Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: outubro/2005

Vivendo em bunkers

Por Marmota | 31/10/2005, 18h43

Bonn (Alemanha) – Em uma das visitas mais incriveis que fiz em Berlim, respiramos historia em um dos antigos abrigos antiaereos da cidade, redescoberto pela Assoiacao Mundo Subterraneo – Berliner Unterwelten – perto da estacao Gesundbrunnen do metro.

Um dos meus amigos de curso, com claustrofobia – sem falar no ambiente pesado, teve problemas e sequer passou da primeira porta. Os que seguiram em frente sentiram no ar, nas paredes e na tonalidade das (poucas) cores toda a angústia de centenas de pessoas abrigadas durante a Segunda Guerra Mundial, ou mesmo a paranóia dos tempos de Guerra Fria. Sílvia, nossa guia equatoriana (que fala muito bem portugues) entendia do ramo: sua associacao prestou consultoria para o filme A Queda, que se passa no famoso bunker de Hitler.

Todos saíram com vontade de recordar as informacoes históricas desse período da história – sem falar em seu desdobramento mais inconcebível, que esteve durante trinta anos ali, em forma de muro. Berlim desperta essa veia histórica, mas no meu caso a reflexao foi alem.

Sou teimoso, medroso, preocupado, contraditório, racional, programado, bloqueado. E nao é um mes em outra vida que vai me fazer mudar. Para explicar isso, normalmente uso para isso uma metáfora amena: pular ou nao da prancha. Porque sempre me senti confortavel em cima da plataforma.

Mas ao sair daquele mundo de túneis, fui obrigado a repensar coisas. Na verdade todos esses atributos funcionam como protecao de um bombardeio, fruto de uma guerra fria e desnecessaria. Como se estivesse em um bunker.

Felizmente, por hora, estou em uma terra espetacular. Nem quero pensar na volta, e na sensacao horrivel de estar em um abrigo antiaereo outra vez. A bem da verdade é que estou fazendo tudo para me livrar dessa idéia explosiva de uma vez por todas.

Berlim é uma delícia, mas nao há lugar melhor que o lar… Já me sinto em casa em Bad Godesberg, ao sul de Bonn, ou mesmo em Colonia, a mais brasileira das cidades deste país. A temperatura ajuda: máximas de 20, 21 graus. É o mes de outubro mais quente dessas bandas em mais de 100 anos. Nao tem como se sentir distante num clima desses.

Em muitos estabelecimentos comerciais, os atendentes nao se esforcam nem um pouco para se comunicar com os turistas. Alguns esbocam um ingles meia boca, mas logo emendam um “sprechen deutch” ou algo do genero. Como se estivessem “selecionando” quem atender. Se por um lado os estádios estao preparados para receber uma Copa, nao se pode dizer o mesmo dos alemaes, em sua maioria um bando de grossos.

Ainda nao contei detalhes do curso que estou fazendo – e talvez nem conte muito por aqui, minha mae pediu para que eu deixasse de falar na minha vida pessoal aqui e evitar a criacao de um personagem de mim mesmo. Mas nao posso deixar passar: somos em 12 alunos, sendo seis brasileiros, cinco africanos de países lusófonos e uma heróica sobrevivente da guerrilha do timor leste – que se esforca bravamente para resgatar o portugues que estava preso após anos de dominacao indonésia. Sem falar que sua lingua nativa é o tetum. Interculturalidade é a palavra de ordem para resumir esse encontro inusitado.

Enquanto isso no Brasil, o assunto referendo acabou, reabrindo as empoeiradas CPIs. Por aqui, soube que estudantes em América Latina na Faculdade de Colonia aprovam o líder Lula, carismático e comprometido com o combate a corrupcao. E nao adianta dizer a eles que nao é assim: alemaes que estudam em lugares como Humboldt estao sempre certos.

Wake Me Up When September Ends

Por Marmota | 26/10/2005, 08h39

Berlim (Alemanha) – Nao podia deixar de usar o artificio comum diante da falta de tempo para detalhar o passeio: vamos de letra de música. Entre as mais ouvidas por aqui estao Precious, do Depeche Mode, e Tripping, do Robbie Williams. Praticamente nada em alemao, como era de se esperar – exceto um hit chamado An Tagen wie diesen, de um trio chamado Fettes Brot – no clipe, cidadaos vivem suas vidas em tanques de guerra ao invés de automóveis, e foi tudo que eu entendi…

Mas Wake Me Up When September Ends, do Green Day, toca pelo menos uma vez ao dia, seja lá qual for o programa.

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father’s come to pass
Seven years has gone so fast
Wake me up when September ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Ring out the bells again
Like we did when spring began
Wake me up when September ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father’s come to pass
Twenty years has gone so fast

Wake me up when September ends
Wake me up when September ends
Wake me up when September ends

City tour obrigatório por essa cidade maravilhosa e rica em história e diversidades. No trajeto, o simpático guia Walter (clone do Ted Boy Marino) contou que o lado oriental da Alemanha e praticamente todas as mulheres nao votaram no partido de Angela Merkel. Ao mesmo tempo, define a passagem do chanceler Gerhard Schroeder como desastrosa. Cracterística número um dos alemaes: insatisfacao total mesmo se estiver tudo bem.

Seguindo com o tour esportivo, logo mais vou assistir a Hertha Berlim e Borussia Mönchengladbach, pela Copa da Alemanha. Vai ser no Estádio Olímpico, que recebeu os Jogos de 1936 e vai receber o Brasil no primeiro jogo da Copa, em 13 de junho. A propósito, meu Schakle 04 perdeu por 6 a 0 pela mesma competicao. Meu pé deve estar com a mesma temperatura da capital alema…

Carrossel da Champions League

Por Marmota | 20/10/2005, 18h36

Bonn (Alemanha) Eram pouco mais de onze da noite em Bad Godesberg, sul de Bonn, quando saí de um barzinho bacana em frente ao Kinopolis, próximo a Theaterplatz. Objetivo: acompanhar a rodada da Copa dos Campeoes da Europa, a Champions League.

Posso imaginar que, por aí, a Errei de TV transmitiu Real Madrid e Rosemborg, e as duas ESPN optaram por alguma partida importante, como Milan x PSV. Aqui, apenas os assinantes da Premiere podem acompanhar a rodada – e de um jeito que poucos brasileiros se acostumariam: o carrossel.

Algo semelhante já foi tentado em 2003 pela rádio CBN: nao havia um “jogo comando”, mas sim um narrador e equipe em cada partida. Um ancora se responsabilizava em chamar um ou outro jogo, além de comentaristas que analisavam a situacao do campeonato em tempo real. Nao deu certo, tanto que a emissora se rendeu ao gusto da populacao.

Pois o Premiere alemao abusa do carrossel, chamado aqui de conferencia. A equipe principal – o repórter de jogo (especie de narrador mas sem o ufanismo do Galvao) divide espaco com o repórter do vestiario, que so aparece diante do display de propaganda para as entrevistas, em uma espécie de “jogo comando”, o mais importante para o país – no caso, Schalke 04 e Fenerbahce.

As demais partidas contam com apenas um “narrador-reporter-comentarista”, que contextualiza a partida ao ser chamado, narra alguns lances e passa a bola para o jogo seguinte. A sequencia é quebrada em casos extremos, como um gol ou cartao vermelho. Para quem se interessa por um panorama complete da competicao, é perfeito: foi possível ver lances do Milan e do Lyon, os gols do Real Madrid e do Porto, além da eletrizante movimentacao em Istambul.

Mas para quem torce deve se sentir um pouco frustrado por ver seu time atacando e, de repente, ser surpreendido por Glasgow Rangers e Artmedia. Tudo bem, deu para vibrar com a jogada de Robinho no gol do Raul, o segundo do Real, enquanto nossos amigos das ex-colonias portuguesas comemoravam os gols do Porto sobre a Inter de Milao. Durante boa parte do tempo, no entanto, as imagens eram de Schalke e Fenerbahce – alegria e tristeza alternada de um alegre e solitário torcedor alemao no barzinho, a cada vez que o narrador gritava “gol em Istambul”.

E voce, prefere acompanhar um único jogo ou nao se importaria com o carrossel?

O outono em Bonn é uma das coisas mais deslumbrantes. As copas das árvores formam um longo manto multicor pelas avenidas, e as calcadas estao entupidas de folhas amareladas, proporcionando efeitos visuais inesquecíveis a quem sente o vento frio e os poucos raios de sol. Incluindo um passeio pelo Rio Reno logo no primeiro domingo, entre outras aventuras (e poucas horas de sono) nos primeiros dias, nao posso me queixar: a experiencia é bárbara.

E assim que tiver tempo, volto a rabiscar parágrafos enquanto me preocupo com o cronometro do cybercafe, perdido dentro da estacao Bad Godesberg Banhoff do U-Bahn, o metro da cidade. Propriedade de uma trupe de iraquianos – fizemos amizade com eles, na esperanca de sermos poupados em caso de algum atentado ou algo do genero.

A incrível arte de voar

Por Marmota | 06/10/2005, 02h26

Dando sequência a série “leia algo que eu não escrevi já que tá difícil encontrar tempo para pensar em algo diferente”, segue um trecho do Capítulo 11 de A Vida, o Universo e Tudo Mais, terceiro livro da trilogia de cinco episódios do Guia do Mochileiro das Galáxias. A propósito, leia todos. É infinitamente melhor que o filme.

Mas enfim. O texto pinçado refere-se a um passatempo bastante simples, mas que exige treino e disciplina: voar. Na minha opinião, um dos melhores trechos do livro. Mais do que isso: uma explicação bastante racional para muitas das coisas que não sabemos definir em nosso cotidiano, mas que vez ou outra nos deixam nas nuvens – há quem se sinta à vontade sem sentir o chão embaixo dos pés. Não é o meu caso.

O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:

Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar.

Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente.

A primeira parte é fácil.

Ela requer apenas a habilidade de se jogar para a frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer.

Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão.

Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força.

Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade.

Um dos problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto isso tudo irá doer se você deixar de errar.

É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular.

Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão compleamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola.

Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração.

Balance e flutue, flutue e balance.

Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto.

Mão ouça nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de útil.

Provavelmente dirão algo como “Meu Deus, você não pode estar voando!”.

É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.

Flutue cada vez mais alto.

Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois deixe-se levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.

NÃO ACENE PARA NINGUÉM.

Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir.

Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu vôo, sua velocidade, como manobrar, etc. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural.

Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar – e se atrapalhar feio – em sua primeira tentativa.

Há clubes privados de vôo aos quais você pode se juntar e que irão ajudá-lo a atingir esse momento fundamental de distração. Eles contratam pessoas com um físico inacreditável – ou com opiniões inacreditáveis – e essas pessoas pulam de trás de arbustos para exibir seus corpos – ou suas opiniões – nos momentos cruciais. Poucos mochileiros de verdade terão dinheiro para se juntar a esses clubes, mas é possível conseguir um emprego temporário em um deles.

Aliás, estou devendo também um post decente sobre Douglas Adams. Vai ficar tudinho pro montão no fim do ano.

Referendo? Plebiscito? Quem perguntou?

Por Marmota | 05/10/2005, 00h38

Diante do bombardeio de informações em relação a votação do próximo dia 23, todo mundo já sabe o que é um referendo. Também já sabe que essa forma democrática e soberana de ouvir a voz do povo em relação a temas palpitantes é diferente do plebiscito – o primeiro refere-se a uma lei que já existe, no caso, o Estatuto do Desarmamento; o segundo estabelece uma consulta antes que uma lei sobre o tema exista.

Alguns também sabem que somos uma democracia recente: em nossa curta história, tivemos apenas dois plebiscitos, ambos relacionados ao sistema de governo adotado no país. Em 1963, dois anos após a renúncia de Jânio e a adoção do parlamentarismo, a população optou pela volta do sistema presidencialista. Na prática, isso devolveu os poderes de João Goulart que, no ano seguinte, foi deposto pelos militares. A vontade do povo sobre o assunto só foi, digamos, respeitada, em 1993: a propaganda do “Vote no Rei” ou “Vote PAR” eram até bacaninhas. Mas a monarquia e o parlamentarismo foram novamente desprestigiados pela república (65,3%) e presidencialismo (55,7%).

Ou seja, é a primeira vez que o país é convidado participa de um referendo desde a promulgação da Constituição, em 1988. Obviamente, esse instrumento deve ser usado com moderação, já que o assunto é, resumidamente, um gigantesco abacaxi de casca dura. Independente disso, imaginei a frustração de boa parte da nação a ter que resgatar título, sair de casa em pleno domingo, pegar fila… Para responder “sim” ou “não” a uma única pergunta! E se aprveitássemos o empenho do povo para uma mega-votação?

Tá bom, já estou ouvindo alguém gritar. “Caceta, mas eu já nem sei o que responder nessa e você quer complicar a bagaça? Francamente!”. Concordo. Sem falar que a fila ia aumentar, e o horário eleitoral teria que ser substituído por um canal inteiro. Mas não custa nada imaginar um plebiscito-referendo com as seguintes questões, pela ordem:

- Você é a favor do comércio de armas de fogo e munição no Brasil? (Sim ou Não)
- Você é a favor da discriminalização do aborto? (Sim, em todos os casos; Só em caso de risco à mãe ou má formação; Não)
- Você é a favor da venda de nossas reservas de petróleo? (Sim ou Não)
- Você é a favor da redução da maioridade penal? (Sim, para 16 anos; Sim, para 14 anos; Não)
- Você é a favor do pagamento da dívida externa brasileira? (Sim ou Não)
- Você é a favor da formação do bloco econômico Alca? (Sim ou Não)
- Você é a favor da discriminalização das drogas? (Sim, todas; Só maconha; Não)
- Você é a favor da reeleição para cargos executivos? (Sim ou Não)
- Você é a favor da divisão de cotas para negros nas universidades? (Sim ou Não)
- Você é a favor da avaliação de cursos universitários através do Provão? (Sim ou Não)
- Você é a favor da recriação do Estado da Guanabara? (Sim ou Não)
- Você é a favor da redivisão dos estados, criando 18 novas UF? (Alternativas múltiplas para cada pedaço)
- Você é a favor da indepedência do estado do Rio Grande do Sul? (Sim ou Não)
- Você é a favor da liberação dos alimentos trangênicos? (Sim ou Não)
- Você é a favor da venda de jogadores brasileiros para o exterior? (Sim ou Não)
- Você é a favor do Campeonato Brasileiro por pontos corridos? (Sim ou Não)
- Você é a favor da oficialização do Corinthians como campeão mundial? (Sim ou Não)

Faltou alguma questão palpitante? Ficou com vontade de responder? Minha sugestão: poderíamos reunir todas e mandar para algum desocupado que conheça flash, que montaria um site bobo com o desenho de uma urna eletrônica e a sequência de perguntas. O que acham?

Atualizado – Faltou união homossexual. Mas não é preconceito, eu só esqueci mesmo (antes que algum mala venha dizer algo do gênero).

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