Marmota, mais dos mesmos

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Arquivos: fevereiro/2007

Cinco ursos animados que caíram no ostracismo

Por Marmota | 28/02/2007, 13h38

Na pressa em redigir qualquer coisa para garantir a rotatividade de textos deste espaço, lanço mão da mais simples e trivial das idéias: as infalíveis listas contendo cinco qualquer-coisa-que-vier-à-cabeça. Imaginei que não teria o menor trabalho de pensar ao elaborar uma relação de… Ursos.

A propósito, adoraria saber como um animal desse naipe, um dos carnívoros mais avantajados da natureza, conseguiu gerar tantos personagens que povoaram o imaginário das crianças por várias gerações. Fenômeno que deve ter começado com os três ursos e suas tigelas de mingau com temperaturas descompassadas, e que perdura ainda hoje graças a filmes como Irmão Urso, ou mesmo aos comerciais de Natal da Coca-Cola ou às revisões programadas da Fiat.

A associação desse bicho com algo bonitinho é capaz de provocar reações curiosas. Ano passado, durante a Copa do Mundo, um urso pardo se perdeu da floresta e, em busca de comida, se aproximou perigosamente de regiões habitadas, próximo à Munique. A notícia causou impacto na Alemanha: enquanto autoridades tentavam matá-lo, cidadãos batizaram-no de Bruno e faziam campanha para salvá-lo. O desfecho não foi dos mais felizes, e o urso Bruno tornou-se um dos personagens mais célebres de 2006.

Outros ursos, digamos, mais animados e inofensivos, são imortais. Nesse quesito, Zé Colméia e Catatau são imbatíveis. Hanna Barbera dá de dez na Disney, que na tentativa de popularizar um (conseguiu, diga-se), inventou o gordo boboca do Puff e seu grande pote de mel – aliás, todos os personagens ao redor dele são infinitamente melhores. Quem rivaliza com eles é, sem dúvida alguma, a família do Ursulão, da Turma do Pica Pau: sua esposa Úrsula e seus filhos Ursulino (o Júnior) e a ursinha (devia ser Ursulina). Não tem como esquecer os episódios baseados na máxima “o barato sai caro, urso idiota”.

Fora dos grandes estúdios, o urso Misha (conhecido em alguns recantos mal-intencionados como urso Bisha) fez o mundo chorar no encerramento dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980. Outras figuras célebres sequer precisaram de uma imagem para ficarem eternamente em nossa memória: o ursinho Pimpão, do Balão Mágico, ou o ursinho Blau Blau, de Silvinho e sua banda Absyntho.

É tanto urso que não tem como fazer um Top 5 dos mais populares. Assim, vamos ao caminho inverso. Apresento os cinco ursos que certamente só eu, talvez você e mais ninguém vá se lembrar.

#5 Fofo – Em algum momento dos anos 80, a Gessy Lever, que já detinha a consagrada marca de amaciante Comfort, decidiu lançar um novo produto no mercado – de repente, foi para reduzir o impacto do Mon Bijou, da Bombril. Não importa. Tenho a absoluta convicção de que o lançamento do amaciante Fofo não repercutiu tanto nas donas de casa quanto mexeu com as crianças da época. Era um ursinho com pinta de hermafrodita, mas viadagem à parte, era bonitinho e cativante. Aquilo deve ter vendido toneladas de amaciante, enquanto as crianças não estavam nem aí com a maciez das roupas: estabeleciam logo de cara uma relação de amor (ou ódio) com o fofinho.

De alguma forma, o personagem poderia ter virado um brinquedo de sucesso. Mas por estar associado a um reles produto de limpeza, o máximo que fizeram foi uma embalagem em forma de urso, ou uma promoção cujo prêmio era uma mochila vagabunda. Esse é o grande mistério envolto nesses mascotes publicitários – assunto que merece outro Top 5, com a Menina Claybon e o Detetive Bardahl garantidaços. Pergunte a uma criança se ela já ouviu falar no ursinho Fofo. A figurinha ainda existe no amaciante, mas está perdida num canto da prateleira do supermercado.

#4 Peposo – Você já ganhou um urso de pelúcia? Se a resposta for sim, e se você tiver bem perto dos 30 anos, é bem capaz do seu brinquedinho de infância atender pelo nome de Petuti. Era um ursinho bacaninha e sorridente, com uma fita amarrada no pescoço. O Petuti também anda praticamente esquecido, mas há uma turma bem mais feia na rua da amargura: a familia Peposo.

Peposo devia ser vizinho imaginário do Petuti. E era feio. Muito feio. Tinha um macacão estúpido, além de mãos e focinho de borracha – a Mãe Natureza dos Ursos dos Anos 80 achava que assim ficava fácil para ele botar o dedo na boca. Para piorar, ele não estava só. Havia ainda a Peposa, o Peposinho e a Peposinha. Todos com a mesma característica mequetrefe: o tal dedo na boca. Esses já foram tarde.

#3 Teddy Ruxpin – Mas não sejamos tão injustos com a família do Peposo. Havia outro urso mais horrendo e infinitamente mais caro disponível no mercado. E pior: ele ainda existe. É o Teddy Ruxpin, uma criatura quadrada que vinha com uma fita cassete na barriga, pretexto para esta coisa sinistra cantar e narrar suas histórias abrindo a boca de maneira diabólica, sem deixar de piscar seus olhos esbugalhados.

Essa aberração foi trazida para o Brasil pela Tec Toy, época em que brinquedos inteligentes como a pistola Zillion e o micrinho Pense Bem faziam mais sucesso que seu futuro brinquedo mais popular, um tal Master System. Mas nem o respaldo da marca (muito menos o desenho animado nas manhãs da Globo) fizeram com que Teddy Ruxpin ficasse bem na foto. Felizmente esse brinquedo assustador, que (reitero) custava uma fortuna, escafedeu-se de nosso país.

#2 Ursinhos Gummy – A prova de que nem tudo que vive no mundo de Walt Disney é para sempre. Bronquinha, Vozinha, Pancinha, Maguinho, Soninha e Tiquinho eram ursos muito inteligentes, que viviam enclausurados em túneis e árvores ocultas em seu reino medieval encantado. Com a ajuda de Carla e Crispim, as simpáticas criaturas silvestres sofriam as agruras do Duque Duro, seu assistente feioso Sapulha e os ogros da floresta. Para salvar o mundo, os ursinhos contavam com um poderoso suco de amoras Gummy, que lhes dava uma impressionante e misteriosa força temporária. E todos viviam felizes para sempre.

Na prática, eles rivalizavam mesmo era com os Ursinhos Carinhosos, que apesar de mais coloridos, podiam estar nessa lista também, já que os valores que carregavam na barriga são cada vez mais ignorados.

Os ursinhos Gummy chegaram na mesma época em que os estúdios Disney reinventaram seus desenhos, com Tio Patinhas em Duck Tales e Tico e Teco em Rescue Rangers, além de uma geração de bichos trangênicos misturados, os Wuzzlies (estes nem duraram muito, tadinhos). Os Gummies viraram desenho animado nas manhãs da Globo e gibi da Editora Abril, permanecendo em evidência praticamente na metade final dos 80 e início dos 90. Do mesmo jeito que saíram das profundezas de seu mundo mágico, os ursos voltaram para lá e não apareceram mais.

#1 Smokey – Em 1944, os Estados Unidos lançaram uma campanha de prevenção de incêndio nas florestas. Nascia a figura do Urso Smokey, o meu urso desaparecido favorito, e certamente uma das mais longas campanhas do mundo, já que o negócio existe até hoje.

A figura de chapéu, macacão e pá anti-fogo saiu dos pôsteres e ganhou um desenho animado só dele. A figura pública também aparecia repentinamente em outras bandas, como no clássico episódio em que Toquinho e Lasquita se perdem na vila dos contos de fada. Além de registrar seu peculiar discurso (“só você pode prevenir incêndios na floresta”), Smokey tem participação decisiva ao apontar para os dois pentelhos: “a próxima é a casa da vovó”.

Apesar da longevidade, Smokey sumiu daqui. Não fosse estas parcas linhas, muitos simplesmente teriam ignorado sua imagem. Curiosamente, a toda hora surgem notícias de incêndios nas florestas norte-americanas, indicação de que não foi só na mídia que Smokey deixou de trabalhar.

Interney Blogs, metaforicamente

Por Marmota | 27/02/2007, 12h22

Além de comentar a repercussão do portal na mídia, nosso mentor Edney aproveitou a oportunidade para explicar o funcionamento da home. Em linhas gerais, é você quem determina o valor dos nossos textos.

Ou seja: o movimento das peças no tabuleiro do Interney Blogs vai mudar quando você prosseguir a conversa sobre o tema de alguma forma: seja num link em seu blog ou mesmo com um comentário por aqui. Claro, a idade do texto também interfere no “jogo”.

Metaforicamente, podemos ilustrar a brincadeira assim:

Banco Imobiliário do Interney Blogs

Se bem que essa imagem permite milhões de interpretações, não?

(Ah, sim, a imagem acima foi inspirada no blogpoly, do blog littleoslo.)

Já ouviu a Rádio SulAmérica Trânsito?

Por Marmota | 26/02/2007, 17h26

A família Sanzone, dona da Rádio Metropolitana Paulista, de Mogi das Cruzes, mantém funcionando o AM 1070kHz, muito popular na região do Alto Tietê. Mas nunca soube o que fazer com a concessão FM, em 92,1MHz. Antes da emissora ser “arrendada” para a Igreja Pentecostal Deus É Amor, ali funcionou durante algum tempo a Líder FM (também da família Sanzone) e, por menos tempo ainda, a Emoção FM, quando a frequência foi emprestada para a Record (lembram disso?).

Pois uma excelente jogada publicitária deve popularizar os 92,1 ao menos entre os cinco milhões de veículos que circulam na capital paulista. A família Sanzone, a MPM Propaganda, a seguradora SulAmérica e o Grupo Bandeirantes trabalharam e negociaram durante um ano, formatando um tremendo canal de comunicação para o motorista: a Rádio SulAmérica Trânsito. O primeiro entrou com a concessão; o segundo elaborou a idéia; o terceiro entrou com a marca e a grana; por último, mas não menos importante, o quarto entrou com a credibilidade jornalística. A nova emissora entrou no ar no último dia 12 de fevereiro.

Ouvinte-repórter – A grande novidade “editorial”, digamos assim, é uma cobertura maciça da movimentação nas ruas da cidade, entre as cinco da manhã e às nove da noite – há décadas, esse serviço já existe nas outras emissoras jornalísticas da capital, mas para o dia todo, só em outras duas metrópoles, Xangai e Londres.

Aliás, abre parênteses. O mais inovador entre os formatos do gênero foi usado por um tempão na finada 89 FM. O Giro 89, durante o horário de pico à tarde, soltava pérolas sensacionais como “o trânsito na Avenida Tiradentes está enforcadaço, enquanto a Doutor Arnaldo segue doente nos dois sentidos”. Fecha parênteses.

Em São Paulo, isso não inclui apenas os oito repórteres, os seis âncoras e as dez viaturas circulando. Mas especialmente os ouvintes, que ligam para 3743-2475 e entram no ar ao vivo.

Isso também não é novidade. Em 1983, o atual vice-presidente da Band Marcelo Parada estava na Rádio Eldorado. E num momento em que nem o repórter na rua e nem o helicóptero (outra invenção da Eldorado) conseguiam identificar as razões de um congestionamento, um ouvinte ligou para a rádio e relatou tudo. Estava inaugurada a era do “ouvinte-repórter” na emissora.

A iniciativa tem prós e contras. A grande maravilha do rádio é seu posto de pioneira em participação do público – esse negócio que hoje a Internet banalizou, já que qualquer fórum meia-boca é batizado de “interação”. Ao mesmo tempo, colocar o espectador no lugar do jornalista pode legitimar uma redação enxuta (portanto, mais barata). Sem falar no risco de ouvir o Seu Zé, direto da Rua Rei dos Cocos, dizendo que “aqui a coisa está impressionante”. E a gente fica sem saber se está bom ou não.

Como funciona – Como faço parte (claramente, diga-se) do público-alvo da emissora, já me habituei a ouvi-la desde o momento que saio de casa, até chegar à Marginal Tietê – como a rádio pertence à Metropolitana, a antena deve ficar na Serra do Itapeti, entre Mogi e a Ayrton Senna. Assim, a recepção fica horrível no centro expandido. Além disso, qualquer experiência feita sem qualquer referência anterior passa por muitos ajustes já funcionando.

O locutor no horário que costumo sair é o ótimo Flávio Siqueira, conhecido de qualquer aficcionado por rádio. Imagino que, tanto ele quanto os demais âncoras, adorariam ter que “filosofar” menos a respeito da importância dessa iniciativa, do quanto estão felizes em ajudar o paulistano e proporcionar uma vida melhor… Certamente é uma “papagaiada” imposta por quem manda (ou talvez uma tentativa de amenizar esse assunto chato), mas meio desnecessária para quem se propõe a falar sempre sobre o que realmente me interessa.

Então ele coloca alguns trechos de músicas voltadas para o público adulto (mistura de Antena 1 com Nova Brasil). Mas só trechos curtos, já que a programação cultural, sempre alternadas com dicas para os motoristas e informações gerais sobre a cidade, é depois das nove. Antes mesmo do refrão, entram os repórteres do horário: Daniela Florenzano, Isabel Campos e Álvaro Bufarah.

Mas o grosso mesmo da programação é o “você repórter”. Flávio Siqueira chama o ouvinte pelo nome – o que pressupõe uma triagem prévia, para minimizar possíveis avacalhações. E a coisa funciona: se o âncora percebe que o cidadão pode acrescentar algo mais, ele pergunta: “e no sentido contrário, como está indo?”. Caso contrário, ele corta rapidamente e agradece, dizendo “ligue mais vezes”.

MPM PropagandaEm duas semanas, foram poucas as informações contraditórias que eu ouvi – teve um que disse “a Marginal tá toda parada, um horror” e, logo depois, outro diz “olha, também estou na Marginal mas tá tudo andando, viu?”. Mas até mesmo os fiscais da CET costumam entrar ao vivo para esclarecer algo – “olha, nós não multamos quem anda com engate fora de especificação, isso é trabalho da polícia militar”. Além de toneladas de ouvintes agradecendo por essa graça divina em forma de prestação de serviços.

Benesse da propaganda – Não existe “graça divina” de graça, óbvio. Essa brincadeira toda vai custar, segundo consta, R$ 30 milhões. A grande sacada não está no auxílio ao pobre coitado preso no engarrafamento durante o horário de pico. O negócio atende pelo nome de marketing de conteúdo.

Toda a concepção foi da MPM propaganda, que teve a brilhante idéia de associar a imagem da seguradora a uma informação absolutamente relevante. Mais do que isso: a marca do patrocinador está no próprio nome da emissora. Associação mais direta, impossível.

Para completar, a agência espalhou a frequência da nova emissora em boa parte dos relógios de rua da cidade. A novidade também foi anunciada na Veja São Paulo, jornais de grande porte e em outras emissoras – não só na Rede Bandeirantes de Rádio, mas em algumas concorrentes. Quem mora em São Paulo e anda de carro com certeza já ouviu falar nessa emissora.

Dessa forma, eu e você fixamos a marca da SulAmérica não só através da publicidade, digamos, tradicional. Mas praticamente graças ao seu conteúdo informativo gerado por uma empresa de credibilidade, que consegue conversar sem ruídos mesmo com quem não é cliente da empresa. Aliás, este certamente vai associar a marca com coisas boas, positivas. E como qualquer veículo de comunicação, outras empresas poderão anunciar ali e embarcar na idéia – desde que, evidentemente, não concorra com a seguradora. Genial, não?

Inicialmente, o projeto tem duração prevista de três anos. Até lá, dificilmente outras alternativas a uma emissora 100% trânsito poderiam ser mais úteis – o que mais se aproxima disso chama-se Traffic Message Channel, um protocolo de transmissão digital capaz de transmitir informações (em texto) sobre condições de trânsito (não confundir com GPS, que só informa a localização). Funciona tanto via satélite quanto associado ao FM.

Até o TMC chegar por aqui, a SulAmérica pode muito bem ter superado a Porto Seguro, que atualmente domina o mercado de seguradoras no país. Então a rádio trânsito já terá cumprido seu papel. Enquanto isso não acontece, vamos saudar sua existência e aproveitá-la bem.

Para saber mais sobre a Rádio SulAmérica Trânsito: veja a notícia do site

Internet, Pan e os donos dos direitos

Por Marmota | 25/02/2007, 10h26

Esporte EsportivoLembram quando o termo “esporte” estava ligado apenas a recreação, atividade física, campeonatos individuais ou entre clubes, eventos onde o “importante é competir” pregando a paz e a harmonia entre os povos? Pois eu não lembro desse tempo. Provavelmente já tinha nascido quando coisas como “indústria”, “espetáculo” e afins diminuiram todos os significados sociais e humanos da palavrinha.

Antes da explosão e popularização da Internet, os homens de negócio do esporte trataram de estabelecer um lucrativo modelo de negócio para grandes competições: a venda dos direitos de imagem e transmissão. Patrocinadores pagam milhões para associarem suas marcas a eventos e atletas, e organizadores recebem milhões de emissoras para garantir exclusividade na exploração de todas as emoções que serão consumidas pelos espectadores. E todo mundo fatura.

Até pouco tempo, quem financiava essa festa dos direitos de transmissão, especialmente em torneios de futebol, era apenas a TV. De uns tempos para cá, até mesmo emissoras de rádio – que já desembolsam fortunas para marcar presença em Copa do Mundo, Fórmula 1 e afins – sentem que logo farão o mesmo para eventos transmitidos de graça. Imagine quantas emissoras do interior, que sempre aparecem nas decisões dos grandes centros, ficariam de fora simplesmente por uma imposição econômica.

E aqui, faço um adendo: na Europa, não existem repórteres atrás do gol e na beira do campo, como temos no Brasil. Imaginem se todos os veículos que pagaram os direitos de transmissão numa Copa, por exemplo, decidissem colocar jornalistas ao redor do gramado… Não é a toa que a mídia esquenta a cabeça para reinventar as transmissões esportivas.

Mas enfim. Quem investe sua marca ou compra os direitos, especialmente para eventos de grande porte, buscam seus retorno legítimo. Só que isso bate de frente com o interesse público, que deveria ter livre acesso à informação que lhe interessa. E a vocação democrática da Internet é vista como uma ameaça à contabilidade dos patrocinadores, que compraram exclusividade e querem levá-la.

É por essa razão que decisões absurdas e sem fundamento, restringindo a presença da Internet na cobertura de grandes eventos, existem desde os Jogos de Sydney, quando a rede ainda engatinhava em termos de popularidade. E quando se imaginava que todos poderiam entender o crescimento dessa nova mídia, o Comitê Organizador do Pan reza pela mesma cartilha. Nenhum veículo poderá transmitir os jogos do Rio ao vivo pela Internet. Nenhum áudio ou vídeo com imagens e entrevistas pode ser divulgado seis horas após a competição. Além disso, os atletas que vão participar do evento não poderão atualizar qualquer tipo de site durante o Pan.

Na resposta do COB, além da confirmação de que “estamos rezando pela mesma cartilha dos grandes eventos vendidos pelos mesmos moldes”, eles tentam reconhecer a importância da Internet, garantindo a disponibilização de conteúdo gratuito e o credenciamento para sites – que estão livres para produzir textos e fotos. Claro que isso não ameniza as críticas dos jornalistas, que há tempos já cuidaram da logística para encarar uma cobertura desse tamanho, independente da mídia – quem fica na Barra, quem fica em Copacabana, quem vai atrás das matérias de caráter social, como vai ser o deslocamento na cidade, quais eventos terão prioridade… Da mesma forma, esse barulho também não vai diminuir a razão de quem pagou pela exclusividade por tudo isso.

Alheio a esse conflito de interesses, os internautas já sabem perfeitamente que não tem como controlar, limitar ou bloquear a maré da rede. Basta um espectador comprar seu ingresso e entrar no jogo com o celular, enquanto outro ligar o sinal de TV a cabo na placa de captura, ao mesmo tempo em que outras centenas de pessoas mandem tudo isso para o YouTube. Já passou da hora dos homens dos direitos, das distribuidoras, das gravadoras ou de qualquer empresa que lida com informação repensarem seus modelos de negócio.

Atualizado: O José Murilo avisa: “citei este seu post no artigo que publiquei sobre o assunto lá no Global Voices. Agradeço o bom trabalho no blog. Saudações”. Quem tem que agradecer sou eu, José!

(Postado em 25/01/2007)

Marmota Indica: Pita Kebab Bar

Por Marmota | 24/02/2007, 12h34

Marmota IndicaMinha amiga e especialista em comilanças Luciana Mastrorosa me disse esses dias que, para fazer uma boa crítica gastronômica (odeio cacófatos), é preciso visitar o mesmo lugar ao menos umas três vezes, para só depois analisar os prós e os contras.

Como não sou nenhum gourmet, a série Marmota Indica está longe de ser uma referência entre os bons guias da cidade. Trata-se de um apanhado de experiências e observações, muitas vezes resultado de uma primeira impressão. Ao contrário de qualquer avaliação especializada, nada impede que a expressão “nunca mais ponho os pés nesta espelunca” seja dita logo de cara.

Mas relaxem. Apesar das primeiras impressões estranhas, eu pretendo voltar ao Pita Kebab Bar.

Quebábe? – A palavra “kebab” é persa, e quer dizer simplesmente churrasco. Apesar das muitas variações que a iguaria recebe em todo o mundo, entre elas o churrasquinho grego com suco de laranja grátis no Centrão, a que mais me traz lembranças bacanas é o doner kebab (tradução: churrasco rodando), muito popular na Europa.

Os turcos são os especialistas em doner kebab, e na Alemanha, especialmente em Berlim, que qualquer dia desses vai acordar com mais descendentes turcos que alemães, o sanduichinho já faz parte da cultura local. Assim, não tem como ignorar a minha mais deliciosa referência ao termo kebab: um stand bem simpático na entrada de um supermercado da Dircksenstrasse, na frente do Starbucks, em Hackescher Markt, Berlim.

O dono do estabelecimento, um turco com a cara do deputado Frank Aguiar, corta pedaços de carne de cordeiro assado, num espetão que deixa qualquer churrasquinho grego parecendo tira-gosto. As lascas vão parar num pão sírio (também chamado pita – ops, agora tudo se encaixa), que é pré-tostado para ficar bem crocante. Também vai salada e molho à escolha (eu apontei para um branco). Também servido na versão “mit kase” (com queijo) a alguns eurinhos a mais. Uma saborosíssima refeição típica.

Horário ingrato – A pior coisa é chegar a qualquer lugar bacana carregando alguma expectativa – e a minha era elevadíssima. Como todo castigo pra pobre é pouco, decidi experimentar a casa, ao lado do meu companheiro de aventuras Narazaki, em uma terça-feira, quase meia-noite. Obviamente, nossa tradicional avaliação ficaria comprometida.

Ainda assim, vamos a ela. Quesitos.

Localização: ***BOM. Se eu morasse em Pinheiros, como a Lu Mastrorosa (que pode ir lá caminhando de pantufa), daria ótimo. Mas a rua Francisco Leitão, (número 282, quase na esquina da Artur de Azevedo), é um ponto acessível e muito tranquilo.

Ambiente: ****MUITO BOM. Nisso a turma realmente caprichou. De fora, o lugar parece um cantinho apertado, mas o clima é bem aconchegante. O bar e a cozinha ficam bem visíveis ali, e aos fundos, um jardim com pinta de quintal deixa a casa muito agradável. Mesmo tarde da noite, tinha gente (muito simpática, diga-se) no barzinho.

Atendimento: *****ÓTIMO! Esse fez toda a diferença. Um casal (certamente donos ou gerentes) fez a corte, com um sorriso, um “boa noite” e um “sejam bem-vindos”. Fomos servidos por um rapaz muito atencioso, que fez questão de explicar direitinho o que era o kebab chancliche (com queijo e tomate) e o falafel (massa de grão de bico). Aplausos.

Comes e bebes: **REGULAR. Ok, vamos dar um desconto, vai: que tipo de gente inventa de comer kebab na madrugada de terça-feira? É óbvio que os caras não estavam preparados. Eu estava doido para comer um lanche de carne, mas descobri que o cordeiro só é servido às quintas e sábados. Nos outros dias, o recheio é de frango, mas já tinha acabado. Restou o chancliche – pedido do Narazaki – e um outro sabor bacana, de abobrinha com coalhada seca. E abobrinha é comigo mesmo. O quitute é bem light, servido num pão folha (lembra um crepe à moda carioca, dobradinho como um envelope), e acompanha um molhinho de ervas. Tava bom, mas seria melhor com carne.

O cardápio também traz especialidades árabes, e para os amantes da cerveja, algumas marcas importadas como a uruguaia Norteña… Mas nós, babacas não-alcoólicos, estávamos falando em kebab, certo?

Sobremesas: ****MUITO BOM. Aqui temos uma virada espetacular. Meu pedido original era coalhada com frutas e mel, mas ouvi um “não tem coalhada”. Como também não tinha carne, fiquei injuriado. Optei pelo mesmo doce do Narazaki, a Torta Zebra. E me dei bem! A torta tem esse nome por ser “rajada”: camadas de biscoito doce (era maizena ou maria) alternavam a um delicioso creme de chocolate (o mesmo que vai na trufa, é chocolate derretido com creme de leite). E a cobertura, com esse mesmo creme, é caprichada. Nem senti falta da coalhada.

Preço: ***BOM. Na hora de pagar, ainda no calor da emoção, estava prestes a tascar um “regular” aqui. Onde já se viu pagar R$ 9,50 num crepe de abobrinha??? Mas o refrigerante a R$ 2,50 e a torta divina a R$ 5,50 tornaram a conta justa. Sem falar no serviço, no ambiente e na apresentação toda: até o meu café veio em uma xicrinha colorida!

Avaliação geral: ***BOM. Mas é um “bom” para dar estímulo, não para denegrir as coisas boas do lugar. Se tudo correr bem, ainda hoje vou ter a chance de dar um pulinho lá – e com a Lu! Quem sabe para comer o kebab com carne. Aí, das duas, uma: ou as muitas referências ao Pita Kebab Bar nos guias paulistanos transformam o lugar nesses points da moda, com filas chatas, e a nota cai (espero que não), ou eu como o sanduíche seguido de torta e a nota sobe.

E você, que tal sugerir algum cantinho batuta para a equipe não-especializada do Marmota Indica conferir? Aceitamos qualquer convite ou sugestão, desde que não seja Chico Hamburger.

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