Marmota, mais dos mesmos

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Arquivos: setembro/2005

Aborto: reflita antes de julgar

Por Marmota | 28/09/2005, 04h48

Tenho uma grande amiga que trabalha há anos na recepção de um pequeno hospital da Zona Leste paulistana – praticamente o mesmo tempo em que estuda enfermagem. Apaixonada por obstetrícia, chorou como nunca ao assistir um parto pela primeira vez. E ainda se emociona ao passear pelos bercinhos da maternidade.

Mas seu dia-a-dia não são apenas sorrisos, charutos e mães felizes. Certo dia, apareceu alguém com uma história de arrepiar. A mulher tinha provocado aborto e apareceu para realizar a curetagem (traduzindo: remover o resto). Não contou como foi, mas sim as razões: estava grávida do amante, e provocou o aborto escondido do mario.

Depois de uma cirurgia complicada, a mulher acertou tudo, passou seu batom e voltou para casa – saiu do hospital com a estratégia armada: ia contar pro marido que a menstruação chegou antes.

Antes que você condene a personagem central da história, saiba que essa história não é única. Pelo contrário: aborto clandestino é prática constante e indiscriminada, especialmente nas camadas de baixa renda. Trata-se da terceira causa de morte materna no Brasil. Há tempos deixou de ser uma questão filosófica: é um grave problema de saúde pública.

Atualmente, aborto só e permitido no Brasil em caso de estupro ou se a mãe sofrer risco de vida. Nas demais situações, a clandestinidade e a insegurança imperam. Felizmente, muitos estados brasileiros já liberaram quando o feto tem má formação – a tendência é a de que os processos similares, que se arrastam na Justiça, se baseiem na jurisprudência.

A questão vai mais longe: enquanto for considerado crime, a nossa personagem e tantas outras não terá o direito de praticar o aborto de maneira segura e com apoio do SUS. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer o trabalho de prevenção e planejamento familiar, além da capacitação ética dos profissionais de saúde. E o mais importante para evitar esse e outros problemas sociais sérios: educação e esclarecimento. Principalmente para quem sofre mais com tudo isso e acaba não tendo acesso nem pelo que já é seu de direito.

Minha amiga quase-enfermeira registrou assim sua opinião sobre a mulher que engravidou do amante: “Tem muita sacanagem e falta de vergonha na cara como nesse caso. Mas apesar da inconsequência, não podemos julgar e sim ajudar. Por ser ilegal, o aborto gera muitos problemas: as mulheres praticam sem nenhuma informação e acabam no hospital com varias complicações – e especialmente com medo de serem julgadas. Essas mulheres precisam de assistencia e não de quem as condenem”.

Esclarecimento e assistência são as palavras-chave.

***

Este blog apóia debates sobre temas espinhosos, polêmicos e afins, mas dificilmente toma partido de forma explícita. Por outro lado, não tem como não se envolver com a questão diante da iniciativa do Nós na Rede. Mais uma vez, muitas cabeças aproveitam o dia não apenas para opinar, mas principalmente convidar os internautas à reflexão.

A data coincide com o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, um dia após a entrega do respectivo Projeto de Lei à Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. A proposta: permitir o aborto até a 12ª semana de gestação ou a qualquer momento quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má-formação fetal, tudo pago pelo SUS – e, quem sabe, por planos de saúde.

Lembre-se da história presenciada pela minha amiga enfermeira e responda: até que ponto vale a pena conduzir as mulheres à clandestinidade ao invés de lhes dar a chance de escolher? Não é estimular, mas sim ter o direito, que é bem diferente.

O convite está feito: navegue pelos blogs amigos do Nós na Rede e veja o turbilhão de informações sobre o tema. Tente, se possível, despir-se de todas as suas convicções políticas e religiosas: o seu bom senso é suficiente.

Torcedor tem que usar nariz de palhaço

Por Marmota | 26/09/2005, 13h12

Lembro de um jogo entre Palmeiras e Vasco, se não me engano naquela natimorta Copa João Havelange, que o time do Euricão simplesmente não viajou a São Paulo, questionando a data – era para ser ao menos 48 horas depois de outra partida do Vasco, pela Mercosul. O que se viu no Parque Antárctica, além do WO, foram torcedores do Verdão usando narizes de palhaço.

Aquela não foi a primeira vez, e convenhamos: além da camisa do time embrulhada (para usar só na arquibancada e não apanhar na rua), do RG e do dinheiro contado (cambista, cerveja quente, refrigrerante sem gás, sanduíche amanhecido e o ladrão), o nariz de palhaço devia ser de uso obrigatório pelo torcedor.

Dentro do estádio, o mais fiel dos consumidores brasileiros recebe tratamento similar ao de qualquer rebanho no brete. Fora dele, vê cartolas interesseiros e dirigentes de preparo discutível jogando o futebol na gangorra: profissionalismo de um lado, amadorismo de outro. E num lampejo de esperança, quando os estádios voltam a encher (ainda que seja por conta da Nestlé) e ninguém mais fala em rasgar regulamento e virar a mesa, aparece um bando de irrresponsáveis, cujas mães trabalham por longas horas na zona, e aprontam uma palhaçada dessas.

O pivô do escândalo, o senhor Edílson Pereira de Carvalho, foi preso no sábado pela manhã dizendo que ajeitava os resultados de partidas do Brasileirão, do Paulistão e da Libertadores “porque recebia ameaças de morte”. Certamente porque acordou sem saber que o país já tinha ouvido as gravações em que ele diz: “vê o limite que você pode jogar e mete ferro, que eu meto ferro dentro de campo… que amanhã eu saio de escolta do estádio”. Francamente.

Como é que as mesas-redondas de domingo, que debatiam longamente sobre deslizes da arbitragem como em qualquer boteco, vão fazer o mesmo a partir de agora sem acusar o juiz de mafioso? Pior: agora que a coisa tá preta, e que o senhor Edílson pretende puxar seus colegas para a lama, onde é que o futebol vai parar? Como encerra a matéria da Veja, “O Brasil do mensalão, do valerioduto e dos dólares na cueca não merecia mais essa”. Preparem vossos narizes.

***

Seja feliz – Não sei se a redação da Istoé ficou feliz ao ver sua concorrente pautando a agenda da semana, enquanto sua revista estampou balões dourados com sorrisos e o título bombástico: “é possível ser feliz”.

Mas a matéria é bacana, e vale até um post só para ela. Ela lembra que ninguém é feliz, mas está feliz – e esse verbo não se conjuga no futuro, mas no presente. Aproveite sua vida agora mesmo, portanto. Além disso, alguns ingredientes ajudam a sustentar a tal felicidade: boa relação com a família, boa saúde, integração social, atividades diárias, controle de gastos, saber perdoar…

Quer uma sugestão? Compre as duas revistas. Depois de se estressar com a arbitragem, seja feliz.

Minha casa no Google Earth

Por Marmota | 21/09/2005, 22h01

Soa no mínimo ridículo comentar sobre Google Earth quase dois meses após seu lançamento oficial. Mas eu também quero falar: trata-se do melhor brinquedinho que já instalei no meu computador em toda a sua história. É delicioso soberevoar o planeta e se sentir dentro daquela espaçonave criada por Ethan Hawke e River Phoenix no filme Viagem ao Mundo dos Sonhos, ainda que apenas diante do monitor.

O que mais impressiona é a aproximação feita pelas imagens de satélite em pontos variados – inclusive os mais perdidos e inóspitos do globo, como a minha casa! Dá até pra ver a chácara usada para desmanches e outros fins ilícitos! Com mais alguns giros, é possível uma panorânica completa do bairro – incluindo a boa e velha estação de trem, onde o filho chora e a mãe não ouve!


O brinquedinho consegue focalizar com perfeição vários pontos de referência da cidade. Como a estação de metrô mais próxima, em Itaquera – e quem já foi sabe exatamente o que existe ao redor dela: piciroca nenhuma! A linha amarela indica a distância, em linha reta, até a toca do Marmota: 8,5km (e pensar que o ônibus leva 40 minutos).

A discrepância entre a distância em linha reta e a real vai aumentando com o tamanho. Se eu pudesse atravessar a cidade para chegar à Avenida Paulista como na imagem, seriam apenas 25km, e não 40. Mas enfim, o Google Earth continua surpreendente ao sobrevoar o ponto mais alto de São Paulo.


Algumas horas a mais na frente do programa são suficientes para localizar dezenas de pontos conhecidos, não apenas no Brasil. Infelizmente nem todas as grandes cidades do país possuem imagens bem definidas: mal dá pra enxergar o Beira Rio ou a cidade de Belém do Pará (com esforço, dá pra ver o aeroporto Val De Cans). A linha amarela indica 870km em direção ao sul e 2450 ao norte.



É uma pena que as configurações mínimas do Google Earth sejam proibitivas – é preciso um computador parrudo e conexão veloz. Mas quem já baixou se divertiu e já tirou suas conclusões. A minha é simles: felizmente posso dirigir novamente!

(A propósito, breve aqui, o dia que a esfinge ficou com a minha CNH).

Hoje é feriado nacional no Rio Grande do Sul

Por Marmota | 20/09/2005, 02h14

Meus amigos do RS devem estar faceiros. Não é toda hora que aparece um feriado em plena terça-feira – muitos deles estão “enforcando” desde sábado, celebrando quatro dias inteiros de folga. Tudo graças ao “feriado nacional” do estado, comemorado neste 20 de setembro. Com direito a desfile cívico e atrações dignas de um dia da independência.

Hino nacional do RS

De que vale uma data nacional se não houver um hino? Foi justamente durante a Revolução Farroupilha, após o Combate de Rio Pardo em 1838, que nasceu a base do hino Rio-Grandense – letra e música modificada umas três vezes. A versão oficial foi adotada a partir de 1934, como preparativo para as comemorações do centenário da revolução. Em 1966, o hino virou símbolo oficial graças a uma lei estadual. Segue a letra, autoria de Francisco Pinto da Fontoura (o Chiquinho da Vovó – não vai rir, hein?).

Como a aurora precursora
do farol da divindade,
foi o Vinte de Setembro
o precursor da liberdade.

Mostremos valor, constância,
nesta ímpia e injusta guerra,
sirvam nossas façanhas
de modelo a toda terra.

Entre nós revive Atenas
para assombro dos tiranos;
sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos.

Mostremos valor, constância,
nesta ímpia e injusta guerra,
sirvam nossas façanhas
de modelo a toda terra.

Mas não basta p’ra ser livre
ser forte, aguerrido e bravo,
povo que não tem virtude
acaba por ser escravo.
Mostremos valor, constância,
nesta ímpia e injusta guerra,
sirvam nossas façanhas
de modelo a toda terra.

Estamos falando dos 170 anos da Revolução Farroupilha, o mais longo conflito do período regencial do Brasil. Até hoje não seio ao certo porque diabos um grupo de revolucionários decidiu lutar contra o Império. Oficialmente, os motivos foram econômicos: os principais produtos da região, como o charque, o couro e a erva-mate, eram sobretaxados. Parte da crise, no entanto, veio após a reorganização do Uruguai e da Argentina após a Guerra da Cisplatina, deixando os gaúchos despreparados. O descontentamento também tinha origem política, já que o presidente da província era nomeado pelo poder central.

Não demorou para que algumas lideranças se exaltassem de vez. Assim, em 20 de setembro de 1835, Bento Gonçalves decretou o início da Revolução Farroupilha, marchando rumo a Porto Alegre. Todo tipo de interesse moveu a sequência da guerra, que durou dez anos e culminou com a proclamação da República Rio-Grandense, em 1836 (cuja capital era Piratini, ali perto de Pedro Osório). Três anos depois, com a ajuda de Giuseppe e Anita Garibaldi (Thiago Lacerda e Giovanna Antonelli da minissérie A Casa das Sete Mulheres), a República Juliana, em Santa Catarina (com capital formada em Laguna), formou uma confederação no sul do Brasil. Essa durou apenas quatro meses.

A verdade é que nem todos os colonos apoiavam a revolução. Agricultores que viviam entre a serra e o litoral gaúcho tinham vínculo maior com o Império, e nunca concordaram com o movimento. Muitas lutas inglórias e exaustivas até que, em 1845, os farrapos e o Império assinam o tratado de paz – sem armas, mas sim graças aos acordos e anistias propostas pelo general Luís Alves de Lima e Silva, que viria a se tornar presidente da província gaúcha e, mais tarde, Duque de Caxias, patrono do exército nacional.

Batalha de Farrapos, de José Wasth Rodrigues

Enfim. Historicamente, a formação do povo gaúcho se fez diante dessa “briga” entre aqueles cuja base era o caudilhismo, centralizador, típico de fronteira e catalisador do movimento farrapo, e os seus opositores. Com o tempo, o gaúcho passou a ser visto não apenas em sua visão puramente autoritária, mas especialmente pela sua bipolarização. Foi assim com chimangos e maragatos há algumas décadas; com PT e anti-PT há alguns anos; com gremistas e colorados a todo instante.

A semana farroupilha, feriado estadual desde sua decretação oficial em 1995, intensifica a busca pelas tradições locais, que já é feita diariamente – para o resto do país, pode soar bairrista o Zero Hora abrir mão de uma vocação nacional para dar manchetes como “gaúchos pagam mais pela gasolina” em dia de aumento em todo o Brasil. Na prática o Rio Grande prepara ações comerciais, festejos, manifestações artísticas e desfiles diversos.

Há quem ache meio bobo. Eu acho bacana preservar a história e as tradições – desde que as sandices separatistas não participem da festa.

AtualizadoClique aqui para ler uma análise criteriosa deste post.

Vaquiiiiiiinha!

Por Marmota | 16/09/2005, 14h58

Essa é para os paulistanos nativos ou a passeio. Você pode até achar que isso não é arte nem aqui nem no curral, mas admita: é impossível não gritar “vaquiiiiiiinha” diante das peças criadas para a Cow Parade, exposição itinerante que já passou por 24 cidades e considerada a maior do gênero do mundo, que permanece na capital até seis de novembro.

São 150 vacas espalhadas pela área central da cidade. Todas feitas em fibra de vidro anti-pichação e fixadas em uma base de concreto anti-roubo – ou seja, se alguém quiser mesmo ter uma dessas mimosas em casa, terá que esperar pelo leilão ao final da exposição. Cada uma será vendida por, no mínimo, R$ 5 mil. Leia mais sobre a Cow Parade nessa matéria do UOL/Reuters.

Gritar “vaquiiiiiiinha” foi o máximo que já consegui fazer – e já virou piada interna gritar “vaquiiiiiiinha” também na descida da Augusta, ao lado daquelas casas de fino trato repleta de neons coloridos. O grande barato, no entanto, é interagir com elas: passar a mão, tirar fotos, escolher a mais legal… Eu gostei daquela que tem uma placa “animais na pista” – fica no final da Paulista.

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