Marmota, mais dos mesmos

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Arquivos: julho/2006

Berlim. Ou seria Istambul?

Por Marmota | 31/07/2006, 13h19

Se um dia você tiver a oportunidade de conhecer Berlim, essa pequena porção de terra com muita história contemporânea para contar, não esqueça dos pontos fundamentais e imperdíveis. Anote-os e localize-os na indispensável rede de transportes: Reichstag, Portão de Brandemburgo, Unter den Linden, Berliner Dom, Memorial do Holocausto, Tiergarten, Coluna da Vitória, Checkpoint Charlie, Alexanderplatz, Potsdamer Platz, East Side Gallery e as lojas da Kurfurstendamm (a popular Ku’Damm).

Com um pouco mais de tempo, porém, não esqueça de fazer um passeio diferente. Escolha uma terça ou uma sexta, acorde cedo, localize a linha 2, 7 ou 15 do U-Bahn e siga para a estação Kottbusser-Tor, em Kreuzberg. Caminhe alguns metros até encontrar a Maybachufer. De longe, você já vai encontrar uma movimentação exagerada: trata-se do Turkenmarkt, o mercado turco de Berlim.

Nos anos 60, a Alemanha vivia um momento bem diferente do atual: escassez de mão-de-obra no setor operário. A partir de um programa de trabalho para imigrantes temporários – os “Gastarbeiter”, os turcos chegaram. Era para ficar pouco tempo, mas os visitantes convidados decidiram ficar. Hoje são cerca de três milhões em todo o país. É a maior comunidade estrangeira na Alemanha, e isso não é pouco.

Em qualquer canto de Berlim, dá para perceber a influência turca no dia-a-dia dos alemães. A mais óbvia está no delicioso “döner kebab”, que lembra o nosso “churrasco grego”, mas é infinitamente melhor (o mais gostoso da cidade fica na entrada de um supermercado na Dircksenstrasse, na frente do Starbucks, em Hackescher Markt). Quem conhece um tiquinho a língua local se surpreende ao encontrar um grupo de jovens descendentes turcos no metrô, por exemplo: o dialeto deles é uma mistura de alemão, turco e algumas gírias próprias do grupo. É um outro mundo, que convive ainda com atos racistas dos nativos.

Mas enfim, tive a felicidade de conhecer o mercado turco de Berlim no dia oito de novembro, ao lado de Lello Lopes e da Natalia, esposa do Danilo (que nos deu essa imperdível indicação). Ao longe, se parece com qualquer feira livre que você já conhece. Um olhar mais atento traz cores, cheiros e gente diferente de tudo que já se viu. Tem frutas e verduras (algumas incomuns), carnes, queijos, vinhos, armarinhos, artesanatos, roupas, acessórios… Tudo muito barato, se comparado com qualquer loja da cidade – a tradicional pechincha turca também é produto de exportação.

O mercado é turco, mas os alemães já se sentem bem naquela “pequena Istambul”. Mas tem mais: comprei uma bolsa exótica artesanal de um italiano – que ainda arranhava um espanhol bem compreensível. Tive a brilhante idéia de comprar duas bandejas de plástico com motivos natalinos – no impulso do momento, sequer lembrava que passaria o dia inteiro (e o resto da viagem) carregando aquela coisa. Mas tava muito barato.

Entre outubro e novembro do ano passado, foram duas passagens por Berlim. Na primeira, ao lado dos amigos da Deutsche Welle, nossa concentração era num hotel bem bacana na Meinekestrasse, travessa da Ku’Damm, mesma rua do Hard Rock Café. Tive a impressão que o centro magnético daquela cidade ficava mesmo nos arredores da estação Zoologicher Garten, a mais importante da cidade – até a inauguração da Hauptbanhof esses dias, bem perto do Reichstag.

Naquela ocasião, o passeio mais marcante da turma foi em Gesunbrunnen, em uma das instalações da associação Berliner Underwelten, responsável pelos subterrâneos da cidade (inclusive os bunkers). Isso foi antes da associação descobrir a localização exata do bunker nazista – aquele do filme A Queda. Mas o de Gesunbrunnen lembra muito o do filme, que, diga-se, teve apoio histórico dessa associação.

Na noite mais inusitada, ao lado do Patrick e da Regina, tive meu primeiro contato com Kreuzberg – mas ao contrário da movimentação turca durante o dia, o bairro traz elementos boêmios, com bares muito simpáticos. Antes de terminar a noite num bar com motivos mexicanos, tivemos um encontro inusitado com um casal – com seu alemão fluente, Regina só soube que a moça era brasileira quando disse a ela de onde éramos…

Duas semanas depois, tive a felicidade de compartilhar mais momentos bacanas ao lado do trio Lello, Danilo e Natalia. Caminhamos bastante, mas paramos um bocado também: na frente da Universidade Humboldt, um monumento curioso lembra a queima de livros de Hitler, em 1933 (retratado em Indiana Jones e A Última Cruzada). Hoje, no lugar da fogueira, uma tampa de vidro e, lá embaixo, estantes vazias. Não precisa mais nada.

A diversão que se repetiu por dois dias foi a Winterwelt, feira temática de inverno que ocupava parte da Potsdamerplatz no inverno – com direito a um tobogã de gelo inofensivo, até eu fui.

Na última noite, tinha que rolar um jantar especial. A escolha foi um restaurante indiano muito bacana na Oranienburgerstrasse (também perto do Hackescher Markt), onde aliás não faltam sugestões para comer bem.

Nosso traslado entre Berlim e Potsdam, onde mora o casal, levava pouco menos de uma hora. Tínhamos duas opções: os trens regionais, saindo de Zoologicher Garten, e as linhas 1 e 7 do S-Bahn, com mais pontos de parada e algumas baldeações. Uma delas na estação Berlin Wansee – foi perto dali, em janeiro de 1942, que Hitler decidiu pelo extermínio dos judeus em campos de concentração.

Longe de ser apenas uma cidade-dormitório, Potsdam é um dos “passeios de um dia” preferidos dos turistas que vão a Berlim. Destaque para o pacato centro histórico, o enorme parque Sansoucci e os palácios dos arredores, além do Neue Garten, onde fica o palácio Cecilienhof, onde foi feita a Conferência de Potsdam, decidindo o futuro da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Em Berlim e Potsdam é possível esbarrar em história a qualquer momento. Mas mesmo em locais onde não há história alguma, é possível vivenciar uma. No dia nove de novembro, Danilo e Natalia convidaram a dupla brazuca para uma festinha no apartamento de um amigo norte-americano, do curso de alemão. O rapaz se despediria da turma para uma temporada no Tibete.

O lugar, perto da estação Rathaus-Steglitz, era o verdadeiro apartamento de Babel. Além do norte-americano e dos quatro brasileiros, havia um turco (torcedor do Fenerbahce), uma ucraniana, duas sul-coreanas (uma delas nem inglês sabia), uma colombiana e um chileno (que, obviamente, nos entenderam mais). Cada um foi falando de suas experiências pessoais dentro e fora de seus países. O grande momento da noite foi o quarteto sem ritmo batucando “Trem das Onze”, seguido da tradução em inglês.

Inesquecível até o fim: o papo continuou do lado de fora, na despedida, em voz alta – para azar de um alemão mal-educado (pleonasmo), que foi até a janela reclamar. Engraçado que ninguém entendia exatamente o que o pobre homem dizia…

Ah, sim, eu fui ao estádio olímpico. Mas como escrevi muito aqui (Berlim merece), vamos falar dele depois – ainda dá pra falar, não dá?

Como organizar a blogosfera? Com BlogBlogs?

Por Marmota | 26/07/2006, 00h58

Sabem quantos blogs estão espalhados por aí? Cinquenta milhões. Tudo bem, a grande maioria deles é feita para se auto-destruir em instantes, ou não conseguem acrescentar muito. Ainda assim, é muita gente jogando garrafas com bilhetes diversos, que se perdem num mar interminável de dados – isso quando as garrafas não são substituídas por panelas.

E acredite: no meio de tanta coisa, tem muita gente boa, com idéias relevantes. Só para ficar com um ou dois que costumam relacionar tecnologia e web com a nossa vidinha cotidiana: o Henrique Costa Pereira, o Bruno Alves, o Carlos Cardoso e os caras do Meio Bit… Pronto, já são quatro.

A grande pergunta que surgiu diante dessa avalanche de informações: quem vai conseguir absorver tudo isso? Felizmente, a “gente boa” que eu dizia refez a questão fundamental e tratou de respondê-la: como vamos conseguir organizar tudo isso?

A primeira tentativa de relacionar idéias similares veio com os trackbacks – um negócio que com certeza muita gente não conhece. Então surgiu uma ferramenta parruda com esse propósito: o Technorati. Começa indexando todos os blogs que conhece – o que também permite saber quem está linkando quem. Para facilitar a relação entre assuntos (o “quem está falando sobre quem”).

Mas a bagaça vai além: o Technorati foi um dos primeiros sites a estimular uma das mais populares formas de rotular conteúdo: as tags, e tudo que surge a partir desse conceito (como as “tag clouds”). A Folha Online e o Link Estadão esmiuçaram esse tema recentemente, vá ver.

Antes de prosseguir, eu pergunto a você, blogueiro: em algum momento você realmente se preocupou com essas coisas? A resposta mais provável é “de jeito nenhum, criei meu blog para atender as minhas necessidades e não tenho a menor vontade de entender essas coisas todas para me integrar ao sistema”. Pois é, lamento informar que não há tecnologia capaz de criar vontade ou motivar pessoas.

Pois bem. De um mês pra cá, um burburinho novo parece ter conseguido despertar pessoas e movimentá-las em uma comunidade nova – ainda que continuem sem entender bem as razões… Talvez com a mesma motivação narcisista do Orkut, enfim. Mas o BlogBlogs, iniciativa que tirou horas de sono do Manoel Lemos e que já está sendo definido como “o Technorati brasileiro”, não deixa de ser uma idéia muito bacana. Não apenas para reunir blogs e quem está por trás deles, mas especialmente organizar (ao menos em parte) essa bagunça toda.

A grande sacada do BlogBlogs para outros diretórios de blogs está na comunidade. Enquanto todos os similares apenas juntam blogs num catálogo mequetrefe e um mecanismo de busca chinfrim, o BlogBlogs permite a cada um criar sua própria lista de blogs favoritos – mesmo aqueles que não estão lá, basta cadastrá-lo no sistema. Todos os blogs e blogueiros podem ser listados por ordem alfabética, quantidade de cliques, tags diversas ou mesmo por um ranking interno do sistema.

Barulho já tem, pelo visto: já existem mais de 85 mil blogs cadastrados, e umas 300 pessoas já citaram o brinquedinho em seus blogs – bom, tive que usar o Technorati pra saber disso, já que o BlogBlogs ainda não permite saber quais são os assuntos mais comentados do dia, por exemplo. Mas é questão de tempo. Veja lá o meu cadastro, aproveite para fazer o seu e fique ligado em mais essa tentativa interessante em botar ordem na blogosfera.

E aí, pulou e mudou alguma coisa?

Por Marmota | 21/07/2006, 11h57

Era para ser nesta quinta-feira, às 8h39min13s. Eu estava na cama, e como tenho sono pesado, não senti nenhum balançar diferente no planeta. Tive um dia absolutamente normal, sem qualquer alteração climática ou nos movimentos relacionados ao sol ou a lua. Enfim, tudo leva a crer que o tal World Jump Day deu em piciroca nenhuma.

Já tem pelo menos um ano que o sitezinho animado vem sendo propagado mundialmente em blogs ou listas de e-mail. E é bem provável que uma meia dúzia de três ou quatro pessoas tenha se engajado na proposta de modificar a órbita terrestre, baseada em uma “pesquisa científica” cujo objetivo era não apenas aumentar o tamanho de um dia, mas também acabar com o aquecimento global e propiciar um clima mais homogêneo.

Não é preciso ser um gênio da física para constatar o tamanho da bobagem. O site recrutou 600 milhões de pessoas, e diz ter conseguido. O que seria uma mobilização extraordinária: atualmente, o número de pessoas conectadas na rede em todo o planeta beira os 900 milhões. Mesmo que os tais 600 milhões decidissem realmente pular ao mesmo tempo para tentar mudar a órbita da Terra, o máximo que provavelmente conseguiram é uma balançadinha abdominal individual.

Mais do que isso: a população mundial também faz parte da massa do planeta. Para a Terra se “mexer”, toda essa gente teria que se “descolar” do planeta. Em uma conta bem grosseira: se toda essa gente (vamos considerar 6 bilhões de pessoas com 60kg em média) e decidissem pular para fora do mundo, produziria energia cinética semelhante a uns 2% de uma poderosa bomba H. Curiosamente, grandes potências já explodiram artefatos desses e o nosso planeta continua no mesmo lugar.

Mas enfim, claramente o artista alemão Torsten Lauschmann, autor da brincadeira, conseguiu o que queria: espalhou mais um viral pela web, colocou gente para pensar “até que ponto isso funciona” e, se pelo menos uns mil e poucos pularam, foi capaz de fazer o maior flashmob já registrado no Universo. Ao menos quem pulou pode mandar uma foto ou vídeo para o site e ganhar uma camiseta.

Blogs e você: algumas questões palpitantes

Por Marmota | 19/07/2006, 23h10

Recentemente fiquei com estes dois posts do Fabio Seixas na cabeça. No primeiro, ele questiona seus visitantes a respeito da forma como cada um transforma suas impressões em suas páginas pessoais. No outro, ele faz uma constatação interessante: quem tem blog gosta de ler sobre blogs e comentar sobre blogs, e parece que é só.

Convenhamos: é sempre muito interessante escrever sobre essa atividade, tão nova a ponto de perdermos alguns minutos elaborando perguntas e respostas sobre o nosso comportamento, tanto escrevendo num blog quanto comentando por aí.

Faz diferença se eu escrevo para mim ou pensando em alguém?

Pelo ponto de vista do texto, sim. Nem todo blogueiro pensa em uma “linha editorial” para seguir, imaginando um ou mais assuntos que sejam úteis a outras pessoas. O negócio é registrar uma idéia momentânea ou alguma notícia ou curiosidade encontrada por aí. Qualquer tema pode ser abordado de maneira pessoal ou impessoal, até em um mesmo blog. Uma zona, não é mesmo?

A diferença entre um blog e um jornal está aí: qualquer periódico, feito por muita gente, pretende fortalecer a postura da instituição, enquanto no blog, a imagem que se fortalece é a do autor. É a maneira íntima e única desse sujeito filtrar o mundo e exibi-lo em posts que torna o blog interessante, faz com que as pessoas se aproximem. Os artigos do Brainstorm #9 é um dos mais conhecidos e elogiados pelo meio publicitário, mas quem conhece vai lá para saber o que pensa o Carlos Merigo.

A quantidade de leitores é proporcional ao umbigo do blogueiro?

A pergunta tem a ver com a idéia acima: se pensarmos como qualquer veículo informativo, é preciso escrever “para os outros”, sem pensar muito nas nossas experiências pessoais, para gerar tráfego e audiência. O uso simples dessa ferramenta como “diarinho” afugenta qualquer cidadão inteligente, deixando a página às moscas.

Não acho que a coisa seja tão extremada assim, justamente pela importância que o “umbigo” tem na identidade de qualquer blog. Reiterando: não é o assunto que atrai visitantes e gera tráfego, mas a forma como os autores lidam com eles. E aqui ninguém está descobrindo a roda: mesmo na TV, o que diferencia um programa de debates (as tais “mesas redondas”) são as pessoas. Estou errado?

Por que a pessoas preferem comentar quando o assunto é a blogosfera?

Da mesma forma que, fora da rede, as pessoas preferem comentar futebol. Tentem estimular os cidadãos brasileiros a discutir fidelidade partidária, os bombardeios israelenses no Líbano, as últimas tendências de marketing viral ou os meandros do julgamento da Suzane. Nem todo mundo se interessa por esse tipo de coisa (obviamente, se houvesse interesse, talvez nosso país fosse diferente).

Mas enfim. Com blogs é a mesma coisa: o número de comentários varia com o assunto do texto. Utilize o “método Jorge Kajuru” e polemize sobre qualquer coisa. Ou conte alguma experiência sexual, bem sucedida ou não. Sua caixa de comentários vai fazer barulho. Da mesma forma, especifique ao máximo uma discussão e veja o feedback apenas daqueles que possuem alguma base para concordar ou retrucar. Não importa: diga algo ressonante ao público e o retorno virá na mesma medida.

E por que as pessoas comentam mais quando o assunto são blogs? Simples. Como as pessoas só opinam sobre o que conhecem, só quem tem blog lê e comenta.

Só quem tem um blog sabe como participar? Como assim?

Vejamos. Existem dois tipos de visitantes de blogs: o casual e o constante. Os últimos são aqueles que se encaixam no perfil acima: identificação e aproximação com o autor e suas idéias. O outro cai no blog via Google. E aí as reações são as mais imprevisíveis. Procuram por “Paris Hilton pelada” e caem num emaranhado de textos ordenados por data – um sobre a capital francesa, outro sobre a rede de hotéis e um ultimo sobre futebol de várzea. Muito obrigado.

Tem ainda o nó cego, que procura por “fernando vanucci chapado”, encontra o texto exato, lê informações relacionadas e vê na primeira linha um link apontando para o vídeo. Não obstante, registra na caixa de comentários: “ei, você pode passar o link pra mim”? Não necessariamente em português legível. É aquela velha história: inclusão digital não é botar computador barato com Internet pro povão: é disponibilizar cultura.

Mas não sejamos injustos. De repente, surge alguém inteligente no seu blog via Google e encontra não um, mas vários textos sobre diversos assuntos. O que essa pessoa faz? Pensa três vezes antes de mandar um e-mail. Normalmente não manda. Mas quando faz, é por essa via direta – “não vou me expor na caixa de comentários”, pensa.

Falar sobre blogs não é “canibalismo”? Não enfraquece a rede?

Esse risco existe desde que todas as cabeças pensantes da blogosfera acordem e pensem: “puxa, ninguém comentou meu longo texto homenageando o Raul Cortez… Quer saber? Vou falar só sobre relações sociais através dos blogs”. Acho difícil esse dia chegar.

Enquanto isso, não há problema algum em criar e responder questões relacionadas a esse fenômeno. Até porque, livrar-se de dúvidas é o verdadeiro sentido da vida.

Em defesa eterna do “piropo”

Por Marmota | 18/07/2006, 22h55

Não sou o que se pode chamar de especialista no sexo oposto. Pelo contrário, acumulo experiências que mantém no primário incompleto o meu nível de escolaridade na matéria. Ainda assim, acredito que na maioria dos casos eu não deixo passar a chance de sorrir para uma moça, independente de seu estado civil, e diante de uma brecha, dirigir-lhe algumas palavras doces, sinceras e descompromissadas. Isso não faz bem apenas para quem ouve, mas para quem as diz também.

Infelizmente esse tipo de postura nem sempre é bem compreendida. Ainda mais nos dias de hoje, onde o ritmo frenético do dia-a-dia esbarra em qualquer tipo de relação social. Não há mais tempo sequer para um bate-papo: os casais “ficam” sem sequer perguntar o nome. Quando qualquer cururu chega sorrindo balbuciando qualquer coisinha meiga, as moças já colam rótulos em sua testa, como “careta”, “boboca” e todos aqueles sinônimos impronunciáveis aqui.

Você pode chamar como quiser: galanteio, cantada, flerte… Em Portugal, há uma palavra de origem espanhola que indica uma abordagem bem sucedida nesse contexto: piropo. Miguel Esteves Cardoso, um dos meus escritores portugueses favoritos (um dia ainda vou ler O Amor é Fodido, já concordando com ele por antecipação) fez uma defesa espetacular do “piropo” em seu livro A Causa das Coisas, coletânea de crônicas do jornalista nos jornais Expresso e Independente, todas nos anos 80.

Temos aqui uns vinte anos e um oceano inteiro de distância, mas é impressionante como o texto é atual.

A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes já não correm atrás das raparigas – andam com elas. A diferença entre “correr atrás” e “andar com” é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonolência. O amor não pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras.

Os dois sintomas mais preocupantes desta nova tendência para a letargia erótica são, por um lado, a decadência acelerada do piropo, do galanteio, e por outro, o culto solene e obstinado da sinceridade. Ambos contribuíram para facilitar a sedução, tornando a própria sedução numa coisa muito menos sedutora, já que não há maior afrodisíaco que a dificuldade.

Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos aí?”. Ou simplesmente “bora aí?”. Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e local “Bute?”. “Bute” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de interpretação e enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?

Isto não pode ser, até porque há uma tradição a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer “Ai, Lena… Quando ele disse “Bute” subiu-me o coração à boca!”. A verdade é que o coração é um órgão bastante precioso e só se dá ao trabalho de subir à boca quando se lhe dão excelentes motivos para isso. De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente “Bute” – é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.

A própria palavra piropo (do latim “pyropo”) tem óbvias conotações incendiárias. Alguns alquimistas definiam esta pedra como sendo uma mistura de “três partes de lata e uma de ouro, que fica da cor do fogo”. A lata é extremamente importante – sem ela não se pode construir um bom piropo. Não só basta a parte de ouro (o sentimento, ou desejo) – faltam mesmo os demais 75 por cento. E o piropo faz falta, mesmo que seja só, nos preparos de amor, o “pequeno grão de arroz” de que fala a cantiga…

Dentre todos os piropos, o mais lindo (e mais português) é o piropo que se dirige, de passagem, a uma rapariga bonita. Não é o piropo que procura obter algo em troca – não é o piropo interesseiro do engate – é o piropo per si, e desinteressado. Diz-se quando ela passa e deixa-se que ela passe sem responder. O piropo desinteressado é o supra-sumo desta arte e deve entender-se como o pagamento poético de uma dívida.

Ela é bonita – você gostou de a ver. Em troca, inventa uma coisa bonita para lhe dizer, sem esperar outra recompensa senão a enorme recompensa de saber que ela o ouviu. Qualquer rapariga gosta de (e merece) ouvir um piropo destes. Em contrapartida, nenhuma rapariga tem paciência para as alternativas cada vez mais habituais; o basbaque calado que fica a ver, o engatatão incómodo que marcha atrás da rapariga como um detective pouco particular, o ordinário que se mete, até o banana tímido e ensimesmado que nem sequer se dá ao trabalho de olhar.

É preciso acabar com a escandinavização do erotismo português. Não é só o piropo que morre. São as cartas de amor, as flores de um anônimo admirador, as boas frases de apresentação e toda a panóplia de doces artifícios que deveriam estar sempre presentes na preocupação de um bom rapaz português. A escandinavização (exercício físico, comidas saudáveis, windsurf e sexo sem culpa e sem graça) tem, como fator mais perigoso, o culto à sinceridade. É triste, mas é verdade. Hoje em dia quase ninguém mente! Os rapazes dizem “não és muito bonita, mas até te gramo”, e as raparigas respondem “preferia o Richard Gere, mas já que aqui estás…”.

Isto não pode ser. Para qualquer rapaz, a rapariga com quem está (ou quer estar) não pode ser senão a mais bonita do mundo inteiro. A honestidade é a morte do encantamento. Bem utilizada, a mentira criativa chega ao ponto de convencer o próprio mentidor. Uma mentirazinha que vá um nadinha contra a razão (“era capaz de morrer por ti”, por exemplo) é sempre uma contribuição espetacular a favor do “live aid” do coração. A verdade é nua e crua, e nisto parece-se bastante com um bife de peru. As coisas nuas têm de ser misteriosa e lindamente vestidas, e as cruas têm sempre de ser cozinhadas. Ninguém gosta de bife de peru, mas uma vez panadinho comm pão ralado, e enfeitado com agriões e rodelas de limão, e servido num prato branco e limpo com um sorriso impecável… Come-se já.
Há uma medida eficaz contra a banalização e simplificação das relações amorosas, mais portuguesa que escandinava, e mais agradável que andar a butes. É namorar. Todas as mulheres – sejam raparigas ou mulheres, esposas de há 20 anos, conhecidas ou desconhecidas, mais ou menos bonitas, não importa – todas elas têm de ser convincentemente, absolutamente e permanentemente namoradas. Se não, ao vale a pena – nem para elas nem para eles.

Na rua ou em casa, no trabalho ou no liceu, não deixe que nenhuma rapariga bonita passe por si em vão. Com correcção e jeito, lance-lhe um piropo sentido e desinteressado, e verá como sabe bem. Pense que nunca mais irá vê-la outra vez (o que é quase sempre verdade) e aproveite aquela única oportunidade. Ou, sendo esposa ou namorada, sua ou de outra pessoa, também não fica mal. O amor, pode ter a certeza, tem de estar no ar tanto como no lar.

A propósito, você ficou ainda mais linda depois que cortou o cabelo.

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