Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: agosto/2006

Vamos manter a tradição do BlogDay

Por Marmota | 31/08/2006, 19h20

Ano passado questionei aqui a proposta interessante, porém ainda incipiente, sobre um tal dia internacional do blog. Até então existiam apenas boas idéias, mas nenhuma delas com alguma continuidade, algo que se pudesse dizer “opa, então combinamos assim, esse será o dia e todo ano vamos fazer o mesmo ritual”.

E não é que o BlogDay do dia 31 de agosto se popularizou de fato? Ano passado, quando começou, mais de 400 blogs citaram a brincadeira, segundo o Technorati. O dia ainda não acabou, mas sem muito esforço o site já contabilizou mais de 300 citações – número que vai subir sem sombra de dúvidas.

A proposta do BlogDay é eficiente, e as regras são simples, qualquer um pode fazer. Liste cinco blogs que você ache interessantes, preferencialmente algum que poucos conheçam, e escreva uma pequena descrição, além do link, recomendando-os exatamente nesta quinta-feira, 31 de agosto. Sem esquecer da tag do BlogDay (http://technorati.com/tag/BlogDay2006) e um link para o site do BlogDay (http://www.blogday.org).

Sem mais delongas, segue portanto os meus cinco blogs para a brincadeira.

Ponto Jol – Esse é bem específico para o meio jornalístico, como muitos outros que seguem a mesma linha, o Intermezzo ou o e-periodistas. Mas a referência é necessária, já que o Ponto Jol, blog coletivo de profissionais do ofício, é uma área do site Jornalistas da Web, um compêndio de informações indispensáveis editado pelo Mario Lima Cavalcanti. A lista de discussões do JW também é bastante rica – a não ser quando os novatos pedem informações elementares já citadas nos arquivos ou os veteranos debatem acaloradamente sobre a necessidade do diploma.

Brainstorm #9 – Se você trabalha com publicidade ou gosta do tema, já ouviu falar nesse blog do Carlos Merigo. Todos os profissionais da área que conhecem o site batem ponto no Brainstorm diariamente. Eu só o descobri recentemente, por isso essa citação vai soar como um “olha, gente, descobri um tal de UOL hoje, é muito legal, vai lá ver”. Mas enfim.

Guloseima – Vocês que me conhecem há mais tempo já ouviram falar da Lu. A Lu é uma amigona. Foi comigo pra Europa. Sempre me deu bons conselhos de ordem pessoal e profissional. Agora a Lu está passando por uma excelente mudança profissional, que se Deus quiser, será um grande sucesso. Ao mesmo tempo, dedica seu tempo livre a uma antiga paixão: gastronomia. Há alguns anos, sugeri a ela o nome jacomipontocom. Evidentemente, ela detestou. Guloseima, sem dúvida, é tudo. Aliás, Lu, preciso te entregar a sua caixa de alfajores Havanna que trouxe de BsAs pra você.

Jorge Letralia – Vou dizer aqui algo que vai deixar muita gente estarrecida: não sou um escritor, nem tenho pretensão de ser escritor. Consequentemente, não me interesso tanto assim por literatura, poesia, grandes clássicos, etc. Sou, assumidamente, um ignorante cultural, mas que vez ou outra repassa um ou outro tema relevante para não fazer feio com os amigos mais cultos e inteligentes – a ponto de me passar por gênio das letras em alguns lares mais distantes. Numa dessas procuras casuais, encontrei o site Letralia.com, voltado a literatura hispano-americana, e por tabela, o blog do venezuelano Jorge Gomez Jimenez. Lá, ele fala até de literatura. Bem legal.

Palegre – Se não citei aqui ainda, a hora é essa: uma das idéias mais batutas que encontrei esse ano foi o Sampaist, um blog voltado para a capital paulista e tudo que acontece nela. Quando tive a chance de conhecer uma das responsáveis pelo conteúdo, a Renata Honorato, falei tudo isso e mais um pouco. Enfim, conheço apenas mais duas propostas semelhantes: uma carioca e uma daquela outra cidade maravilhosa, que um dia ainda hei de morar…

Adendo 1: Obrigado, Rodrigo, pela referência!

Adendo 2: Minhas férias ainda não acabaram oficialmente, mas já estou novamente em casa, preparando meu lado psicológico para o que vem pela frente. Com isso, meu lado anti-social acabou: já podem me convidar novamente para os programas de sempre.

Sozinho em Buenos Aires

Por Marmota | 20/08/2006, 16h30

Buenos Aires (Argentina) – Qualquer viagem de férias, independente de destino ou acompanhantes, tem um bom número de vantagens e desvantagens – você deve ter uma ou outra lembrança positiva ou catastrófica. Mas enfim. Quando decidi passar um fim de semana em Buenos Aires para rever paisagens conhecidas e explorar lugares pela primeira vez, não imaginava que faria isso sozinho.

Convidei os amigos de sempre para virem comigo, mas como diria Renato Russo, estão todos sem dinheiro ou procurando emprego. Ainda tenho dois conhecidos na capital argentina, mas os dois decidiram viajar justamente agora, por causa do feriado nacional – para lembrar a morte do General San Martin, que foi num dia 17 de agosto, nuestros hermanos transferem “enforcamento” para a segunda-feira. Por fim, um casal de amigos tinha passagem e hospedagem garantida, mas um problema de última hora manteve a dupla em São Paulo.

Resultado: assim como em Porto Alegre, onde passei a maior parte do tempo “desencontrando” parentes e amigos, só me restou aproveitar Buenos Aires sem ter ninguém para compartilhar aquelas impressões bobas e momentâneas, que não cabem num blog. Por um lado é muito bom: ninguém faz perguntas sobre como vai a vida, o trabalho, o coração, essas coisas que você fez questão de deixar em casa.

Ao mesmo tempo, quando estou sozinho numa cidade diferente, meu meio de transporte preferido são meus pés. Chego a caminhar umas quatro, cinco horas por dia, em verdadeiras maratonas – na sexta fiz Obelisco – Corrientes – Puerto Madero – La Boca e neste sábado Retiro – Tigre (de trem) – Retiro – Santa Fé – Obelisco – Lavalle – Florida (aliás, Tigre merece um outro post). Neste domingo, decidi trocar a tradicional feira de San Telmo por Palermo. Os pobres, mas heróicos sapatos, estão aguentando firme, por enquanto. Mas tenho certeza de que poucos aguentariam o ritmo comigo.

Por outro lado, algumas coisas não funcionam sozinho – ao menos para mim. Balada, por exemplo. Não tenho a menor vontade de passar a noite num lugar agitado da Recoleta, porque sei perfeitamente quais são as minhas limitações interpessoais. Também não tive coragem de assistir a um dos dois jogos programados pela terceira rodada do Torneo Apertura: Boca x Independiente, em La Bombonera, e Racing x River, em Avellaneda. Assim, só me resta o cinema – o que deu um gás e tanto na minha lista de filmes assistidos em 2006: em uma semana, foram cinco vezes.

Enfim, escolher o programa, a hora de comer, o que comprar, onde passear… Pagar micos em portunhol, se perder em alguma bocada após um descuido com o mapa… Trocar a parrilla, o McDonalds ou o Café Havanna por três ou quatro guloseimas do Supermercado Coto… Enfim, economizar 40 pesos num táxi e encarar a linha 86 de ônibus comum por $1,35, que leva uma hora e cacetada entre Ezeiza e o centro de Buenos Aires, mas passando por lugares estranhos e encarando gente esquisita… São coisas que não têm preço.

Mas se eu pudesse escolher, faria tudo diferente, mas com alguém do meu lado.

Antes de seguir minha viagem, um lembrete: quando quiser passar bons momentos com os amigos ou mesmo impressionar a namorada, leve-os para Buenos Aires. Os vôos são baratos, assim como os hotéis da cidade. Em um final de semana, é possível conhecer muita coisa, fazer boas compras e se divertir até altas horas da madrugada. Vale cada centavo investido, e certamente vai te deixar com vontade de voltar outras vezes.

Não, não estive no Beira-Rio

Por Marmota | 17/08/2006, 02h34

Porto Alegre (RS) – Terça-feira, pouco depois das dez da manhã. Apesar do bom número de vendedores nas ruas oferecendo camisas, fitas e bandeiras, a cidade ainda não respirava completamente a finalíssima da Libertadores. A verdade é que, desde que São Paulo e Internacional conquistaram o direito de fazer a festa, Porto Alegre manteve sua rotineira bipolaridade. “Sou paulista desde criancinha”, disse um taxista, surpreso quando eu disse que torceria para o Inter. “Mas bah, tu vem de São Paulo e vai torcer pro Colorado?”. Pois é.

Além da fila de sócios do clube gaúcho, que tinham ingresso garantido para a partida, uns cinco ou seis cambistas davam o ar de sua graça nos arredores da Avenida Padre Cacique. Meu sotaque paulistanês não ajuda em nada nessas horas: mesmo que eu force, nunca vou dizer “pilas” (sinônimo de “reais”) do mesmo jeito. O primeiro ofereceu quinhentos pilas por um ingresso. Outro fez um preço melhor: trezentos pilas.

“Eu vendi dois ingressos por dois mil”, comemorou um simpático vendedor de bandeiras. “Fiquei o dia todo na fila e paguei cento e cinqüenta pilas. Agora estou sem, mas o cara era rico, tinha que vender”, concluiu, enquanto tentava me oferecer seu produto, a partir de oitenta pilas. A maioria delas já profetizava: Campeão da América de 2006. “Obrigado, mas isso dá azar”, respondi.

Vontade de assistir ao jogo in loco, no estádio, era realmente um sonho. Mas eu não era o único. Quarenta mil sócios tinham os seus passes para a grande noite garantidos. Membros das torcidas organizadas também tinham – mas ao contrário das partidas anteriores, desta vez a diretoria colorada cedeu a quantidade exata de entradas. Os outros dois mil e poucos seriam vendidos nas bilheterias, que viram as filas começarem na quinta-feira. Tamanha ansiedade obrigou a venda antecipada no sábado, quando os ingressos já estavam esgotados.

A bem da verdade, quando desembarquei na cidade, as chances de entrar no estádio como um torcedor comum era muito pequena. Poderia ter aproveitado um momento de oração na Igreja de Nossa Senhora das Dores para, quem sabe, pedir uma força aos céus. Preferi o de sempre: agradecer a Deus por essas coisas todas. A Libertadores, no entanto, continuava na minha cabeça.

Terça-feira à tarde, por volta das dezoito horas. Os cambistas ainda estavam lá, mas diante do treino aberto à imprensa, muitos torcedores e as tradicionais marias-chuteira – que nem precisavam entrar no jogo, bastava enxergar um dos “liiindos” jogadores do Inter. O clima de decisão estava se instalando definitivamente, e não sairia mais da cidade.

A quarta-feira amanheceu chuvosa, e o dia permaneceu com a temperatura sempre em torno dos dez graus. Logo nas primeiras horas do dia, os primeiros colorados foram para a fila dos portões. Eu só decidi circular pelos arredores por volta das quatro da tarde. A partir do shopping Praia de Belas, tradicional ponto de encontro da torcida, infestado de gente vestindo a camisa vermelha.

No caminho para o Beira-Rio, garoa, barro, trânsito, muitos torcedores… Policiais (aqui chamados “brigadianos”), fiscais da prefeitura, vendedores de bebidas, rádios, faixas, mais fitas, mais bandeiras… E mais ingressos, alguns chegando aos mil reais. “Nunca vi esse lugar tão cheio”, conclui, por volta das seis e meia da tarde. A essa altura, os portões, que abririam às seis, permaneciam fechados. Com o coração partido e a roupa molhada de chuva, desisti oficialmente do estádio.

Só me restava algum bar bacana, com a torcida reunida. A sugestão foi o bar Cavanhas, na Lima e Silva, cidade baixa, tradicional reduto da torcida colorada. E o bar estava lotado de gente bonita, alegre e vibrante. Guardadas as devidas proporções, era como se estivéssemos nas arquibancadas. Destaque especial para os gritos de “fumaça, fumaça”. Realmente, a fumaceira provocada pelos sinalizadores foi decisiva: graças a ela, Clemer arrumou uma boa desculpa diante do seu primeiro erro no jogo.

O segundo erro veio no final do jogo, bem depois de Fernandão ter aproveitado a sobra no primeiro tempo, Fabão (Fabão!!!) ter empatado já na etapa complementar e Tinga, de cabeça, ter feito 2 a 1 para o Internacional. O camisa um colorado, que fez uma boa Libertadores, voltou a sua velha forma quase no momento errado: Lenilson fez o gol de empate por 2 a 2 num momento em que o São Paulo, praticamente com quatro atacantes, chegou para o tudo ou nada.

Felizmente deu em nada para o ainda tricampeão, e depois de alegrias e sofrimentos, quem estava no Beira-Rio, na Lima e Silva ou em qualquer lugar do Brasil torcendo pelo título inédito, finalmente comemora. A essa hora, quem está em casa em Porto Alegre ouve o som dos rojões, das buzinas e dos gritos campeões da América. Essa noite ninguém vai dormir.

Obrigado por não fumar

Por Marmota | 14/08/2006, 14h14

Porto Alegre (RS) – Finalmente chegou a parte mais legal das minhas férias: alguns dias onde troco aquela cidade grande e odiosa por outra que, se Deus quiser, um dia ainda vou conseguir morar. Porto Alegre, aliás, viu recentemente uma história interessante: um embate curioso entre um bar tradicional da Cidade Baixa e uma estranha determinação municipal.

A lei antifumo proibiu há cerca de um mês o uso de cigarros, cachimbos, cigarrilhas e charutos, em recintos e locais de trabalho coletivo. O bar Tuim decidiu garantir a liberdade de seus clientes, além de demonstrar publicamente o que achou da medida: tascou a placa “bar exclusivo para fumantes” na porta. O quiprocó foi inevitável, mas durou pouco tempo. Não demorou para os fiscais da prefeitura limitarem a ação, trazendo apenas a palavra conscientizadora aos comerciantes. Blé.

Lembrei dessa história esses dias, quando a Renata, da agência de publicidade LiveAD, me avisou a respeito de uma inusitada ação para a Fox Filmes, justamente relacionada ao filme Obrigado por Fumar, que estréia oficialmente nesta sexta-feira. No filme, um executivo da indústria tabagista consegue convencer o mundo que o cigarro é uma coisa muito legal…

A premissa vai contra essa série de leis e campanhas antifumo em todo o planeta, e para provocar ainda mais discussão, mulheres vestidas de executivas entregaram, nos últimos finais de semana, uma nota autêntica de R$ 1 a todos os fumantes em filas de cinema de São Paulo e Porto Alegre. Todas com um adesivo do filme.

Pessoalmente, nada contra quem fuma. Desde que não seja (muito) perto de mim. :-)

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Falando em cinema, vá ver Click, especialmente sem qualquer expectativa. Dependendo do seu estado de espírito, você vai repensar sua vida ao sair da sala.

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O clima em Porto Alegre não é dos melhores (frio e uma chuva chata), e a notícia do dia é a mesma da capital paulista: a do seqüestro do jornalista Guilherme Portanova, que é gaúcho e começou sua carreira na Rádio Gaúcha e TV COM. Um negócio assustador, que abre um precedente perigosíssimo: agora, qualquer bando de criminosos pode seqüestrar jornalistas e exibir suas exigências em rede nacional. Tomara que não vire moda.

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Amigos de Porto Alegre, onde posso ver o jogo do Colorado ao lado da torcida, e ao mesmo tempo sem ingressos? A propósito, quem quiser fazer qualquer coisa nos próximos dias aqui nas redondezas, não esqueça de ler o meu aviso anterior.

Metamorfose da velha pontezinha

Por Marmota | 05/08/2006, 23h29

“É muito fácil chegar no buraco do Marmota”, comentavam meus amigos nos intervalos do colégio técnico, depois de uma daquelas longas visitas regadas a trabalhos escolares e outras atividades lúdicas em minha casa. “É só pegar o metrô, depois o ônibus, depois a barca, atravessar e desbravar a mata, dependurar-se em cipós, escalar a montanha…”. Sim, eu realmente moro longe. Mas as dificuldades para chegar aqui são cada vez menores – especialmente vindo de carro.

Nos primórdios, em 1983, quando meu pai pilotava uma BMW (Brasília meio-velha, ano 1978), o trajeto entre a civilização e o nosso lar passava obrigatoriamente pela Marginal Tietê, Avenida Assis Ribeiro, Avenida São Miguel e finalmente a barca, a mata, o cipó… Então alguém contou ao meu pai que era muito mais rápido chegar ao bairro pela novíssima Rodovia dos Trabalhadores – aquela cinco vezes menor que a Fernão Dias, mas que custou o mesmo valor, afinal, foi Maluf que fez. A ordem era entrar no quilômetro 26, onde dizia Bairro dos Pimentas, e entrar à direita, atravessando a pontezinha.

A tal pontezinha era mesmo “inha”. O acesso simples, mas providencial, cruzava o Rio Tietê e passava pelos arredores da Vila Nitro-operária, um dos maiores símbolos do bairro de São Miguel Paulista. Desde a inauguração da Companhia Nitro Química Brasileira, nos anos 30, aquele pedacinho da cidade se desenvolveu bastante, e muita gente se estabeleceu ali, construindo não apenas a região, mas sua própria história. A pontezinha, assim como boa parte das instalações da redondeza, era mantida pela Nitroquimica. Era muito estreita – cabia apenas um carro na largura – e era sustentada por postes vermelhos e cabos de aço grossos. Imagine uma Ponte Hercílio Luz em escala reduzidíssima.

A boa nova se espalhou rapidamente. Nos anos 80 e 90, atravessar a pontezinha tornava-se um suplício cada vez maior. Não apenas para os moradores da Vila Nitro-operária, que viram a simpática vizinhança se transformar na principal saída do bairro para o centro, mas também para os motoristas, que encaravam longas filas nos horários de pico. Isso nos dois sentidos: no fim da tarde, o acostamento do km 26 da Trabalhadores (atual Ayrton Senna) era o horror. A balbúrdia diminuiu quando instalaram um semáforo para controlar quem vai ou volta – sim, senhores, durante anos a passagem pela pontezinha era negociada ali mesmo, com acelerador e luzes. Evidentemente, um sinal verde ou vermelho ainda era muito pouco.

Sempre imaginei que a grande celeuma sobre “quem cuida da pontezinha” não estava na Nitroquímica, mas no poder público. Nesse trecho, o Tietê é a linha imaginária que separa São Paulo de Guarulhos. Assim, é muito fácil uma cidade atribuir a outra uma atitude para melhorar o traslado. Até que, em 1999, um prefeito de pulso firme e personalidade marcante mostrou toda sua coragem e atitude para substituir a pontezinha e construir um acesso de verdade.

Parece mentira, mas estamos falando de Celso Pitta. A nova pontezinha poderia ser propagada pelo ex-prefeito como “o verdadeiro fura-fila”, mas nem isso foi possível. O fluxo de carros era cada vez maior, e o acesso para quem vinha da Nitroquímica, do Bairro dos Pimentas ou nos dois sentidos da rodovia, incluindo um viaduto estupidamente estreito sobre a Trabalhadores, ainda é o mesmo em vinte anos.

Como todo castigo para pobre é pouco, mesmo com a nova pontezinha (batizada Senador José Ermírio de Moraes, ex-presidente da Nitroquímica), as ruas estreitas da Vila Nitro-operária ainda impediam o acesso a caminhões. Obviamente nenhum motorista ligava para isso. As zebras da boléia sequer ligavam para as barreiras de concreto e ferro, que deixavam os acessos ainda mais estreitos, apenas para veículos de passeio. Passavam por cima sem piedade.

Finalmente, no final de julho, a boa e velha pontezinha ganhou mais uma metamorfose, parceria perfeita entre Nitroquímica, prefeitura e eleições. Uma linda e larga avenida batizada de Eduardo Sabino de Oliveira, além de uma segunda ponte, duplicou a parte paulistana do acesso, permitindo não somente a passagem de caminhões, mas também o fim dos antigos comentários ao estilo “mas que bocada é essa, Deus do céu”. Dá vontade de chamar todos os amigos para virem aqui em casa e contar. “Viram como ficou legal? Se eu não contasse, jamais acreditariam que aqui tinha uma pontezinha”.

Tudo bem que, como muitas das sensacionais obras da nossa engenharia lusitana, as muitas faixas de rolamento viram apenas uma assim que se chega ao outro lado da pontezinha, passando pelo viaduto estúpido até a estrada. Mas depois de uma obra dessas, pedir para todos os meus problemas acabarem seria demais. E ainda corro o risco de ouvir um “não reclama e mude-se logo daí”.

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