Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

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Casa da vovó? Opa, isso rende mais um…

Por Marmota | 28/04/2005, 22h16

Marmota e sua família decidem aproveitar o feriado prolongado para visitar os parentes no sul do Brasil. Entre as poucas escalas possíveis neste curto espaço de tempo, uma é indispensável – a casa da mãe da minha mãe, única que segue firme, com os seus 88 anos de idade:

- Vovó!
- Vovó!
- Vovó!

- A próxima é a casa da vovó.

Esse era o esforço de Toquinho e Lasquita ao procurar a casa da vovó – a pedido do Pica Pau, que pediu para as crianças levarem guloseimas para a velhinha. Para passar a perna no lobo, que usou um atalho, a duplinha chegou ao condomínio “Irmãos Grimm”. Antes de serem avisados pelo lendário urso Smokey, os pequenos conheceram o lar dos três porquinhos, dos três ursos e uma estranha casa em forma de bota, cuja algazarra era intensa.

A cena foi repetida pelo lobo minutos depois – o que despertou a atenção da mamãe urso: “a vovó deve estar dando uma festa”. A festa, no entanto, acabou sendo dos meninos, que aproveitaram a ausência da vovó para aprontar todas com o bicho ranzinza – onde resgataram o velho diálogo de Chapeuzinho Vermelho. No fim das contas, a vovó é que agarra o lobo – e se casa com ele. (Do episódio Red Riding Hoodlum, de 1957).

Quarenta momentos em quarenta anos

Por Marmota | 26/04/2005, 14h08

Nesta terça-feira, o Brasil assiste ao aniversário de uma certa emissora de TV, que construiu, graças a parcerias discutíveis com as pessoas certas, 40 anos de uma história riquíssima. Para não deixar passar em branco, além de não repetir coisas que você certamente vai achar por aí – como contar sua história ou fazer uma análise. Decidi por algo mais audacioso: usar a cabeça vazia, lembrar 40 momentos marcantes da Globo e bolar uma lista de reminiscências pessoais. Em ordem qualquer.

1. Já não se fazem mais aniversários como antigamente. Há dez anos, o Vale a Pena Ver de Novo foi substituído por um mega-especial, reapresentando coisas como Irmãos Coragem, Carga Pesada (os originais), Malu Mulher, entre outros clássicos. Dessa vez, vai ser uma festinha aí.

2. Uma das comemorações dos 30 anos foi o “remake” de Irmãos Coragem para o horário das seis. Alguém é capaz de lembrar que Marcos Palmeira, Marcos Winter e Ilya São Paulo fazia o papel dos três famosos? Que fiasco.

3. Festinhas de aniversário acontecem periodicamente a cada cinco anos. A dos 25 foi apresentada com o “a Globo 90 é nota 100″, uma dessas canções tão inesquecíveis quanto “hoje é um novo dia de um novo tempo que começou”…

4. De todas as mensagens de final de ano, a mais criativa mostrava o elenco global desempenhando papéis diversos. O slogan todos lembram: invente, tente, faça um 92 diferente.

5. Em 1984, no aniversário de São Paulo, o Jornal Nacional apresentou uma reportagem referindo-se a “grande festa” da população. A matéria cita rapidamente o verdadeiro pretexto do encontro: o clamor popular por Diretas Já. Episódio bastante controverso.

6. Eleições presidenciais de 1989. Após o último debate entre os candidatos Lula e Collor, o JN exibe um “compacto”, cuja edição favoreceu descaradamente o então caçador de marajás do PRN e, coincidentemente, futuro presidente eleito.

7. A Globo também teve o seu Gil Gomes: Hélio Costa era figurinha carimbada das reportagens policiais. Antes mesmo do Linha Direta ganhar cara com Marcelo Resende, ele já comandava um programa com o mesmo tom, no final dos anos 80 – antes de embarcar na carreira política.

8. Leda Nagle! A mulher era sinônimo de Jornal Hoje! E tinha a entrevista do sábado… Além do inesquecível bordão: “a gente se vê, com certeza”. Não vi mais, com certeza.

9. Atire a primeira pedra quem não treme e vira os olhos imediatamente para a TV ao ouvir a musiquinha do Plantão. Funciona, afinal de contas a grade da programação é sagrada: só pode ser interrompida por algo extremamente relevante.

10. Hoje ninguém suporta o Fantástico. Há quem tenha completa ojeriza da revista eletrônica dominical. Mas não há como negar: todos lembram ao menos uma abertura – coisa que também é relegada ao passado. A minha preferida é aquela que tinha prismas, arco-iris e um fundo preto.


Atualizado: Tava demorando pra aparecer a propaganda com todo o elenco reunido cantando uma musiquinha. E ela está no ar: todos de branco, alternando imagens de um amanhecer. Como se tudo ainda estivesse apenas no começo. Eis a musiquinha, criada pela agência DM9DDB:

Todo dia, a cada manhã
É o futuro chegando pra nos despertar
Vem trazendo um novo amanhã
Mais uma chance de recomeçar
É o sol que vem iluminar
É a Globo que vem convidar
Diga bom dia

Todo dia há de ser diferente
Um pouco melhor a cada acordar
Porque o tempo é de olhar para frente
Em todos os cantos, em todo lugar
A vontade nos torna gigantes
Pra dar mais um passo adiante
Diga bom dia, com a Globo diga…

Todo instante, a cada momento
É a Globo mudando ao nosso redor
Com você e o poder do talento
Chegando mais longe, fazendo melhor
O horizonte avisou que chegou
Vamos lá que o futuro raiou
Diga bom dia, com a Globo diga…

11. Aberturas de programas e novelas sempre despertaram a minha curiosidade. A do Viva o Gordo, com Jô Soares contracenando com personagens históricos, era uma das mais bacanas – em 89, a TV Pirata usou o mesmo recurso, mas com passagens marcantes das novelas globais.

12. No início dos anos 90, juntaram o velho Chico City com a TCV, emissora fictícia do cansativo programa do Chico Anysio. Virou uma terra onde Justo Veríssimo era prefeito, Tim Tones pregava e Kenny Rocha, popstar criado pela propaganda da Poupoteca Nacional, cantava semanalmente. Ninguém sente falta.

13. Nem todos os programas do Chico Anysio naufragaram: a Escolinha do Professor Raimundo, que fazia sucesso no programa semanal, conquistou sua independência e permaneceu como verdadeiro “depósito de humoristas” durante um bom tempo.

14. Dois pilares da TV Pirata foram pinçados quando o programa acabou e reformatados em uma nova idéia: Luís Fernando Guimarães e Regina Casé viajaram pelo país em busca de novas histórias no Programa Legal. Em minha modesta opinião, talvez tenha sido a melhor coisa já feita pela Globo em sua história.

15. O Criança Esperança, na verdade, é o espólio dos antigos especiais dos Trapalhões. O primeiro, inesquecível, celebrava os 15 anos do quarteto. O segundo, dos 25 anos (e sem Zacarias) consagrou o tema “Amigos do Peito”, que virou hino da campanha anual em parceria com a Unicef.

16. Tudo bem que todo mundo lembra quem matou a Odete Roitman. Quem não sabe poderia chutar Adalberto Vasconcelos, o serial-killer de A Próxima Vítima – na minha opinião, a melhor tentativa de reinventar uma novela.

17. Roque Santeiro, novela que comemorou os 20 anos da Globo, era para ser presente dos 10 anos. Mas a censura não gostou da história de Dias Gomes e vetou. Betty Faria, que seria a Viúva Porcina, acabou embarcando na novela substituta junto com todo o elenco: Pecado Capital.

18. Menção honrosa para Que Rei Sou Eu, que soube reproduzir com muito bom humor o momento socio-econômico do país em Avilan, um reino distante no tempo e no espaço. Se isso já estava claro durante a novela, ficou escancarado na última fala do personagem Jean Pierre: “Viva o Brasil!”.

19. 1996 marcou a inauguração do Projeca, ambiente que reune toda a central de produções da emissora. A primeira cena gravada no novo ambiente foi da novela Explode Coração – aquela que a cigana usava Internet. Lembrada apenas pela interpretação do cigano Igor.

20. Poucos lembram do Caso Verdade – cuja idéia era dramatizar histórias reais. Legal mesmo foi dar a chance do povo escolher o final delas: viva o Você Decide. Que tinha ainda Virgínia Novicki semanalmente em alguma praça ouvindo o povo.

21. Podem me chamar de saudosista, mas uma coisa é o Sítio do Picapau Amarelo hoje. E outra era com Zilka Salaberry, Rosana Garcia, André Valli, Reny de Oliveira, Jacyra Sampaio, Canarinho, Tonico Pereira… É fechar os olhos e lembrar da nave Sabugus I cruzando o espaço rumo ao Planeta X.

22. No final dos anos 90, antes da TV Colosso, a emissora reexibia “Mundo da Lua”, seriado de sucesso da TV Cultura. Antônio Fagundes e Gianfrancesco Guarnieri, que pertenciam a Globo, foram emprestados para estrelar a inesquecível série da estatal paulista.

23. O ano era 1986. Uma loira ex-mulher de Pelé e figurinha popular da TV Manchete estreava um programa infantil diário, no lugar do Balão Mágico O Xou da Xuxa, que ficou no ar por mais de dez anos, foi um marco indiscutível. Saudades do trio Dengue Praga Moderninho. O incrível é que não sabem o que fazer com a Xuxa hoje.

24. Por que será que a atual geração Pokemon não tem o direito de assistir aos especiais do Balão Mágico, ou mesmo aqueles com o dedo (e os filhos) do Augusto César Vanucci – Plunct Plact Zuuum e Pirlimpimpim?

25. Antes do Balão Mágico tinha o TV Mulher, com Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias. Além de quadros com Clodovil e Marta Suplicy. Deu origem a toda programação feminina que invade as tardes de hoje.

26. Malhação? Que nada: Armação Ilimitada, formada pela “estranha” família Juba, Lula, Zel e Bacana, foi mais um dos ícones produzidos pela Globo. Aliás, programas inovadores sem apelação como esse fazem muita falta…

27. Curiosamente, o padrão Globo de Qualidade não funcionou bem com game-shows. Juba e Lula foi um exemplo de fracasso, ao lado de Radical Chic (com a Maria Paula), Ponto a Ponto (com Márcio Garcia e Danielle Winits), Bobeou Dançou (com a Xuxa)… O negócio deles é mesmo quadros em programas maiores.

28. Maria Paula, Cris Couto e Zeca Camargo: talvez tenha sido o único trio gerado pela MTV a vingar na Globo. As passagens de figuras como Thunderbird e Casé – que chegou a encabeçar um programa só seu nos domingos à noite – exemplificam como funciona a “maquininha global”.

29. Essa é recente: enquanto preparam o lançamento do Big Brother Brasil, seu rival histórico SBT aparece com a Casa dos Artistas, na mais deliciosa “briga” entre as duas. Mais divertido ainda foi o desempenho de Marisa Orth no início do programa.

30. Agora que o BBB é sucesso, dificilmente a Globo vai ressucitar seu No Limite, primeiro Reality Show pra valer. Nem mesmo seu sucessor escatológico, também com Zeca Camargo no comando.

31. Os primórdios do Domingão do Faustão lembravam mais seu extinto Perdidos na Noite. Tinha música escrachada de Sullivan e Massadas e quadros como Controle Remoto e Jogo da Velha (com Dercy Gonçalves). Era mais tragável.

32. A Globo nunca sabe o que fazer com seu dia 31 de dezembro. Pensava ter encontrado a melhor saída ao botar o Reveillon do Faustão, que acabou para dar lugar ao morno Show da Virada – talvez funcione porque ninguém assiste. Acertaram na mosca ao exibirem 2001: Uma Odisséia no Espaço na virada do século.

33. Uma das coisas que a Globo valorizava mais e que hoje se resume ao Fama é a parte musical. Desde o programa Chico e Caetano, passando por Geração 80 (com Nádia Lippi e Kadu Moliterno), pelo jurássico Globo de Ouro, sem esquecer o bom e velho especial com Roberto Carlos. E o Concertos para a Juventude, teria espaço hoje?

34. Enquanto a matriz acabou com o Som Brasil – de Rolando Boldrin, Lima Duarte e Ranchinho , a RBS TV, mais antiga das afiliadas da Globo, permanece com o seu Galpão Crioulo, basicamente com os mesmos moldes dos últimos anos. Enfim, a RBS TV já completou seus 40 anos, em 2002.

35. Séries internacionais toscas diversas: Manimal, Curto Circuito, Magnum Duro na Queda, Dama de Ouro, Na Mira do Tira, A Gata e o Rato… Além das comédias Super Vicki, Primo Cruzado… O imperdoável é que a emissora nunca exibiu a abertura original de seus seriados.

36. Podem me bater, se quiserem: mas eu só assisti ET quando passou na Globo. Aliás, a exibição inédita após dez anos do lançamento nos cinemas era tão impactante que a chamada daquele fim de ano em 1991 era “um verão E.T. anto na Globo”.

37. Fernando Vanucci comendo bolacha! Talvez tenha sido a gafe mais barulhenta – tanto que rendeu uma demissão “de chlap” para o consagrado narrador dos gols da rodada. Sem lero lero nem vem cá que eu também quero.

38. Acaboooooouu!!! Acabooooooooouuuuu!!!! É teeeeeetraaa!!!! É teeeeeetraaa!!!! É teeeeeeeeeeetraaaaaaaaa!!!! Galvão Bueno esganando o Rei Pelé após o antigol de Roberto Baggio na Copa de 94 é certamente o momento esportivo mais lembrado.

39. Convém lembrar ainda da célebre faixa: Galvão, vai pentear macaco. Tremenda injustiça: todos sabem que, com Galvão é mais emoção.

40. E pensar que o Programa Sílvio Santos começou na Globo… Se bem que, até aí, o Homem do Sapato Branco e o Topo Giggio também.

Agora é a sua vez de aumentar a lista – garanto que é possível chegar a mais 40 itens.

Sopram ventos desgarrados

Por Marmota | 25/04/2005, 16h29

Finalmente, estamos de volta. Fotos e histórias novas – algumas vão parar aqui durante os próximos dias. Algumas músicas fizeram parte da trilha sonora do bate-volta: Green Day, Papas da Língua, Barão Vermelho, Eagle-eye Cherry, Pitty, Marron 5… E uma não sai da minha cabeça. Desgarrados, de Mário Barbará. Traz a idéia de como eram as coisas há alguns anos, de como estão agora, do tempo que passo longe do sul, da vontade que aumenta em ficar… Além da sensação nostálgica de que nada será como era antigamente. Para o bem ou para o mal.

Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas
Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas
E são pingentes das avenidas da capital

Eles se escondem pelos botecos, entre os cortiços
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias
E então são tragos, muitos estragos, por toda a noite
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho

Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso
Viraram brasas, contavam casos, polindo esporas
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço
Arreios firmes e nos pescoços lencos vermelhos

Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno
O milho assado, a carne gorda, a cancha reta
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho

Sopram ventos desgarrados,
Carregados de saudade
Viram copos viram mundos,
Mas o que foi nunca mais será…

Quem são os gaúchos sem-noção

Por Marmota | 24/04/2005, 20h22

Porto Alegre (RS) – Mesmo sem TV durante quatro dias, é praticamente impossível desconectar e ignorar os assuntos do momento. Ainda mais quando eles circulam durante todos os churrascos que passei nesse período. Faltando poucas horas para embarcar de volta, seguem os assuntos campeões da “agenda setting” gaúcha – links externos da Folha Online, que tem mecanismo de busca e agiliza o trabalho de quem decide escrever no blog enquanto está fora.

***

Joaquim conheceu Andréa pela internet. Ela é de Bragança Paulista; ele, de Bom Retiro do Sul – uma das inúmeras cidades minúsculas do Vale do Taquari. Começaram a namorar. O sujeito, inclusive, já pensava em casar e morar com a moça nos EUA. No último dia 10, ela recebeu um pacote. Parecia um presente. Ao abrir, descobriu uma bomba.

O cururu, que deixou pistas claras, já foi preso e submetido a exames. A moça perdeu a mão e a visão do olho esquerdo. Quem está de fora questiona as razões que levaram o cidadão a fazer isso. Também aconselham quem não vê problemas com a grande rede: “cuidado com essa gente louca que fica na Internet”.

***

No último domingo, pelotenses e gente de outros municípios participaram de uma passeata, protestando a morte de uma cadela prenha. O responsável pela barbaridade amarrou o bichinho ao pára-choque e acelerou. Em poucos minutos, restaram apenas pedaços. Bom saber que, em um país onde queimar mendigo ou deixar alguém passar fome é algo normal, restam aqueles que se chocam e ficam indignados com certas barbaridades.

A história, que ganhou força ao aparecer no Jantástico do dia 17, está longe de acabar. A polícia já apreendeu um veículo e se esforça para identificar os suspeitos. E deve ganhar força à medida em que o blog da cadelinha se popularizar. Ao mesmo tempo, um zemané criou um perfil no Orkut, “confessando” o crime e “pedindo desculpas” pelo que fez. Trote, claro.

***

Por fim, futebol. E aqui, o mundo se divide entre gremistas e colorados. Os primeiros, decepcionados, recebem Mano Menezes como novo treinador. Os demais, felizes com o título gaúcho e com a vitória suada na última quinta-feira, diante do Paulista.

E eu estava lá! Aliás, enquanto os repórteres de rádio faziam seu trabalho nos intervalos entrevistando os jogadores, tive que ouvir o seguinte comentário: “mas bah, essa imprensa é um pé no saco, né?”. Pois é. Como os dois de cima, taí mais um bando de sem-noção…

Escrever é cortar palavras

Por Marmota | 22/04/2005, 08h06

Porto Alegre (RS) – A frase acima é atribuída a Carlos Drummond de Andrade. Também já ouvi de editores-chefe de telejornais, preocupados com o tempo das matérias. A verdade é que o mundo parece não ter mais pique para engolir grandes quantidades de texto diárias. Também pode servir como desculpa daquele povo que diz não ter tempo pra nada, nem mesmo ler placa de rua.

Versão UOL Tablóide
A idéia de que qualquer um pode fazer um microconto já foi defendida pelo meu grande amigo Editor do UOL Tablóide, há cerca de um ano, assim que Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século foram lançados:

Nós, pessoas mortais, também podemos criar, mesmo que nossas fantásticas e humildes criações não figurem no livro supracitado. E acabei produzindo meus próprios minicontos – seis, na verdade. E eles são independentes uns dos outros, mas podem ser lidos em seqüência. Em qualquer seqüência, aliás.

A surpresa diante da surpresa
– Meu Deus!
– Meu Deus?!

A indignação diante da surpresa
– Meu Deus?!
– Ah vá!!!

O insulto diante da indignação
– Ah vá!!!
– Vai você!!

A ojeriza diante do insulto
– Vai você!!
– Você, hein?

A surpresa diante da ojeriza
– Você, hein?
– Meu Deus…

A surpresa diante da surpresa
– Meu Deus…
– Meu Deus?!

Talvez tenha sido esse o mote para o sucesso dos microcontos, que ficaram conhecidos do público tupiniquim com o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizados pelo Marcelino Freire. Ele mesmo cita o microconto mais famoso do mundo, do escritor guatemalteco Augusto Monterroso. Tem começo, meio, fim e 37 letras:

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

Ele praticamente “estipulou” a regra básica para um microconto ao lançar seu livro: basta contar uma história usando no máximo 50 letras, sem contar pontos e espaços. Trata-se não apenas de um exercício de síntese a favor dos tempos modernos, mas um belo desafio literário.

Marcelino Freire conseguiu reunir cem escritores no livro. Nesta semana, os microcontos ganharam outro espaço nobre: A Casa das Mil Portas, projeto do pai da blogosfera tupiniquim Nemo Nox. A idéia é exibir aleatoriamente uma coleção de microcontos escritos por blogueiros.

“Ninguém vai ganhar dinheiro com isto e dificilmente alguém ficará famoso por causa disto, a idéia é nos divertirmos e divertir os leitores”, adiantou Nemo ao convidar a trupe para compor as portas. Os primeiros microcontos da casa foram feitos por Affonso Guerrero, Alexandre Inagaki, Alex Castro, Crib Tanaka, Daniel Q., Daniela Bertocchi, Dauro Veras, Elton Pinheiro, Fer Guimaraes Rosa, Fernando Serboncini, Fred Leal, Herbert Farias, Leandro Oliveira, O. Roman, Rafael Lima, Renata Crispim, Smart Shade of Blue e Su. E vem muito mais por aí.

Claro que a brincadeira não é restrita a escritores ou blogueiros escolhidos a dedo: você também pode experimentar e, quem sabe, revelar seu microtalento – no bom sentido, claro. Se serve como sugestão, comece de uma forma bem simples: pegue um texto seu ou escreva uma história usando um parágrafo ou dois. E corte palavras, resuma idéias, guarde conceitos nas entrelinhas.

Vejam só o que fiz, sem pensar muito, pensando na idéia da “correria” – feita por aqui esses dias:

“Foi só sair da cama e… Uia, de repente já cheguei!”

Escrever é fácil. Difícil é ficar bom… Mas aí é questão de prática: o importante é começar.

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