segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Vivendo em bunkers

Bonn (Alemanha) – Em uma das visitas mais incriveis que fiz em Berlim, respiramos historia em um dos antigos abrigos antiaereos da cidade, redescoberto pela Assoiacao Mundo Subterraneo – Berliner Unterwelten – perto da estacao Gesundbrunnen do metro.

Um dos meus amigos de curso, com claustrofobia – sem falar no ambiente pesado, teve problemas e sequer passou da primeira porta. Os que seguiram em frente sentiram no ar, nas paredes e na tonalidade das (poucas) cores toda a angústia de centenas de pessoas abrigadas durante a Segunda Guerra Mundial, ou mesmo a paranóia dos tempos de Guerra Fria. Sílvia, nossa guia equatoriana (que fala muito bem portugues) entendia do ramo: sua associacao prestou consultoria para o filme A Queda, que se passa no famoso bunker de Hitler.

Todos saíram com vontade de recordar as informacoes históricas desse período da história – sem falar em seu desdobramento mais inconcebível, que esteve durante trinta anos ali, em forma de muro. Berlim desperta essa veia histórica, mas no meu caso a reflexao foi alem.

Sou teimoso, medroso, preocupado, contraditório, racional, programado, bloqueado. E nao é um mes em outra vida que vai me fazer mudar. Para explicar isso, normalmente uso para isso uma metáfora amena: pular ou nao da prancha. Porque sempre me senti confortavel em cima da plataforma.

Mas ao sair daquele mundo de túneis, fui obrigado a repensar coisas. Na verdade todos esses atributos funcionam como protecao de um bombardeio, fruto de uma guerra fria e desnecessaria. Como se estivesse em um bunker.

Felizmente, por hora, estou em uma terra espetacular. Nem quero pensar na volta, e na sensacao horrivel de estar em um abrigo antiaereo outra vez. A bem da verdade é que estou fazendo tudo para me livrar dessa idéia explosiva de uma vez por todas.

Berlim é uma delícia, mas nao há lugar melhor que o lar… Já me sinto em casa em Bad Godesberg, ao sul de Bonn, ou mesmo em Colonia, a mais brasileira das cidades deste país. A temperatura ajuda: máximas de 20, 21 graus. É o mes de outubro mais quente dessas bandas em mais de 100 anos. Nao tem como se sentir distante num clima desses.

Em muitos estabelecimentos comerciais, os atendentes nao se esforcam nem um pouco para se comunicar com os turistas. Alguns esbocam um ingles meia boca, mas logo emendam um “sprechen deutch” ou algo do genero. Como se estivessem “selecionando” quem atender. Se por um lado os estádios estao preparados para receber uma Copa, nao se pode dizer o mesmo dos alemaes, em sua maioria um bando de grossos.

Ainda nao contei detalhes do curso que estou fazendo – e talvez nem conte muito por aqui, minha mae pediu para que eu deixasse de falar na minha vida pessoal aqui e evitar a criacao de um personagem de mim mesmo. Mas nao posso deixar passar: somos em 12 alunos, sendo seis brasileiros, cinco africanos de países lusófonos e uma heróica sobrevivente da guerrilha do timor leste – que se esforca bravamente para resgatar o portugues que estava preso após anos de dominacao indonésia. Sem falar que sua lingua nativa é o tetum. Interculturalidade é a palavra de ordem para resumir esse encontro inusitado.

Enquanto isso no Brasil, o assunto referendo acabou, reabrindo as empoeiradas CPIs. Por aqui, soube que estudantes em América Latina na Faculdade de Colonia aprovam o líder Lula, carismático e comprometido com o combate a corrupcao. E nao adianta dizer a eles que nao é assim: alemaes que estudam em lugares como Humboldt estao sempre certos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Wake Me Up When September Ends

Berlim (Alemanha) – Nao podia deixar de usar o artificio comum diante da falta de tempo para detalhar o passeio: vamos de letra de música. Entre as mais ouvidas por aqui estao Precious, do Depeche Mode, e Tripping, do Robbie Williams. Praticamente nada em alemao, como era de se esperar – exceto um hit chamado An Tagen wie diesen, de um trio chamado Fettes Brot – no clipe, cidadaos vivem suas vidas em tanques de guerra ao invés de automóveis, e foi tudo que eu entendi…

Mas Wake Me Up When September Ends, do Green Day, toca pelo menos uma vez ao dia, seja lá qual for o programa.

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father’s come to pass
Seven years has gone so fast
Wake me up when September ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Ring out the bells again
Like we did when spring began
Wake me up when September ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father’s come to pass
Twenty years has gone so fast

Wake me up when September ends
Wake me up when September ends
Wake me up when September ends

City tour obrigatório por essa cidade maravilhosa e rica em história e diversidades. No trajeto, o simpático guia Walter (clone do Ted Boy Marino) contou que o lado oriental da Alemanha e praticamente todas as mulheres nao votaram no partido de Angela Merkel. Ao mesmo tempo, define a passagem do chanceler Gerhard Schroeder como desastrosa. Cracterística número um dos alemaes: insatisfacao total mesmo se estiver tudo bem.

Seguindo com o tour esportivo, logo mais vou assistir a Hertha Berlim e Borussia Mönchengladbach, pela Copa da Alemanha. Vai ser no Estádio Olímpico, que recebeu os Jogos de 1936 e vai receber o Brasil no primeiro jogo da Copa, em 13 de junho. A propósito, meu Schakle 04 perdeu por 6 a 0 pela mesma competicao. Meu pé deve estar com a mesma temperatura da capital alema…

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Carrossel da Champions League

Bonn (Alemanha) Eram pouco mais de onze da noite em Bad Godesberg, sul de Bonn, quando saí de um barzinho bacana em frente ao Kinopolis, próximo a Theaterplatz. Objetivo: acompanhar a rodada da Copa dos Campeoes da Europa, a Champions League.

Posso imaginar que, por aí, a Errei de TV transmitiu Real Madrid e Rosemborg, e as duas ESPN optaram por alguma partida importante, como Milan x PSV. Aqui, apenas os assinantes da Premiere podem acompanhar a rodada – e de um jeito que poucos brasileiros se acostumariam: o carrossel.

Algo semelhante já foi tentado em 2003 pela rádio CBN: nao havia um “jogo comando”, mas sim um narrador e equipe em cada partida. Um ancora se responsabilizava em chamar um ou outro jogo, além de comentaristas que analisavam a situacao do campeonato em tempo real. Nao deu certo, tanto que a emissora se rendeu ao gusto da populacao.

Pois o Premiere alemao abusa do carrossel, chamado aqui de conferencia. A equipe principal – o repórter de jogo (especie de narrador mas sem o ufanismo do Galvao) divide espaco com o repórter do vestiario, que so aparece diante do display de propaganda para as entrevistas, em uma espécie de “jogo comando”, o mais importante para o país – no caso, Schalke 04 e Fenerbahce.

As demais partidas contam com apenas um “narrador-reporter-comentarista”, que contextualiza a partida ao ser chamado, narra alguns lances e passa a bola para o jogo seguinte. A sequencia é quebrada em casos extremos, como um gol ou cartao vermelho. Para quem se interessa por um panorama complete da competicao, é perfeito: foi possível ver lances do Milan e do Lyon, os gols do Real Madrid e do Porto, além da eletrizante movimentacao em Istambul.

Mas para quem torce deve se sentir um pouco frustrado por ver seu time atacando e, de repente, ser surpreendido por Glasgow Rangers e Artmedia. Tudo bem, deu para vibrar com a jogada de Robinho no gol do Raul, o segundo do Real, enquanto nossos amigos das ex-colonias portuguesas comemoravam os gols do Porto sobre a Inter de Milao. Durante boa parte do tempo, no entanto, as imagens eram de Schalke e Fenerbahce – alegria e tristeza alternada de um alegre e solitário torcedor alemao no barzinho, a cada vez que o narrador gritava “gol em Istambul”.

E voce, prefere acompanhar um único jogo ou nao se importaria com o carrossel?

O outono em Bonn é uma das coisas mais deslumbrantes. As copas das árvores formam um longo manto multicor pelas avenidas, e as calcadas estao entupidas de folhas amareladas, proporcionando efeitos visuais inesquecíveis a quem sente o vento frio e os poucos raios de sol. Incluindo um passeio pelo Rio Reno logo no primeiro domingo, entre outras aventuras (e poucas horas de sono) nos primeiros dias, nao posso me queixar: a experiencia é bárbara.

E assim que tiver tempo, volto a rabiscar parágrafos enquanto me preocupo com o cronometro do cybercafe, perdido dentro da estacao Bad Godesberg Banhoff do U-Bahn, o metro da cidade. Propriedade de uma trupe de iraquianos – fizemos amizade com eles, na esperanca de sermos poupados em caso de algum atentado ou algo do genero.

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