Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: outubro/2006

O amanhã somos você e eu

Por Marmota | 30/10/2006, 09h18

Tem um velho ditado em espanhol (você o lerá agora pela primeira vez essa semana) que diz assim: yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. Essa é a minha postura default diante de qualquer manifestação que ultrapasse o campo racional. Resumindo: até que se prove um completo charlatanismo, eu respeito todos esses fenômenos paranormais e seus derivados extra-sensoriais.

Um dos exemplos mais lembrados é o daquele paranaense que, desde criança, sonha com o futuro, e se notabilizou tão rapidamente, tanto que vez ou outra aparece na Sônia Abrão ou na Ana Maria Braga. Não quero infestações do Google aqui: a primeira vez que vi notícias do cidadão foi neste blog que, tomando suas palavras emprestado, cansou de abrigar comentários como fosse o site pessoal do sujeito. Por isso, não pretendo escrever aqui o nome dele.

Ah, mas você sabe quem é: seu primeiro nome é o daquele presidente que construiu Brasília. O sobrenome é o mesmo do clã que até hoje manda na Praça é Nossa. E termina com aquela energia que se propaga no vácuo a trezentos mil quilômetros por segundo, precedido por preposição indicativa de posse no feminino. E quer saber mais? Ele tem site, descubra você mesmo.

Mas enfim. Entre seus acertos impressionantes, estão o 11 de setembro, os atentados em Madri, o sequestro de Sílvio Santos, o mensalão, o assalto ao Banco Central de Fortaleza, o tsunami na Ásia, a indicação do esconderijo de Saddan Hussein, e mais recentemente, o acidente da Gol e a final entre Itália e França na Copa. Realmente, o cara é um fenômeno. Entre as muitas previsões que circulam por aí, uma revela o choque de um avião contra um edifício da avenida Paulista, em São Paulo, no dia 26 de novembro de 2014. Por via das dúvidas, se ainda estiver trabalhando no mesmo lugar, vou pedir folga.

Ocorre que nosso vidente também deu seus palpites, em 2003, a respeito das eleições deste ano. Desta vez, suas premonições não foram lá muito eficientes. Ele cravou Serra em São Paulo e Aécio em Minas, o que, convenhamos, era como apostar em Lula. Mas estes foram seus únicos acertos: Germano Rigotto, Paulo Souto, Lúcio Alcântara, Almir Gabriel e Maguito Vilela faziam parte da lista de eleitos, ao lado de Geraldo Alckmin.

Reitero o que disse: até segunda ordem, não serei eu a levantar a voz e dizer “chupa que a cana é doce”. Aliás, nem preciso: o Xico Sá, do No Mínimo, já lançou uma suspeita bastante plausível a respeito de seu método “vi o que acontecerá e registrei em cartório”. Não vou aqui julgá-lo, mas pinçar ao menos uma verdade em sua explicação sobre a vacilada. A potencial realidade objetiva, vislumbrada em seus sonhos, pode ser alteradas pela ação humana – ou omissão, decida de acordo com o tema – em qualquer campo da vida humana. Assim ele segue sua missão de alertar o mundo e evitar a destruição da humanidade graças aos nossos atos inconsequentes.

E ele conclui com dois pensamentos, um atribuído a Mark Twain (o grande problema não é o que você não sabe, é o que você tem certeza que sabe, mas não é verdade), outro de Winston Churchil (a era da procrastinação, das meias medidas, dos expedientes que acalmam e confundem, a era dos adiamentos está chegando ao fim, no seu lugar, estamos entrando na era das consequências – essa foi uma indireta para mim).

Sim, eu concordo com você: é uma mensagem óbvia que, diga-se, já era propagada por Rodrigo Faro, Rafael Vanucci, Samantha Monteiro e a Aretha dos especiais da Globo, todos do extinto ZYB Bom. “O mundo vai ser melhor / daqui a pouco tempo / o futuro já chegou / e se depender da gente / será melhor viver / venha também / vamos mudar / o que não pode nem deve ficar / o amanhã somos nós e você / vamos cantar / é nossa vez”. Nem preciso ser vidente para perceber que nenhuma criança da época lembra daquele programa, já que estão ignorando o aviso depois de crescidos.

***

Depois de falar em futuro, um pouco do passado. Em 2002, quando praticamente não tinha o que fazer da vida, recortei e colei as capas de jornais que indicavam a vitória da esperança diante do medo. Diante do linchamento sofrido pela esperança, e por mais que seja difícil ficar pior depois da reeleição, desta vez não tive vontade alguma de repetir a dose. Mas o pior é a Yeda eleita no Rio Grande do Sul. Agora tenho um bom motivo para adiar qualquer plano de migração para mais quatro anos.

Esses heróicos moderadores de listas

Por Marmota | 25/10/2006, 02h33

Então num belo dia você descobre que aquele assunto bacana que te faz discutir horas com os amigos já reúne uma porção de adeptos em um grupo tão bacana quanto. Não demora muito e você logo resolve fazer parte. Afinal de contas, se tanta gente gosta do mesmo tema, provavelmente todos são pessoas legais como você.

Digamos que, entre todas as formas virtuais para reunir mentes, essa seja uma lista de discussão por e-mail. Como você é um usuário que faz bom uso da rede, logo descobre as regrinhas básicas de convivência e, para ajudar no bom andamento das coisas, trata de obedecer. Nada de assuntos impertinentes, mensagens escritas com maiúsculas, envio de currículos, recados particulares, discussões gratuitas com os outros…

Em menos de uma semana, aquela idéia das “pessoas legais como você” vai para o reino encantado do beleléu. Tudo por culpa daquela retardada que quer convencer você e o mundo que o Lula é boa gente. Ou ainda aquele sem-noção, que vive mandando piadinhas e provocações. Por fim, aquelas boas almas intencionadas, mas totalmente desinformadas, que entopem sua caixa postal de arquivos powerpoint ou avisos alarmantes completamente infundados.

Acha isso ruim? Imagine o que passa pela cabeça do moderador da bagaça. Um cidadão como você, que também precisa cuidar da sua vida, mas que num lapso de insanidade, resolveu criar uma comunidade para reunir gente interessante. Esqueceu que não é mole controlar a instabilidade coletiva da sociedade (eufemismo para “ignorância”) e, com o tempo, arrepende-se profundamente daquela maldita hora em que decidiu embarcar nessa.

Administradores sofrem lendo toneladas de bobagens, especialmente se a tal comunidade for daquelas em que os textos precisam ser aprovados por eles. É um processo sacal e metódico. Pior ainda quando aparece aquele mala, interessado em manter a ordem na casa (que não é dele), provocando ainda mais animosidade com mensagens do tipo “esse cidadão devia ser expulso, pessoas como ele nem deviam ser aprovadas. Como é que o moderador deixa a coisa ficar assim? Moderador, tome providências, por favor!”. A primeira delas seria tranferir o “cargo” para o idiota.

Além daquelas regrinhas básicas de convivência, algumas outras ajudam muito a vida do nosso amigo moderador, além de economizar o tempo de todos aqueles que podem (ou não) ler a sua mensagem:

- Capriche no campo “assunto”, explicando exatamente o que você tem a dizer (nada de “oi”, “cuidado” e outros termos vagos). No texto, seja breve e claro.

- Só mande arquivos anexos ou correntes de solidariedade em caso de extrema necessidade, e ainda assim, com permissão do destinatário.

- Responda sempre as mensagens, mas sem excessos. Não perca seu tempo comprando briga com xiitas argumentativos, não redija mensagem alguma com a cabeça quente, nem exalte nos agradecimentos quando estiver tudo bem (obrigado pelo seu obrigado).

- Evite transmitir ao seus interlocutores a sua falta de noção. Um ou outro erro gramatical ou vírgula fora do lugar até passa, mas cuidado com o desleixo. Se a rapidez atrapalha, a obra de arte idem: cores diversas, imagens piscantes, papel de carta e outros elementos só transformam e-mails em alegorias. Se a mensagem não for nada especial, texto sem formato nela.

Se um dia você esquecer disso, basta lembrar do heróico moderador: ele bem que poderia ser você.

***

Já que o assunto é “use bem o seu e-mail”, um último recado. É comum enviarmos mensagens para muita gente, especialmente em convites ou avisos do gênero. Em casos assim, especialmente quando os destinatários não se conhecem bem, pense na hipótese de usar o campo “cópia oculta”. Isso evita aborrecimentos desnecessários diante daquelas respostas das respostas das respostas, normalmente sem propósito e repletas de endereços no corpo do texto. Se for responder, pense também na possibilidade de escrever apenas para o remetente.

***

Lembrei dos heróicos moderadores e seus chicotes diante das mulas cibernéticas quando vi a novidade do Neto Cury, o novo fórum do Portal Word Press, que já reúne dicas valiosas sobre o gerenciador de blogs preferido da moçada. Vai lá conferir.

Eu vou acompanhar a movimentação de longe, pois por mais que eu tente, não tenho como priorizar esse tema na minha vida. E mesmo quando alcanço a turma tardiamente e aviso, acabo ouvindo “O que?!? Como pode você não ter atualizado o sistema!!! Sua besta!!!”.

Mas tudo bem, também já “levei bronca” do Neto Cury na antiga lista (algo natural entre amigos), e ficaria feliz se soubesse que todos os moderadores, inclusive os que cuidam de fóruns, comunidades do orkut e afins, conseguissem conquistar respeito e admiração de seus participantes como ele faz. Porque não é moleza.

A mais eficiente arma anti-spam da última semana

Por Marmota | 21/10/2006, 22h44

Desde que este espaço optou pelos excelentes serviços do WordPress, em abril de 2004, os problemas envolvendo spammers nos comentários eram os que mais tomavam meu tempo. Em novembro de 2004, quando a infestação de pragas ainda era iniciante, experimentei um sistema simples de autenticidade de comentários – o tal “captcha”, que não só foi driblado pelos robozinhos-lixeiros mas também recebeu críticas dos nossos visitantes.

Meses depois, em março de 2005, surgiu uma nova solução, dada como definitiva: um plugin chamado WP Hashcash, que criava uma “senha oculta” a partir de um código javascript, e embutia no formulário de comentários. Deu certo no começo, mas evidentemente, a enxurrada de adipex, cialis, texas holdem, tramadol, levitra e outros bichos, não foi páreo para o pobre plugin.

E eu, que não queria me preocupar em mexer no sistema que gerencia o blog, fui obrigado a tomar providências. Tanto o Doni como o Ian, os mais novos entusiastas do WordPress, indicaram o Akismet (chamado inocentemente de “as que mete”), instrumento que garante: nunca mais vou ter que me preocupar com spam. Os dados do site são realmente preocupantes: 92% de todos os comentários registrados no WordPress são lixo puro. Noventa e dois porcento!!!

Só que, para ter “as que mete” trabalhando no blog, teria que fazer uma migração, digamos, mais trabalhosa: transformar a versão 1.5 do sistema para a novíssima (quer dizer, mais ou menos recente) versão 2.0, única exigência do bloqueador de spams. Relutei por muito tempo esse upgrade não apenas por falta de tempo, mas principalmente por não ter gostado dos frufrus visuais. Não vejo a menor graça em escrever um post sem digitar os comandos HTML, ou em ver o meu já carregado servidor de imagens ganhar uma imagem extra em miniatura a cada upload.

Mas enfim, com algumas customizações para manter a edição espartana e o upload como nos velhos tempos, a atualização colocou “as que mete” pra funcionar. E está funcionando muito bem, obrigado. Em menos de uma semana, o contador do plugin já ultrapassava a marca dos mil spans deletados. Número que segue cada vez maior. Continuamos de olho.

O jogo da semântica

Por Marmota | 13/10/2006, 23h07

Um dos meus ofícios é justamente zelar pelo nosso idioma enquanto transmitimos, da maneira mais clara e objetiva possível, aquilo que a sociedade (ou alguém com cacife) define como notícia. Neste blog, no entanto, não dou a menor pelota para esse cuidado. Não se trata de uma falha grotesca como escrever “axim”, ou mesmo aquela pequerrucha de sempre, como a maldita vírgula entre o sujeito e o predicado… Uma passada de olhos nos meus arquivos, no entanto, me causam algum espanto: sempre encontro algum errinho ortográfico ou gramatical perdido.

Eu já tive uma namorada que ficou extremamente magoada comigo pelo simples fato de corrigir, na frente dela, um cartão romântico entregue naquele instante. Na época, pensava que “não podia deixar passar alguém escrever sossego com C”. Desde que a perdi, nunca mais corrigi ninguém fora do círculo profissional.

Ao mesmo tempo, também não me importo com quem me corrija. Vez ou outra, eu ainda posso contar com uma entidade anônima, sem fins lucrativos, que indica minhas pisadas na jaca. Mensagens anônimas chegam à minha caixa postal assinadas apenas como RESB, que presumo ser revisor(a,s) especial(is) secreto(a,s) do blog. RESB é uma boa sigla, melhor que RESMMM, que apesar de focar ainda mais o objetivo, fica parecendo um ruído amordaçado. E eu adoro a RESB.

Mas enfim. Um dos meus pecados favoritos é o maldito acento grave. A regrinha boba da crase é bem simples, mas as exceções me deixam pirado. Talvez eu fosse um dos muitos ignorantes do país que votariam no “sim” sem pensar muito caso o Ministério da Educação lançasse um referendo ao estilo “você é a favor do fim da crase?”. Mas talvez eu pensasse melhor e me filiasse ao “partido” do escritor Ferreira Gullar, autor da célebre frase: “a crase não foi feita para humilhar ninguém”.

O mesmo Ferreira Gullar escreveu sobre na Folha de S. Paulo há um ano. Duas vezes. Na primeira, criou um mal entendido e recebeu muitas críticas, ao fazer sua defesa (correta) sobre o bom uso da gramática em detrimento ao vale-tudo-desde-que-se-entenda. Na segunda, fez questão de responder aos críticos, ressaltando seu ponto de vista – que é bem parecido com o meu. Temos problemas estruturais de educação, e é preciso manter o bom senso, sem neuroses. Mas para resolvê-los, a solução é usar os livros, e não rasgá-los.

Gostaria de esclarecer ao leitor que, quando aqui publiquei a crônica “Alguém fala errado?”, não pretendi me arvorar em defensor radical do purismo lingüístico, que não sou, primeiro porque, em matéria literária, estou mais para os poemas sujos do que para os limpos e, depois, por não ter mesmo competência para isso. Respeito os filólogos, os lingüistas e os gramáticos; embora nem sempre concorde com eles, estou convencido do papel importante que desempenham no conhecimento e preservação de valores fundamentais de nosso universo cultural, de que a língua é uma das vigas mestras.

Também falo errado, também escrevo errado, mas fiquem certos de que faço um grande esforço para, sem arrogância, falar e escrever o menos errado possível. Incomoda-me, por isso mesmo, o desmazelo no uso da nossa língua como também a complacência com esses erros. Decididamente, não aceito que se dê como certo escrever nos jornais e falar na televisão coisas como “as milhões de pessoas” ou “um dos que fez”. Causa-me certo mal-estar o uso pedante de expressões como “isso não significa dizer”, quando todos falamos em nossas conversas e a cada momento “isso não quer dizer”. Sei que o mundo não vai acabar se muita gente teimar em cometer tais atentados à boa maneira de usar o idioma, mas tenho também o direito de manifestar meu desagrado. Se criticamos os erros dos governantes, dos deputados, dos juízes de futebol, que desrespeitam a ética, por que não podemos criticar os erros -ainda que muitíssimo menos graves- de escritores, locutores, jornalistas, advogados, economistas, que desrespeitam a gramática?

Tampouco me tenho como um feroz inimigo do uso de palavras e expressões estrangeiras, quando impostas por necessidades da própria vida, em razão do surgimento de novas tecnologias ou novos hábitos. E também sei que certas expressões, depois de nos irritarem por algum tempo, desaparecem tão de repente quanto apareceram. Lembram-se da expressão “a nível de”? Não sei por que cargas d’água se começou a usar essa expressão espanhola para tudo e da maneira mais arbitrária, como, por exemplo, “a nível de carros de corrida” ou “a nível de poluição” ou, num programa de culinária na televisão, “a nível de carne-seca com abóbora, o melhor tempero é…”

Devo admitir que os lingüistas têm razão quando adotam uma visão aberta com respeito às normas lingüísticas e gramaticais, compreendendo que o idioma é um organismo vivo, em permanente mutação. Pode ser que ainda reste em mim um pouco da convicção do menino que, por ter tirado 9,5 e não 10, na redação sobre o Dia do Trabalho, devido a dois erros de português na dissertação, decidiu estudar gramática dia e noite, já que sonhava ser escritor e escritor não pode escrever errado… Nisso consumi uns dois anos, sem ler outra coisa. Muito aprendi na “Gramática Expositiva”, de Eduardo Carlos Pereira, na “Gramática da Língua Portuguesa”, de Carlos Góis, e em “Através do Dicionário e da Gramática”, de Mário Barreto… Já não me lembro de nada do que li porque, como já disse aqui, uma de minhas características é esquecer quase tudo o que leio, pois, ao que parece, certas coisas não me ficam na mente, mas talvez disseminadas na pele ou nos cabelos.

Estou convencido de que a gente inventa a fala a cada momento, a cada pergunta que nos fazem ou idéia que queremos comunicar. Algumas expressões estão prontas, são lugares-comuns, mas é fato também que optamos em usá-las ou não no momento mesmo de falar. Em sua maioria, as frases que emitimos as inventamos na hora. Se alguém me pergunta se quero ir ao cinema e a resposta é negativa, tanto poderei dizer “Não, não vou”, ou “Não quero” ou “Hoje não dá” ou… Agora mesmo, ao escrever esta crônica, não sabia de antemão que forma tomaria esta frase que escrevo -ou invento- neste instante mesmo. De fato, escrever, falar é improviso.

A referida crônica aqui publicada foi mais um desabafo, sem a pretensão de ensinar o bom português a ninguém, muito menos aos estudiosos da língua. A mim também desagrada o excesso de imposição, de regras, e mais ainda a pretensão dos que se consideram mestres da língua. Não por acaso, sou o autor daquele aforismo que diz “a crase não foi feita para humilhar ninguém” e daquele outro -que vale aqui como autocrítica-, “quem tem frase de vidro não joga crase na frase do vizinho”.

Tampouco desejo para mim o papel dos que acham que nada há de novo sob o sol e que tudo o que foge a seu conhecimento não é mais que ilusória novidade. Não, não sou como o dr. Fontes, escritor da Província, advogado e poeta parnasiano, que, após ouvir a conferência de um intelectual do Rio sobre a semântica como instrumento de crítica literária -e sem entender patavina do assunto-, pediu a palavra e falou: “Que me desculpe o ilustre professor, mas o que acaba de nos dizer não é nenhuma novidade. Como já dizia Olavo Bilac, “pois só quem ama pode ter ouvido…’”. E começou ondular os braços no ar. “Olha o jogo da semântica!… “capaz de ouvir e de entender estrelas”…” Olha o jogo da semântica!

Temos todo o tempo do mundo

Por Marmota | 11/10/2006, 13h55

Em dez anos, minha vida mudou muito – era muito gostoso ter dezenove anos. Em 1996, experimentava a difícil tarefa de tocar uma vida dupla: técnico em eletrotécnica e funcionário de um laboratório de calibrações elétricas de dia, aluno do primeiro ano de jornalismo à noite. Já tinha me enturmado com o pessoal do fundão, mas mesmo à vontade, ainda alimentava dúvidas sobre meu futuro – ser um oscilante profissional de humanas ou permanecer na estabilidade de exatas.

Foi no dia 12 de outubro daquele ano, um sábado, que saí com o Marmoturbo pela primeira vez sozinho, ainda que já tivesse habilitação desde fevereiro. Um dia antes, na sexta-feira, o assunto tanto no laboratório quanto na faculdade era um só. Tema que, só para contrariar a juventude dos anos 80 e 90, não era dos meus preferidos.

Esse não é o Renato
Russo, mas sim seu
clone Adilson Fuzo!

Para ser mais claro: eu não era fã de Legião Urbana. Admirava a banda, sabia da sua influência na musica brasileira e conhecia muitos amigos que idolatravam Renato Russo… Mas eu nunca me entusiasmei. Pelo contrário: quando a banda lançou “As Quatro Estações”, minha vizinha tocava “Pais e Filhos” umas dez vezes por dia, e aquilo me irritava profundamente.

Então, em setembro de 96, veio A Tempestade, talvez a coisa mais melancólica que a Legião Urbana criou em seus quase quinze anos de existência. Era aquela coisa meio “não se preocupe, você vai morrer, não precisa dizer nada, nem chorar quando eu for embora”… Alguns dias depois desse lançamento, em 11 de outubro, Renato Manfredini Júnior deixou seus fas órfãos. Durante todo o dia, as rádios paulistanas tocaram muitas vezes o triste hit “A Via Láctea”.

O mais impressionante é que não parecem dez anos desde aquela sexta-feira – e não digo isso apenas pelos sete discos póstumos, cinco da Legião e dois de Renato Russo. Mesmo quem atravessa a adolescência hoje venera “a melhor banda de todos os tempos” como se o compositor estivesse ainda mais vivo. É inegável que as letras permanecem atuais, sejam elas retratos dos nossos sentimentos ou dos males enraizados em nosso país.

Não sou a pessoa certa para escrever sobre a perda desse poeta talentoso, intenso e revolucionário, cuja mensagem e atitude ainda inspiram o Brasil. Talvez eu devesse abrir espaço para o Lello ou qualquer outro cuja vida tenha sido influenciada por ele. Ou que ainda influencie. Afinal, temos nosso próprio tempo… O que foi escondido é o que se escondeu, o que foi prometido, ninguem prometeu, nem foi tempo perdido.

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