domingo, 30 de maio de 2004

A história de Elesbão e Catarina

É com imenso prazer que lhes apresento Elesbão e Catarina, criaturas extremamente diferentes. Elesbão é internauta voraz, verdadeiro rato de computador. Catarina tem horror a tecnologia, nem celular tem. Elesbão tem uma vida regrada: trabalho, casa, computador e discreta vida social. Catarina faz bicos de dia e vai pra balada à noite. Mora com os pais, mas não vê a hora de decretar sua independência. O teimoso e acomodado Elesbão não. Tinha que ser taurino. E se prende ainda mais na terra com seu ascendente em Virgem. Catarina? Escorpião. Com lua em Escorpião. Mmmhhh…

Jamais tinham ouvido falar um do outro, até a festa de aniversário da Rô. Elesbão trabalhava com o irmão da Rô. Catarina era amiga de uma amiga dela, que levou outras amigas para comemorar também. Ela estava maravilhosamente produzida. Ele usava jeans e uma camisa larga, para não evidenciar a barriga. Elesbão quis saber do irmão da Rô a quem pertenciam as curvas daquele brotinho com vestidinho preto. Catarina comentou com a aniversariante que o tal gordinho de óculos e cabelo lambido parecia engraçado.

E foi Catarina que tomou a iniciativa e se aproximou de Elesbão. Ela o puxou para dançar. Ele aceitou o convite, meio desajeitado. Catarina perguntou se ele curtia bandas nacionais. Elesbão fez um gesto positivo, mas não escondeu sua preferência por música eletrônica. Ela puxou um Marlboro da bolsa. Procurou pelo isqueiro prateado, sem sucesso. Pediu fogo para Elesbão. Gentilmente, ele disse que não fumava. Decidiram sentar para conversar. Catarina pediu rum com gelo e limão. Elesbão pediu uma Coca. Com gelo e limão. Já temos algo em comum, brincou. Ela riu, antes de trocarem outras amenidades.

Eram três da manhã, a festa estava no fim. Mas o encanto de Catarina pela firmeza de Elesbão estava recém desperto. Despretencioso, ele ofereceu carona. Ela aceitou prontamente. No carro, Catarina se queixou: não queria ir para casa. Elesbão sugeriu um bar. Catarina preferia um motel. Elesbão arregalou os olhos e respirou fundo. Catarina virou-se de sopetão e o agarrou. Elesbão continuava pasmo, mas aos poucos sincronizou seus lábios com os dela. Elesbão tremia, enquanto Catarina já concentrava um tesão incontrolável.

Elesbão tentava desembaçar o para-brisa inutilmente. Catarina continuava agarrada a ele. Elesbão balbuciou abobadamente o pedido de uma suíte qualquer na entrada do motel. Catarina riu, sem parar de acariciar Elesbão. Mal abriu a porta do recinto e Elesbão já se via praticamente nu. Catarina indagou-o – não vais fazer nada? Ainda com mãos e lábios trêmulos, Elesbão abriu-lhe o zíper do vestido enquanto sentia a textura de sua pele. Catarina tratou de acalmá-lo com vigorosas carícias nas costas e beijos intermináveis. Elesbão continuava tenso e quase sem fôlego. Catarina deitou-o na cama e sacou a embalagem de preservativos da bolsa. Elesbão atrapalhou-se todo e inutilizou o primeiro. Depois foi a vez de Catarina se irritar por não conseguir abrir o segundo. Nisso o pobre Elesbão murchou. Finalmente, após milagroso e momentâneo instante de sensatez, Elesbão e Catarina se tornaram apenas um.

A luz do sol acordou um sorridente Elesbão, que tratou de encher sua Catarina com milhões de beijos por todo o corpo. Não menos sorridente, Catarina retribuiu o “bom dia” a altura. Ainda estavam inebriados quando Elesbão se deu conta: precisava ir embora. Ainda distante dali, Catarina devolveu um sussurrante “tudo bem”. Horas depois, Elesbão a deixou em casa. Num papel, anotou seu e-mail. Catarina disse que aquilo não lhe adiantava… Passou-lhe o telefone, único meio que dispunha para contatá-lo. Trocaram telefonemas no mesmo dia. E nos dias que se seguiam.

Elesbão e Catarina vinham de relacionamentos fracassados. Só que Catarina quer apenas se divertir. Já Elesbão procura por sua eterna princesa. E que não era como Catarina. Não até aquela noite. Ou continuava não sendo? Catarina ligou. Elesbão a chamou de lindinha, mas ela respondeu por minha paixão. Abriu seu coração, disse que não parava de pensar nele. Elesbão sorriu incrédulo. Ficou em silêncio, abalado com a força das palavras de Catarina. Então estamos… Namorando, questionou Elesbão. Acho que… Sim.

Catarina passou dias convivendo com sentimentos que há tempos não lembrava mais como eram… Sentia-se feliz, mas confusa. Não era a mesma Catarina. Elesbão tentou entender como sentia-se feliz sem aqueles sentimentos que naturalmente conviviam com ele… Tudo muito novo, mas confuso. Não era o mesmo Elesbão. Respiraram fundo e pressentiram uma construtiva relação, repleta de trocas, aprendizados… Talvez algumas desavenças.

Uma semana depois, decidiram se encontrar. Elesbão foi buscá-la em casa cantarolando Eduardo e Mônica. Catarina apareceu com um beijo, uma flor e um livro: programando em PHP. Elesbão também lhe presenteou: um par de algemas. Catarina gargalhou e agradeceu. Elesbão sugeriu um motel. Catarina preferia um bar, desta vez. Elesbão arregalou os olhos e respirou fundo. Catarina virou-se de sopetão, mudou a fisionomia e emendou: “precisamos conversar”.

Elesbão respirou fundo e continuou dirigindo. Catarina disse que estava indo rápido demais. Elesbão pisou no freio. Catarina riu novamente, falava sobre seus sentimentos. Ele pediu desculpas por estar devagar demais, em sintonia diferente. Catarina perguntou como seriam quando paixão acabasse. Elesbão prometera não criar expectativas, apenas viver intensamente. O tempo cuidaria do resto. Catarina tinha medo, não queria sofrer novamente. Elesbão garantiu que, apesar das incompatibilidades, faria de tudo para não magoá-la.

Catarina não tinha se dado conta, até então, que tudo era muito novo para Elesbão. E aquilo poderia influenciar no relacionamento dos dois. Elesbão não percebeu que Catarina, desta vez, não queria apenas diversão. Ela também quer seu príncipe. E até e pensou, de verdade, que no fundo, ele poderia ser Elesbão. Mas isso não importava mais. Silêncio áspero, olhares perdidos, clima de “e eu uma pedra” no ar. Naquele instante, Elesbão e Catarina voltaram a ser as mesmas criaturas extremamente diferentes de sempre.

E essa história termina aqui, senhoras e senhores. Mas a nossa ainda não. Ela pode ser metafísica, impulsiva e arriscada como Catarina; racional, conservadora e determinada como Elesbão. Ou tudo junto, intensamente. Ainda pode ser algo completamente ao avesso… Ou uma interminável festa da Rô, vai saber… O segredo é decidir o que for melhor e não se arrepender. E torcer por finais felizes envolvendo eu, você, elesbões e catarinas.

Ou ao menos que a amizade permaneça a mesma.

sexta-feira, 28 de maio de 2004

Sem boliche? Opa, parece com mais um…

Nicole Bernardes, com seu olhar blasé e voz melosa, convence os amigos a mudar a programação, ao dizer “vocês querem mesmo jogar boliche, hein?”. Recurso comum às damas, que usam seu charme irresistível para conseguir exatamente o que desejam:

“E você, nobre guerreiro, me compra um cocaaar? Mmmhhh?”

Indiazinha gatinha, que dá de cara com Pica Pau e Zeca Urubu (em uma das inúmeras aparições do malfeitor como “pele vermelha”). Sem um tostão furado para atender a exigência da mocinha, Zeca Urubu tem a brilhante idéia de escalpelar o pássaro e fazer um belo cocar. Passa o desenho inteiro atrás do amalucado e, claro, se dá mal o tempo todo – destaque para a cena do “cocar de dinamite”, exaustivo recurso usado por Pica Pau para aporrinhar seus inimigos. No final, depois de se livrar do Zeca Urubu, o próprio Pica Pau arranca suas penas para presentear a jovem índia com o cocar – o que a gente não faz por amor. (Do episódio Scalp Treatment, de 1952).

A propósito: quem lembra dos detalhes do desenho em que Pica Pau mora em uma bola de boliche (e recita uma frase parecida com “pare, pare, dispare essa arma sobre sua cabeça, disse a voz rabugenta!”)?

Ainda a propósito: neste fim de semana, as fotos do final de semana passado. Não deixe de perder!

sexta-feira, 28 de maio de 2004

É é é… Quinze e Santo André!

Definição de pautas, na última terça-feira. Editores atentam para a semifinal da Copa do Brasil, em São Paulo, às 21h45 da noite (ou madrugada, como queiram). “Tem esse joguinho aqui, Santo André e 15 de Novembro, no Pacaembu. Estádio vazio, num frio ducarai e dois times furrecas. E não tem ninguém pra fazer. Ah, manda o André”.

E eu fui. Era uma das seiscentas pessoas no estádio – o restante do mundo talvez nem desconfiasse que ali começava a disputa por uma vaga na decisão do caminho mais fácil para a Libertadores. Arquibancadas praticamente vazias: a maioria preferiu ficar nas numeradas, mais protegida do frio de onze graus. Com bloquinho e caneta na mão, fiquei por ali também. Sem radinho – todas as emissoras paulistanas transmitiam São Paulo e Táchira.

Marcelo Ferrelli/Gazeta PressPedi uma água mineral a um dos poucos vendedores que se arriscaram ali. “Sem gelo, por favor. Gelado, aqui, já bastam nós”. Depois do sorriso, o comentário: “Mas rapaz, só vendi sete. Se fosse em Santo André, seria diferente”, lamentou. Horas depois do jogo, o técnico do Santo André, Péricles Chamusca, disse algo parecido nos vestiários. “Nós sabiamos que a situação seria essa, a participação foi menos ativa por ter sido um jogo em São Paulo. Se fosse no Anacleto, quem sabe nossa torcida teria participasse mais”.

A torcida do Santo André se reforçava timidamente, mesmo com o primeiro tempo já em andamento. Mas nada que abalassem os poucos torcedores do time gaúcho, que quase não foram importunados. Aliás, a maioria deles nem veio de Campo Bom. Os que estavam no Pacamebu eram de Cândido Mota, interior de São Paulo. Familiares do camisa onze, o meia Canhoto. Certeza de origem mesmo era a atriz Bárbara Paz, nascida justamente na pequena cidade do Vale do rio dos Sinos. Estava com a camisa do 15 de Novembroe acompanhada do namorado Dalton Vigh. Assistiu sem medo ao bom desempenho do time de sua terra natal.

Como todos os times gaúchos, a marcação do 15 de Novembro foi dura. Ao mesmo tempo, o Santo André esteve longe de ser o time que surpreendeu Atlético/MG e Palmeiras: pelo contrário, parecia deslumbrado diante da outra surpresa da competição. Não foi difícil para Bebeto abrir o placar, de cabeça, aos 22 do primeiro tempo. Os poucos andreenses que gritavam e batucavam na arquibancada só voltaram a se manifestar quando Luiz Oscar derrubou Romerito na área do time do ABC. Pênalti cobrado por Barbieri, aos 33, e festa dos gatos pingados.

O jogo ficou bem melhor, mais movimentado, no segundo tempo. Não para o Ramalhão, que viu o time amarelo ampliar para 4 a 1 nos primeiros treze minutos de jogo. Dauri fez quase igual Bebeto no primeiro tempo. Depois Patrício arriscou de longe, e o goleiro Júnior aceitou. Por fim, Bebeto novamente, de peixinho, fez um golaço. A turma da batucada nas arquibancadas já ensaiava o grito “vergonha”. Do outro lado, nas numeradas, exigiam atitude de Péricles Chamusca.

Mas ainda era cedo para ir embora. Tanto que, surpreendentemente, o Santo André reagiu. “Pensei em fechar um pouco a equipe, mas a gente relaxou rapido demais”, analisou Mano Menezes, técnico dos gaúchos. Tássio, carrasco palmeirense há uma semana, chutou de primeira. E aos 24 minutos, a bola caiu nos pés de Osmar, que estava quase em cima da linha e fechou o placar em 4 a 3.

Valeu a pena: foi uma bela partida, digna de uma semifinal. “Mas nós temos que estar dentro da realidade. Somos equipes pequenas, e que vamos jogar longe de casa”, observou Gérson, meia do 15. De fato, o Santo André não será a única equipe a jogar fora de sua cidade: o jogo de volta será em Porto Alegre, a 40 quilômetros de Campo Bom. “Não vamos jogar fora de casa. Na verdade vai ser em um campo neutro, como foi aqui no Pacaembu. Temos todas as condições de fazer um melhor jogo lá no Olímpico”, disse Chamusca, confiante.

Não tenho certeza se vai ser a mesma coisa. Pela primeira vez, ouço em “torcidas unidas” no Rio Grande, em prol da surpreendente equipe detentora de seis vitórias seguidas na Copa do Brasil. Levando em conta o histórico “nacionalismo gaúcho”, não duvido que isso aconteça. “Vamos aproveitar as cores da nossa camisa, que são abslutamente neutras em relação as mairoes torcidas do estado. Todos vão dar força para este time que está representando bem o Rio Grande do Sul”, conclamou Menezes.

Estádio Olímpico cheio para 15 de Novembro e Santo André ao menos uma vez? Vamos aguardar o jogo de volta, no próximo dia 9. E quem sabe, contar com uma destas surpresas na Libertadores 2005… Já imaginaram?

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