quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

Receita de ano novo

Essa semana o Inagaki fez o seu desabafo pós-natalino, observando a série de e-mails e mensagens via iorkute vindas de todos os lados – em especial aqueles sob a forma de árvore (de minha parte, sinceras desculpas, cumpadi!).

“De algum modo ou outro você acaba por receber uma coronhada no cocoruto desta estranha época na qual sua caixa postal é abarrotada com e-mails de pessoas enviando aquela receita de ano novo do Drummond que você recebe todos os anos, e que já se tornou mais manjada do que a pedra no meio do caminho”, diz ele.

Pois bem. Também recebi a Receita de Ano Novo, autoria de Carlos Drummond de Andrade, algumas vezes nos últimos dias. Ainda assim, acho que nem todos viram. Fica registrada aqui, como mais uma mensagem de “boas entradas”.

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Só tome cuidado ao copiar e espalhar para todos da sua lista…

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Bloguinho, o personagem que fala axim!

Os dados são da empresa norte-americana Perseus Development: independente do ritmo de atualizações, existem pelo menos cinco milhões de blogs no mundo. Incluindo aqueles que foram autorizados a cobrir as eleições norte-americanas, por exemplo, empurrando a ferramenta a um patamar bastante elevado. Só que destes todos, mais da metade são concebidos por uma turma de 13 a 19 anos. Uma galera que desistiu do português – MAx kI FaLa aXiM, ki nEm tÁ aki, TuDu iSqUIsITiNHu, I nUm ké XaBê naum! kkkkkkkkk!!!

Essa galera, fluente em “internetês”, ganhou um novo membro: Bloguinho, personagem da Turma da Mônica que surgiu (ou melhor, “entrou na sala”), na edição deste mês da revista do Cebolinha (número 221), em uma história bolada por Flávio Teixeira, como apontou o cumpadi Inagaki. O personagem se junta cerca de 7 milhões de usuários, segundo dados dos estúdios Maurício de Souza. É muita gente iXcReVendU aXim, naum eh msm?

A questão pode ser observada por duas maneiras. Uma delas fica clara nessa matéria do Jornal do Brasil, onde Maurício de Souza diz ter ficado fascinado com o “internetês” assim que viu bilhetes de seus filhos – daí a incorporar a tendência nas revistinhas foi um pulo. Diz ainda que as crianças não terão problemas para separar a língua portuguesa desse dialeto cifrado, lembrando ainda os erros cometidos pelo próprio Cebolinha, além do “caipirês” do Chico Bento.

Opinião que é repartida pelo jornalista Paulo Bicarato: “Lembro-me muito bem que, há alguns anos, o Mauricio de Sousa foi criticado, apedrejado, quase crucificado, quando começou a explorar o linguajar caipira do Chico Bento. A grafia dos balões do Chico Bento seguia o padrão oral, com todas as particularidades a que tem direito. Foi o que bastou para que os puristas, acadêmicos e afins acusassem o Mauricio de emburrecer os leitores infantis, entre outras coisas. Muito provavelmente, o Mauricio terá que aturar críticas desse naipe com a nova personagem, Bloguinho. De minha parte, quero mais que todas as novas formas de expressão sejam exercitadas, ampliando nosso vocabulário, mantedo viva a dinâmica da Língua que acrescenta e incorpora novos termos”, conclui.

O outro lado da história é, na verdade, fruto de uma curiosidade: será que apenas o dinamismo latente da web é capaz de explicar o porquê de tanta gente ignorar a gramática e partir para essa sequência de agressões ao bom senso? Ainda se fosse mais fácil abreviar tudo… Mas dá muito trabalho digitar tantos caracteres, alternar maiúsculas e minúsculas, além de emendar coisinhas fofuxas como »-(¯`v´¯)-», ×÷·.·´¯`·)», ;) °¨¨°º”°¨¨°(*), (_.·´¯`·«¤°…

Sem uma conclusão definitiva, compartilho a idéia do Alexandre Cruz Almeida: os jovens de hoje precisam “articular duas línguas em sua cabeça ao mesmo tempo, como qualquer boa bilíngüe”. É bem por aí.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

Nova carta (oriental) do Papai Noel

Lembram-se do ano passado, quando fui pego de surpresa encontrando um e-mail do Papai Noel na minha caixa postal? Apesar de ter desdenhado do bom velhinho, tê-lo chamado de gordo capitalista, ignorado seus conselhos e reclamar do final de ano pouco agradável, mais uma vez ele apareceu.

Primeiro, na manhã deste sábado, quando encontrei meu presente embaixo da árvore: um belo envelope prateado, com um cartão em papel de altíssima qualidade. Todo em kanji.

Achei bacana, mas fiquei sem entender. Só lembrei do envelope prateado outra vez ao encontrar um novo e-mail do velhote barrigudo.

– original message –
From: Papai Noel <santaclaus@laponia.gov>
Fecha: 26/12/2004 20:27:41
To: André Marmota <uma@igualaquinzequilos.com>
Subject: Feliz Natal

Kurisumasu Omedeto, Marumota-San!

(Quis dizer Feliz Natal para você, meu bom menino. Mas em japonês… Ho ho ho!).

Novamente, gostaria de iniciar nosso pequeno diálogo particular com um rápido aparte. Acredita que, a cada final de ano, aumentam as cartinhas de cunho sócio-econômico. Todos execrando minha imagem, definindo meu trabalho como uma injusta obra capitalista. Até você, um garoto de coração tão bom, teve seu discurso contaminado por este vírus de características tão ocidentais…

Gostaria de frisar que, para tentar amenizar esta imagem (ao menos diante dos seus olhos), decidi viajar um bocado antes do Natal. Fui para o outro lado do globo. Passei alguns dias agradáveis enquanto meus fiéis ajudantes tocavam a fábrica de brinquedos – e antes que eu esqueça, meus ajudantes são todos artesãos, felizes e valorizadíssimos. No polo norte não existe lucro ou mais-valia.

Mas voltando, nobre rapaz. Sabia que os chineses, apesar do contato recente com as tais maravilhas do mundo ocidental, as festividades de final de ano, aquela que segue o calendário deles, sempre envolveu troca de presentes? Mesmo aqueles que não são cristãos – como a maioria que acredita em mim, e me chamam de Dun Lhe Dao Ren.

E no Japão? Dia desses circulava pelas cidades maiores e ouvia os gritos: “Jizo! Jizo!”. Aquilo me deixou muito feliz! É uma honra ser comparado ao monge Hoteiosho, um japonês das antigas que tinha olhos nas costas, de olho nas crianças matreiras… E lá o ato de presentear o próximo está embutido na própria cultura!

Devo lhe dizer que aprendi outras coisas nessas andanças todas. Voltei ao meu lar mais zen, com o espírito natalino renovado com alguma carga budista. Constatei que, para algumas pessoas, mais do que uma caixa colorida com uma fita radiante, o maior presente é a descoberta de sua verdadeira essência. E este é o significado do seu pequeno presente, meu querido!

Vamos falar no envelopinho prateado a seguir. Antes preciso te contar uma breve historinha, que ouvi de uma simpática chinesinha em Pequim. Uma antiga ancestral desta moça, chamada Sun Tui, tinha um marido dedicado e trabalhador. Mas morava com a mãe dele, uma senhora muito áspera, que exigia da pobrezinha todas as tarefas da casa. Nem a consideração de Sun Tui com seu esposo diminuiu os atritos que tinha com a sogra.

Cansada daquela vida, Sun Tui procurou um velho sábio, que conhecia o poder das plantas. Contou a ele sua história, além do desejo contido de matar a sogra. O sábio entregou a Sun Tui uma garrafa, dizendo: “mocinha, leve para você este poderoso veneno. Mas tenha cuidado, trata-se de um líquido muito forte. Para que ninguém perceba nada, você precisa dá-lo aos poucos. Ponha um dia no chá, outro na salada… Ao mesmo tempo, trate-a muito bem, para que ela sequer imagine que irá morrer por sua causa”, explicou.

Preocupada em não levantar suspeitas, Sun Tui executou seu plano e, ao mesmo tempo, controlou seu temperamento e antecipou todas as reações da sogra malvada. Os dias se passavam e Sun Tui era outra pessoa: entregava flores para a sogra, preparava sua sobremesa favorita, presenteava sem qualquer motivo… Enfim, se entregou totalmente a megera. Mas sem esquecer de jogar um pouco de veneno em sua comida ou na bebida.

Acredite, meu garoto: tais atitudes amoleceram o coração da velha. As atitudes de Sun Tui transformaram-na em uma senhora bondosa, que também se esforçava para retribuir aos mimos da nora. Até que Sun Tui se deu conta: o carinho que existia entre as duas passou a ser real! E o arrependimento é um duro golpe. Afinal, naquele momento, ela percebeu que estava matando alguém que a tratava como uma verdadeira filha!

Novamente desesperada, Sun Tui foi atrás do velho sábio, levando consigo a garrafa de veneno. E implorou por um antídoto. Sorrindo, o velho tomou a garrafa das mãos de Sun Tui e tomou tudo de uma única vez, provocando uma reação abobalhada da jovem chinesa. O sábio mostrou que não cohecia apenas as plantas, mas também a alma humana: o veneno era, na verdade, um placebo… Que serviu para amolecer o coração da mocinha.

Moral da história? Sun Tui aprendeu a amar, nobre amiguinho. Tenho certeza de que, se todos também aprendessem, o Natal não duraria apenas um dia…

Enfim. Tenho certeza de que você gostou da história. Até porque, ultimamente você já demonstrou que sabe amar as pessoas de maneira incondicional, sem se preocupar com uma troca. Você também tem outras virtudes. Na verdade, meu jovem, você não precisa de muita coisa para ser feliz. Sabe perfeitamente disso.

O que falta para você, caríssimo, é exatamente o que diz no seu presente: isamu. Em kanji, quer dizer coragem. É tudo que você precisa: coragem para decidir sair na chuva ao invés de simplesmente contemplá-la, imóvel, diante da janela. Coragem para olhar ao céu e receber a chuva sem se preocupar com o frio ou a gripe, mas para lavar o espírito e crescer. Coragem para admitir que, ao se fazer de vítima e evitar a chuva, abre mão da responsabilidade e corre o risco de se frustrar ainda mais, diante de sua virtual impotência.

Coragem para viver, meu amigo. É tudo que você precisa. Se ainda teimar em não acreditar em mim, ao menos acredite em você mesmo.

Acho que está bom desta vez. Até porque, os conselhos do ano passado (menos o que diz respeito a viagem para o sul do seu país) permanecem.

Feliz fim de Natal! Ho ho ho!

Papai Noel

http://www.santa.com

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