Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: fevereiro/2005

Blog é fashion – e rende uma grana!

Por Marmota | 24/02/2005, 12h15

Essa eu descobri no Nemo Nox – e cá entre nós, ah se eu tivesse descoberto antes. É sabido que a web norte-americana está sempre alguns bons passos à frente. Isso inclui os blogueiros, que conquistaram alguma credibilidade durante as eleições presidenciais, e agora querem algo ainda mais importante, sob a ótica daquela nação: ganhar dinheiro.

Pois bem. Paul Chaney concebe novas formas de comunicação empresarial usando ferramentas como blogs e feeds em seu Radiant Marketing Group. Susannah Gardner, especializada no mesmo ramo, é autora do livro Buzz Marketing With Blogs, prestes a ser lançado. O assunto: usar blogs como ferramenta de negócios.

Enfim. Os dois uniram suas forças e tiveram uma idéia brilhante: aproveitaram o boom da ferramenta e criaram camisetas, bolsas, roupas para o bebê e o cachorro… Entre outros itens, todos com motivos bloguísticos. Puseram tudo isso para vender num site do tipo “create & sell service”.

Voilà: está criada a moda do Bloggerwear, para blogueiros profissionais e dedicados ao seu querido espaço.

A brincadeira recém começou: a idéia é incluir canecas, adesivos, buttons, entre outras quinquilharias, nas próximas semanas. Mas já é possível encontrar alguns produtos, todos com frases bem boladinhas: “I blog for a living…no really, I do”, “I haven’t been fired for blogging…yet!” (essa é boa!) ou ainda “What is a blog?”, com uma extensa definição nas costas. Outra genial: um babador com a inscrição “Quit Blogging and Feed Me!”. Perfeita pro Marcos VP!

De repente, um dos meus amigos tem sobrando um pouco de tinta para tecido e algumas telas de silk-screen. Podemos começar uma pequena distribuição de camisetas do gênero em português – “Crie um blog, pergunte-me como”, “Sou blogueiro e não desisto nunca”, “Narazaki, faça um blog”… Entre outras. É só dois ou três aparecerem usando camisetas assim no ambiente de trabalho para, quem sabe, convencer os chefes de que blog não é só um “diário”.

Ou pelo menos divertir a platéia.

Mais sobre blogs – Aproveitando o gancho para recuperar dois links antigos, mas que valem a pena. O primeiro é um artigo do Ricardo Noblat, sobre suas descobertas a respeito do potencial: “Todo jornalista deveria ter um blog”, diz ele. Viu, Narazaki?

O segundo é uma matéria da Folha sobre blogs políticos, com cada vez mais adeptos. Não sabia que o Cristovam Buarque e o Bresser Pereira tinham blog. Já disse isso aqui há um tempo, mas em Portugal, o fenômeno blog aumentou consideravelmente ao constatar que um político virou blogueiro.

Para lembrar de um anjo que surgiu no meu ICQ

Por Marmota | 22/02/2005, 02h43

Dias antes do Carnaval de 2002, uma curiosa mensagem chegou na minha caixa postal. “Oi, te achei no ICQ. Se quiser conversar…”. Muito parecida com aquelas que certamente você recebe diariamente, mas sem aquelas babaquices como “oi, ker tc, de onde vc eh, tem foto”.

Lembro que, naquele dia, até comentei o fato com uma amiga por ICQ. Na mesma hora, concluímos o óbvio: pessoas que pintam do nada se tornam figuras efêmeras e passageiras.

De qualquer forma, mantive contato com ela. Bia, 25 anos. Moradora de Campinas, com a mãe. Libriana, mas não acredita em astrologia. Católica praticante, nasceu no dia de São Judas Tadeu. Pedagoga, valoriza muito a educação das crianças. Como qualquer professora, precisa preencher o resto do tempo para completar seu orçamento, e ela o faz dando aulas de inglês.

Todo esse levantamento, além de outras histórias que não vem ao caso, feito com a troca de alguns e-mails e dois telefonemas.

Na terceira ligação, finalmente marcamos um encontro. Deixei o Marmoturbo em frente ao Shopping D na manhã do dia 24 de fevereiro e embarquei num Cometa para Campinas, as dez da manhã. Detalhe importante: apenas ela tinha uma vaga idéia da minha fisionomia, graças a uma dessas fotos horrendas com cara de bobo que eu tenho. Para se certificar que não se tratava de nenhum sujeitinho abusado, a mãe foi até a rodoviária com ela.

- André?
- Bia?
- Sou eu!
- Muito prazer!

Cumprimento discreto, mas sorrisos que atestaram a empatia criada logo de cara. Até a mãe dela, aparentemente desconfiada no início, se mostrou “desarmada” minutos depois! Antes do almoço, fiquei alguns minutos envolvido em álbuns de fotografias e histórias do cotidiano – que continuaram na churrascaria Santa Gertrudes, onde fomos comer.

E aqui, um adendo: se um dia você for a Campinas, prefira outra. O atendimento desta é péssimo, e em três anos, certamente piorou. Isso se aquela espelunca não fechou.

Enfim. Se durante as primeiras horas daquele domingo já estava convencido de que a Bia tinha uma presença de espírito sem igual, essa conclusão ficou mais clara no restante da tarde, quando fizemos um “tour” pela cidade – com escala na Igreja para a missa das cinco.

Passamos em frente ao Moisés Lucarelli e ao Brinco de Ouro; fomos até a estação de Anhumas acompanhar a saída da histórica maria fumaça, andamos em frente ao parque Taquaral, esticamos até a Vila São José (para lembrar, vagamente, onde era a casa que morei quando tinha uns três anos de idade) e encerramos o dia no Shopping Galeria – nessa altura do campeonato já trocávamos as nossas figurinhas repetidas do álbum “relacionamentos fracassados”.

Deixei a cidade, já por volta das dez da noite, com aquela sensação plena de ter conhecido uma pessoa muito especial, dessas que só a presença já é suficiente para lhe trazer paz.

É uma pena que esses tais encontros internéticos são, definitivamente, efêmeros e passageiros. Nos vimos pela última vez quando fomos juntos à Bienal do Livro, em abril daquele ano de Copa do Mundo – faz tempo. Infelizmente, fica difícil arrumar uma brecha em meio as atribuições diárias para dar um telefonema.

Esse post serve como lembrete: telefonar para Campinas nesse dia 24. Perguntar a Bia se ela finalmente casou-se com o amor da vida dela (um de seus objetivos da época). Além de lembrá-la o mais importante: cuidado ao ignorar aquela mensagem despretenciosa no ICQ: pode ser algum anjo da guarda!

Ainda a viagem: trilha sonora oficial

Por Marmota | 19/02/2005, 14h18

Para quem achava que o assunto estava esgotado, surpresa: sempre fica faltando alguma coisa, aquela promessa feita assim que um grande acontecimento acaba. Nesse caso, as promessas eram muitas: um DVD e o volume 2 da trilha sonora da nossa viagem à Europa.

Isso porque o volume 1 foi concebido mediante ansiedade e expectativa, dez dias antes do embarque. A idéia era viajar antes mesmo de botar o pé no avião. A seleção musical da primeira coletânea foi democrática, pois atendeu preferências dos três viajantes. Mas ao mesmo tempo apontou para algumas músicas desconhecidas por aqui, mas que estavam no topo das paradas dos países que visitaríamos.

1 Pink Floyd – Take It Back
2 Abba – Dancin Queen
3 Ludov – Dois a rodar
4 Bryan Adams – Open Road
5 Madredeus – Haja O Que Houver
6 Norah Jones – What Am I To You
7 Fangoria – Miro La Vida Pasar
8 Freddy Mercury & Montserrat Caballe – Barcelona
9 Santa Esmeralda – Don’t Let Me Be Misunderstood
10 Aventura – Obsesion
11 Eartha Kitt – C’est Ci Bon
12 Anastacia – Sick And Tired
13 Mylene Farmer & Seal – Les Mots
14 U2 – Everlasting Love
15 Gino Paoli – Senza Fine
16 Eros Ramazzotti – Ti Vorrei Rivivere
17 Moby – In This World
18 The Jesus and Mary Chain – Just Like Honey

Como tentou ser algo bem diversificado, o CD dividiu opiniões. Mais do que isso, gerou uma pequena polêmica: um CD pensado antes da viagem pode ser considerado uma tentativa de premeditar as coisas – o que muitas vezes não vale a pena. Tudo que pode criar alguma expectativa dá margem a erros, e dependendo da subjetividade envolvida, os tais erros são gigantescos.

Mas no fim, muitas das músicas do CD 1 reapareceram durante os 20 dias! Claro que, como todos imaginavam, outras músicas vieram e marcaram sua presença. A overdose de sucessos do passado no avião, a proliferação de clones do Michael Stype durante todo o passeio (que tornou o novo sucesso do REM a música oficial da viagem), entre outras que cantarolávamos ou esbarrávamos no caminho… O CD 2 era inevitável.

1 REM – Living New York
2 Wet Wet Wet – Love Is All Around
3 Lionel Richie – All Night Long
4 The Byrds – Turn, Turn, Turn
5 Huey Lewis and The News – The Power of Love
6 Phill Collins – Take A Look At Me Now
7 Agepê – Deixa Eu Te Amar
8 Hoobastank – The Reason
9 Cola Jet Set – Quiereme
10 Joss Stone – You Had Me
11 David Bowie – The Man Who Sold The World
12 Melendi – Con La Luna Llena
13 Ewan McGregor – Your Song
14 Maroon 5 – This Love
15 Renato Russo – Serenissima
16 The Smiths – Ask
17 T-Rio – Mamae Eu Quero
18 The Beatles – Let It Be

Ficaram faltando algumas – não encontrei, por exemplo, o nome da versão em inglês do sucesso do Ovelha (o “sem você não viverei”), que ouvimos no táxi em Barcelona. Independente das ausências, só concluí o CD nessa semana. Evidentemente, são duas edições limitadíssimas.

E aos poucos, minhas promessas se transformam em realidade. O que quer dizer que o DVD “Perdidos na Europa”, entre outros filmes e trilhas do passado engatilhados, ficarão prontos até o Natal. De 2019.

Aconteceu no sábado de Carnaval

Por Marmota | 14/02/2005, 15h49

09h58 – Sem trânsito, ruas desertas, vagas abundantes para estacionar. Assim é a cidade de São Paulo num feriado prolongado. Para alguém como eu, que detesta Carnaval, foi uma dádiva sair de casa para trabalhar. Sorridente, encosto o carro a alguns metros da labuta e sigo caminhando: tenho dois minutos para bater meu cartão.

11h37 – Oitocentos quilômetros dali, um amigo meu acordou. Ele mora em São Paulo, mas estava em Laguna, litoral sul catarinense. Aproveitou a folga para conhecer um dos mais comentados carnavais do país: dizem que a festa promovida na cidade é espetacular. Como chegou no dia anterior à tarde, após 15 horas num ônibus convencional, dormiu até mais tarde. Estava com dois companheiros, que também despertaram preguiçosamente ao final daquela manhã.

13h24 – Uma companheira de serviço saiu de casa e foi até o ponto de ônibus. Tem algumas horas para atravessar a capital paulista e chegar ao barracão da Nenê de Vila Matilde. Ela nunca pensou em desfilar em uma escola de samba, mas resolveu aceitar o convite de uma amiga e experimentar a brincadeira. “Todos deviam fazer isso ao menos uma vez na vida”, pensou.

15h02 – Durante meu almoço – um sanduíche de calabresa no “morte lenta”, um trailer da Alameda Campinas – ouço o celular. Era o Baiano, amigo de longa data. Estava triste em São Paulo, longe de Salvador, sentindo muita falta daquela energia porreta que só o axé do circuito Barra-Ondina poderia lhe oferecer. Já que estava por perto, pensou em assistir a um jogo de futebol. Disse a ele que os grandes times da cidade jogariam no interior, e antes de desligar, disse a ele qual seria a única opção.

16h19 – Perdida no meio de centenas de desfilantes, que se espremiam ao redor do barracão da Nenê, minha amiga finalmente encontrou a autora do convite. Na mão direita, a terceira lata de cerveja do dia. Na esquerda, o dedo indicador mostrava o caminho para as fantasias. “Mas rápido, os ônibus pro Sambódromo já estão saindo”, recomendou.

16h44 – Em Laguna, os três viajantes pedem uma porção de camarão num quiosque da praia do Mar Grosso. Um deles reclamou: não tem outra coisa para comer nesse lugar? A bronca foi, na verdade, de brincadeira: bronzeados, todos estavam maravilhados com a cidade.

17h38 – Baiano me ligou outra vez. Tinha ido assistir ao jogo que havia sugerido: Nacional e Juventus, clássico paulistano da segunda divisão. Ao lado dele, outros trezentos cidadãos corajosos estavam no estádio Nicolau Alayon, na Barra Funda, e companharam a partida, válida pela Série A-2. Placar final: zero a zero.

17h51 – A noite surgiu calmamente, amplificando todas as expectativas diante da tradicional festa profana brasileira. Em São Vicente, um conhecido meu conversava com seu primo rondoniense, em férias na sua casa. Contava histórias passadas sobre bailes memoráveis no Ilha Porchat, quando foi interrompido pela campainha. Era sua noiva.

18h09 – Dezenas de ônibus foram cedidos pela prefeitura para transportar os foliões ao Anhembi. Os que deixaram a Vila Matilde, com alguns minutos de atraso, fizeram um caminho diferente: atravessou uma favela, ainda na zona leste paulistana. Os nativos, prováveis torcedores do Corinthians, não tiveram dúvidas: apedrejaram os coletivos sem piedade. “Fechem os vidros”, pediu o motorista. “Não dá”, gritou minha amiga, que deixou a armação da fantasia para fora da janela. Todos permaneceram abaixados até os gritos e pancadas cessarem.

19h27 – Era o terceiro telefonema de Baiano: queria saber qual a minha programação após o serviço. Comentei que tinha vontade de ir a uma festa à fantasia, num bar de Pinheiros. Convite de um grande amigo DJ, seria ótimo prestigiá-lo. O soteropolitano fez a contra-proposta: tinha ouvido falar em uma tal “tréxi oitenta”. Falei que era preciso disposição para encarar o lugar e que dificilmente a teria naquela noite. “Então prefiro sair com você a sair sozinho”, decidiu. Marquei dez horas na frente do seu hotel.

20h49 – “Já estou terminando, segurem a fome”, diz a noiva do meu colega, disposta a preparar o jantar e permanecer ao lado dos dois por toda a noite. Os rapazes se entreolham, com cara de “nossa noite já era”.

21h52 – Já tinha encerrado meu expediente quando meu comunicador instantâneo piscou. Sorri: ela vinha de uma das poucas pessoas especiais da minha vida. Ela tinha um problema: estava em casa e não conseguia comprar pela Internet a passagem para a cidade dos pais. Também não tinha certeza de que, ao chegar na rodoviária, encontraria um caixa eletrônico aberto. Tinha poucos reais na carteira. Nenhuma folha de cheque. Teria que ficar sozinha, a contragosto. Disse que seria capaz de passar a noite no computador conversando – ignorando o compromisso marcado com Baiano. Fiz o que pude para amenizar sua solidão, até que ela criou coragem: decidiu arriscar e ir à rodoviária. Antes de desconectar, o último recado: “essa é a pessoa incrível que conheço, e não a que estava deprimida há pouco”.

22h53 – Com ajuda da amiga (ainda sóbria), finalmente fantasia e foliã correspondem a uma coisa só. Mas deu trabalho: foi preciso amarrar uma coisa ali, colar outra aqui… Tudo bem, a essa altura, não havia motivo algum para se arrepender das oito ou dez notas de cinquenta investidas ali.

23h08 – Encostei o carro ao lado do Formule 1 da Consolação, cumprimentei Baiano e pedi desculpas pelo pequeno atraso. Para compensar, digo que vou lhe pagar um bauru no Ponto Chic antes de ir a festinha. Animado, ele mostra um abadá e uma peruca: “não tinha fantasia, mas essa deve servir”, conta. Digo a ele que talvez não precise.

23h34 – Ainda animados após o dia todo circulando pelas praias, os três viajantes acompanharam o trio elétrico no animado carnaval de rua de Laguna. Definitivamente um dos maiores do sul do país: segundo estimativas, eram 200 mil pessoas a mais na cidade. Muitos homens vestidos de mulher, outros atrás delas à força. Impressionado, meu amigo viu suas chances de paquera reduzidas: “se for pra agarrar sem perguntar, prefiro ficar na minha”, sentenciou.

00h12 – Demorou, mas a garoa típica do carnaval paulistano havia chegado. Justamente quando parei o carro em uma das travessas da Cardeal Arcoverde. Chegamos ao Dinamite, lugar que é mesmo um estouro. Naquele momento me dei conta de que, em momento algum, disse ao Baiano que não curtia muito essa coisa de “esquindô”: a reação dele ao entrar numa casa de corredores estreitos, pouca luz e som alternativo foi instantânea: “mas não era uma festa à fantasia?”, perguntou, assustado.

00h27 – “O jantar estava ótimo”, diz meu colega à noiva, antes dela sair, morrendo de sono. Preferia ficar mais, afinal o papo estava ótimo. Decidiu ir para casa descansar. Deu um beijo de despedida e se dirigiu ao elevador – só depois dela fugir do campo de visão, a porta se fechou. Sem tirar a mão da maçaneta, os dois primos sorriem: “é agora!”. Em cinco minutos, já estavam na garagem do prédio, prontos para cair na gandaia.

01h23 – Era a vez da minha amiga entrar na avenida, em uma das 33 alas da escola. Discreta, bem no meio dos foliões – não quis correr o risco de ser flagrada por uma câmera. Num relance, percebeu que os marmanjos atrás dela permanecem de costas. O motivo? A passista seminua, entre uma ala e outra, vindo logo atrás…

02h01 – Baiano estava sumido, em algum ponto do bar. Percebi isso naquele instante, ao acordar momentaneamente de um papo com uma velha conhecida. Ela estava com uma roupa preta, estilo anos 20. Linda. Ah se ela me desse bola. Baiano reapareceu, ao lado do meu amigo DJ, vestido de cientista louco. “Começo a tocar às três horas”, disse ele, faceiro. Ao mesmo tempo, Baiano riu e chorou.

02h14 – O desfile estava quase no fim, e minha amiga não conseguia conter a alegria. Estava maravilhada: não imaginava que a Nenê pudesse contar com torcida própria, cantando e balançando faixas de apoio à escola nas arquibancadas. Percebeu ainda que a grande maioria dos componentes – inclusive os diretores de harmonia – estavam embriagados. “Se todo ano é assim, como pode uma agremiação dessas ter conquistado onze carnavais”, questionou. Não importava. Tudo era festa.

02h25 – Depois de pegar um refrigerante, vou atrás do Baiano. Faço a ele a pergunta mais imbecil da noite: o que está achando? A resposta: “simplesmente a pior coisa que já vi. Só tem gente esquisita, parece que querem se matar. O ambiente é escuro e cheira a mofo. E está tocando Joy Division”. Não pensei duas vezes: “Então vamos nessa”, disse. Nem pude me despedir direito do pessoal.

02h37 – Santos não parecia a mesma dos outros carnavais: meu colega e seu primo até se esbaldaram, mas sentiram falta daquele algo mais. Ou vai ver estavam “velhos demais” para brincar como antigamente. Resolveram voltar logo para São Vicente. No caminho, o primo rondoniense – que nem tinha bebido tanto – maquinou um curioso plano.

02h45 – Felizes e satisfeitas, as duas companheiras de avenida encontraram um terceiro conhecido. Tinha desfilado na ala dos compositores da escola – sabe-se lá como conseguiu o traje. “É pra impressionar a mulherada”, comentou, antes de gaguejar ao ser questionado se sabia a letra do samba. Minha amiga despediu-se, levando a fantasia para casa. A outra ainda sairia pela Leandro de Itaquera – vai ser fanática assim na Sapucaí…

03h04 – No caminho do bar ao hotel de Baiano, poucas palavras. Eu, uma pedra, pedi desculpas por ter sido responsável pela “pior noite de Carnaval de sua vida”. Realmente, uma das mais horríveis sensações que já senti é aquela que vem após levar um amigo para uma roubada. Antes de me despedir, prometi passar o Carnaval do ano que vem em Salvador. Também desejei a ele um fim de folia menos “underground”…

03h39 – O gol branco do meu colega estava numa rua quase deserta de São Vicente. Ao longe, perto de um bar de esquina, avistaram um sujeito barrigudo, sem camisa, ralhando com uma mulher. “É ele mesmo”, pensou o primo rondoniense. Abaixou-se e pegou o tapete de borracha. Enrolou-o, transformando num porrete. “Acelera”, disse, enquanto abria o vidro do carro e jogava o corpo para fora. “Chega mais perto”, arrematou, enquanto se aproximavam do tio rabugento. Em poucos segundos, o caiçara levou uma sonora “tapetada” nas costas. Pisaram fundo e ouviram gritos de “pega ladrão!”. E riram como nunca fizeram em toda uma vida.

04h21 – A caminho de casa, meu celular tocou. Chateado, nem vi no display a origem da chamada. Só me dei conta quando ouvi a voz dela: “você foi muito importante para mim nessa noite, meu anjo. Obrigado”, disse, ainda no ônibus. Tinha conseguido embarcar, e em algumas horas, estaria na casa da irmã. “Não por isso, você será sempre importante”, respondi.

06h47 – Quase na hora do café, os foliões catarinenses caíram de novo na cama. Agora sim, exaustos após intensa maratona – ainda que sem um único beijo na boca. Ainda restavam dois dias de festa antes do retorno, na quarta-feira.

Nesse meio tempo, muitos levavam o máximo de mulheres possíveis para a cama. Alguns, em coma alcoólico, eram levados ao pronto socorro. Outros tantos pegaram a estrada e voltaram para casa, insatisfeitos com a quantidade de gente na praia ou com o mau tempo no litoral. Os que não desistiram, disputavam com vinte ou trinta pessoas um espaço na sala ou no quarto da casinha alugada. Os demais não saíram da frente do televisor, ouvindo Chico Pinheiro, Repórter Vesgo ou Astrid Fontenelle…

Podcasting na mesa de bar

Por Marmota | 11/02/2005, 19h12

Já ouviu mais essa palavrinha da moda – podcasting, junção das palavras “ipod” e “broadcasting”? Resumidamente, é o mesmo efeito provocado pelo RSS, onde não é o usuário que busca a notícia, mas sim o contrário. O podcasting, porém, faz o mesmo com arquivos multimídia – especialmente áudio. Seguindo a mesma analogia, os leitores de feeds dão lugar a softwares que transferem os arquivos para o player MP3. O Ipodder é um exemplo de como a coisa funciona.

Outros projetos, ainda que pouco conhecidos, exploram o potencial do áudio on demand. No Rio de Janeiro, alunos da UFRJ produzem programas periódicos para a Rádio Ecomídia. Fora do ambiente universitário, é possível encontrar outras experiências segmentadas. Como o LugRadio, quatro caras apaixonados por software livre (em inglês) ou as entrevistas do Tableless – a última delas com o Jonas Galvez.

Vejam que esse tipo de idéia já perambula pela rede antes mesmo do termo podcasting virar coqueluche. Eu mesmo alimentava um sonho envolvendo Internet, rádio e papo-furado – três coisas que fazem parte da minha vida. Há alguns anos, convidei meus amigos Estúpidos – Adilson, Lello e Narazaki – para pensar em um mega-projeto. Chegamos a nos reunir na casa do Lello durante um final de semana, mas a empolgação acabou quando a gravação do primeiro quadro falhou.

O projeto foi engavetado. Mas outro dia ele voltou, de maneira mais simples: ao invés de um mega-projeto, algo totalmente improvisado. Uma espécie de “Manhattan Connection” em áudio. Nenhuma novidade nesse formato: Vicente Leporace e seu “O Trabuco”, na Rádio Bandeirantes, ou mesmo Candido Norberto e o “Sala de Redação”, no ar há mais de 30 anos pela Rádio Gaúcha, demonstram que a coisa realmente funciona. Seria o “Estúpidos Connection”. Mais uma vez, nossa correria fez com que a idéia virasse vinagre.

Mas aquilo ficou na minha cabeça. Tentei convencer meus companheiros de Virunduns e as Garotas para montar a brincadeira. Seria o “Garotas que dizem Virunduns Connection”. Claro que, novamente em função do tempo, a idéia não saiu das trocas de e-mails.

Ano passado, achei que o “Whatever Connection” pudesse finalmente ganhar vida. Foi numa das noitadas regadas a milk-shake de côco do Burdog. O lendário Vincent Vega, outro apaixonado pelo tripé web-áudio-besteirol, tocou no assunto: por que não uma mesa redonda radiofônica via Internet?

Desde então, a essência do projeto evoluiu – sem nunca ter deixado o plano metafísico. Princípio básico: o estúdio seria uma mesa de bar. Segundício básico: ao invés de um grupo fixo de debatedores, um rodízio permanente, convidando todos que tenham algo a dizer para participar. Em uma semana, Marco Aurélio e Lello Lopes fomentariam uma discussão sobre o papel da religião na vida humana. Em outra, Alexandre Inagaki e DJ Zoio, vulgo DilmarX trariam suas reminiscências oitentistas. Nascia o “Boteco Connection”.

No último encontro com os amigos de 2004, confessei ao meu cumpadi Ian Black as minhas duas proposições de ano novo: retomar o Virunduns ponto com (que pretendo cumprir) e viabilizar o Boteco Connection. Pelo andar da carruagem, no entanto, vai ser preciso encontrar um sujeito determinado o suficiente pra executar o projeto e não deixar a peteca cair.

Por hora, uma pedra. Mas de repente, esse sujeito pode ser você. O que acha?

Na verdade, essa historinha é apenas um pano de fundo para outra: dias atrás, conheci pessoalmente um desses cidadãos determinados. Em outubro de 2003, William Bertolo convidou alguns amigos brasilienses para montar um programinha de TV na web a custo zero. Sua força de vontade era maior que a falta de espectadores, tanto que já são 68 semanas seguidas com programas inéditos. As últimas gravações já rolaram em São Paulo, novo lar do William.

Pois bem. Para seguir adiante com o seu Programa Blog!, William precisava de um novo apresentador. Como não encontrou ninguém bom o suficiente, chamou o primeiro cururu que veio em sua mente. E assim estou lá. Confiram minha primeira (e tosquíssima) participação em mais esse projeto paralelo.

E vida longa ao Programa Blog!

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