quarta-feira, 30 de março de 2005

A TV Pirata é nota seis

Durante o Carnaval carioca de 1988, os caminhões de som da Marquês de Sapucaí alternavam placas que instigavam o telespectador global: eram as estréias da emissora daquele ano. Uma era “Tela Quente”, filmes blockbuster às segundas-feiras – horário que, até 87, pertencia a Jô Soares, contratado naquele ano pelo SBT. Outra era mais enigmática: TV Pirata.

O mistério foi resolvido no dia 5 de abril, uma terça-feira. Um estúdio de TV foi invadido por um navio pirata, de onde desembarcaram sujeitos assustadores e dispostos a alterar a programação. Armados até os dentes e munidos de uma fita de rolo, os invasores finalmente conseguem tomar o set, após chutes e pontapés acompanhados por uma trilha sonora inconfundível e alguns nomes rolando na horizontal, ao pé do vídeo.


Em 1990, a TV Pirata pegou carona no jingle de aniversário dos 25 anos da emissora – a Globo 90 é nota 100. No primeiro programa do ano (que apresentou Denise Fraga e Maria Zilda), a trupe exibiu uma paródia, mantendo o clima e as cores da vinheta. A música inesquecível reaparece em algumas opções do DVD:

Não tem pra vocês
A TV Pirata é nota 6
Deu pra passar
Só que tivemos que colar

Não é genial
Mas tem gente que gosta
Falam tão mal
Mas não é essa droga
Entra ano e sai ano
A gente insiste
Afinal tem gente que assiste

(uh uh)

25 anos juntos
Tentando outra vez
Não tem pra vocês…


No mesmo ano, a abertura (que em nada remetia a dos anos anteriores) ganhou uma musiquinha mezzo latina mezzo funk, com a cara (e os clichês preferidos) dos "cassetas". Pelo que pude apurar, era interpretada por Mu Chebabi, parceiro musical da trupe. Essa não tem no DVD – e pessoalmente, não sei se alguém sentiria falta.

Ô lôco
Nêgo tá latindo
Pra economizar cachorro

Vendendo a própria mãe
Sem discutir o preço
O mundo vai acabar
E é só o começo

É fim de festa
Se não quer dar, empresta

Solta a franga
Senta que o leão é manso
Se o pato não vem
Então o lance é afogar o ganso

Tá pagando mico
Manda tudo pro espaço
Melhor armar o circo
Pra descabelar o palhaço

A começar pelos atores: Cláudia Raia, Cristina Pereira, Débora Bloch, Diogo Vilela, Guilherme Karan, Louise Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Marco Nanini, Ney Latorraca e Regina Casé. Na sequência, a trupe de redatores: Luis Fernando Veríssimo, Mauro Rasi, Alexandre Machado, Vicente Pereira, Patrícia Travassos, Pedro Cardoso e os “cassetas” Bussunda, Marcelo Madureira, Reinaldo, Beto Silva, Hubert, Cláudio Manoel e Hélio de la Peña. Todos sob a coordenação de Cláudio Paiva. Locução de Ciro Jatene, direção de Guel Arraes e José Lavigne.

Quem estava acostumado com Viva o Gordo, Chico Anysio Show, Praça da Alegria e todos os seus derivados, ficou surpreso. Não havia piadinhas comportadas seguidas da boa e velha claque. Mas sim um irreverente e descarado deboche a programação da TV e ao comportamento humano. Satirizavam filmes, novelas, telejornais e comerciais. Ao mesmo tempo, esculachavam situações do cotidiano. Aquele bando de bucaneiros revolucionou a linguagem dos programas de humor. Trouxe para o horário nobre o politicamente incorreto e o nonsense. Chacoalhou a crítica e o público, além de imortalizar personagens.

O auge do programa foi mesmo em 1988. Ainda segurou o fôlego no ano seguinte – quando a abertura “navio pirata” foi substituída por uma revisita ao velho Viva o Gordo: ao invés de Jô, era o elenco que contracenava com cenas antológicas: Cristina Pereira lança um papelzinho inocente em sua zarabatana-bic em Renato Villar (Tarcísio Meira), que se contorce sob a mesa; o bombeiro Luiz Fernando Guimarães quer resgatar Gabriela (Sônia Braga) e acaba caindo com escada e tudo; Claudia Raia toma banho na primeira cova aberta por Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Ainda em 1989, Pedro Paulo Rangel entrou no lugar de Marco Nanini.

Como acontece com tudo que começa inovador, alternativo e “chacoalhante”, os efeitos da fórmula da TV Pirata perdia seu efeito. Em 1990, quando Maria Zilda e Denise Fraga desembarcaram na sede da “emissora”, a coisa já caminhava para o seu final. Tanto que não durou até o final do ano. A Globo ainda tentou dar sobrevida ao programa em 1992 – quando o programa, um dos quadros mensais alternados na “Terça Nobre”, contava ainda com Otávio Augusto, Antõnio Calloni e Marisa Orth. No melhor deles, Ney Latorraca confessa ter matado Barbosa “por estar de saco cheio”.

O DVD – Assim que saiu a pré-venda do DVD de TV Pirata, garanti a minha cópia. Por algumas razões. Não perdia um programa, mesmo na fase “ah, assiste aí”. E não tenho Multishow, canal a cabo que reprisa o programa também em comemoração aos 40 anos de Rede Globo. Vale cada centavo, apesar da recomendação de Claudio Paiva, responsável: “tentei colocar apenas as esquetes e personagens que não envelheceram, que são atuais”.

De fato, se cada fã tivesse em mãos os três anos de TV Pirata e tivesse que escolher apenas oito horas, ficaria maluco. Ainda assim, tenho a minha lista de ausências sentidas, a começar pela abertura clássica – cuja referência está apenas na musiquinha do menu. Também não estão lá o Caveira, os Super Heróis, a equipe Brazuca de F1, o Casal Telejornal, os soldados de Combate, a Janela Indiscreta, A Coisa, Sabrina (Os Diamantes Não São Para Comer), Super Safo, e a maior delas, na minha opinião um crime: Elesbão. Aquele que não tem amigos.

Mas o Plantão da Farmácia Central está representado com Adelaide Catarina, Sargento Garcia e um dos links da campanha Milionário Esperança (que, aliás, só aparece aí). Também tem bastante Campo Rural e TV Macho, matando saudades de Mimosa e Zeca Bordoada. Paiva selecionou ainda uma edição de Piada em Debate, Na Mira do Crime, Black Notícias, As Presidiárias (Tonhão, Olga, Cristiane F e a dondoca cujo nome foge), Barbosa Nove e Meia (entrevistando Sassá Mutema) e Morro do Macaco Molhado (Malandro é malandro mesmo, não dá mole pra mané…).

Essa é a melhor parte do primeiro DVD, dividido em quatro blocos: TV Pirata 1 e 2, que traz o conteúdo acima além de sátiras – bem datadas – às novelas Que Rei Sou Eu e Tieta, filmes em cartaz na Tela Morna e na Sessão Ressaca, além de comerciais impagáveis, inspirados no Free (alguma coisa a gente tem em comum), Valisere (o primeiro sutiã), US Top (bonita camisa, Fernandinho) e o presunto Sadia (esse não é… Hmmm, tá querendo me enganar, é?).

Os outros dois blocos do primeiro disco são esquetes, relacionadas ao cotidiano. Ali reaparecem inversões sociais – o mendigo doido por cachaça e o jovem que quer ser negro, o trio amoroso Shirley-Euclides-Ricardão, além do Sindicato das Mães. Talvez a parte mais compreensível do público que não estava neste planeta entre 88 e 92. O segundo disco resgata os 33 capítulos de Fogo no Rabo, além de todos os episódios de O Segredo de Darcy – pessoalmente, preferia assistir apenas alguns e substituir parte deles por qualquer referência a Rala Rala. Afinal, quem tiver fôlego para rever Barbosa, Reginaldo Nascimento (e seus irmãos), Natália, Penélope e Agronopoulos, poderia perfeitamente relembrar Índio Cleverson, Daniele Aparecida, Cabocla Jupira, Ivanhoé e a intragável Nonata.

A conclusão é simples: os fãs da época, como a maioria dos trintões repletos de inexplicáveis reminiscências oitentistas, vão ficar com vontade de assistir mais. E quem não conhecia terá nas mãos material suficiente para sentir os altos e baixos do programa – sem deixar de dar risadas. Vai saber de onde surgiram Casseta e Planeta Urgente, Os Normais, Programa Legal e Os Aspones. E vai se perguntar por que diabos ainda insistem na Zorra Total.

segunda-feira, 21 de março de 2005

Em busca de um “manual de redação” online

No início, era apenas uma rede parruda para troca de informações entre grandes centros de pesquisa (ou organizações militares). A coisa foi ficando comercialmente viável assim que inventaram uma cara diferente para essa rede: a tal web. A brincadeira se popularizou cada vez mais e, de repente, jornais e outros impressos decidiram que era uma boa idéia transportar o conteúdo de seus veículos para esse ambiente. O tempo passou e o mundo percebeu três fundamentos básicos para levar a sério o jornalismo na Internet:

- Não adianta só “repetir” o noticiário do jornal. O internauta é um sujeito ansioso, que normalmente liga e conecta seu computador em busca de uma informação específica. Para agradá-lo, é preciso ao menos atender suas expectativas – se possível, superá-la.

- A palavra ainda é a melhor forma de transmitir qualquer informação, mas existem outras formas. Fotos, áudio, vídeo, animações em flash… Cabe ao responsável por essa “transmissão” decidir qual (ou quais) são as formas mais claras de se conseguir isso.

- Qualquer indivíduo, independente do que tenha na cabeça, mas desde que possua um computador conectado à Internet é um potencial “editor de conteúdo”. O que por um lado é bom – em muitos casos essa “democratização” da informação não passa por interesses, comuns em grandes corporações. Por outro lado, é ruim – ironicamente pelo mesmo motivo.

A maioria dos livros ligados a jornalismo online passam por esses três itens, cada qual com alguma profundidade. Há quem estabeleça dogmas sobre “tamanho de texto ideal”; outros discutem formas e formas de se trabalhar com hipertexto. Isso sem falar em publicações baseadas em teses de mestrado e doutorado, com enfoque mais acadêmico, normalmente ligados a cibercultura e outras teorias.

Enfim. Fora três nomes que lembro de cabeça agora (Jornalismo Digital, Pollyanna Ferrari; Guia de Estilo Web, Luciana Moherdaui; Jornalismo na Internet, J. B. Pinho), não existem muitas opções, digamos, “práticas”. Algo como um “manual de redação do webjornalista”, mesmo ligado a algum portal – o UOL se baseia no Manual da Folha.

Tudo isso para compartilhar mais este lançamento, em Espanhol: Redacción Periodística en Internet, do professor Ramón Salaverría. Segundo ele, uma “introdução prática a escrita em publicações digitais”. Ou seja: mais uma forma de se buscar um “manual”. Vou encomendar o meu, basicamente, em busca de uma resposta para a pergunta: até que ponto as constantes mudanças deste ambiente virtual permite um “manual”, digamos, definitivo?

Aliás, qualquer hora dessas arrumo um tempinho para montar um wiki sobre jornalismo online por aqui.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Um fenômeno chamado Rocky Horror Show

Em uma tentativa bem sucedida de aliviar a tensão e relaxar, aceitei o convite para comparecer ao Vivo Open Air na última segunda-feira. A atração da noite era o filme The Rocky Horror Picture Show, de 1975. No elenco, Tim Curry e Susan Sarandon, irreconhecíveis.

Trata-se da coisa mais nonsense que o ser humano já foi capaz de criar – e por isso, engraçadíssimo. O carro de um casal de noivos virgens quebra na estrada e, debaixo de chuva, eles descobrem um castelo. Lá, alienígenas transilvânicos, entre eles um doutor transformista, transformam a noite do casal. Mistura pornografia, terror, ficção científica e músicas que ficam eternamente na cabeça do espectador.

Acreditem: mesmo sendo um filme B de quinta categoria, conseguiu resistir ao tempo e segue vivo mesmo após 30 anos – mesmo fora do circuito GLS. Tudo porque, certa vez, um fanático pelo longa-metragem apareceu no cinema fantasiado. E a moda pegou. Mais do que isso: um grupo de entusiastas nova-iorquinos criou uma série de “atos interativos”: a cada sessão do filme, a platéia caracterizada participava ativamente.

The Rocky Horror Picture Show era para ser um fracasso, mas virou religião. Tanto que a cidade de Las Vegas recebe em junho uma convenção de fãs. Que certamente vão executar todas as performances e cantar as músicas inúmeras vezes.

Ficou curioso? Arrume o DVD e convide os amigos em casa. Aproveite para acompanhar as instruções para participação. Tradução livre do site oficial do fã-clube.


Na foto: um clone do Vinny, Tim Curry transexual e Susan Sarandon com cara de bebê

Arroz: Na primeira cena do filme, dois amigos de Janet e Brad se casam. Assim que os noivos deixam a igreja, pegue um punhado de arroz e jogue pela platéia.

Jornais: Quando Brad e Janet estão fugindo da chuva, a mocinha utiliza um jornal para cobrir a cabeça. Pegue uma folha de jornal e faça o mesmo.

Pistolas de água: No mesmo momento, alguns membros da platéia “simularão” a tempestade com instrumentos do gênero – por essa razão, é bom levar o jornal.

Luzes: Durante a canção cujo verso é “There’s a light / Over at the Frankenstein Place”, acenda uma luz. Serve uma vela, um isqueiro, uma lanterna…

Dança transilvânica: Durante a canção mais animada do filme – Time Wrap, siga os passos indicados pelo filme e dance também. Sem constrangimentos.

Luvas de borracha: Durante o discurso da criação, o Doutor Frank N. Furter “estala” suas luvas cor-de-rosa três vezes. Estale também, mantendo um sincronismo capaz de realizar um excelente efeito sonoro.

Barulhos: Ao final do discurso, os espectadores transilvânicos comemoram entusiasmados, usando línguas de sogra, matracas, entre outros apetrechos barulhentos. Pegue o seu e siga o coro da maioria.

Confete: Quando Doutor Frank termina de cantar “Charles Atlas Song”, os transilvânicos jogam confete em Rocky, o loirão criado por Frank. Obviamente, faça o mesmo.

Papel higiênico: Quando Dr. Scott aparece no filme, aparece o rosto de Brad em close e, após um rápido silêncio, ele diz: “Great Scott”. Scott é uma marca popular de papel higiênico nos EUA. Por essa razão, rolos voam pela sala nesse momento.

Torradas: Durante o jantar, Frank propõe um brinde aos convidados – “a toast”. Aqui, os espectadores arremessam torradas ao vento.

Chapéu de festa: Após o brinde, Frank coloca um chapeuzinho de aniversário. Faça o mesmo.

Sino: Durante a música seguinte, Frank canta “Did you hear a bell ring?”. Nesse momento, chacoalhe o seu sininho. Um molho de chaves também serve.

Baralho: Em uma das canções finais, Frank canta “Cards for sorrow, cards for pain”. Hora de jogar cartas de baralho para cima. Nessa altura, a sala de cinema já está uma verdadeira IMUNDÍCIA.

Quem assistiu a exibição ao ar livre na última segunda, encontrou uma platéia tímida, mas que executou algumas das tarefas acima. Uma simpática mocinha, fantasiada de Columbia (uma das personagens) distribuia kits com arroz, torradas, jornal, matraca e papel higiênico. Além de uma folha sulfite com as instruções acima.

Há quem tenha ido simplesmente para ver o filme pela primeira vez, como eu. Em todos os casos, a chuva forte, aliada aos raios e trovões, provocaram um efeito espetacular aos cidadãos que acompanharam o culto trash das arquibancadas do Jóquei Clube.

Claro que, assim que pintar a chance, vou participar de uma sessão mais, digamos, ativa do filme.

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