souza, e criar um portal repleto de conteúdo bacana e feito por gente que está cada vez mais disposta a aprender e compartilhar seus pensamentos. Pode espalhar a boa nova, isso já não é mais segredo para ninguém.

Se bem que… Ah, sejamos francos. Você já sabia.

As pistas já estavam perdidas aqui há um bom tempo. Um dos nossos amigos vizinhos (não acho justo citar nomes) registrou em seus bookmarks públicos, há alguns meses, a URL do esboço desenhado para a home do portal…

Não tem como recriminar ninguém. Eu mesmo não consegui esperar e contei para alguns poucos amigos sobre o lançamento bombástico desse grande empreendimento. Só que a expressão “mas olha, não conta para ninguém, hein?” funciona exatamente ao contrário. Ao mesmo tempo, durante a última semana, o Technorati também fez questão de revelar os novos endereços.

Diante das evidências, praticamente não havia mais a quem contar a notícia. Nos dias que antecederam a inauguração, anunciei que viria por aí “uma grande mudança”. Uns dois ou três ficaram na dúvida. Outro achou bacana saber que “teria um template novo”. Mas a maior parte deles foi direta. “Tá querendo enganar quem? Claro que eu já sei que mudança é essa! Até conversei sobre isso com outros blogueiros amigos meus”. Puxa vida.

Mas tem mais. Dias atrás, recebi de um amigo um e-mail mais ou menos assim. “Ei ei! A grande mudança é o Interney Blogs! Acertei? Eu já tinha te falado sobre este tipo de projeto, algo que eu gostaria de fazer! Notei que o Edney está usando o b2evolution. Eu usaria o WordPress MU, mas enfim, independente disso, espero que dê certo”.

Eu também, meu chapa. Aproveito para agradecer a você e aos demais que já sabiam, mas souberam esperar conosco a hora certa. E vou mais longe: espero, de verdade, que todos os projetos desse naipe amplifiquem cada vez mais as nossas idéias.

Todos los personagens de mi portunhol

Por Marmota | 04/02/2007, 22h51

Alguns dos nossos três ou quatro visitantes de sempre devem lembrar: em agosto passado, decidi aproveitar minhas férias para comemorar os noventa anos da minha vó (que faleceu há um mês). Antes, passei por Porto Alegre para acompanhar de perto o título do Inter na Libertadores e, logo depois, curtir alguns dias sozinho na Argentina e no Uruguai.

Esse passeio já tem um bom tempo. Saí de Porto Alegre numa sexta, dia 18 de agosto; fiquei em Buenos Aires até a segunda, dia 21, quando passei o dia todo em Colonia del Sacramento, no Uruguai. Na mesma noite, já estava em Montevidéu, onde fiquei até às 21 horas de quarta, dia 23. Nessa altura, você deve estar perguntando: “mas por que só agora você decidiu falar sobre isso?”

A resposta simplista é: não tive tempo de escrever.

Mas tenho ainda a resposta bacana. Como não tinha ninguém para compartilhar minhas histórias, decidi repetir um ritual semelhante ao da minha última viagem à Floripa, em 2003, e dos inesquecíveis 20 dias na Europa, em 2004. Assim, passei a colecionar personagens: aqueles coadjuvantes que, de um jeito ou de outro, contribuíram para que o passeio fosse inesquecível.

Só que a minha listinha de personagens ficou gigantesca. Não valeria a pena escrever um parágrafo inteiro para tanta gente, colocando-os no mesmo patamar de figuras realmente marcantes. Então guardei as anotações num canto e só peguei de volta cinco meses depois. Dessa forma, escreveria apenas sobre as figuras que lembrei. Teria assim uma lista de personagens que realmente valem a pena.

Ficaram de fora, por exemplo, a “Colombiana da Árvore”, a “Morena na cidade de Tigre”, o “Motorista de família”, o “Bobo da Pochete”, entre outros que simplesmente esqueci. Todos os outros coadjuvantes daqueles dias gelados e solitários às margens do Rio da Prata estão aí.

La juventud de Rebelde – Ao invés de pagar uns sessenta pesos de táxi entre Ezeiza e o centro de Buenos Aires, paguei um e pouquinho e embarquei no ônibus normal. Outro cidadão, nitidamente perdido, fez o mesmo – só não sabia que o coletivo não tem cobrador, e que as moedas são obrigatórias… Mas enfim. O ônibus levou o dobro do tempo e parou em todas as bocadinhas do caminho, mas valeu muito a pena. Era meio-dia de uma sexta-feira, horário em que todos os estudantes das redondezas voltavam para casa. Parecia que estava diante de personagens da novela Carrossel. Até que uma mocinha, mais atrevida, permaneceu em pé bem perto de mim. Ela apertava os lábios como se estivesse prestes a mandar beijos, permanecendo com um olhar malicioso… Essa aí saiu mesmo foi da novela Rebelde.

Le Gusta Futbol – Na chegada ao delicioso Obelisco Center Hotel, uma recepção muito simpática. O rapaz identificou minha terra de origem e logo perguntou se eu gostava de futebol. Aproveitou para oferecer os passeios guiados aos estádios: sábado era dia de Boca x Independiente, e domingo tinha Racing x River Plate. Belos jogos. Mas o passeio pago, com direito a traslado e camarote, custava uns cento e poucos pesos (praticamente cem reais). Não pagaria aquela fortuna, e também não iria sozinho a estádio algum. Resumindo: nada de futbol.

Don Diego Cover – Minha longa caminhada entre Puerto Madeiro e La Boca fez com que eu chegasse um pouco tarde ao mítico La Bombonera. Também perdi o pique de visitar o museu boquense, que não conhecia. Mas ao menos conheci um dos personagens daquele pedacinho da cidade: um sujeito com o mesmo porte de Maradona. Abordava todos os visitantes, convidando-os para a visita guiada. Também cobrava alguns pesinhos para tirar fotos. Devia ter tirado minha camisa do River da bolsa.

Aficcionado de Tango Eletrónico – Dos três dias que estive em Buenos Aires, pelo menos em quatro deles eu caminhei pela Calle Florida. E em todas as vezes, a mesma lojinha de CDs e DVDs tocava o mesmo disco: uma coletânea de “tango eletrônico”, grandes sucessos do passado regravados com batida de discoteca. É praticamente um poperô argentino. O curioso é que esse era o único local na cidade onde ouvia essa encrenca. “Esse cara deve ser o único fã desse estilo estranho”, pensei.

La Rubia de la Libreria – Antes mesmo de chegar a Montevidéu, imaginava que não encontraria nenhum guia turístico exclusivo da cidade. Felizmente, encontrei um guia de Buenos Aires da Lonely Planet, em espanhol, com muitos e extensos detalhes da capital uruguaia e de Colonia, tratadas no guia como “excursões”. Publicação perfeita! Tanto quanto a loira maravilhosa do caixa. Ela disse “boa noite”, sorriu, perguntou se era um presente (o livro, não eu), recebeu meu pagamento e desejou “boa leitura”. Ah, se ela me desse bola.

Artista Pintado de la Calle – A Florida reúne a maior quantidade de artistas de rua por metro quadrado em todo o mundo. Isso inclui todos os seus apetrechos, inclusive o potinho de tinta prateada que chutei sem querer… O sujeito deixou de ser uma estátua-viva para vir lamentar comigo – no limiar do nervosismo, mas ainda controlado – o quanto aquela tinta era cara, e que a quantidade chutada dava para vários dias. Tirei duas notas de dez pesos da carteira e perguntei se aquilo cobria o prejuízo. Ele disse “é, dá”, pegou e se foi. Tratei de passar longe dele o resto do final de semana.

Imbecil del show – Definitivamente, as caminhadas na área mais agitada de Buenos Aires trouxeram algumas figuras estranhas. Um zemané, postado na esquina da Florida com a Lavalle, abordava qualquer transeunte para entregar um panfletinho de show erótico. O imbecil não tinha controle algum: em uma hora, passei pelo mesmo lugar umas três vezes. E em todas elas, lá estava o babaca estendendo a mão, segurando um papelzinho e dizendo: “show?”. Mané.

Via Negromonte de la Espelunca – Estava sem fome na primeira noite, por isso decidi jantar num restaurante mais simples, apenas para não ficar de estômago vazio. Entrei numa roubada bem perto da Plaza del Congreso, na Avenida de Mayo. Era um lugar frequentado apenas por cidadãos locais. A garçonete, uma cópia bem mal-acabada da atriz e cantora Via Negromonte, deve ter sacado isso quando recusei o drink da casa – um estranho preparado alcoólico verde-fosforescente. A mulher levou quase uma hora para trazer meu prato – um bifinho bem vagabundo – e sumiu quando queria fechar a conta e cair fora daquela espelunca. Nunca mais.

Novienta y Cinco – Uma das coisas que mais queria fazer era conhecer Tigre, cidadezinha agradável da Grande Buenos Aires. Fui de metrô até a estação Retiro e, dali, tratei de comprar a passagem de ida. A única informação disponível antes do guichê eram os horários dos trens. Tive que perguntar ao bilheteiro o preço da passagem. A resposta foi rápida: “noventa e cinco”. Arregalei os olhos num momento de fraqueza e disse: “Noventa e cinco pesos???”. O bilheteiro deu uma respirada e, com aquele olhar de pena, disse, em voz baixa: “centavos”. Puxa vida.

Pibezinho Down – O bate-volta em Tigre usando o trenzão de subúrbio lembra uma viagem nos trens das linhas da CPTM. Está tudo lá: estações periféricas mal cuidadas, vendedores de biscoitos e afins nos corredores, pedintes… Ao meu lado, duas mulheres (certamente mãe e filha) ciceroneavam um menininho com síndrome de down. Via-se que era uma família com algumas dificuldades, mas em momento algum as mulheres se furtavam de sorrir, conversar e abraçar o menininho. É um pequeno sortudo!

Abuela da Tarjeta – Quem for a Tigre deve perder um bom tempo no Mercado de Frutos. Apesar do nome, o lugar reúne centenas de quiosques com toda sorte de produtos artesanais e souvenirs diversos. Ali, minha busca por cartões postais (minha compra obrigatória em qualquer viagem) acabou na banquinha de uma senhora sorridente. Entusiasmada com minha procura por postais, tirou de uma gaveta outros modelos que não estavam à mostra. Depois dessa, tive que levar todos.

Edinho de Puerto Madero – No último dia na capital argentina, o jantar tinha que ser especial. Nada melhor que um daqueles requintados estabelecimentos à beira do Rio da Prata. Fui atendido pelo clone do Edinho, o ex-goleiro filho do Pelé. O lugar, ao estilo “coma tudo que puder por trinta pesos” trazia, entre as centenas de opções, pequenos pedaços de pizza. Mas a massa estava dura e impossível de ser cortada. “É que essa pizza foi assada na pedra”, retrucou Edinho. Não mandei o sujeito ir comer a pizza na pedra de Florianópolis para aprender como é – na hora, não sabia como dizer isso em castelhano.

Brasileñas en la Capital – Buenos Aires é uma espécie de quintal de lazer para os brasileiros, que pagam uma ninharia para passar um fim de semana no exterior como se fosse a Europa. Mesmo com os neurônios desligados, reconheci brazucas três vezes. Uma em Puerto Madero: duas menininhas circulavam, conversavam em voz alta e tiravam muitas fotos. Outra no Trem da Costa, voltando de Tigre: dois casais, que também falavam bem alto. A última na El Ateneo Splendid, na calle Santa Fé: uma peruona muito da nojenta falava da livraria e da cidade como se fosse muito importante. E em voz alta – será que isso é mania tipicamente nacional?

Galera del Peon Laboral – Uma cena absolutamente insólita nos Bosques de Palermo, bem perto do planetário. Um grupo de pessoas, a maioria da terceira idade, seguia os passos da instrutora de ginástica. Cena comum em muitos parques do mundo, não fosse um detalhe: a turma estava se exercitando ao som de “alô galera de caubói, alô galera de peão… quem gosta de rodeio bate forte com a mão”. Em bom português.

El loco de la broma babaca – Tudo certo com minha passagem, documentos, passaporte e afins. Hora de sair da Argentina e pisar no Uruguai – para quem faz isso no Buquebus, barco que cruza o Rio da Prata, todo o trâmite burocrático é feito antes mesmo de entrar no barco. Enquanto uma mocinha carimbava a saída, um baiaba metido a besta registrava a entrada. Ao abrir meu passaporte brasileiro, fez uma piadinha ininteligível para a mocinha. “Desculpe, não entendi”, disse, tentando entender a piadinha. A mocinha foi curta e grossa: nada de mais, você pode passar sem essa. Só não chamei o gordo de babaca para não criar um incidente diplomático: ele poderia apreender minhas cinco caixas de alfajor Havana embrulhadas na mala.

El Clon de Jacques Cousteau – Esse encontrei no Buquebus, já no traslado entre Buenos Aires e Colonia del Sacramento. Era um senhor bem vestido e de barba branca, sentado na poltrona de trás, cuidando com esmero de seu equipamento fotográfico. Tentou registrar algumas imagens no caminho, mas a (falta de) transparência da janela não o ajudou. (É, esse personagem é meio fraquinho… Mas plasticamente ele é relevante, vai).

Las guías turisticas – Exemplos edificantes de trabalho bem executado no Uruguai, país que eu não conhecia. Em Colonia, no posto turístico na avenida principal da cidade, ganhei um belo mapa e explicações detalhadas sobre todas as atrações (ok, são poucas). Ainda ganhei um sorriso quando disse a ela que vinha de São Paulo. Dias depois, abordei outra mocinha, esta enclausurada em um quiosque do Mercado del Puerto. Também se entusiasmou loucamente quando pedi orientações sobre a cidade: foram uns dez minutos de conversa.

El hombre del Chivito – Minha primeira refeição no Uruguai tinha que ser bem típica. Foi exatamente isso que disse ao jovem garçom de cabelos compridos em um humilde restaurante em Colonia. A resposta veio em uma palavra que nunca tinha ouvido antes: chivito. É um sanduíche, aos moldes do nosso “X-Tudo no prato”. Grande e saboroso, com carne, bacon, queijo, presunto, salada e ovos cozidos, servidos com batatas fritas. Aprovado.

El visionario – O empresário argentino Nicolás Mihanovich era um homem de visão. No início do Século XX, ele criou um complexo turístico fabuloso, em uma região afastada do centro de Colonia. Um hotel-cassino, uma arena de touradas, uma cancha de corrida de cavalos… Pena que tamanho desenvolvimento tenha dado errado. Hoje, aquele pedacinho perdido não passa de um bairro residencial absolutamente vazio. As construções de Mihanovich? Completamente abandonadas. A sensação ao chegar lá e não encontrar uma viva alma é muito desagradável, para tristeza deste pobre empresário – onde quer que ele esteja.

Los Comunas del Autobus – Colonia é um ovo. Ainda assim, existem duas empresas de ônibus – que fazem rigorosamente o mesmo trajeto, entre o centro antigo e Real de San Carlos, passando por todos os pontos da cidade. A diferença está nas empresas: uma é ligada à prefeitura. A outra pertence a uma cooperativa de moradores. Optei pela rota popular e encontrei um veículo bastante deteriorado, que não passava dos 20km/h. O motorista usava um tapa-olho, e o cobrador era um sujeito barbudo e cabeludo, recém-saído de alguma revolução. Nas janelas, alguns avisos denunciavam a “luta da comunidade”, a “resistência aos desmandos capitalistas”… Socialismo utópico ambulante!

Guardión de las equipajes – Este simpático e bonachão funcionário da rodoviária de Colonia merecia um tratamento bem melhor desse turista que vos escreve. Com todo o guarda-volumes ocupado, ele se ofereceu para cuidar da minha bagagem enquanto passeava pela cidade a tarde inteira. Na volta, sorrindo e com o serviço perfeitamente executado, ele pede “a quantia que eu puder lhe dar”. Como tinha pouca moeda uruguaia comigo, peguei a que acreditava ser a maior: dez pesos. Seu semblante fechou de repente, como se o tivesse insultando. Só depois, quando fui comprar a passagem para Montevidéu, percebi que dez pesos uruguaios correspondem a menos de um real. Tratei de trocar uma nota de 500 pesos, voltar lá, entregar mais dinheiro e pedir desculpas. E a alegria dele voltou.

Las Perdidas – Ainda na rodoviária de Colonia, antes de embarcar para Montevidéu. Em minha direção, quatro mocinhas que, definitivamente, estavam muito longe de casa. Falavam alto, e num idioma muito estranho. Deu para sentir exatamente como um gringo que não conhece português deve pensar quando encontra uma animada turma de brasileiros por esse mundão afora.

Andréa del Cartón – Antes de descobrir onde ficava a rambla de Montevidéu (e consequentemente o hotel Íbis), precisava comprar minha passagem para Pelotas. Fui direto ao guichê da TTL no terminal Tres Cruces e lá conversei com a atendente Andréa. Foi tudo rápido e fácil, até a moça perguntar se eu iria pagar com “cartón”. Fiquei com aquilo na cabeça: sempre falei em “tarjeta”, imaginando que “cartón” seria um portunhol vagabundo – como em “hacer una ligaccion”. Enfim, deve existir o cartón.

Los Clones de Recoba – Primeiros movimentos na capital uruguaia: caminhada extensa pela rambla, à beira do Rio da Prata, Avenida 18 de Julio, Ciudad Vieja e arredores do porto. Nesse período, encontrei transeuntes muito iguais a um famoso jogador de futebol uruguaio, com cara de bobo… Mas que eu não lembrava o nome de jeito nenhum. Continuei andando e matutando com os meus botões, até que, num relance, veio o insight: “Recoba”, gritei, no meio da rua, vibrando como se tivesse feito um gol. De fato, tem muita gente que é a cara do Recoba.

Bendedor de periódicos – Assim que embarquei no coletivo para o Estádio Centenário, um sujeito simpático entrou logo em seguida. “Outro pedinte”, pensei. Tirou da bolsa uma revista de variedades, apresentou a fofoca da semana. Ninguém se manifestou. Então tirou uma edição do El Pais. Pronto, já tinha me conquistado. Por “solamente trinta pesitos”, fiz o sujeito sorrir.

Para Comprar Un Pan – Foi esse mendigo estranho, andarilho da 18 de Julio, que me fez lembrar o quanto é divertido escrever sobre esses coadjuvantes. Imagine uma versão uruguaia do Tiririca, mas sem o mesmo sucesso (e dinheiro). Para cada transeunte que encontrava, ele repetia a mesma frase, num berro seguido da explicação: “Para comprar um pan, yo necessito una moneda”. O “un pan” era a parte tonificada da frase. Intenso. Quase uma cusparada. A frase foi repetida umas cinco vezes no mesmo ponto. E o Para Comprar Un Pan não ganhou um mísero e vagabundo pesinho uruguaio.

La Uruguaya Muy Formosa – As brasileiras que me desculpem, mas de todas as cidades que já tive o privilégio de visitar, Montevidéu possui a melhor relação beleza/quantidade de mulheres. A mais lindinha delas, uma moreninha de sorriso doce – e provavelmente a 1236ª paixão desses cinco dias – , encontrei no ônibus, a caminho do Estádio Centenário. Aaaaaah, as uruguaias.

El taxista del Futbol Uruguayo – Montevidéu não é tão pequeno quanto parece. A distância do prédio do Congresso até o Montevideo Shopping era impraticável a pé. Decidi tomar um táxi, e o motorista logo sacou que eu não era dali. Ao saber que eu era de São Paulo, começou a falar em seus ídolos que já passaram pelo Tricolor: Dario Pereyra, Pablo Forlan, Pedro Rocha… Aproveitou para tirar sarro: “você deve estar triste, o São Paulo perdeu para o Inter, hein?”. Na verdade, não.

Camarero No Comprendo – Decidi chutar o balde no primeiro fim de tarde em Montevidéu. Decidi almoçar/jantar no restaurante El Corralón. Até que não saiu tão caro: pedi uma deliciosa carne invocada, com recheio de queijo e presunto, molho de queijo, batatinhas e salada. Foi um golpe de sorte: o prato se chamava algo como “carne presidente”, e por mais que eu me esforçasse, não tinha como entender o que o garçom explicava. Para sobremesa, ele recomendou uma “torta diamante” – também não saquei o que vinha, mas adorei quando chegou. Certamente foi o maior pedaço de torta que já comi em qualquer restaurante na vida.

Fausto Libros – Já no centro comercial da cidade, decidi dar uma volta nos longos minutos antes da sessão de Volver. Encrustada no cinema, havia uma livraria muito bacana. Pequena, aconchegante e repleta de títulos interessantíssimos. O atendente/dono, muito bem apessoado, tratou de me deixar à vontade: ofereceu um livro e uma cadeira para que eu pudesse experimentá-lo à vontade. Aquilo fez com que eu comprasse uns dois, e arrumasse mais um para dar de presente. O embrulho do “regalo” foi feito pelo próprio Fausto: papel metálico, sacolinha de papel, cartão da loja com enfeite colado nele. O tom caseiro daquele cantinho culminou com o pagamento no cartão: Fausto tirou de uma gaveta aqueles antigos formulários de papel carbono, além do dispositivo para compra mais antigo ainda. Saí dali com vontade de ter uma livraria daquelas.

Bendedor de rugbi – Rodei por Montevidéu e encontrei apenas uma boa loja de artigos esportivos, na Avenida 18 de Julio. Curiosamente, a especialidade da casa eram produtos de rúgbi, outro esporte muito conhecido especialmente por essas bandas platinas. Uniformes de seleções do mundo inteiro, bolas, apetrechos… A única camisa de futebol que encontrei foi a do Peñarol. “É que essa loja é a do fabricante dessas camisas de rúgbi. Mas nós uruguaios gostamos mesmo é de futebol”, garantiu o vendedor, que sorriu após me vender o uniforme All Blacks da Nova Zelândia – além da camisa do Peñarol, claro.

Felipón y sus compadres – Este cidadão, que cultiva um bigode a la Scolari, recebe o título de melhor garçom de todo o passeio. Seu restaurante, um dos mais humildes do Mercado del Puerto, era simples. Sentei diante do balcão mesmo, e ele aparecia o tempo todo. Falava das suas carnes, indicava as melhores opções e, com o pedido fechado, botava tudo nas costas de um dos dois ajudantes – o tiozinho, que praticamente servia a todos, e o molecão, quase que o tempo todo grudado na churrasqueira, cuidando daquela parrillada toda. A panqueca de manzana, massa fina com pedacinhos de maçã coberta com caramelo quente, dá vontade de voltar amanhã mesmo ao Uruguai.

El Rodomoço – Os últimos personagens dessa pequena viagem de seis dias estiveram no ônibus TTL, entre Montevidéu e Pelotas. Tinha um uruguaio que ficou teimando a ausência de um carimbo no meu passaporte (deve ter sido a piada não-contada do bobão do Buquebus), além de uma velha muito chata num banco da frente. Mas o grande nome desse traslado é Juarez. Este incansável jovem conferiu a passagem de todos, serviu uma bandeja de sanduíches, quitutes e bebidas, ofereceu travesseiro e cobertores, fechou as cortinas, apagou as luzes e acionou o DVD Player. Tudo para que o fim dessa saudosa viagem fosse extremamente confortável.

Em tempo, aproveitei para acrescentar algumas fotos dessa brincadeira no Fliquer.

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