segunda-feira, 25 de setembro de 2006

A misteriosa ética do “famarismo”

Um dos personagens mais inesquecíveis daquela viagem para a Alemanha que fiz há quase um ano era um dos cinco companheiros africanos lusoparlantes. Certamente a figura mais curiosa que já vi em toda a minha vida. Não vou julgá-lo agora, da mesma forma que não o fiz enquanto convivemos lado a lado. Até porque, seu país luta desde 1999 pela democratização, depois de uma longa e desgastante guerra civil. Aliás, dentro de seu ramo de atividade, recebeu o prêmio de melhor profissional de comunicação em 2004, concedido pela federação de futebol desta nação da costa ocidental africana.

Nas primeiras horas ao seu lado, não vi nada de errado com ele. Era um tipo físico diferente, magro, baixo – seu perfil lembra o do ET, o Extraterrestre, de Spielberg. Durante nossa primeira atividade em grupo, conversamos tranquilamente. Inclusive mostrou-se interessado em saber mais sobre o problema envolvendo a arbitragem no Brasil – uma prova de que o escândalo do Edílson e do Danelon cruzou o oceano e foi longe. Mas antes, a turma havia chamado sua atenção: o outono em Bonn não era dos mais quentes, e ele certamente ficaria com frio. Como ele não tinha nenhum agasalho extra, fiz questão de emprestar uma blusa que tinha levado a mais.

Poucos dias se passaram até que nosso amigo cometeu seu primeiro deslize. Quando parte do grupo chegou ao hotel, encontrou o recepcionista desesperado, tentando se comunicar em alemão ou inglês com o estranho hóspede, sem sucesso. Aliviado, o simpático atendente explicou que estava cobrando por algumas chamadas telefônicas feitas no quarto. “Mas eu não liguei, eu não liguei”, repetia, furioso, o nosso personagem. Alguém percebeu que as ligações eram todas para o celular de um dos nossos guias. “Ah, mas ele disse que eu podia ligar para ele, ele disse que podia”… Resumidamente, ele não tinha culpa. Era como se o problema fosse o telefone.

Na mesma semana, nosso amigo decidiu retornar do curso acompanhado – provavelmente para ter certeza de que chegaria bem ao hotel. Naquela tarde, por um descuido, pegamos o U-bahn errado. Nada preocupante: descemos na primeira (e erma) estação possível, tomamos o trem de volta e finalmente corrigimos nossa rota. No dia seguinte, as explicações.

- Pessoal, perdi-me outra vez.
- Mas o pá, tens que ter cuidado.
- Mas não fui eu, foram eles… Fala inglês, tinha o mapa…

“Fala inglês e tinha o mapa” foi uma espécie de mantra repetido exaustivamente por toda a turma, sempre às gargalhadas. Mas nem sempre conseguíamos nos divertir com seu estranho comportamento: logo outras atitudes estranhas viraram motivo de fofoca entre os colegas. “André, sabia que ele encomendou um aparelho de MD portátil daquela oferta em Colônia? Pois é, e reparou ainda que ele não tirou a sua blusa o tempo todo?”. Traduzindo: como é que alguém vindo de uma nação sabidamente problemática economicamente comprava um MD mas não um agasalho?

Ficou muito clara a mudança de postura: a figura comunicativa e interessada do primeiro dia foi se transformando, sabe-se lá por que motivo. Pode ter sentido a hostilidade ou os comentários dos colegas, ou espertamente pode ter se passado por vítima, esperando algum apoio ou ajuda. O fato é que ele não comprou eletrônico nenhum, e assim que ganhou uma sacola de roupas de um dos funcionários da Deutsche Welle, ele devolveu a minha blusa. Lavada.

Mas ele continuou, até o último dia, negando toda a responsabilidade por qualquer ato praticado, culpando sempre os outros ou mesmo objetos inanimados. Nunca era ele. Seu semblante, porém, não transmitia nenhuma indicação de maldade, ingenuidade, burrice… Não dava pra saber as razões que o deixavam assim. Um dos colegas africanos, diante desse sintoma pouco comum, usou o primeiro nome do nosso amigo para criar uma nova palavra, de origem puramente afro-germano-portuguesa: “famarismo”. Substantivo masculino, identifica quem comete ações, mas não se responsabiliza por elas por razões desconhecidas.

A primeira notícia que tive do homem que inspirou o “famarismo” quando saí da Alemanha foi a de que ele deixou Bonn e foi para Lisboa. Dizem, na maldade, fugindo de alguma coisa. Como diria Dona Milu, usar do “famarismo” em detrimento a uma postura transparente e que não deixe dúvidas, é um grande mistério. E isso vale tanto para um humilde profissional da África quanto para um Presidente da República de um país sul-americano.

Esse texto aproveita o gancho da última semana antes da grande festa da democracia, além da sugestão interessante da Laura, do blog Caminhar, que propôs uma blogagem coletiva sobre ética.

Mas não me peçam para falar muito mais sobre política. Tenho evidentemente as minhas opiniões, uma enquete bobinha (sem pretensão de virar pesquisa eleitoral), muitas restrições ao partido do atual presidente e ao sistema de votos proporcionais para escolha do legislativo. Mas elas só valem para discussões acaloradas com pessoas de esquerda ou direita. Não nego a sua importância, mas a escolha dos nossos representantes ainda não é feita baseada nos decibéis dos aplausos ou dos gritos.

Quer debater e defender seu ponto de vista com unhas e dentes? Muito legal. Quer votar usando um nariz de palhaço e rir para não chorar? Legal também. Quer me convidar? Bacana, mas só se for para assistir.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

A misteriosa ética do “famarismo”

Um dos personagens mais inesquecíveis daquela viagem para a Alemanha que fiz há quase um ano era um dos cinco companheiros africanos lusoparlantes. Certamente a figura mais curiosa que já vi em toda a minha vida. Não vou julgá-lo agora, da mesma forma que não o fiz enquanto convivemos lado a lado. Até porque, seu país luta desde 1999 pela democratização, depois de uma longa e desgastante guerra civil. Aliás, dentro de seu ramo de atividade, recebeu o prêmio de melhor profissional de comunicação em 2004, concedido pela federação de futebol desta nação da costa ocidental africana.

Nas primeiras horas ao seu lado, não vi nada de errado com ele. Era um tipo físico diferente, magro, baixo – seu perfil lembra o do ET, o Extraterrestre, de Spielberg. Durante nossa primeira atividade em grupo, conversamos tranquilamente. Inclusive mostrou-se interessado em saber mais sobre o problema envolvendo a arbitragem no Brasil – uma prova de que o escândalo do Edílson e do Danelon cruzou o oceano e foi longe. Mas antes, a turma havia chamado sua atenção: o outono em Bonn não era dos mais quentes, e ele certamente ficaria com frio. Como ele não tinha nenhum agasalho extra, fiz questão de emprestar uma blusa que tinha levado a mais.

Poucos dias se passaram até que nosso amigo cometeu seu primeiro deslize. Quando parte do grupo chegou ao hotel, encontrou o recepcionista desesperado, tentando se comunicar em alemão ou inglês com o estranho hóspede, sem sucesso. Aliviado, o simpático atendente explicou que estava cobrando por algumas chamadas telefônicas feitas no quarto. “Mas eu não liguei, eu não liguei”, repetia, furioso, o nosso personagem. Alguém percebeu que as ligações eram todas para o celular de um dos nossos guias. “Ah, mas ele disse que eu podia ligar para ele, ele disse que podia”… Resumidamente, ele não tinha culpa. Era como se o problema fosse o telefone.

Na mesma semana, nosso amigo decidiu retornar do curso acompanhado – provavelmente para ter certeza de que chegaria bem ao hotel. Naquela tarde, por um descuido, pegamos o U-bahn errado. Nada preocupante: descemos na primeira (e erma) estação possível, tomamos o trem de volta e finalmente corrigimos nossa rota. No dia seguinte, as explicações.

- Pessoal, perdi-me outra vez.
- Mas o pá, tens que ter cuidado.
- Mas não fui eu, foram eles… Fala inglês, tinha o mapa…

“Fala inglês e tinha o mapa” foi uma espécie de mantra repetido exaustivamente por toda a turma, sempre às gargalhadas. Mas nem sempre conseguíamos nos divertir com seu estranho comportamento: logo outras atitudes estranhas viraram motivo de fofoca entre os colegas. “André, sabia que ele encomendou um aparelho de MD portátil daquela oferta em Colônia? Pois é, e reparou ainda que ele não tirou a sua blusa o tempo todo?”. Traduzindo: como é que alguém vindo de uma nação sabidamente problemática economicamente comprava um MD mas não um agasalho?

Ficou muito clara a mudança de postura: a figura comunicativa e interessada do primeiro dia foi se transformando, sabe-se lá por que motivo. Pode ter sentido a hostilidade ou os comentários dos colegas, ou espertamente pode ter se passado por vítima, esperando algum apoio ou ajuda. O fato é que ele não comprou eletrônico nenhum, e assim que ganhou uma sacola de roupas de um dos funcionários da Deutsche Welle, ele devolveu a minha blusa. Lavada.

Mas ele continuou, até o último dia, negando toda a responsabilidade por qualquer ato praticado, culpando sempre os outros ou mesmo objetos inanimados. Nunca era ele. Seu semblante, porém, não transmitia nenhuma indicação de maldade, ingenuidade, burrice… Não dava pra saber as razões que o deixavam assim. Um dos colegas africanos, diante desse sintoma pouco comum, usou o primeiro nome do nosso amigo para criar uma nova palavra, de origem puramente afro-germano-portuguesa: “famarismo”. Substantivo masculino, identifica quem comete ações, mas não se responsabiliza por elas por razões desconhecidas.

A primeira notícia que tive do homem que inspirou o “famarismo” quando saí da Alemanha foi a de que ele deixou Bonn e foi para Lisboa. Dizem, na maldade, fugindo de alguma coisa. Como diria Dona Milu, usar do “famarismo” em detrimento a uma postura transparente e que não deixe dúvidas, é um grande mistério. E isso vale tanto para um humilde profissional da África quanto para um Presidente da República de um país sul-americano.

Esse texto aproveita o gancho da última semana antes da grande festa da democracia, além da sugestão interessante da Laura, do blog Caminhar, que propôs uma blogagem coletiva sobre ética.

Mas não me peçam para falar muito mais sobre política. Tenho evidentemente as minhas opiniões, uma enquete bobinha (sem pretensão de virar pesquisa eleitoral), muitas restrições ao partido do atual presidente e ao sistema de votos proporcionais para escolha do legislativo. Mas elas só valem para discussões acaloradas com pessoas de esquerda ou direita. Não nego a sua importância, mas a escolha dos nossos representantes ainda não é feita baseada nos decibéis dos aplausos ou dos gritos.

Quer debater e defender seu ponto de vista com unhas e dentes? Muito legal. Quer votar usando um nariz de palhaço e rir para não chorar? Legal também. Quer me convidar? Bacana, mas só se for para assistir.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Essa não! Italiana vende seu corpo em busca de emprego!!!

Pelas barbas do Flávio Prada! Notícia veiculada nesta sexta-feira no diário italiano La Repubblica, traduzida para o português pela Agência EFE, conta a história de Sara Ferretti, uma romana de 30 anos. Em uma atitude desesperada, segundo suas palavras, ela decidiu abrir um blog para fazer sua proposta.

Em italiano: “alla persona che mi offrirà un contratto reale, a tempo indeterminato con uno stipendio minimo di milleduecento euro, concederò una e soltanto una notte di sesso”. É, você entendeu bem. A autora do blog intitulado “Saradisperata” está disposta a se vender por uma noite (só uma) a um patrão que ofereça um contrato de verdade, com salário de 1.200 euros mensais. Logo nas primeiras linhas, ela diz que dá conta do recado, seja qual for o serviço: “senza falsa modestia posso tranquillamente affermare che riesco bene in ogni cosa che faccio”.

A história que a moça conta na introdução é interessante. Desde que começou a trabalhar, há dez anos, Sara não consegue construir uma carreira. Pelo contrário: sua experiência profissional está repleta de contratos curtos, temporários e inseguros. Ela vai mais longe, fazendo uma crítica dura ao sistema: “migliaia di ragazzi italiani sono nella mia stessa situazione e non c’è nessuno, nè governo nè sindacati, nè destra nè sinistra, che stia muovendo un dito per rimediare a questo scandalo”.

Não é muito diferente de um certo país tropical do outro lado do Atlântico. Mas até onde se sabe, sem levar em conta a prática disseminada do teste do sofá, é um caso raro de alguém que, segundo suas palavras, não pensa na fama, mas sim em um futuro promissor. Enfim, seguindo a tendência universal, sacanagem dá ibope: em uma semana, foram mais de 250 mil visitantes e, nesse único post, mais de três mil comentários. Entre todos os desesperados por um trabalho desse planeta, ao menos ela conseguiu chamar a atenção.

Sara diz que não pretende responder qualquer comentário: limita-se a dizer que já recebeu sim todo tipo de coisa. De propostas reais, inclusive de empresas ligadas ao Vaticano (desde que, evidentemente, Sara feche seu blog), até críticas a sua postura, especialmente daqueles que não possuem qualquer virtude e precisam batalhar no mercado de trabalho usando vias, hmmm, normais. Um dos visitantes declarou ter ficado impressionado com a história, e mostrou interesse em conhecê-la para trocar experiências sobre o tema. Sobre emprego, obviamente.

Inevitavelmente, meu primeiro pensamento diante da notícia foi um pouco machista: “se eu fizesse algo assim, não teria a menor chance de conseguir trabalho”. Ainda que o mundo tenha mudado muito, realmente, não chegaria proposta alguma no meu e-mail.

Com um nível maior de aprofundamento, lembramos do que Mestre Mauro Amaral diz aos seus discípulos: o futuro do emprego é o trabalho freelancer, e que o mercado de trabalho é uma selva devoradora de gente despreparada. Será mesmo que, com toda experiência e qualificação que dispomos, vamos precisar dar aquele algo mais para subir na vida?

Próxima página »

2002 - 2010 • Sob licença Creative Commons • Usando adaptação do tema Swiss Cool no bom e velho Wordpress