quinta-feira, 29 de junho de 2006

Estádios que eu fui: Westfalenstadion

Antes mesmo do sorteio da Copa, tanto alemães quanto brasileiros já tinham suas chaves definidas: os donos da casa encabeçariam o grupo A, enquanto os pentacampeões iriam para o grupo F. Não foi apenas para evitar cruzamentos antes de uma provável final, mas também para aproveitar ao máximo o potencial dos três maiores estádios do Mundial. Assim, as duas seleções passariam obrigatoriamente por Berlim, Munique e Dortmund.

Dortmund fica bem perto de Gelsenkirchen e, como também fica na região do Ruhr, tem características semelhantes. A proximidade também a maior entre as rivalidades do país: Schalke 04 x Borussia Dortmund. No que diz respeito ao tamanho, o time preto e amarelo vence fácil. Em jogos da Bundesliga, o Westfalenstadion (referência a província da Westfalia, da antiga Prússia) pode receber mais de 80 mil pessoas. Ou, pelas normas da Fifa, cerca de 69 mil torcedores sentados. O que, convenhamos, ainda é muita gente.

Por fora, o estádio chama a atenção pelas vigas metálicas amarelas, que sustentam a cobertura das arquibancadas – uma das poucas obras na reforma pela qual passou, em 2003 (o estádio é de 1974, inaugurado para a Copa daquele ano). Dentro, o estádio lembra La Bombonera, em Buenos Aires: a inclinação das arquibancadas é bem grande, e assim como a arena do Boca Juniors, foi “crescendo para cima”.

Como em todos os grandes estádios do mundo, o estádio conta com todas aquelas facilidades que você já viu no Brasil: camarotes VIP com visão total do campo de jogo, um imenso e requintado restaurante, um completo museu e lojas de souvenirs do Borussia Dortmund…

Encostado no estádio ficam as instalações humildes do Stadion Rote Erde, que foi durante 50 anos a única casa do Borussia Dortmund. E do outro lado da via, a Rheinlanddamm, convém uma caminhada pelos arredores do Westfalenhallen Dortmund, um complexo espetacular com hotel, pavilhões de exposições e ginásio poliesportivo.

Um olhar mais atento revela um verdadeiro símbolo da cidade: a letra “U” girando em cima do prédio 1, usado como centro de convenções, diz respeito a Dortmunder Union Bier, espécie de marca registrada dos fabricantes de cerveja da cidade. Trata-se de um sinal histórico, que faz parte da cultura local. Pois esse sinalzinho inofensivo foi motivo de briga entre a cidade e a Fifa, que não admite ao redor dos estádios do Mundial qualquer marca que não seja a de seus 15 patrocinadores master. Até onde eu sei, o bom senso prevaleceu e o “U” continua firme. Ainda bem!

Só para constar: além do Stadion Koln, em Colônia, também passei na frente do Waldtadion, em Frankfurt. Mas nos dois casos, apenas passamos na frente: nosso objetivo era visitar as instalações da Deutsche Fussball Bund, onde tivemos uma longa e agradável conversa com o jornalista Uli Voigt, coordenador da seleção alemã de futebol para televisão. No mesmo dia, passamos também pela antiga Deutscher Sportbund – que na época ainda não havia se reorganizado com o Comitê Olímpico alemão. Hoje é uma coisa só: Deutsche Olympische Sportbund (DOSB).

Pena que eu tenha demorado tanto tempo pra escrever essas coisas. Mas ainda restam algumas historinhas. Vamos em frente.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Agora a Copa do Mundo ficou interessante

É óbvio que o Mundial não teria a menor graça sem as seleções coadjuvantes. O que seria de nós sem ter uma seleção incrível como Togo? Foi a primeira a chegar na Alemanha, teve técnico indo embora e voltando dois dias depois, hino nacional errado na estréia, ameaça de boicote em função da premiação… A Fifa poderia pular essa e outras etapas cansativas e que não servem para nada, e simplesmente decretar: a Copa começa agora.

Afinal de contas, por uma dessas coincidências do futebol, seis das oito seleções já conquistaram a taça que permanece em disputa. Todos eram cabeças-de-chave em seus grupos. Os únicos “favoritos” que não chegaram foram México e Espanha, o que, convenhamos, não surpreende. Assim, estou bem perto de acertar o primeiro “eu já sabia”: há um ano disse aqui: foram 17 mundiais e apenas sete campeões, e desta vez, novamente o campeão será um dos mesmos de sempre. O segundo diz respeito ao não-hexa, mas enfim, vou continuar torcendo para queimar a língua.

Sem mais delongas, vamos ao retrospecto das oitavas, além de alguns pitacos para os jogos que vão parar o planeta na sexta e no sábado.

Primeira final antecipada – Os alemães chegaram ao Mundial desacreditados. Ninguém dava nada pela molecada comandada pelo “norte-americano” Klinsmann, achavam todos inexperientes e dependentes do talento de Ballack. Pois os jovens atletas mostram fôlego para calar os críticos e, unidos pelo país, não tiveram qualquer dificuldade para ganhar da Suécia por 2 a 0. Aliás, desde a primeira fase, os suecos não mostraram vontade alguma de ganhar qualquer coisa nesse Mundial.

O grande problema da Alemanha está no adversário das quartas: a Argentina. Os países já decidiram a Copa duas vezes. Na primeira vez, em 86, brilhou a estrela de Maradona. Na segunda, em 90, Dieguito viu Brehme cair na área e o árbitro marcar pênalti, fato o que ficou engasgado na garganta dos hermanos. Tudo bem que a alviceleste demorou 120 minutos para eliminar o esforçado (ao menos nesse jogo) México, num chute que o Maxi Rodriguez jamais vai repetir em sua vida. Mas vai ser um jogo duríssimo, sem prognósticos.

Ok, se eu tivesse dez fichas, apostaria seis na Alemanha, vai.

Única chance de zebra – Desde 94, sempre aparece aquela seleção meteórica, que chega longe naquela semana e, em seguida, volta para o limbo. A Bulgária do carequinha Letchkov tirou do caminho os detentores da taça e favoritos alemães. Quatro anos depois, sobrou novamente para a Alemanha, que caiu diante de Davor Suker e a estreante Croácia. Há quatro anos, duas estreantes disputaram uma vaga nas semifinais, e os turcos comandados por Hasan Sas e Mansiz, além do inútil Hakan Sukur, eliminou Senegal.

A diferença é que búlgaros, croatas e turcos cresceram a olhos vistos durante os Mundiais que disputou. O que não aconteceu com a Ucrânia, que tem um andarilho em campo com um rótulo “Shevchenko” nas costas. Chegaram até aqui graças às duas babas de seu grupo, seguido por um horroroso empate sem gols com a Suíça. Contaram ainda com a péssima pontaria dos fazedores de relógio e chocolate, em uma disputa de pênaltis tão deprimente quanto a própria partida.

Com esse retrospecto ridículo, qualquer um diria que a semifinal está nas mãos da Itália. Mas não é bem assim. A Azzurra sai de campo com um zagueiro a menos a cada partida, e apesar de mostrar força conjunta, não foi capaz de marcar um único gol na Austrália em quase 90 minutos. Aliás, os comandados de Guus Hiddink até mereciam a classificação, não apenas pelo desempenho, mas também pelo pênalti inexistente. Enfim, o holandês pagou agora pelos erros do juiz em 2002.

Não está exatamente nas mãos da Itália, mas ainda acredito na Azzurra semifinalista.

Torcendo por Felipão – Tudo bem, admito meu erro: apostei em Inglaterra campeã mundial. Estou arrependido, apesar de ainda não ter errado meu palpite. Mas o fato é que os ingleses conseguiram colocar em campo um bom número de atletas renomados, habilidosos… Mas que não jogaram absolutamente nada! O único gol da equipe contra o surpreendente Equador saiu do pé de Beckham, que estava tão meia boca a ponto de passar mal e vomitar em campo!!!

(Aliás, só não publiquei a imagem aqui para atender a um pedido feminino: “você é um homem superior, e homens superiores não fazem isso”).

Como também apostei em República Theca na semifinal, posso jogar meu palpite pelos ares a favor da minha simpatia por Portugal e por Felipão, que conseguiu o milagre da classificação com um gol no primeiro tempo, mas sem sua “estrela” Cristiano Ronaldo, com dois expulsos e diante de uma Holanda altamente ofensiva, mas por sorte, inexperiente. Muitos vão lembrar desse jogo como uma das coisas mais feias da história, graças aos 12 cartões amarelos e os quatro vermelhos. Para quem já viu um jogo da Libertadores, especialmente os gremistas, não houve qualquer novidade.

E eu não duvido que mais um milagre venha pela frente.

Segunda final antecipada – Pessoalmente, estava torcendo pela Espanha. Até usei minha camisa vermelha, para dar apoio à Fúria diante dos mal-acabados franceses. Mesmo que, no fundo, um confronto Brasil x França soasse melhor, não só para caracterizar a revanche de 98, mas também pelo fato dos franceses estarem meio “passados” – haja vista os empates medíocres dos Bleus na primeira fase.

Só que até os espanhóis já sabem: a Espanha sempre chega favorita, mas sempre cai antes das semifinais. E a amarelada, desta vez, veio logo nas oitavas. Não adiantou nem sair na frente: os cururus viram Zidane ressurgir das cinzas e comandar a virada por 3 a 1. Mas enfim, muitos brasileiros comemoraram.

Mas antes disso, tiveram que aturar mais uma partida ao estilo Parreira: não fosse a lesão de Robinho, certamente estaria certo em dizer que jamais a escalação dos dois primeiros jogos seria repetida. Pois foi, e a burocracia em campo voltou. É ótimo, mas ao mesmo tempo horrível ter que aplaudir o sistema defensivo, afinal de contas, todo mundo espera o mínimo dos criativos homens de frente. Ainda bem que Gana só tem habilidade, mas não sabem marcar nem chutar à gol. Vai ficar para a história das Copas o placar de 3 a 0, o que pode fazer algum incauto falar: “puxa vida, que moleza”. Vai parecer o Parreira e o seu “o show é o placar”. Blé.

Como somos exigentes e desconfiados por natureza, já recebi do meu amigo Sakate o aviso: “tá com um cheiro de a história se repete no ar… 20 anos depois, Brasil x França nas quartas, jogo no sábado…”. “Mas é só não colocar o zico pra bater pênalti”, lembrou Lello. Ou o Robinho, o “salvador lesionado” da vez.

O “mistério” de Gana – Muitos poderiam perguntar, antes do confronto desta terça-feira: se Gana teve tanto sucesso nas categorias de base em seu histórico, por que demoraram tanto para chegar a uma Copa do Mundo? O UOL traz a resposta: a desconfiança de que seus times sub-17 e sub-20 eram, na verdade, sub-30 ou 40, fez com que grandes atletas simplesmente acabassem ao atingir uma idade considerada normal para um jogador. A história da “panelinha”, que lembra as antigas birras entre Rio e SP no nosso século passado, também é bastante curiosa.

Falando em Brasil… – Não perca a viagem e clique nessas duas sensacionais matérias especiais da GE.Net. Enquanto Brasil e Japão jogavam, o Jardim Irene de Cafu e o Morumbi de Kaká não escondiam seus contrastes, mas eles se diluem em um mesmo grito de torcida. Cinco dias depois, foi a vez de abordar pessoas que, por uma razão ou outra, não podiam parar para assistir ao jogo. Situação inusitada do dia: coveiros gritando e comemorando durante um enterro no Cemitério da Consolação…

Bagunça coreana na web – Os coreanos são conhecidos pelo grau índice de alfabetização (quase 100%) e conectividade na rede (número bem próximo disso). A surpresa vermelha da última Copa também transformou os asiáticos em apaixonados definitivos por futebol – e realmente, é impressionante ver a torcida gritando “Daehan Minguk”.

Paixão exagerada vista também na rede após a derrota para a Suíça: os coreanos contestaram a vitória por 2 a 0, graças aos erros do árbitro argentino Horacio Elizondo. Indignados, os internautas coreanos vandalizarem todos os sites que conseguiam – este blog descreve ações curiosas, incluindo uma enxurrada de e-mails ao site oficial da Fifa. Resultado: acessos coreanos bloqueados. Nem a Lucia Malla, que nada tinha a ver com isso, conseguiu navegar no site oficial da Copa.

Em compensação, os coreanos que estiveram em Leipzig após o empate com a França, mostraram outro comportamento: fizeram todo o trabalho de limpeza, faclilitando o trabalho dos garis. Vai entender.

Ô Louco, meu! – Essa eu já sabia mesmo: imaginem se uma ínfima parte dos 90 milhões de usuários de celular no país participassem durante todas as 15 semanas da Seleção do Faustão… A expectativa da Globo é de faturar R$ 100 milhões com a brincadeira. No último domingo, a Folha de S. Paulo abriu os olhos de quem não se deu conta: na teoria, os R$ 4 caracterizam a compra de um boletim meia boca, o que dá direito a participação gratuita no sorteio. Balela: as pessoas pagam pela promoção, o que caracteriza crime, já que só a União pode explorar jogos.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Estádios que eu fui: Veltins Arena

O FC Schalke 04 é uma espécie de “Corinthians” da Alemanha. Tem uma torcida imensa e apaixonada, superior ao do Bayern de Munique inclusive. Mas sua tradição é limitada ao país: apesar dos títulos nacionais e do bom desempenho em copas européias, não possui visibilidade internacional.

Mas uma coisa o Schalke leva vantagem em relação ao alvinegro do Parque São Jorge: um estádio. E não é qualquer campinho, mas sim o estádio mais bacana que eu já visitei em minha vida: a Arena AufSchalke.

O que não significa que o Schalke nunca teve um estádio. O Parkstadion, inaugurado para a Copa de 1974, se parece com o Mané Garrincha, em Brasília: tem um lado com arquibancadas cobertas e um tremendo parque ao redor. O Parkstadion ainda esta ali, mas numa área próxima, foi erguido uma das arenas mais modernas da Europa. Quem chega de ônibus fica impressionado com o tamanho de todo o complexo, mas também pela beleza do lugar.

Antes da entrada principal, o Veltins Arena (lê-se Feltins, marca de cerveja que patrocina o clube) exibe no muro principal uma seqüência de placas, com nomes de todos os torcedores que ajudaram na construção, que ocorreu entre 1998 e 2001.

Quando não há jogos, uma constatação que provoca uma dúvida: para que serve aquele campo ao lado do estádio? Na verdade, trata-se do gramado do estádio! Uma seqüência de esteiras faz com que o piso de jogo, que pesa 11,4 toneladas, seja removido como se fosse uma gaveta, processo que leva quatro horas. O que transforma o estádio numa arena multiuso: qualquer show ou evento pode ser realizado sem prejudicar o gramado.

Mas tem mais. A parte superior do estádio pode ser totalmente fechada. E no alto, bem ao centro do campo, um telão em forma de cubo gigantesco, para ninguém perder um lance sequer. Eu nunca vi nada igual.

Outros segredos do lado de dentro da arena: as lojinhas ao redor do estádio, além das escadas rolantes, dão a sensação de estarmos num shopping center. Para alegria dos alemães, o Veltins Arena conta com um cervejoduto: 5km de canos servem 52 mil litros de cerveja por partida, que pode chegar a 60 mil pessoas. Perto da zona mista, onde os jogadores concedem entrevistas, existe ainda uma simpática capelinha!

O estádio, além da equipe, são as únicas atrações da cidade de Gelsenkirchen, uma das mais conhecidas entre as cidades industriais do Vale do Ruhr (próxima a Dortmund, Bochum, Essen, Duisburg). Foi durante muitos anos referência na produção de carvão, mas hoje é referência de desemprego…

Falando em Ruhr, a próxima parada será justamente no Westfalenstadion, em Dortmund!

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