Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: setembro/2004

Dicionário básico de viagem

Por Marmota | 29/09/2004, 09h53

“Vai ser uma ótima para treinar o meu inglês”, costumo dizer aos amigos, ao revelar que ficarei alguns dias perdidos em Portugal, Espanha, França e Itália. A piada, na verdade, não está aí, mas sim durante o passeio no velho mundo. O único idioma que conheço razoavelmente bem é o nosso. Isso significa que, na maioria dos casos, vou ter que improvisar com mímicas. Ou em português mesmo.

Em ocasiões simples, porém, não custa nada se esforçar e tentar arranhar algumas palavras no idioma local. Muitas vezes, o interlocutor poderá sentir pena deste pobre coitado, fazendo a sua parte para conceber a comunicação também de maneira árdua. Se for um vendedor, então, o esforço pode ser compensador. O máximo que pode acontecer é uma pequena briga com algum francês xenófobo – até aí, tudo bem: nunca mais vou ter contato com o indivíduo mesmo…

Faltando pouco menos de dez dias para o nosso embarque, preparei esta indispensável tabelinha. Longe de ser um especialista, tenho absoluta certeza de que muitas das expressões abaixo não significam piciroca nenhuma… Mas que certamente serão úteis, ao menos, para revelar nossa personalidade – nesse caso, o idioma é o de menos.

  português inglês espanhol francês italiano
o básico do básico Bom dia, boa tarde, boa noite Good morning, good afternoon, good evening / night Boenos días, buenas tardes, buenas noches Bonjour, bonsoir Buon giorno, buona sera, buona notte
o básico Sim, não, por favor, desculpe-me, muito obrigado Yes, no, please, excuse-me, thank you very much Sí, no, por favor, disculpe, muchas gracias Ouí, non, s’il vous plait, pardon, merci beaucoup Sí, no, per favore, mi scusi, grazie tante
alô entre amigos Fala, estúpido! Talk, stupid! Habla, estúpido! Il parle, stupide! Parla, stupido!
a mais usada Não entendi, repita? Fala português? I don´t understant, will you repeat? Do you speak portuguese? No entiendo, quiere repetir? Hablas portugues? Je ne comprends pas, répétez. Parlez-vous portugues? Non capisco, vuol ripetere? Parli portoguese?
antes de comprar Quanto custa? How much? Cuánto vale? Combien coute? Quanto costa?
ao não comprar Estou só olhando… Tá tudo muito caro! I’m just looking… All the things are very expensive Estoy solamente mirando… Los regalos son muy costosos! Je regarde seulement… C´est tout trop chére! Sto Soltanto osservando… Tutto molto costoso!
procurando lugares Onde fica o hotel, o restaurante, o bar, o museu? Where is the hotel, the restaurant, the snackbar, the museum? Indíqueme un hotel, restaurant, bar, el museo Oú est un hotel, un restaurant, un bar, le musée? Dov’è un albergo, un ristorante, un bar, il museo?
ao sair de lugares ruins Nunca mais ponho os pés nesta espelunca! Never more I’ll put my feet in this dirty place! Nunca más pondré mis pies en esta suciedad! Jameis je mettrai mes pieds dans cette saleté! Mai metterò i miei piedi in questo sporcizia!
ao se apresentar Eu sou brasileiro, e não desisto nunca! I´m brazilian, and I never desist! Yo soy brasileño, y nunca renuncio Je suis brasilien, et je ne renonce jamais! Io sono brasiliano, e non cesso mai!
ao puxar conversa E o Peixão, hein? What about the Big Fish, man? Que pasa con El Gran Pescado, muchacho? Que diriez-vous des Poisson, cherry? Che cosa quel Pesce, caspite?
antes de ir embora Qual seu e-mail? Anote o meu, escreva para mim! What´s your e-mail? Here is mine, write to me! Cual es tu correo electronico? Acqui el mio, escribeme! Quelle est ton adresses électronique? Voilà la mienne, escris-moi! Il tua posta elettronica? Ecco ilmio, scrivimi!
despedida Tchau! Good bye! Hasta luego! Au revoir! Arrivederci!

Ainda tenho alguns dias pra bolar uma coluna em “português de Portugal”. Coisas como “nunca mais vou estar a colocaire meus pés neste pardeeiro”. Desde já, aceito novas sugestões.

Blog dando lucro?

Por Marmota | 27/09/2004, 14h02

Deixo a pergunta no ar após conferir esta matéria da Associated Press, publicada na Folha Online, sobre o “drama” dos blogueiros norte-americanos envolvidos com as eleições presidenciais: nem sua popularidade é suficiente para dar-lhe algum lucro.

Mas desde quando blog deveria ter algum retorno financeiro?

Concordo com você: existem por aí alguns alexandres que mereceriam abraçar a profissão “blogueiro” e receber o salário que fizesse jus. Mas mesmo eles acham (acho eu) que o “lucro” aparece sob a forma de presença na web. Ao promover idéias, estimular a participação de seus visitantes e popularizar essa ferramenta democrática, os blogueiros ditos “populares” podem não aumentar os dividendos, mas conseguem subir com sua reputação.

O que, convenhamos, já pode ser considerado muito diante do panorama atual: com exceção dos pornôs, não existem sites de conteúdo que se paguem sozinhos. Mesmo aqueles que mantém áreas “exclusivas para assinantes” ainda não descobriram a mina de ouro. Até porque, boa parte desse “conteúdo exclusivo” pode ser encontrado em outros sites.

Por enquanto, a única maneira comprovada para ganhar dinheiro com seu blog é usar seu talento blogueiro fora do ambiente virtual: transforme-o em livro, coluna de jornal ou revista, mão-de-obra para terceiros, enfim.

Carona para os amigos com direito a…

Por Marmota | 24/09/2004, 13h37

Ao voltar da festa de Nossa Senhora Achiropita, com o Marmoturbo atolado de gente, durante mais um tour caronístico por São Paulo. De passagem pela Avenida 23 de Maio, a trupe se surpreende com um Uno preto: o motorista, que vinha pela faixa da esquerda, ignorou todos os demais e caiu de uma vez para a direita, na boca do Túnel Ayrton Senna. Entre as trocas de ofensas, um grito foi ouvido:

“Ooooaaeeeeeeeeeeeeeeee!!!”

Essa também era a vibração dos turistas do Niagara, toda vez que o guarda descia as cataratas num barril – um fato bastante comum. Esse era o objetivo constante do pássaro durante todo o episódio, que faz tudo para desviar a atenção do homem da lei. Pobre Pica Pau: a cada tentativa, quem acaba descendo as cataratas era o guarda. Em uma das cenas, eram vários deles: “tem alguém aí sem barril?”.

Momentos marcantes: o guarda avista uma gordona e, antes de dar-lhe uma sova, diz “reconheço um barril de longe”. Ou ainda o retorno desesperado do guarda, que vai parar do outro lado do mundo e volta para o Canadá usando vários meios de transporte, sempre gritando “march”. Na cena final, quando o policial “fecha o registro” das cataratas, corre atrás do meliante e acaba surpreendido com as comportas abertas, é o Pica Pau que aparece como policial, finalmente cumprindo seu objetivo, encerrando o desenho com a célebre frase: “tentando descer as cataratas num barril, né? Vou lhe dar uma multa”. (Do episódio Niagara Folls, de 1956, talvez o mais aclamado entre todos os desenhos do Pica Pau).

Atualizado – Dica do sempre atento DilmarX: para rever o desenho das cataratas, clique aqui, baixe, descompacte e divirta-se!

A loira da poltrona ao lado

Por Marmota | 22/09/2004, 18h51

Existem oportunidades na vida que não devem ser desperdiçadas, sob pena de jamais se repetirem nesta encarnação. Castigo merecido diante do despreparo, da falta de astúcia e coragem. Situações que servem como lição: a próxima vez será muito diferente desta. Por isso mesmo, faça diferente também.

Dito isso, vamos aos fatos, que acontece com todo ser humano ao menos uma vez – por essa razão, decidi começar pela “moral da história”. Dia desses peguei um ônibus intermunicipal. Daqueles que saem da estação rodoviária, param em dois ou três pontos estratégicos no caminho e seguem viagem por uma ou duas horas até o destino final. Aliás, muitas vezes esse tipo de coletivo é tão ou mais confortável que os ditos “executivos”, que fazem linhas mais longas – os desprezíveis Greenbus da Penha, entre São Paulo e Porto Alegre, são exemplo de como um ônibus não deve ser.

Mas voltando. Quando o dito cujo partiu, a poltrona ao meu lado estava vazia. “Antes só do que mal acompanhado”, pensei. Mas logo na primeira parada, acontece aquilo que, em sua cabeça, só seria possível naquelas comédias românticas inglesas: a vaga é ocupada por uma mulher.

Quer dizer, “mulher”, na definição original, você encontra várias todos os dias. Aquela não. Loira. Olhos claros. Corpo escultural. Não mais que 23 anos. Chamá-la simplesmente de “mulher” seria um tremendo desrespeito. Tudo bem, provavelmente levaria horas para enumerar adjetivos condizentes.

O que você faria se estivesse no meu lugar? Provavelmente tentaria puxar algum assunto, demonstraria simpatia, deixaria seu telefone e contaria com a ação do destino para prolongar a conversa outra hora. “Vamos, seu jornalista inútil. Um assunto. Não vale clima, futebol ou alguma pergunta imbecil”. Não adiantou o esforço. Surgiram coisas como “você vem sempre aqui?” ou “viu o Inter ontem?”. Estava me sentindo o próprio Homer Simpson.

Quando voltei a si, percebi que ela estava acompanhada. Uma amiga, sentada no banco de trás. Ao lado dela, um tiozinho gordo – devia estar louca para que a viagem terminasse logo. “Hmmmm, e se eu oferecesse o meu lugar para ela?”, imaginei, na tentativa de arrancar-lhe um sorriso após uma boa ação. “Não. A feiosinha vai agradecer, a loira não vai olhar para a sua cara e você ficará atrás das duas, sem qualquer chance”. Devo admitir que meu lado diabólico falou mais alto. Até porque, normalmente, quem fica ao lado do tiozão corpulento sou eu.

A cada quilômetro percorrido pelo ônibus, minha agonia aumentava. “Posso perguntar se ela faz faculdade. Mas assim, sem pretexto algum? Ué, melhor do que um oi, sou o André e sou legal, e você? Ah, quer saber? Vira macho e chute o balde! Diga logo alguma coisa romântica! Fale que ela é a azeitona da sua empada e peça em casamento. Na lata. E se ela não gostar? Pode me dar um tapa na cara! Já sei. Vou perguntar as horas. Não, não, faz mais sentido perguntar quanto tempo leva. Mas aí eu teria que perguntar se ela vem sempre aqui… Cacete, como eu sou burro!”

Meu silêncio levou tanto tempo que minha musa cansou de esperar. Sempre que isso acontece, existem duas possibilidades: ou ela toma as rédeas da situação e puxa o assunto, ou cai em sono profundo até o final do trajeto. Acredito que você já saiba qual dessas opções ela escolheu.

“Ainda resta uma esperança: a saída”, pensei, avaliando novamente as parcas chances que ainda mantinha. “Quando ela desembarcar na rodoviária, agradeço a ela por viajar comigo, e digo que dificilmente conseguirei viajar com alguém tão maravilhoso ao lado. Perfeito”. Assim, foi a minha vez de cochilar e aguardar, como quem não quer nada, a “hora certa” de agir.

Acordei com o frear do ônibus, que encostou para alguns passageiros descerem logo na entrada da cidade. Abri melhor os olhos e… A poltrona ao lado estava vazia! Como assim? Onde foi parar a mulher da minha vida? Nova arregalada e lá estava ela, carregando sua bolsa pelo corredor. Estava indo embora para casa. Para sempre.

A loira da poltrona ao lado deixou comigo valiosos ensinamentos. Dedique-se naquilo que realmente deseja, deixe seu objetivo claro desde o primeiro instante, não tenha medo de errar e nem sempre confie no seu “feeling”, pois sua hora certa pode ser tarde demais.

Deixou também uma pedra. Bem grande.

Nos bastidores de nossa agência de turismo

Por Marmota | 17/09/2004, 13h26

Cenário um: três amigos decidem passear na Europa. Procuram uma mega agência de viagens, escolhem alguns pacotes fechados, desembolsam uma bela grana e aguardam ansiosamente a companhia de casais aposentados, japoneses e outras figuras em passeios pré-determinados.

Cenário dois: os três amigos procuram a mesma agência apenas para garantir o melhor preço para as passagens de ida e volta (uma chegando em Porto e outra saindo de Roma) e o seguro saúde. Todo o resto fica por nossa conta.

Não sei quanto a você. Mas eu prefiro a segunda opção…

O fato de sermos três pessoas que se aturam facilmente, a ponto de encararem uma viagem desse tamanho juntos, traz uma grande vantagem no quesito hospedagem: financeiramente, dá na mesma bancar a diária de um albergue ou de um quarto triplo em uma pensão. Por um lado, teríamos um rico convívio ao lado de pessoas do mundo inteiro – até na hora de dormir… Por outro, garantiríamos alguma privacidade e conforto a mais.

Democraticamente, optamos por quartos triplos. Assim partimos para o Google, abrindo oficialmente a nossa “agência de viagens” caseira. Descobrimos, também com a ajuda dos amigos viajados, que em Portugal os melhores preços estão nas “pensões”; na Espanha, existem os “hostales”; enquanto na Itália, a melhor saída são os “bed & breakfast”. Em Paris, nossa francesa de bordo encontrou um hotel simpático e com preço em conta. “E bem localizado”, garantiu.

Durante a empreitada, constatamos algo que dificilmente percebemos em nossas buscas corriqueiras no Oráculo: toda e qualquer coisa relacionada a um provável gasto altera completamente a relevância das buscas. Ao digitar “pensão do Zé”, por exemplo, o site oficial do estabelecimento aparece (quando aparece) bem abaixo de outras picaretagens, que vendem serviços de hospedagem. Algumas “con descuento”…

Ao mesmo tempo, tomamos outra decisão fundamental durante o planejamento: como seriam os deslocamentos entre as cidades. A grande sacada na Europa é o trem: todo o continente é bem servido por uma portentosa malha ferroviária. Ao mesmo tempo, com um único passe, é possível circular por vários países.

Por outro lado, pipocaram no velho continente as chamadas companhias aéreas low frills. A nossa Gol, para ser bem claro. Isso pesou bastante em nossa decisão, democrática mais uma vez, em optar pelo avião nos deslocamentos maiores, mantendo o trem apenas para circulação dentro de Portugal e Itália.

Com isso, desembolsamos pouco menos de 300 euros – praticamente o preço de um eurail pass para garantir passagens entre Lisboa – Madrid, Madrid – Barcelona, Barcelona – Paris e Paris – Veneza. Levamos em conta ainda o tempo ganho nessa brincadeira: no máximo três horas, incluindo check-in e afins, comparado a dez, doze horas no comboio. Por fim, avaliamos que não valeria uma provável economia em diárias encarando viagens noturnas, em tese, mais cansativas.

Enquanto fechávamos as passagens, outro problema: nem todas as companhias trabalham com o e-ticket. Ou seja, o sujeito compra pela Internet mas precisa ir até a agência em até 24 horas para pegar o bilhete e garantir a viagem – claro que isso só poderia acontecer em Portugal.

Poderíamos correr o risco e comprar as passagens apenas em solo europeu – e constatar que algumas companhias chegam a baixar os preços horas antes do embarque. Cautelosos, como qualquer marinheiro de primeira viagem, verificamos que os sites de viagens brasileiros, como o Decolar ponto com, emitem aqui mesmo essas passagens, cobrando exatamente o mesmo preço. Lugares garantidos, portanto!

Se durante as noites de preparação conseguimos descobrir esse “caminho das pedras”, seja ele o melhor ou não, imaginem o que nos espera durante vinte dias… Mente aberta para encarar roubadas com naturalidade, sem desprezar a diversão!

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