Marmota, mais dos mesmos

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Arquivos: abril/2006

Quer ser jornalista? Compre um celular

Por Marmota | 26/04/2006, 23h53

Sabe o que está tirando o sono de muitos profissionais interessados em aproveitar todo o potencial das novas tecnologias? Acertou quem respondeu “celular”. Está todo mundo de olho nesse mercado impressionante: no Brasil, é praticamente um telefoninho para cada dois habitantes (ok, em Brasília, tem mais celular que habitante). Estimativas apontam que essa brincadeira pode gerar um faturamento de US$ 42,8 bilhões em todo o mundo, daqui a quatro anos.

Atualmente, a expressão “conteúdo para celular” está restrita ao entretenimento. Tirando o evidente uso como telefone, praticamente 80% da movimentação está ligada a torpedos e ringtones. Saiu na frente quem está diretamente ligado à música, como alguns canais que exibem videoclips convidando o usuário a participar do bate papo ou baixar o sucesso. Pessoalmente, não conheço ninguém que use com frequência algum serviço informativo.

Isso quer dizer que ainda existe uma minoria interessada em conteúdo jornalístico: iniciativas que inundam os programas de TV, como a Seleção do Faustão podem funcionar por duas razões. A primeira é atrelar o recebimento de boletins à participação em um sorteio de prêmios. A segunda é a própria força da Rede Globo, disposta a usar todos os seus tentáculos para promover cross-marketing.

Mas se o celular ainda está longe de ser o melhor receptor de notícias, ao menos já podemos considerá-lo um tremendo gerador de conteúdo. Há muito tempo é possível blogar ou publicar fotos usando apenas o telefone móvel. Lembram do show do U2? Em cada uma das duas noites, o Morumbi recebeu 70 mil potenciais jornalistas, que informavam tudo em tempo real. Agora pense ,o mesmo fenômeno a qualquer hora do dia, em qualquer lugar. Mais do que isso: em vez de toneladas de links descentralizados, imagine todo esse conteúdo em um único endereço.

Não precisa imaginar mais. Conheci no E-Media Tidbits a idéia do Pablo Altclas, um portenho aficcionado por celulares: chama-se Cronicas Moviles, um espaço de expressão livre gerado por uma integração ilimitada de diferentes pontos de vista, via celular. Na Argentina, são 22 milhões de celulares, 1,5 milhão com câmera. E segundo a imprensa local, já existem 150 pessoas inscritas no projeto.

O blog do Pablo Altclas já funciona como um protótipo: entre os posts, muitas entrevistas em vídeo discutem o impacto dos blogs e as novas formas de jornalismo cidadão. Sua conclusão? “qualquer um pode cobrir uma notícia e contar a sua realidade”, declarou em uma entrevista ao jornal Página 12. Mmmhhh… Polêmico.

Não vai demorar muito para que alguém desenvolva a mesma idéia, focada ao menos em uma cidade como Rio ou São Paulo.

Eu também vi o Dalai Lama no Fantástico!

Por Marmota | 25/04/2006, 23h13

Descobri no domingo à noite que o Dalai Lama, espécie de “papa do Budismo”, vem ao Brasil essa semana. Graças à matéria exibida pelo Fantástico, mostrando a repórter Sônia Bridi na Índia, onde o líder espiritual vive exilado.

Não sei se foi impressão minha, mas durante a entrevista, percebi um deslumbramento nítido da repórter diante da reencarnação do Buda. Mas não é para menos: Tenzin Gyatso demonstrou não apenas ser um mero entusiasta da paz mundial, mas especialmente um sujeito muito bacana. Daqueles que, quando criança, admitia que “essa vida não seria moleza”… Mas cresceu bem humorado mesmo diante do controle chinês de seu antigo lar. E traz idéias que respeitam o ser humano independente de sua crença.

Ele sabe que a diversidade e as tradições da humanidade estimulam a variedade de pensamentos, o que reflete nas religiões. Mas ele acredita em espiritualidade sem ter uma crença. “Tanta gente que não tem religião mas tem compaixão, consciência dos direitos dos outros. Por isso defendo uma terceira via de espiritualidade, através da educação. Não da meditação, nem da oração, mas da consciência humana”. Nessa hora, eu olhei para a minha mãe na cozinha e balancei a cabeça, afirmativamente.

Logo depois, a reportagem entrou no tema anunciado pela Glória Maria: qual o verdadeiro caminho da felicidade? A resposta diz respeito ao coletivo: se a humanidade se sente feliz, eu e você também sentiremos. Do contrário, se todos sentirem ódio, inveja ou orgulho, nós sofremos também. Trabalhar a felicidade para todo mundo através da compaixão é o segredo, segundo o Dalai Lama.

Mas com um detalhe: “muitos acham que compaixão é se render ao outro. Mas temos que separar o agente da ação. O perdão é para a pessoa, não para o que ela faz. Devemos nos opor à ação, mas o agente é um ser humano. E através da compaixão suas atitudes vão mudar”, completa o Dalai Lama.

Não sei quanto a você. Mas mesmo que esse sujeito batuta tenha dito coisas que parecem óbvias, elas fazem todo sentido.

Sobre os diversos níveis de conhecimento

Por Marmota | 20/04/2006, 23h39

A mensagem velha e batida reproduzida abaixo, que recebi da Patrícia essa semana, me fez relembrar do livro “Manual do Cara de Pau – ou como é fácil falar difícil”, do saudoso Carlos Queiroz Telles. Ele apresentava tabelinhas mágicas de sabedoria, com palavras difíceis divididas em grupos distintos, mas capazes de tornar qualquer nó cego em um mestre da comunicação.

Realmente, é muito fácil impressionar interlocutores, enrolando-los.

Nível douturado: O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum Linneu, 1758, isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e arestas retilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que corre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera, Linneu, 1758. No entanto, é possível comprovar experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu eixo em conseqüência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar.

Nível mestrado: A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular,impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.

Nível graduação: O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando-se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal,tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.

Nível médio: Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando pressionado.

Nível fundamental: Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.

Nível popular: Rapadura é doce, mas não é mole, não!

Para todos os privilegiados que podem vivenciar o segundo de três feriados em menos de um mês, aproveite!

E continua o mistério de…POOOOOORTO DO DESESPEEEEEERO!!!

Por Marmota | 16/04/2006, 19h05

(Nos episódios anteriores, Roberto e Zeca acertam um novo serviço enquanto Mariana queima carne podre em uma casa velha. Seu ex-noivo Daniel recebe um inesperado telefonema, e antes de embarcar para o Canadá, é obrigado a executar um serviço para seu pai. Mas ao chegar, tem uma surpresa infeliz. Perto dali, dois paquistaneses explodem um restaurante e vão parar em outro plano. Como se isso tudo não bastasse, o Ministro da Economia do Canadá foi misteriosamente assassinado – notícia que pega Mariana e Roberto de surpresa.)

Capítulo VIXI, ops, X: O Flashback

- Mas que merda, Mari. Você sabe que horas são? Não, não, mais do que isso. Você é capaz de me dizer um único lugar pra gente ir? Estamos andando sem direção há horas! – dizia Roberto, caindo de sono ao volante.

Na verdade, ele sabia exatamente para onde estavam indo. Precisava resolver o imbróglio dos paquistaneses antes que sobrasse para ele. Ele queria mesmo era tirar Mariana do transe. De olhos abertos e expressão inerte, estava sentada no banco do passageiro, mas era como se não estivesse. “Deve estar pensando na morte do ministro”, imaginou Roberto.

Mariana estava realmente bem longe da estrada, e nem fazia idéia de que horas eram. Aliás, naquele instante, seu relógio estava alguns meses atrasado.

Era mais uma manhã agradável de outono em Barcelona quando o vôo 6824 da Ibéria trouxe o casal Mariana e Daniel. A felicidade dos dois era latente, diante da primeira grande viagem do casal desde o início do namoro. A linda e doce Mariana não continha seu deslumbramento, sempre agarrada ao seu grande amor.

- Olha, querido! Está tudo escrito em catalão!!! Nossa, isso aqui é um sonho!!!

Daniel tinha certeza de que seria a semana mais feliz de sua vida. Continuação de um verdadeiro golpe de sorte: a idéia do casamento já o entusiasmava quando Camacho, um amigo de infância, reapareceu no Orkut. Contou que deixara o Brasil há 10 anos e se estabelecera na Europa. Fez questão de pagar duas passagens para o velho amigo e sua futura esposa conhecerem sua nova morada. Era tudo que ele precisava para selar definitivamente seu futuro com Mariana.

Os amigos se encontraram e se abraçaram longamente ainda no saguão do aeroporto. No caminho até sua residência no Bairro Gótico, Camacho contou que, quando chegou à cidade, conseguiu emprego de vendedor em uma simpática livraria. Com o tempo, virou sócio do negócio, até o dono resolver aproveitar a vida, passando o estabelecimento totalmente para as mãos dele. Morava num amplo e confortável apartamento bem acima da livraria, na Calle Boqueria, perto da Rambla.

- Amigos, como dissemos aqui, mi casa es su casa. Bienvenidos!

Apesar do cansaço da viagem, o casal não perdeu muito tempo e, ao lado de Camacho, foram caminhar pelos arredores. Mariana era, nitidamente, a mais feliz: toda movimentação da Rambla, lojas de flores, bancas, quiosques, e muita, muita gente. De todas as raças, cores e classes sociais.

- Puxa vida, é praticamente impossível identificar um típico cidadão da cidade… São muito diferentes – impressionou-se Mariana.
- Sim, minha querida. A Espanha é um dos países com maior número de imigrantes, todos entusiasmados com o crescimento econômico, e a Catalunha é o destino preferido deles. Só aqui, dez por cento dos habitantes vieram de outros países – respondeu o também imigrante Camacho.
- Dez por cento? Mas é muita gente! – surpreendeu-se Daniel.
- Sim, e existem regiões onde o número é ainda maior. Temos um bairro chamado Raval, aqui perto do velho porto, onde praticamente a metade dos moradores vieram de fora. Especialmente marroquinos, argelinos, paquistaneses…

Já na plaza Catalunya, Mariana parou subitamente e viu, ao longe, um sujeito alto e bonito. Todo vestido de preto, óculos escuros e um penteado ondulado que lembrava as curvas de Gaudi. O rapaz também parou de caminhar ao notar Mariana. Tirou os óculos lentamente e sorriu. Mariana desconsiderou o vai-e-vem de pessoas e, diante daquele estranho homem de preto, o relógio dela parou como há muito não acontecia.

- Acorda, Má. Vamos comer. Tá tudo bem com você? – cutucou Daniel.
- Hã? Ah, sim. Desculpa, querido, ainda estou encantada com tudo…

Sentaram perto dali, numa mesinha do Café Zurich. Daniel e Camacho colocavam as fofocas em dia, enquanto Mariana continuava dispersa. Pediu licença para ir ao banheiro. Mal levantou e foi abordada por um garçom, que lhe entregou um bilhete.

“Hoje, dez da noite, no porto. Não falte” era a mensagem.

Mariana ficou o resto da tarde sem conseguir disfarçar a ansiedade. Sequer prestou atenção na caminhada pelas ruas largas do Eixample: ficou maquinando uma desculpa para deixar o noivo e seu amigo naquela noite e matar sua curiosidade.

Não foi difícil. Aliás, foi mais fácil do que imaginava. Daniel e Camacho tinham muito assunto para conversar, e foi o que fizeram antes, durante e depois do jantar, no apartamento.

- Dani, querido, acho que vou tomar um ar. Minha cabeça está girando…
- Má, o que você tem? Você passou o tempo todo longe, parece que não está gostando…
- Ai, deixe de bobagens, Dani. É a viagem da minha vida. Eu só quero espairecer um pouquinho…
- Não acha melhor se deitar? Tivemos um dia cheio, nem descansamos direito
- Não, não. Uma caminhada vai me fazer bem. Eu não demoro.
- Fique tranquilo, Daniel. É seguro caminhar por aqui – interrompeu Camacho. – Tome, Mariana, leve uma cópia da chave.

Ela agradeceu e deixou o pequeno prédio da Calle Boqueria. Usava um discreto vestidinho vermelho. Pouca maquiagem, para não despertar qualquer suspeita. Caminhou depressa, com passadas firmes. Em pouco mais de dez minutos, já estava no porto de Barcelona.

Ficou maravilhada com a visão do mar Mediterrâneo. Continuou sentindo a leve brisa da noite, caminhando pelo largo deck de madeira, espécie de ponte que avança mar adentro decorada com esculturas onduladas de metal. E lá estava ele, sentado em um dos bancos do deck. Também usava vermelho.

Mari respirou fundo, ignorou a pulsação acelerada e se aproximou lentamente. O homem levantou-se, sorriu e, sem dizer uma única palavra, tomou Mari em seus braços, abraçou com força e lhe beijou. Mari tremia e transpirava, mas não oferecia nenhuma resistência. Ele beijava seu pescoço, acariciava sua nuca. Mari também o beijava cada vez mais, enquanto ele a segurava pelos quadris. Ela desabotoava a camisa vermelha, tocava seus lábios em seu peito, arranhava suas costas…

Foram longos e ardentes minutos até que, saciados, finalmente se apresentaram.

- Oi, muito prazer, Mariana Ambrosio – disse, depois de um longo suspiro, ainda sentada no colo do cidadão.
- O prazer é todo meu. Pode me chamar apenas de Roberto.

Mariana não o chamou de Roberto. Não naquele momento. Preferiu agarrá-lo e beijá-lo de novo antes de deixá-lo ali. Não sabia exatamente se aquilo era uma simples curtição noturna ou o início de uma longa paixão. Na verdade, nem sabia mais se gostaria de ser a mesma Mariana de sempre. Decidiu não pensar no assunto e voltar para o apartamento. Roberto o tranquilizou:

- Mariana, acredite: com certeza vamos nos ver de novo.

Camacho e Daniel passaram praticamente a noite inteira lembrando histórias passadas. Nem se deram conta do adiantado da hora quando Mariana chegou.

- E o Julhão, Dani? Ainda metido em jogatina, aqueles esquemas todos?
- Nossa, cada vez mais, Camacho. Cada vez mais… Mas é a vida dele, não tenho direito de me meter.
- Ah, Dani… Depois que meu pai morreu por um motivo tão besta, tão…
- Verdade, eu estava na oitava série, mas lembro da história.
- Então. Decidi que aquilo não era para mim. E agora estou aqui!
- Fez bem você. Pena que ainda não tenho como largar meu pai. Ainda mais agora, estamos pensando seriamente em casar, morar juntos, construir nossa casa… Eu tento juntar uma grana, mas…
- Falando em casamento, ouça: ela chegou.
- Má! Tudo bem? Nossa, como você demorou!!!
- Oi meu amor… Oi, Camacho… Você tinha razão, devia ir para a cama. Essa cidade mexeu demais com os meus sentidos.

A semana de Mariana passou como um raio. Passearam pelos arredores da Sagrada Família, visitaram o bairro de Montjuic a partir da Plaza de España e as instalações dos Jogos Olímpicos de 1992, caminharam pela novíssima Barceloneta, entraram no mítico estádio Camp Nou…

Mariana esboçava sorrisos, fazia algumas perguntas, abraçava Daniel… Mas no fundo estava perturbada. Não deixava de pensar em Roberto. Seguiu a mesma rotina do primeiro dia: saía para dar uma volta à noite, sempre em direção ao porto. Passava longos minutos caminhando. Sentava e observava o movimento, sempre sozinha. Ne ela mesmo sabia o que estava fazendo ali, ou o que passava exatamente por sua cabeça. Foi assim até a penúltima noite na cidade, e a promessa feita por Roberto na primeira noite estava prestes a ruir.

O último passeio proposto por Camacho foi o Parc Guell. Parecia ter sido de propósito: foi o dia mais ensolarado e agradável. Eram muitos os visitantes contemplando jardins, esculturas, mosaicos e a visão privilegiada de todos os pontos de Barcelona.

Lá do alto, Mariana reconheceu alguém parecido com a razão do seu desespero. Olhou de novo: era Roberto mesmo. Tinha entrado na lojinha de souvenirs, perto da entrada. Ela pediu licença a Daniel e Camacho: usou novamente a desculpa do banheiro. Desceu as escadarias do parque com muita pressa e, longe do campo de visão dos dois, entrou na lojinha.

- Dani, não quero me meter na sua vida, mas acho sua noiva um pouco… Esquisita. Ela não olha nos nossos olhos quando conversa, e isso não é bom. Tem certeza que vai se casar com ela?
- Tenho sim, Camacho. É a mulher da minha vida. Ela está mesmo um pouco diferente aqui, mas é a primeira vez que viajamos assim, acho que isso tudo foi demais para ela. Com o tempo, tudo vai ficar bem.

Perto dali, Mariana e Roberto se abraçaram e beijaram apaixonadamente. Mas ela não demorou a interromper e cobrar a promessa.

- Seu, seu… Seu louco! Você não disse que a gente ia se ver? Como você acha que eu fiquei aqui aqui, esperando notícias suas?
- Mariana, escuta, tive uma semana um pouco cheia. Não posso falar disso com você.
- Como não pode? O que você quer me esconder?
- Bom, você viu o noticiário?
- Noticiário? Você acha que eu tenho tempo pra essas coisas? Passei a semana toda pensando em você, naquela noite no porto… Tudo isso na frente do meu noivo!!!
- Tudo bem, tudo bem, me escuta. Não posso falar sobre essa semana. Tudo que eu posso dizer é que não posso mais ficar aqui.
- Aqui, no parque?
- Não, não. Na cidade. Vou ter que sair daqui.
- Então você vai… Para o Brasil?
- Não, não. Pro Brasil eu também não posso ir. Tenho amigos em Montreal, no Canadá. Provavelmente eu me encontre com eles e, quem sabe…
- Isso! Isso, Roberto! Eu… Eu… Eu posso dizer pro meu pai que conheço você, seus amigos… Digo pra eles que vou fazer um intercâmbio, que eu preciso aprender inglês… Como é o nome dos seus amigos?
- Bom, tem a Maira, o Zeca… Mas espera, você tem certeza que quer mesmo fazer isso?
- Escute aqui, Roberto, aquela noite no porto foi a coisa mais especial que já me aconteceu na vida. E nós dois estávamos de vermelho! Não é possível. Eu preciso saber o que o destino reservou pra gente. Me espere, Roberto, eu vou te procurar em Montreal.

Mais um beijo antes de finalmente se despedirem, sem imaginar quando seria o próximo encontro.

Coincidência ou não, naquela mesma semana, a polícia de Barcelona terminou a prisão de onze paquistaneses, que planejavam a destruição de edifícios históricos na cidade. Todos pertenciam a uma organização terrorista, e segundo indícios preliminares, dois deles tinham contato direto com a Al Qaeda: Mohammad Afzaal e Shahzad Ali Gujar – esse último condenado por envio ilegal de dinheiro ao Paquistão, quantia que superariam os 800 mil euros.

Roberto continuava dirigindo, sonolento. Os primeiros sinais do amanhecer fizeram com que Mariana finalmente se manifestasse.

- Roberto, você nunca me contou por que você teve que fugir de Barcelona…
- Ah, Mari, vai te catar. Isso não faz a menor diferença. Temos outras coisas pra pensar agora.
- É, você tem razão. Nem sei porque diabos lembrei disso. Continue dirigindo, vai. – murmurou, antes de tirar um cigarro da bolsa.

Porto do Desespero é uma idéia muito bacana da Ana Lucia: um romance policial coletivo que, como diria Dona Milú, é um grande mistéééério. Teria, em princípio, 20 capítulos, mas ao contrário de Bang Bang, Porto do Desespero está virando cult, e dificilmente a brincadeira vai acabar tão cedo.

Em pouco mais de uma semana, a história prosseguiu graças a Leila, Serbon, Vanessa, Alex Castro, Biajoni, Nélson Moraes, Marcos VP, Olivia… Até esbarrar em mim. E agora? Que emoções reservam os próximos capítulos?

- Marmota, vou ser franco. Esse capítulo ficou uma bosta. Você fica enrolando, falando da cidade, dos caras que era amigos... Mas eu quero saber da Mariana!!! Era pra ser simples, mas misterioso. Ficou simplório e confuso.
- Bom, eu também não gostei. Mas não tinha como melhorar muito. Além de ter ficado no plantão durante o feriado e cultivar um mau humor incômodo, não tenho a menor noção de como deve funcionar um roteiro, o que são turning points, entre outros conceitos fundamentais que ajudam a estruturar qualquer história...
- E outra: a tal da Mariana é que comanda o batatal... E vem agora você dizer que ela era boazinha? Você a enfraqueceu completamente com essa porra de flashback! Ah, francamente!!! Faça-me o favor!!!
- Ei, seu mala, pense comigo: o que será que motivou Mariana a se transformar no que ela é hoje? Foi só amor pelo Roberto? Esse é um mistério tão interessante quanto o seu provável envolvimento na morte do tal ministro. Tudo que eu queria é deixar claro que nem sempre ela foi assim.
- Bah. Ainda bem que tem gente demais pensando nesse "port du desespoir". Da próxima vez, tente ser mais atraente.
- Vou tentar, prometo. Mas enfim, agora quem tem que se virar é a Roberta!

Ensinar a tristeza

Por Marmota | 14/04/2006, 23h07

Mais um texto gelado saído do fundo da gaveta, a propósito deste feriado devagar, praticamente parando. Nas últimas semanas, repensei minha teoria estúpida sobre felicidade: como deixar de se preocupar com pessoas que, diante dos percalços do dia-a-dia, revelam-se desanimadas, tristes… Como se não fizessem nada para mudar de idéia.

Procurei algum artigo que pudesse me fazer pensar sobre os benefícios da tristeza. Encontrei esse texto do Rubem Alves, publicado na Folha de S. Paulo em outubro do mês ano passado (arrumado, Vinicius! Obrigado!). Dele retirei uma frase que certamente vou usar outras vezes: “a alma se alimenta de coisas que não existem”. Como você está aí empanturrado de chocolate e bacalhau, não deixe de ler o artigo todo.

Fui apresentado à poesia da Helena Kolody (1912-2004) poucas semanas atrás. Foi uma descoberta gostosa. Não porque seus poemas sejam alegres. Todos eles têm uma pitada de tristeza. A beleza vem sempre misturada à tristeza. Chamou a minha atenção este mínimo poema: “Buscas ouro nativo entre a ganga da vida. Que esperança infinita no ilusório trabalho… Para cada pepita, quanto cascalho” (“Helena Kolody”, Positivo, Curitiba). Mantenho o hábito de ler as Escrituras Sagradas. Leio como quem garimpa ouro. Para achar uma pequena pepita, quanto cascalho há de se jogar fora! Acho até que foi arte de Deus. Foi ele mesmo quem misturou cascalho e pepitas, para separar os maus dos bons leitores. Os maus leitores não sabem separar as pepitas do cascalho.

Tristeza será coisa que se ensine? Haverá uma pedagogia da tristeza? Estranho pensar que um professor, ao iniciar o seu dia, possa dizer para si mesmo: “Hoje vou ensinar tristeza aos meus alunos…”

Em meio ao cascalho, encontrei esta pepita: “Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”. Esse texto me apareceu na memória quando eu pensava sobre aquela pergunta sem resposta que deixei ao final do meu último artigo: “Como se pode ensinar compaixão?”. A compaixão é triste? Ensinar compaixão será ensinar a tristeza? Tristeza será coisa que se ensine? Haverá uma pedagogia da tristeza? Estranho pensar que um professor, ao iniciar o seu dia, possa dizer para si mesmo: “Hoje vou ensinar tristeza aos meus alunos…” Eu mesmo nunca havia pensado nisso.

Todos os terapeutas, não importa qual seja a sua seita, em última instância, todos eles estão envolvidos em uma batalha contra a tristeza. E, agora, eu digo este absurdo, que tristeza é para ser ensinada para fazer melhor ao coração.

Os poetas me entendem. Isso porque a poesia nasce da tristeza. “Mas eu fico triste como um pôr de sol (…) quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela”, escreveu Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa. E conclui: “Mas a minha tristeza é sossego porque é natural e justa e é o que deve estar na alma…”.

Num outro lugar, o próprio Pessoa escreveu: “Ah! A imensa felicidade de não precisar estar alegre…” Existe uma perturbação psicológica ainda não identificada como doença. Ela aparece num tipo a que dei o nome de “o alegrinho”. O alegrinho é aquela pessoa que está, o tempo todo, esbanjando alegria, dizendo coisas engraçadas e querendo que os outros riam. Ele é um flagelo. Perto dele, ninguém tem a liberdade de estar triste. Perto dele todo mundo precisa estar alegre. Ele não consegue estar triste, o alegrinho não consegue ouvir a beleza dos noturnos do músico francês Frédéric Chopin (1810-1849) nem sentir as sutilezas da poesia da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) nem gozar o silêncio do crepúsculo. Porque ele está sempre alegrinho, ele não consegue sentir compaixão. Compaixão é sentir a tristeza de um outro.

Contei do menino que chorou ao ler a história “O Patinho que Não Aprendeu a Voar”. Aconteceu assim: o seu pai comprou o livro esperando que ele fizesse o filho dar muitas risadas. Voltou no dia seguinte, muito bravo. Trazia o livro na mão, para devolvê-lo. Em vez de dar risadas, ao final da história seu filho se pôs a chorar.

A história é, de fato, triste. Eu a escrevi para o meu filho, que estava passando por uma crise de vagabundagem. O seu prazer nas vagabundagens era tanto que ele não queria saber de aprender. O patinho também não queria saber de aprender. Quando chegou a estação das migrações, seus irmãos bateram asas e voaram. Ele teve de ficar.

O menininho tinha razões para chorar? Não. As razões do seu choro não eram dele. Ele sofria o sofrimento do patinho, mas o patinho não existia. Era apenas um personagem inventado de uma história do mundo do “era uma vez”, e o menino sabia disso. A despeito disso, ele chorava. Aqui está um dos grandes mistérios da alma humana: a alma se alimenta de coisas que não existem.

Eu havia levado minha filha de seis anos para ver o “ET”, do Steven Spielberg. No fim do filme, ela chorava convulsivamente. Jantou chorando. Resolvi fazer uma brincadeira: “Vamos para o jardim ver a estrelinha do ET!”. Fomos, mas o céu estava coberto de nuvens. Não se via a estrelinha do ET. Improvisei. Corri para trás de uma árvore e disse: “O ET está aqui!”. Ela me disse: “Não seja tolo, papai. O ET não existe!”. Contra-ataquei: “Não existe? E por que você estava chorando, se ele não existe?”. Veio a resposta definitiva: “Eu estava chorando porque o ET não existe”.

Volto então à pergunta que fiz sem saber a resposta. O menino chorou ao ler a história do patinho, mas o patinho não existia. Minha filha chorou ao ver o filme do ET, mas o ET não existia. Pensei, então, que um caminho para ensinar compaixão, que é o mesmo caminho para ensinar a tristeza, são as artes que trazem à existência as coisas que não existem: a literatura, o cinema, o teatro. As artes produzem a beleza. E a beleza enche os olhos d’água. Como dizem as Escrituras Sagradas, “com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”.

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