Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: janeiro/2007

Minha festinha de aniversário de São Paulo

Por Marmota | 27/01/2007, 23h07

Estava em total sinergia com o som do Nenhum de Nós enquanto voltava de carro para casa nesta quinta. Aquilo ajudava a minimizar a sensação de estar trabalhando enquanto muita gente descansava, bem longe dali. O feriado paulistano diminuiu a bagunça da Marginal Tietê, parcialmente interditada todas as noites por causa das obras de recapeamento. Já estava bem perto da Trabalhadores (não consigo chamar a rodovia de Ayrton Senna) quando atropelei uma pedra.

Mas não era um desses pedregulhos inofensivos que soltam do asfalto durante a obra. Era um senhor bloco de concreto. Parecia que estava ali de propósito, para alguns desatentos cantantes, como eu, passarem por cima e aprenderem uma boa lição. De fato, parei o carro no acostamento quase ao lado do antigo Paes Mendonça da Penha. Bem a frente de outros três veículos, também parados.

“Nossa, será que todos passaram pela maldita pedra?”, pensei. Uma análise mais aprofundada para reconhecer, entre os veículos, uma viatura policial, com as luzes giroflex desligadas. Havia outra parada, do outro lado da via local. Pelo menos três policiais militares caminhavam pelos canteiros da Marginal, como se estivessem caçando.

Claramente, a pedra era cúmplice de um golpe sujo, e os guardas já estavam providenciando a prisão dos malfeitores. A essa altura, já tinha decidido sair do carro e começar a deliciosa troca de pneus. No mesmo instante, mais um carro, cujo plec-plec da roda denunciava mais uma vítima. Parou alguns metros à frente de mim. As duas pessoas olharam para a minha cara de “sim, foi aquela pedra” e riram.

Um deles estava curioso com a movimentação policial e decidiu especular, deixando o colega com o macaco e a chave de roda. Voltou em cinco minutos, com a expressão séria. “Meu, aqueles ali ó foram tudo roubado, aí os gambé cataram os cara no fragrante”. Ao mesmo tempo que imaginei a angústia daqueles que foram abordados há poucos instantes, agradeci a Deus por mais uma dessas intervenções sabe-se lá de onde fez com que a dupla de amigos e eu tivessem apenas um pneu furado.

Com o estepe mais vazio que cheio, entrei naquele posto ao lado do viaduto de Guarulhos, para calibrá-lo. Contei com a ajuda do simpático frentista, que já nem dá mais bola para esse tipo de ocorrência. “Todo dia é isso aí. Teve uma vez que ficaram uns dez carros parados, e todos foram roubados. E a PM sabe que isso acontece toda noite, mas estão nem aí”, comentou.

Antes de confirmar as 28 libras regulamentares em cada pneu, outro carro encosta ao lado. Pai, mãe e filhos adolescentes no banco de trás. Um homem aparentando seus quarenta e poucos anos desceu assustado. “O senhor também passou por cima da pedra?”, perguntei. Ele disse que sim e, quando eu e o frentista contamos a história, ele virou os olhos para a família. Mistura de preocupação e alívio.

Já era madrugada de sexta quando encostei no primeiro borracheiro aberto, já na avenida São Miguel. Fui atendido por um velho aparentemente banguela e dopado, mas muito solícito. “Foi buraco?”, perguntou o ancião. Ao saber da tentativa de assalto, foi direto. “Se esses bandidos usassem a criatividade deles pra trabalhar… Tinha que ter pena de morte… Os caras iam pensar duas vezes antes de fazer besteira”, balbuciou, entre outras palavras incompreensíveis.

Bela maneira de dizer “feliz aniversário” a uma cidade que não para de surpreender.

***

“É muito difícil andar por São Paulo. Mesmo quem se desloca pouco pela cidade sente os efeitos do caos no trânsito, além das limitações no sistema de transporte público. Qualquer paulistano concorda com os forasteiros que “não conhecem bem a cidade, apenas onde dá para chegar de Metrô”. O que, convenhamos, também está cada vez mais difícil, especialmente para quem vive na zona leste. Aproveitar as coisas boas que a cidade oferece sem pensar nisso? Só depois das dez da noite, ou em feriados como o desse dia 25″.

Esse foi o meu depoimento à Renata Honorato, que foi uma das responsáveis por esse post do Sampaist, que reflete a diversidade dessa cidade detestável, mas necessária em nossas vidas.

Parabéns, São Paulo, apesar de tudo.

Playcenter: encontro certo, ano errado

Por Marmota | 23/01/2007, 14h09

Há uns vinte anos, a gravadora RCA lançou um disco do palhaço Bozo. Quem comprava aquela maravilha do cancioneiro popular brasileiro para cantarolar “pra viver é melhor sempre rir” ou “chuveiro, não faz assim comigo”, ganhava um passaporte da alegria do Playcenter.

Pois foi como se cinco crianças daqueles tempos áureos tivessem combinado: “quando nosso tempo e dinheiro permitirem, vamos juntar nossos ingressos e passar uma tarde inteira nesse parque repleto de boas lembranças”. Assim, as crianças Alexandre, Luciana, Patrícia, Marcelo e André cumpriram a promessa no último dia 14. Pena que tenha demorado tanto.

Quando aquelas cinco crianças ainda curtiam (ou não) as peripécias do palhaço Bozo, o Playcenter ainda carregava uma aura mágica, potencializada pelas inesquecíveis excursões escolares, verdadeiro evento anual inquestionável em qualquer sala de aula paulistana. A memória de vinte anos trás de volta as emoções e sorrisos do SuperJet, Enterprise, Orca Show, Casa Maluca, Maria Fumaça, La Bamba, Show dos Ursos, Casa do Monstro, Montanha Encantada, Trabant, Concorde, Hang Ten, Colossus, Eva, Teleférico, Mini-lanchas, Roda Panorâmica, Alpen Blitz, Tornado…

Tudo isso já estava acabando na última vez que estive lá, em 2003. Em quatro anos, o parque sofreu com algumas perdas necessárias, em função de problemas econômicos. A constatação de que algo para salvar o parque deveria ser feito veio em 2004, com o anúncio da reestruturação. No ano seguinte, a dívida acumulada resultou na devolução de boa parte do terreno à prefeitura. Naquele ano, a má fase desse verdadeiro símbolo de nossa infância ficou registrada na imagem do incêndio nas antigas instalações da Montanha Encantada, já sem acesso ao público.

Como eu não lembrava de nada disso, passei uma tarde inteira com a sensação clara e desagradável de que “mutilaram” o Playcenter. Se não fossem os passaportes de grátis, era melhor ter ido ao Hopi Hari.


Compare o atual mapinha oficial do parque com as imagens do Google Maps. E tente lembrar onde ficava a sua atração favorita: o que ainda existe está em amarelo; o que vive apenas no passado está em verde (ficou horrível, não?).

Apesar dessa impressão negativa, foi um dia inesquecível. Consegui superar a fila e o calor para brincar em seis atrações. O interminável Barco Viking (onde a Luciana convidou o Hugo para andar com ela), o sem-graça Cinema 180 Graus (com o filme inédito do babaca descendo o morro no carrinho de rolimã), as cadeirinhas presas na corrente (batizado de “I Believe I Can Fly”, a melhor relação fila/diversão daquela tarde), o bom e velho Splash (esse ainda preserva o sabor de infância), o Swing Dance (mistura de Polvo com Hang Ten, batizado de “Vomitódromo”) e o ótimo Boomerang. Em número de brinquedos, perdi apenas para o Inagaki, que começou o dia no Evolution – ou Gorfolution, atração que parou por uns dez minutos para que funcionários do parque pudessem resolver um problema orgânico em um dos assentos.

Talvez eu tivesse gostado mais se esse mesmo passeio fosse há uns vinte anos. Definitivamente, acho que estou velho demais para o Playcenter.


Atenção para a chamada: Tuca, Pat, Lu, Inagaki e Marmota.

Em tempo, o disco do Bozo foi reproduzido do fotolog Museu do Playcenter, onde o Bruno Finotti passou alguns meses roub… digo, colecionando imagens de diversas fontes. Inclusive algumas desse post, onde ele diz: “gente, consegui essa montagem muito antiga, vou ver se consigo as fotos no tamanho original pra postar aqui”. Se ele tivesse me pedido, talvez conseguisse. Ou não.

Por fim, esse domingo daqueles serviu como pretexto para que eu reanimasse a minha conta no Flickr. Vai lá ver algumas fotinhas, e depois não esqueça de me cobrar atualizações freqüentes.

Cinco coisas que me irritam profundamente

Por Marmota | 22/01/2007, 18h56

Eu tinha quase certeza de que um “meme” é como se fosse um “vírus cultural”, uma idéia propagada por aí, seja de maneira espontânea ou provocada. Quando sou convidado para participar dessas brincadeiras, imaginava que estaria “propagando o meme”, ainda que voluntariamente.

Pois o MarioAV deu uma bronca, e a carapuça serviu em mim. Iniciativas como a de escrever cinco resoluções de ano novo é uma “corrente”. São tão espontâneos quanto qualquer outro spam inútil, como pedidos de doação de sangue, abaixo-assinados, etc.

Pois bem. O Bruno Alves me convidou para essa brincadeira: escrever sobre cinco coisas que me irritam. Ele recebeu a “corrente” batizada como “mini-meme”. Se eu errava em classificar qualquer coisa assim como “meme”, suponho que “mini-meme” seja algo ainda mais surreal…

Enfim. Ao contrario do Bruno, que se irrita com facilidade e poderia fazer listas gigantescas com uma série de besteiras que o deixam assim, eu sou um sujeito bem mais paciente e tranqüilo. Mesmo quando tenho muita vontade de gritar e ofender gerações inteiras, costumo ficar na minha e deixar o tempo passar.

Assim, tive que escrever coisas que realmente me tiram do sério, e não qualquer besteirinha aí.

#5 Pessoas que sabem tudo – Dizem que a perfeição só é possível após muitos erros. Isso quer dizer que amanhã ou depois eu serei perfeito. Eu cometo erros todos os dias. Tenho me esforçado cada dia mais para não falhar, mas elas acontecem sempre. A causa mais comum desses equívocos é minha desatenção, desconcentração momentânea. E sempre quando isso acontece, acabo assumindo o erro e, consequentemente, me sinto mal por ter escorregado.

Não sei se isso acontece com você. Talvez por ser assim, costumo entender com facilidade sempre que alguém comete um pequeno deslize. É muito difícil ficar irritado com falhas alheias (a exceção vem logo abaixo). Em compensação, existem pessoas que não falham nunca. Estão sempre atentas com tudo e com todos. Mais do que isso: destratam qualquer um que tenha um neurônio a menos.

As pessoas que sabem tudo testam você o tempo todo. Quando pedem uma sugestão, costumam responder com “olha, eu não faria desse jeito, vai dar merda, mas já que você quer assim…”. Quando você falha, perdem totalmente a paciência. “Put I keep are you, agora vou rever tudo que você fez, deve estar cheio de erros”.

Pessoas que sabem tudo são infalíveis: se eu digo “vamos fazer assim, sempre que tivermos alguma situação conflitante, você resolve, afinal, costuma tomar as melhores decisões”… A resposta é imediata: “Claro, você sempre escolhe fazer a coisa mais simples, seu ignorante. Está aprendendo bem com o zelador”. Pois é. Além dessa mala sem alça arrotando sabedoria, ainda somos obrigados a conviver com…

#4 Pessoas que não sabem nada – Já escrevi dias atrás sobre o Princípio Dilbert. Recapitulando: todos nós, funcionários com carteira assinada, somos idiotas. Convivemos com pessoas que cometem atrocidades no dia-a-dia e continuamos a agir como idiotas. E de acordo com o Princípio Dilbert, todos aqueles que falham repetidas vezes, demonstram total falta de criatividade e se mostram ineficazes nas tarefas corriqueiras acabam transferidos para lugares onde atrapalham menos. Normalmente, os cargos de gerência. O efeito é parecido com o de um zelador contratado ontem assumindo a presidência da firma amanhã – se bem que o zelador corre o risco de se sair melhor.

Para não me alongar muito, reproduzo aqui mais um comentário do MarioAV, coincidentemente no mesmo post da bronca: … A coisa com que mais não me conformo é que pessoas vastamente inteligentes, consideravelmente talentosas e sensivelmente instruídas, assim que atingem o domínio do próprio negócio, acabam virando essas porcarias de chefes. Vi isso tão repetidamente que comecei a me convencer de que é a regra e não a infeliz exceção. As manifestações são igualmente previsíveis e repetitivas: estragam produtos tentando fazê-los ser o que eles mesmos querem em vez do que aquilo que o público quer; ignoram e castram a iniciativa honesta dos subordinados; dissipam o capital da companhia em eventos e festas de puro narcisismo que nada deixam como dividendo de maketing; colocam gerentes mau-caráter para fazerem o “serviço sujo” em seu lugar; perdem oportunidades de negócio por não moderarem a ganância. Enfim, isso merecia um megapost, um blog inteiro, um livro em vários volumes, mas se você visitar a seção de administração de uma livraria, os conselhos para evitar tudo isso já estão todos lá. E mesmo assim os “visionários” da “nova era” repetem as cagadas infinitamente.

Acho que não precisa de um megapost, já está bem claro. Tenho certeza de que você conhece alguém assim, mesmo que não seja alguém do seu ambiente de trabalho.

#3 Trânsito paulistano – Eu devia estar acostumado a essa porcaria de cidade não-planejada. Afinal, levo diariamente umas quatro horas para me deslocar entre motociclistas irresponsáveis, motoristas cegos e sem noção de tempo e espaço, espertalhões apressados piscando a luz alta na faixa da direita… Tudo na mesma hora e nos mesmos lugares.

Nem adianta plugar o mp3player no aparelho de som para driblar as rádios-piratas que normalmente atrapalham minha tentativa de ouvir noticias. A única maneira de relaxar completamente é xingar. Bem alto. E ninguém escapa. Talvez seja esse o único momento em que eu realmente consiga expectorar toda a violência concentrada em mim: sozinho, enquanto dirijo. Nessa hora, sobra até para O Zelador e para O Infalível.

#2 Falta de confiança – Não vou chegar ao extremo e dizer que “fico irritado com qualquer mentira”. Entendo que existem circunstâncias em que informação demais só atrapalha. Não me importo em ficar sem saber de algo, ou em ouvir alguma versão adaptada (não confundir com “distorcida”), desde que o elo da confiança não seja quebrado.

Isso demora muito para acontecer. Tenho amigos que já mentiram, fizeram burradas, esqueceram compromissos, fingiram que gostavam de mim, contaram segredos… Mas que sempre demonstraram sinceridade e honestidade ao explicar suas fraquezas e apaziguar minha mágoa. Sempre tive extrema paciência diante de situações assim, mesmo diante de pessoas como O Infalível ou O Zelador. Mas quando chega ao limite (e já chegou algumas vezes), não é só a irritação que fica.

#1 Desvalorização da vida – Essa é uma questão extremamente delicada. Tudo que posso fazer diante das três coisas acima é demonstrar irritação e tentar relaxar depois. Não tenho direito de julgar se Fulano ou Beltrano merecem ou não isso ou aquilo. Até porque, eu também erro, minto, faço bobagens… Na maioria das vezes, ao invés de dizer “por que aquele cururu tem e eu não”, o caminho é seguir adiante e conquistar o que quer com suas próprias mãos.

Apesar disso, não podemos ignorar algumas verdadeiras unanimidades. Matar qualquer um por praticamente nada, jogar o filho recém-nascido na lagoa, aumentar seus vencimentos pagos com dinheiro publico, construir usando o método e os materiais mais baratos… Sem falar nas situações que, infelizmente, estão cada vez mais corriqueiras e que, por isso, já não conseguem indignar a todos.

O que me irrita é saber que a toda hora aparece alguém que não dá o menor valor a sua própria vida. Que dirá a dos outros.

Ash, sim tem outra coisinha que sempre me irrita diante dessas coisinhas: a obrigatoriedade de convidar cinco pessoas pra fazer o mesmo. Ah, francamente. Faz quem quer, não é?

Passei no teste da Goiabinha

Por Marmota | 18/01/2007, 12h12

Eu nunca sei o que fazer diante dos milhares que compartilham suas dificuldades em semáforos, calçadas e afins. Fazem malabarismo, limpam o pára-brisa, deixam balas e mensagens penduradas no retrovisor… Ou simplesmente oferecem balinhas, chocolates, frutas, bugigangas, enfim. O Tuca me disse uma vez que, diante de tamanha concorrência, ele já não dá mais esmola, mas paga couvert artístico: dependendo da performance, ele encontra algumas moedas.

Minha postura é mais radical. Como eu nunca sei qual o destino desses trocados, prefiro não dar nunca. Quer dizer, quase nunca. Nessa semana, algo inexplicável aconteceu enquanto eu via a vida passar sentado no escadão da Gazeta, na Paulista.

Surgiu repentinamente um homem, devia ter uns cinqüenta, quase sessenta anos. Tinha bigode, usava uma camisa pólo verde e trazia nas mãos uma caixa de Goiabinha – aquela da Bauducco, com poucas calorias. “Oi, me ajuda. Duas por um real”, pediu, com o rosto fechado e a voz para dentro. “Hoje não, meu amigo”, respondi. Não sei quem estou querendo enganar: normalmente é nem hoje, nem nunca.

O semblante daquele senhor se transformou. “Meu Deus do céu, não sei o que fazer. Eu já ofereci isso a cinqüenta pessoas, e ninguém quis comprar. Será que eu vou ter que fazer alguma coisa errada?”. Essa última frase soou como uma ameaça: ele faria uma coisa errada com o primeiro imbecil que recusasse a compra. E seria eu.

Se bem que, no fundo, acreditava que, se o sujeito tivesse um bom coração, dificilmente poderia fazer algum mal. “Ei, amigo, cinqüenta pessoas na Avenida Paulista é um número baixo. E quer saber mais? De repente, o problema não está no seu produto, mas no seu marketing pessoal. Já experimentou um sorriso, uma aparência simpática? Essas coisas fazem uma grande diferença”.

Ele esboçou um sorriso – o que, diante daquela primeira impressão, era um esforço tremendo. Decidi resgatar algumas moedas na bolsa até somar um real. “Aí, tá vendo?”, retrucou o bigode. “Opa! Lembra o que eu disse sobre ser simpático?”, devolvi. Quase desisti das Goiabinhas.

Algumas moedas de cinco, dez e vinte e cinco centavos depois, fizemos a tão esperada troca: um real por duas Goiabinhas. O homem guardou os trocos, parou alguns minutos na minha frente e, sem encontrar palavras, parou por poucos instantes antes de dizer: “você vai ser muito feliz”. Apertou a minha mão e saiu. Perdeu-se no meio da multidão.

Nos últimos dias, procurei o homem da Goiabinha pelos arredores, mas não o encontrei mais. Num relance, tive a impressão de que ele, na verdade, era alguma entidade enviada por alguma força celestial divina, simplesmente para testar a capacidade do meu coração. Devo ter sido aprovado, acho.

Apesar que, ultimamente, ando respondendo as alternativas erradas em outras provas. Se isso foi realmente mais um teste, minha média continua baixa.

Você, seu zé ninguém

Por Marmota | 08/01/2007, 23h37

Antes de mais nada, vamos combinar uma coisa. Já nos anos 60, muito antes desse gigantesco conglomerado de redes denominado Internet atingir uma escala mundial, o propósito inicial sempre foi trocar todo tipo de dados entre os seus usuários. Em resumo: conteúdo gerado por seus usuários. Ultimamente, a expressão “user-generated content” ganhou força, definindo tudo aquilo que não é produzido pela mídia tradicional, definindo a democratização da informação.

Pois bem, qual a grande novidade do “user-generated content”, se tudo que você ou qualquer outro clicou hoje foi gerado por usuários? Mais do que isso: o que eram as antigas BBS, os chats e IRCs, as listas de e-mail, os finados newsgroups…

Questões semânticas à parte, o ano de 2006 viu uma extrema valorização desse produto feito por gente como a gente, graças ao boom da chamada Web 2.0, baseada justamente nesse princípio básico e cujos carros-chefe são Flickr, YouTube, MySpace, Blogger, Wikipedia e, agora na crista da onda, o Second Life.

Todos estão de olhos abertos nessa onda, e o impacto já foi sentido dentro e fora da rede. Nos EUA, o investimento em publicidade tende a acompanhar a tendência dos consumidores, que passam menos tempo diante da TV e cada vez mais no computador. A própria MTV brasileira fez uma aposta arriscada ao declarar a “morte do videoclipe” na sua grade de programação, pelo simples fato da rede atender perfeitamente a demanda.

Dentro da rede, os blogs ocupam cada vez mais posição de destaque: muitas empresas e agências de marketing apostam na relação direta entre autores e seus leitores para fortalecer suas marcas. Outras vão além e contratam blogueiros conhecidos para tocar projetos de relacionamento – como é o caso do blog de uma promoção da Mastercard. Mesmo os caras da lista Blogosfera passam longo tempo matutando formas de capitalizar essa onda.

Enfim. Toda essa introdução desnecessária para chegar à capa da Time no final do ano passado: o crescimento do tal “user-generated content” fez com que a revista elegesse “você” (ou eu, sei lá) como a personalidade do ano. Graças a todo esse conteúdo relevante produzido por nós, que está transformando a maneira do homem enxergar o mundo, além de criar novos e lucrativos modelos de negócio.

Mas… Será mesmo que você merece esse prêmio? Ou eu? Ano passado, o Rodrigo Ghedin fez um comentário bastante pertinente, referente aos livros “Conquiste a Rede”, iniciativa feita justamente para incentivar o “faça a imprensa com as suas próprias mãos”:

Não quero parecer pessimista, nem agourar o ideal de que todos colaborem positivamente para uma Internet melhor, mas acho que esse modelo onde todos criam e todos consomem não funciona. Posso até ser tachado de elitista, ou qualquer adjetivo semelhante, mas a verdade é que há três tipos de pessoas no mundo: as que criam, as que criam e consomem, e as que pura e simplesmente consomem. Não por acaso, o último tipo é o mais comum (e o que deveria ficar de fora da inclusão digital utópica).

Não é discriminação, é constatação. Há pessoas que definitivamente não sabem transmitir idéias via escrita. E isso não é pecado, ou motivo para vergonha; é apenas uma característica. Do outro lado da moeda, existem pessoas que transmitem idéias muito bem, mas são péssimas na cozinha, ou não entendem bolhufas de mecânica automotiva. Como diria alguém, cada macaco no seu galho.

Na mesma linha, uma crônica publicada pelo jornalista Tutty Vasques em 23 de dezembro amplifica esta reflexão. Afinal, quem é “você”, exatamente?

A revista “Time” – uma espécie de “Veja” americana – elegeu “você” a Personalidade do Ano. Isso quer dizer o seguinte: o cara de 2006 foi qualquer um, todo mundo, ou seja, ninguém. Esse papo de enaltecer nossa participação na revolução da nova web, de valorizar o explosivo crescimento do conteúdo participativo via blogs, YouTube, Wikipedia e o reino da mídia global, essa conversa fiada sobre a conversa fiada eletrônica, francamente, estão querendo te fazer de bobo, amigo internauta. Democracia digital é o escambau. A verdade é a seguinte: escolheram você para personalidade de um ano de merda.

“Você”, é bom lembrar, concorreu com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o da China, Hu Jintao, o da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, enfim, uma turma que falou mais do que produziu notícias. Não são “gente que faz” como Adolf Hitler, em 1938, e o aiatolá Khomeini, em 1979, para citar dois dos cretinos de marca maior que já participaram da competição. George W. Bush é bicampeão nesse troço.

Mas nem sempre, no final, o mal vence. Albert Einstein levou o título de Personalidade do Século 20. Ano passado, deu empate entre Bono Vox e Bill Gattes, mas também não se trata, necessariamente, de uma competição entre os maiores chatos do mundo. Se fosse esporte nacional aqui no Brasil era capaz de em 2006 ganhar o Lula, o Gabeira, o Rogério Ceni ou o Maluf. O troço não tem mesmo nenhuma lógica, a não ser escolher alguém em evidência no noticiário para vender revista, muita revista. Responda rápido: o que rende maior tiragem, uma capa com Hu Jintao ou essa que chegou às bancas com espelho e tudo na ilustração para refletir “você” no lugar da Personalidade do Ano?

Não vejo nada de errado na estratégia da “Time”, eu mesmo já inventei coisas piores para garantir meu emprego. O que me preocupa – e muito – é o discurso sobre o qual tal estratégia de marketing está montada. Essa história de dizer que o leitor venceu o jornalismo e assumiu o comando dos meios de comunicação modernos – “Você, e não nós, está transformando a era da informação”, afirma o editor da “Time” –, essa idéia de dar voz a quem não tem o que dizer, de entregar as ferramentas de produção a quem não sabe fazer, dá nisso: ninguém fez nada que mereça destaque em 2006. Destaca-se, então, a possibilidade de fazer. Vamos lá, qualquer estúpido é capaz.

Acho ótimo que todo mundo possa dizer o que pensa em rede planetária, danem-se as normas gramaticais e os bons costumes, mas daí a exaltar a banalização do raciocínio como sintoma benigno da inclusão digital, oxente, acho que o leitor tem razão: estou ficando velho mesmo. Mas não do gênero que vai ficar brigando com o estado de coisas a que chegamos. Parabéns pra “você”, personalidade do ano! Uhuuuuu!

De qualquer forma, tomara que você fature o bicampeonato em 2007. Se isso acontecer, provavelmente alguns tostões respingarão em mim.

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