Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: dezembro/2006

Nova carta (ferroviária) do Papai Noel

Por Marmota | 27/12/2006, 12h35

Aquele velho batuta de barba branca está me acostumando mal. Passei a noite do dia 24 inteira aguardando por um sinal qualquer. Uma lembrancinha, um recado, qualquer sinal de vida do gorducho vermelho. Nada feito.

Tive que esperar por mais uma madrugada até encontrar um embrulho enorme embaixo da árvore. Ao abrir duas surpresas: um lindo kit da Frateschi, para aficcionados do ferromodelismo – versão para adultos do Ferrorama, brinquedo que sempre quis na minha infância. Veio ainda uma curiosa pedrinha cor-de-rosa, que remete a uma das minhas frases preferidas, tirada daquele clássico desenho do Charlie Brown.

A explicação, como não poderia deixar de ser, veio no fim da noite, por e-mail.

– original message –
From: Papai Noel
Fecha: 26/12/2006 22:33:44
To: André Marmota
Subject: Feliz Natal

Ho, ho, ho! Adivinha quem é, meu amiguinho Marmota!

É com muita felicidade que lhe escrevo mais uma vez nessa época tão querida por nós! Eu só lamento profundamente o atraso… Infelizmente, nem todo mundo em seu país se comportou direito. Estou me referindo aos controladores de vôo em sua terra. Acredite, meu rapaz, cheguei a ficar mais de quatro horas com meu trenó parado, sem autorizações… Uma lástima.

Mas enfim, nobre colorado. Quero reafirmar aqui a satisfação que tenho em saber que, ao contrário da maioria das pessoas hoje em dia, você continua desejando presentes sentimentais e não materiais. Bem, você já sabe o quanto eu fico triste diante da deteriorização dos valores humanos…

Entretanto, não esqueci minha trapalhada com você no ano passado, quando lhe trouxe a pessoa certa no lugar errado. Dessa vez, resolvi ignorar seu pedido de sempre e lhe dar um presente por minha conta e risco. Lembrei então de uma antiga vontade sua, que você sonhava em ganhar quando era criança.

Por isso, meu querido amigo, é com alegria que anuncio: seu presente é um trem elétrico. Mesmo assim, meu rapaz, preciso admitir que fiquei um pouco ensimesmado, pensando se você iria gostar do presente. Afinal, eu sei que, ultimamente, você não anda muito afeito a sonhos. Para reforçar meu desejo, coloquei, dentro do embrulhinho, uma pedra.

Sim, senhor, sei que você adora essa metáfora simpática. Bem, para que você não fique tão zangado: não é exatamente uma pedra. Na geologia, esse tipo de rocha é conhecido como geodo. Ela tem esse nome por conta de uma característica bem marcante: por fora é uma pedrinha comu. Por dentro, ela tem uma cavidade oca, preenchida e revestida por minerais que formam a aparência magnífica de um cristal.

Percebeu que seu geodo veio repartido, especialmente para que você perceba isso? Agora, sempre que você disser “e eu, uma pedra”, pode dizer “e eu, um geodo”. Porque todos somos assim. Por fora, muitas vezes transmitimos uma imagem áspera, dura, pouco atraente. É a nossa armadura. Nosso brilho, aquilo que há de mais lindo, está no interior.

Repare ainda que existem duas metades de geodo. Ou melhor: se continuarmos com essa representação humanizada, é preciso reforçar que cada uma das partes é um geodo único, meu amiguinho. A outra parte existe apenas para que você se recorde: ainda que apareça outra pedra em sua vida, seu brilho interior permanece o mesmo. O mesmo acontece com a outra. Mas as duas pedrinhas, ainda que tenham formas distintas, fazem todo sentido quando estão juntas.

Entenda onde quero chegar, nobre geodo rosado: você não precisa abdicar seus sonhos, seu brilho, nada disso que te preenche, apenas para que qualquer pedregulho se aproxime. Quando você menos esperar, você vai identificar a pedrinha que dá todo sentido. Então voltamos ao trem elétrico: mesmo sem companhia, este presente pode aflorar em você justamente a percepção de que os sonhos são fundamentais na vida de qualquer um. Até mesmo a sua vidinha regrada e de poucas mudanças.

E nós sabemos que os sonhos, para se realizarem, precisam de esforço, dedicação e tempo para ser embasados, construídos e lapidados na terra onde você tem os pés bem cravados. Como cantava aquela bandinha de música da sua meninice, lembre-se que “o coração é uma estação pra embarcar no trem azul dos sonhos que vai passar”.

Já posso ouvir sua pergunta: “Mas Noel, meu velho, o trem que ganhei é vermelho, não azul!”. Ora, e você acha que me esqueceria da sua cor favorita, meu amiguinho maquinista! Agora você tem um trenzinho vermelho, que vai te levar, com ou sem o geodo extra, para o ano novo!

Aliás, você anda reclamando demais de 2006, sem qualquer razão. Porque veja só: seu Inter foi campeão; você passeou por Buenos Aires e Montevidéu; participou do aniversário de 90 anos de sua vó; desempenhou seu trabalho dignamente; preparou um DVD daquela viagem de maneira especial…

Foi um ano que você também se predispôs a gostar um pouquinho de poesia, não é mesmo? Segue um poema do Bandeira, que tem tudo a ver com esse seu presentinho. Chama-se Trem de Ferro, conhece?

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô…
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô…

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô…
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô…
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô…

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…

Espero, querido amiguinho, que 2007 seja o ano dos sonhos pra você. Dos sonhos possíveis e, quem sabe, alguns sonhos impossíveis. Um ano em que você não precisará voar nas alturas como um tresloucado – coisa que nunca foi o seu perfil – mas você também não terá que ficar com os pés tão fincados assim no chão. No trem, já estará bom.

Dedique-se ao seu trenzinho dos sonhos e à construção da cidade ao redor dele. Trabalhoso será, eu sei, mas nada é mais gratificante do que ver florescer algo que lhe exigiu o máximo de força de vontade, desvelo, cuidado, atenção, paciência, criatividade, sagacidade, devoção, ternura, alegria e amor – qualidades que você tem de sobra, sendo um cara bacana como sabemos que é. Se quiser, deixe o geodo bem perto da estação: de repente, alguém desembarca trazendo nas mãos aquela pedrinha especial…

Espero que curta bastante o presente, assim como eu adorei procurá-lo. Um abraço pra você e pra toda a sua família.

E, como de praxe,um feliz fim de Natal! Ho, ho, ho!

Papai Noel
www.santagreeting.net

PS – A Mamãe Noel fez questão de embrulhar o seu presente nesse lindo papel com motivos infantis – é que ela é sua fã, lê seu blog todos os dias e te admira muito! Eu sinto um pouco de ciúme, confesso, mas sou maior que isso. Não vê minha barriga? (Piada fraca, como você gosta).

Leia também
Carta do Papai Noel (2003)
Nova carta (oriental) do Papai Noel (2004)
Nova carta (romântica) do Papai Noel (2005)

Passando o Natal com Eragon

Por Marmota | 26/12/2006, 12h22

De todas as mensagens que recebi nesse fim de semana, a que mais conseguiu resumir meus sentimentos desse ano foi o pedido para que “a harmonia do Natal se estenda por todos os dias do ano novo”. Eu sei que não devia pensar assim, mas sinto uma certa hipocrisia em alguns poucos sujeitos que fazem um pedido desses.

É gente demais acreditando que “dinheiro é poder”, gente que fica o ano inteiro preocupada em ganhar cada vez mais dinheiro a qualquer custo. Mesmo que para isso tenham que esgotar recursos naturais, relações humanas ou a própria alma. E nessa época do ano, aparecem na maior cara de pau para desejar boas festas.

Para deixar bem claro: não estou falando daqueles que trabalham duro e mal conseguem dizer aos amigos que podem contar quando precisar. Mas sim aqueles que transformam a necessidade de ralar em um verdadeiro martírio. Eu tenho certeza que você conhece muita gente que não mereceria feliz Natal nenhum – mas como é a época de perdoar, tudo bem, que comemorem.

Mas enfim. Eu adoraria saber que todos esses votos de paz, harmonia, felicidade e tantos outros valores visando o bem da humanidade pudessem abrir a mente dessa minoria egoísta, que enriquece às custas da maioria. E que isso fizesse alguma diferença diante da natureza deteriorada, do clima alterado, das diferenças e guerras, entre outras injustiças. Mais do que um feliz ano novo, reforço aqui meu desejo de feliz mundo novo.

Isso não deveria ser novidade para ninguém. Tudo já foi dito, e de muitas formas. Faça um pequeno esforço cinematográfico, por exemplo, e lembre-se quantas vezes assistimos a mundos paralelos, açoitados por pequenos grupos detentores do poder supremo, e diante do desequilíbrio, os mais fracos resistem e lutam bravamente por um final de filme feliz, com justiça e liberdade.

Pois nessa segunda-feira de Natal, mais um genérico de Star Wars e Senhor dos Anéis entrou em cartaz: Eragon. A própria crítica do Omelete traz todos os elementos que fazem dessa aventura um “catadão” das outras duas trilogias: a história se passa em Alagaesia (ou seria a Terra Média?), onde um único Sauron-Darth Wader (o Rei Galbatorix, interpretado por John Malkovich) elimina todos os Jedis-Anéis e fica com todo o Poder-Força para si. E o camponês Eragon (incorporado pelo carismático estreante Edward Speleers), que não tinha nada que se meter na macumba toda, torna-se o Frodo-Luke da vez.

Não acredito realmente que os executivos da Fox tenham ignorado tantas semelhanças com outros blockbusters do gênero. De qualquer forma, a aposta certamente recaiu no sucesso do livro, escrito por Christopher Paolini a partir dos seus 15 anos – o próprio autor admite inspiração nas idéias de John Ronald Reuel Tolkien e George Lucas. O romance vendeu a rodo, apesar da proximidade entre as aventuras que, convenhamos, deve irritar um bocado os fãs das histórias mais conhecidas.

Se o livro já pode causar esses efeitos colaterais, imagine um filme dirigido por um novato, especializado em efeitos especiais, que tem em mãos o desafio sempre inglório de transformar uma história complexa e cheia de detalhes num produto digerível em apenas 110 minutos. Ainda não ouvi falar em um filme melhor que o livro, e não foi dessa vez. Os fãs de Eragon que detestaram a versão para telona somaram-se aos críticos do livro, fato que pode ter contribuido para que o longa tenha ficado em segundo lugar na bilheteria norte-americana em sua estréia – espécie de “termômetro de sucesso” -, atrás de À Procura da Felicidade, com Will Smith. Para quem desejava ser “o filme do ano”, isso não é bom.

Enfim, como não faço parte do público fanático por nenhuma dessas histórias, aceitei o convite da Renata, da LiveAD, para assistir a Eragon antes de todo mundo. Além da sessão propriamente dita, foi sensacional rever a moça, além da Alê Félix e da Gabi, além de conhecer o Rodrigo Fernandes, a Dani Koetz e a Ju Draven (a maior fã de Eragon do recinto), em um começo de tarde bem divertido.


Atenção para a chamada (da esq. p/ dir.):
Rodrigo, Alê, Gabi, Renata, Dani, Ju e Marmota

Tratei de usar a boa e velha teoria do Código da Vinci: assistir ao filme sem qualquer informação relevante sobre a história e, diante da ignorância, curti-la como um excelente passatempo. E aqui vem a boa notícia: Eragon é um filme divertido, baseado no poder exercido pelos lendários cavaleiros de dragão, e o bichinho rouba a cena, ao lado de Jeremy Irons, que faz o papel de Brom (o Obi-wan Kenobi).

Se você é (ou conhece) um jovem de 15, 17 anos, certamente vai se identificar ainda mais com o personagem-título, e curtir um bocado as aventuras do camponês de bom coração que se transforma na última esperança para salvar Alagaesia. Não custa nada transmitir mais uma vez essa boa nova: pessoas de bom coração é tudo que precisamos para salvar o nosso mundo real.

Aos amigos e amigas, feliz Natal

Por Marmota | 22/12/2006, 13h08

Normalmente sou uma das primeiras pessoas a valorizar as maravilhas da tecnologia. Mas antes disso, faço questão de defender a boa e velha sabedoria popular, transmitida de avô para neto. Coisas como “o mundo dá voltas, e o tempo é sábio”, “onde deus fecha uma porta, ele abre uma janela”, “antes só do que mal acompanhado”… E a mais curiosa entre todas que já ouvi: “amigos são seus dentes, e ainda assim mordem sua língua”.

Sempre que lembro dessa última, a imagem de Dafne vem à cabeça. Há pouco mais de cinco anos, ela apareceu no meu ICQ – para quem não se lembra desses tempos românticos e ainda não consegue entender como tanta gente trocou essa maravilha pelo MSN, era muito comum ser abordado do nada por pessoas que descubriam seu UIN sem querer, a partir da eficiente busca do programinha. Não faço idéia de qual tenha sido a desculpa usada por ela. Mas lembro perfeitamente que, durante aquela semana, a Dafne aparecia sistematicamente para longas horas trocando bobagens despretensiosas comigo.

Mais alguns dias para finalmente lhe dar o número do meu celular – afinal de contas, ela me achava um cara divertido, e do outro lado da linha, ela também não parecia ser má. No fim da noite, o telefonema dela. E foi a mesma descontração do comunicador instantâneo. O bate-papo começou delicioso, mas assim que contei uma rápida passagem da minha vida, o tom mudou rapidamente. Eu disse algo como “as pessoas dizem que sou um sujeito engraçado desde os meus tempos de estagiário no laboratório de metrologia elétrica lá na Cidade Universitária”.

“Ei, você trabalhou lá? Ah, então você deve ter conhecido a Carina Barcelos”, comentou Dafne.

Fiquei alguns segundos quieto, antes de murmurar um “quem?”. “Carina. É o nome dela, ela trabalhou lá, é a minha melhor amiga”.

Então essa moça que entrou no meu ICQ do nada, me chamou de “cara divertido”, que estava adorando a conversa e que parecia tão legal… De repente essa moça tira da boca o nome e o sobrenome da minha ex-namorada sem que eu tenha feito nada pra ela? E ainda por cima era a melhor amiga dela!!!

“Você disse Carina?”, continuei murmurando, antes de lhe dizer o que diabos ela representou num passado não muito distante. Ela ficou chocada. Não tanto quanto eu, avisei. Mas é claro… A Carina sempre falava em uma certa Dafi. Era a Dafi que tinha saído com não sei quem, que tinha viajado pra Peruíbe não sei quando… Dafi… Dafne… Então tudo se encaixa!

“Meu Deus do céu… Eu não acredito que é você, esse tempo todo. Porque a Carina dizia horrores a seu respeito”, lembrou.

Era o momento da pobre Dafne, que nada tinha a ver com o meu relacionamento, descobrir o princípio básico do jornalismo e ouvir o outro lado da história. Tinha claramente em minha memória todas as situações descritas pela Dafne, desde aquela vez em que levei a Carina para assistir Cidade dos Anjos e não chorei ao seu lado, até o dia que eu tirei a caneta do bolso para corrigir um cartão presenteado por ela. “Mas Dafne, na época, eu tinha absoluta certeza de que não podia deixar passar alguém escrever sossego com C. Hoje eu aprendi a lição, mas na época foi uma burrada monstruosa”, lembrei.

Naquela altura, não fazia idéia do que passava pela cabeça dela. Afinal de contas, até aquele instante, tudo que Dafne fez na vida foi ter apoiado e agido fielmente a sua grande aliada. Ter dito “aquela palavrinha amiga” que a Carina tanto precisava ouvir, ainda que eu jamais soubesse disso. Claro que nã gostaria de saber, mas nem precisei perguntar pelos detalhes sórdidos: ela sintetizou toda aquela noite maluca num diálogo que me faz pensar até hoje.

“Nossa, cara, você não faz idéia de como eu xinguei você ao lado da Carina. Chamei você de tudo quanto é nome. E na semana que vocês terminaram, eu segurei nas mãos dela e disse: olha, seus olhos estão me dizendo tudo, você não é feliz ao lado desse inútil. Portanto livre-se desse traste, antes que ele acabe com a sua vida. Eu disse isso, meu. E agora que eu conheci você, que ouvi você, e vi quem você é, sem querer… Puxa, se eu soubesse antes, eu jamais, jamais diria uma coisa dessas. Nunca que eu gostaria de ver uma amiga separada de alguém como você”.

Agradeci as palavras gentis, claro. Mas no fundo, eu estava era com muita raiva. Ora, a decisão de seguir em frente ou não era da Carina. Ela não tinha nada que se meter na vida dela e, de quebra (mas muito indiretamente, admito), estragar a minha.

Mas enfim, mesmo numa situação dessas, nunca esbocei qualquer sentimento negativo em relação a Dafne. Tanto que, naquele mesmo ano, marcamos um agradável encontrinho na Prainha Paulista, pouco antes do final de ano. Na semana do Natal, a Dafne mandou um e-mail bastante extenso, praticamente resumindo aqueles últimos meses de intensa reflexão histórica.

“Ai meu, você sabe como sou sincera contigo, entao preciso te falar uma coisa que esta me perturbando, mesmo sabendo que você poderá me odiar depois.

No começo, tenho que te confessar, fiquei muito interessada em você… Por vários motivos, mas o principal é porque você é um cara de muito bom senso, além de ser inteligente, com personalidade… Isso me atraiu muito! Você é um homem maravilhoso, com tantas qualidades, e com tão poucos defeitos, que poxa vida, era de se esperar que, ao contrário do que você diz, milhares de mulheres caíssem aos seus pés!

Mas conforme foi passando o tempo, vi que somos muito diferentes. E que, ainda por cima, você conhecia a Ca! E eu amo muito essa guria, e fiquei feliz em saber que você tinha feito parte da vida dela, porque você é um cara muito legal!

E o nosso encontro essis dias… Estava pensando em como foi, e fiquei boba em ver como me senti feliz em realmente conhecer o cara que me escuta e me aconselha todos os dias. Fiquei feliz de verdade em ver que você não era aquele homem idiota da outra mesa, que me abordou quando cheguei, antes mesmo de você aparecer… E vi que você é alegre, simpático, espontâneo…

Mas depois que nos encontramos, você me pareceu meio distante, como se não tivesse gostado de mim… Sei lá, estranho isso, porque sempre te tratei igual, um amigo de verdade. Então eu lembrei da sua história com a Ca. E você sabe que vocês não têm nenhuma chance. Pelo menos enquanto ela estiver com o namorado dela. Eu não o conheço bem, mas acho que ele a faz de gato e sapato. Ela não merece, mas ela gosta dele… Bom, pelo que ela me fala, eu prefiro você. Hehehe!

De qualquer forma, ela sabe que você é um cara legal. Ela tem saudades de algumas coisas, mas sei lá… Ela fala de você como um grande amigo, o que eu acho muito legal! Poxa, ela te considera um monte, e ela tem toda razão!

Enfim, eu também descobri que adorava você como amigo, do tipo que me ajuda de verdade, que me escuta… Esperava isso de você, mesmo sabendo que talvez não fosse conseguir, até porque continuei amando falar contigo!

Bom, chegou a parte que você vai odiar. Fiquei triste em não conseguir falar contigo esses dias. Sei perfeitamente que você está com milhares de coisas para fazer e que está complicadíssimo conversar… Mas, sei lá… Estou com uma puta saudade de conversar contigo!

Ai ai ai… Como sou boba, né? Mas olha, sobre a Ca, toma cuidado, vai… Não quero ver você sofrendo de amor platônico! Tem muuuita gente bacana por ai, é só ficar de olho! E não deixe de ser quem você é, só para agradar alguém. Talvez você só esteja procurando alguém no lugar errado…

Acho que é isso. Bom Natal, feliz 2002 e um beijo carinhoso da sua amiga Dafne”.

Enfim, hoje as duas amigas estão muito felizes, ao lado de seus maridos. Tenho guardado por aqui a foto do filhinho rechonchudinho da Dafne, que ela fez questão de mandar logo quando ele nasceu. É bem provável que a amizade das duas seja mais ou menos como a que eu enxergo: nossas vidas tomaram rumos bem diferentes, mas a lembrança fica para sempre.

Além, é claro, de uma grande lição de vida: salvo em risco de morte ou de maior gravidade, quem gosta de verdade não se mete na vida alheia. Essa eu já aprendi. Só falta agora parar de procurar no lugar errado.

Vamos aproveitar a onda dos 91%

Por Marmota | 19/12/2006, 23h37

O que mais eu posso acrescentar aos belos votos de boas festas concedidos aos nossos parlamentares, que para garantir um feliz ano novo, estão lutando por um aumento de 91% em seus vencimentos – ou, se não der, já que todo mundo ficou chateadinho, um reajustezinho de acordo com a inflação já ajuda.

Só a Folha Online, que registrou algumas das mensagens recebidas, contabilizou mais de mil e-mails em 15 horas. Posso estar errado, mas nem mesmo durante os escândalos do mensalão, dos sanguessugas ou mesmo com o dossiê mequetrefe da eleição, esse sentimento de indignação não era tão forte. Ao menos em nenhuma dessas ocasiões eu soube de algum popular tentando esfaquear um deputado, por exemplo.

Infelizmente os nossos pobres parlamentares contam com uma boa arma a seu favor: a não-politização do povo. Traduzindo: nessa semana, todo mundo fala sobre os 91% nas mesas de bar. Semana que vem, já vão falar no Natal, no ano novo… Então vem janeiro, aí já viu. É só Big Brother e Carnaval. Provavelmente nesse meio tempo, o tal aumentinho saia. Tanto por falta de vergonha desses cidadãos quanto pela inércia viciante do silêncio e da alienação, sustentado pelo problema crônico da nossa educação, como desabafou o Júnior.

E aqui, assumo minha parcela de culpa: eu sei que não devia, mas muitas vezes a minha indignação é substituida por uma sensação horrível de conformismo, simplesmente porque, na maioria dos casos, nem mesmo o grito dos muitos indignados faz efeito diante dessa inércia histórica e estabelecida. Mas tirando meu pessimismo de lado, ainda acredito num jeitinho de, digamos assim, amplificar um pouco mais o barulho do povo. Estou falando dos blogs e seus dois ou três leitores, mas que juntos, podem engrossar o caldo.

A discussão tomou corpo essa semana, na agitada panelinha formada pela lista Blogosfera, onde praticamente todos os membros se dispuseram a proliferar o tema pelos cantos virtuais. Claro que vale a pena todo mundo se manifestar sim, mas talvez os resultados (sejam eles quais forem) sejam mais significativos se todos apontassem ações comuns.

Uma delas é a petição online, criada pela Claudia Schuch e divulgada pelo site Congresso em Foco – que sugere ainda o acompanhamento do tema a partir do Jornal de Debates.

Existem outras sugestões, como bem ilustra o Bruno Alves. Dá, por exemplo, para entupir os e-mails dos parlamentares (se é que eles lêem algum), como já fizeram o Fábio Matos (procure pelo dia 15 de dezembro) ou o meu xará, criador do oportuno noventavírgulaseteporcento.

Claro que, mesmo diante de tamanha mobilização, é difícil acreditar em um resultado concreto. Mas a verdade é que, diante dos meios que dispomos, não tem outro jeito. Quer dizer, tem. Podemos esperar pelo Juízo Final, até todos nós, inclusive quem escolhemos democraticamente nas urnas, pagarmos nossos pecados.

Em tempo: sim, a mídia poderia nos dar uma força e fiscalizar nossos governantes, não fossem tão parciais e movidos a interesse. E ainda que você não acredite, esse desabafo do repórter Rodrigo Vianna sobre a cobertura eleitoral da Globo só reforça a desconfiança – aliás, se a blogosfera repercutiu os 91% com força, imagine o barulho que essa mensagem vai fazer. Feliz Natal, hein.

Título mundial em boas mãos

Por Marmota | 15/12/2006, 13h10

O texto a seguir pode fazer com que muitos torcedores fanáticos do Internacional passem a me odiar. Também posso ser alvo dos invejosos de sempre: vão dizer que é discurso de perdedor, ou uma tentativa de se precaver de chacotas na segunda-feira. Tudo bem, isso não importa.

Vamos esclarecer uma última coisinha: até o minuto final da decisão mundial neste domingo (e espero que sejam só 90), o adversário do Inter será tratado como tal: vai ser “vamo vamo Inter” o tempo todo, de um jeito que jamais nenhum colorado torceria normalmente.

Agora, tirando esse jogo, eu tenho que admitir: meu coração é vermelho sim, mas eu também sou fã do Barcelona.

A Catalunha lembra, a grosso modo e dentro de limites históricos bem definidos, o Rio Grande do Sul. Vou tentar explicar. As duas regiões fazem parte de uma nação, mas fazem questão de preservar sua própria identidade, exalando um forte sentimento nacionalista – e aqui eu simplesmente apóio a preservação de valores, e não qualquer movimento separatista idiota. Enfim, a equipe azul-grená é um dos maiores símbolos da cultura catalã.

A questão histórica também fomentou a rivalidade espanhola entre o Barça e o Real Madrid, time do ditador Francisco Franco, que comandou o país num regime político ditatorial e baseado no fascismo. O clássico entre as duas equipes não era simplesmente uma partidinha aí. Se você caísse sem querer num estádio entre 1939 e 1975, e alguém te dissesse que “aquele time de branco representa a repressão da Catalunha, do nosso idioma, da nossa história, da total ausência de democracia…”. Para quem você ia torcer?

Passado à parte, Barcelona é uma cidade fantástica, cuja vocação esportiva, que já é forte graças ao imponente Camp Nou, se intensificou no início dos anos 90, com a realização dos Jogos Olímpicos. Madrid e Barcelona são lugares muito divertidos, mas talvez a influência do Mar Mediterrâneo ajude a criar um clima muito alegre.

Se você tem o espírito jovem, gosta de futebol e tem tempo e dinheiro sobrando, vá conhecer. Você vai entender que o Ronaldinho Feiúcho (que vai usar sim uma camisa azul por baixo) é só um garoto-propaganda metido a besta: o Barça é bem maior que a rivalidade histórica de um dos seus atletas, seja ele o Feiúcho ou Rivaldo, Maradona, Cruyff, Romário, Kocsis e até o “Femônemo”…

A verdade é que não tem como não ser fã do Barcelona quando se conhece. Da mesma forma, não é possível conceber alguém torcendo para um time que adotava uma política estúpida de discriminação, achando que eram mesmo os maiorais, os fora-de-série. Mas tudo bem. Não fosse por essa postura elitista cretina, os irmãos Poppe jamais teriam fundado o Clube do Povo. Yokohama vai receber duas agremiações com lindas histórias para contar. Não tenho dúvidas de que o título mundial (inédito para ambas, diga-se) ficará em boas mãos.

Evidentemente, ficaria bem melhor ali na Avenida Padre Cacique.

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress