quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

Lello em Porto Alegre

- Há pouco mais de um ano, o intrépido Lello Lopes soltou a frase: “fazer o quê lá?”, assim que observei uma placa apontando para Porto Alegre e perguntei “vamos?”, no quarto episódio de Na Ilha da Magia. Pois logo no prmeiro fim de semana de 2004, o estúpido aceitou o convite, protagonizando, ao lado da “porto-alegrense” Joanna, momentos que ficarão na memória pelo resto da minha vida!

- Combinei de me encontrar com a dupla logo nas primeiras horas da manhã do dia três de janeiro, na rodoviária de Porto Alegre. Um pouco antes, disse “até breve” para os meus pais e meu irmão, que voltaram para São Paulo mais cedo. Com isso, além do demorado traslado entre meu QG em Cachoeirinha e a capital gaúcha, me atrasei.

- Menos mal: Joanna já conhecia a “celebridade” Lello, deu tempo até de tomarem um merecido café da manhã em uma das inúmeras lanchonetes da rodoviária. Em poucos minutos, estávamos no ônibus Otto/HPS (linha 280), que nos levaria a Rua Campos Velho – onde fica o famoso “ponto de apoio” aos amigos da Joanna. No trajeto, alguns gestos obscenos diante do estádio Olímpico, e algumas canções do Nenhum de Nós.

- Não tínhamos mesmo tempo a perder: foi só largar as malas no ponto de apoio para voltarmos ao centro, via linha 165 (Cohab) – essa sim vale a viagem, pois passa diante do Gigante da Beira Rio! E tome caminhada: Praça da Matriz, onde fica a Catedral, o Palácio Piratini e a Assembléia, além do Teatro São Pedro; Rua Riachuelo, nos imperdíveis sebos; Rua da Praia (que não tem praia alguma), onde almoçamos. Comida chinesa, num lugar chamado Muralha da China.

- Porto Alegre é uma cidade curiosa: toda construção antiga que está prestes a ficar abandonada tende a virar centro cultural. Foi assim com o belíssimo Hotel Majestic, que virou Casa de Cultura Mário Quintana. Vale a sua visita (eu preciso voltar para tomar o tal Café Fraquê). O mesmo fenômeno ocorreu com a Usina do Gasômetro, na beira do Guaíba.

- Isso mesmo: percorremos tudo isso a pé. Nada como um descanso merecido em frente ao rio. Suas águas não são poluídas como as do Tietê, mas mesmo assim, não dá pra chamar de praia. No entanto, algumas figuraças exibem seus tecidos adiposos como se estivessem em Jericoacoara. Pessoas de coragem.

- Por ali, mais um momento piada fraca detected. Enquanto comprávamos água de coco, Lello atentou para os preços do cachorro quente, no carrinho do lado. Uma salsicha, um real. Duas salsichas, um e cinquenta. “Três salsichas: não tem preço”, complementou Lello, numa genial justaposição semântica ao desgastado anúncio de cartão de crédito.

- Precisávamos voltar ao ponto de apoio e descansar um pouquinho, afinal, ainda tínhamos que aproveitar a noite. Antes mesmo da noite chegar, já estávamos em outro ônibus, em direção a Avenida Ipiranga. A propósito, cada viagem dessas era uma verdadeira aventura: a qualquer momento, quando menos se esperava, Joanna esperava o coletivo parar, levantava e gritava: “é agora, vamos descer!!!”. Não demorou para pegarmos o jeito e permanecer ligados durante todo o trajeto.

- Dessa vez, porém, descemos um pouco antes: caminhamos mais um bocado até a churrascaria CTG 35, onde além de comer churrasco, os visitantes assistem a shows de dança típicos. Quer dizer, em termos: são espetáculos bem produzidos, mas que quebram algumas “regras tradicionalistas gaúchas”. Lenços e camisas pretas ao invés da camisa branca e o lenço vermelho, por exemplo. Mas o show foi muito bom. A carne também.

- Ainda sobre o show, destaque para o doidivanas da boleadeira: ele fazia aquelas estripulias circenses que normalmente é feita com um laço ou chicote (brincar com fogo ou tirar cigarro da boca de um espectador inocente). Na performance mais audaciosa, agitou os longos cabelos de uma garotinha, como se quisesse arrancar-lhe o escalpo.

- A noite ainda era uma criança: pegamos um táxi no Hipermercado Bourbon (ao lado da churrascaria) e partimos em direção ao Dr. Jekyll, um discreto bar de rock, porém muito bom. Pedi um drink de “kisuco” e curti a boa música ambiente, ao lado da companhia. Mas logo o sono bateu: ainda estávamos nas primeiras horas da madrugada quando decidimos nos recolher.

- Permanecíamos vivos pela manhã… Ótimo! Aproveitamos o belo domingo tomando chimarrão no Parque Farroupilha. Bem mais vazio em relação a minha última visita – os porto-alegrenses deviam estar curtino a ressaca do fim de ano em Tramandaí ou Capão da Canoa. Antes de saborear um “pf” ao lado das abelhas do parque, rápida passada no “brique”, a feirinha de artesanato. Num relance, jurei ter visto o Milton, aquele cara da bilheteria da rodoviária que me sacaneou outro dia…

- O domingo já estava no final. Lello Lopes tinha que estar no aeroporto antes das oito horas, e Joanna tinha que pegar o ônibus as sete. Última passada no “ponto de apoio” antes de tomar o Otto/HPS em meio a uma enxurrada de piadas fracas e canções batidas. E lá estávamos, de novo, onde tudo começou.

- Ao me despedir de Lello Lopes, decidi pegar uma “carona” com Joanna até Pelotas – para ter certeza de que não sentaria ao lado de nenhum tiozinho chato ou sujeito mal-encarado durante três horas de viagem. Palavras e cochilos até descer na beira da estrada, no trevo do Fragata, às dez da noite.

- A noite de domingo terminou com uma caminhada rápida até a minha vó, na Cohab, onde todos me aguardavam ainda acordados. Inventei histórias para meus primos e traçamos planos para os próximos dias de férias, todos devidamente não cumpridos. Mas depois eu prometo contar o resto.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

Marmota em Pelotas

- Difícil resumir em poucas linhas o que representa mais um final de ano nesta cidade do extremo sul do Brasil. Ali meus pais nasceram há mais de cinquenta anos; é nesse canto que ainda vivem todos os meus parentes mais próximos; e apesar de ser um cenário praticamente imutável e com poucas perspectivas, inevitavelmente acumulo novas histórias a cada final de ano.

- Logo na primeira noite, uma volta pelo centro da cidade, ao lado do meu irmão Daniel e meus primos Júnior e Cristiele. A meta? Descobrir um boliche, claro. Sabíamos da existência de um, que também é cybercafé. Mas ao chegar, uma surpresa: por conta das férias, o local estaria fechado até março. “Que ótimo, bom saber que aqui ninguém precisa trabalhar!”, pensei.

- Mas o pior ainda estava por vir, logo após a tradicional festa de ano novo na garagem da minha avó, na pacata e distante Cohab Fragata. Meus primos inventaram de comemorar a chegada de 2004 numa balada, denominada Fábrica de Café, no Parque Tênis Clube. Valeu pelo show pirotécnico. De resto, ambiente lotado de molecadinha, uma ou outra briga, gente pulando na piscina antes da hora… Fui pro carro dormir antes das três da manhã, furando logo de cara uma das minhas promessas de ano novo: evitar roubadas…

- Todo mundo acordou tarde no dia primeiro de janeiro – inclusive minha avó, que denominou nosso almoço, por volta das cinco da tarde, como “horário moderno”… Mas ainda deu tempo de puxar meus primos para o Cine Capitólio para assistir ao Retorno do Rei. Oito reais de entrada, com direito a intervalo no meio do filme… Antes de voltar ao QG, pausa para um X-Coração num dos tradicionais trailers de lanches da cidade (ainda não sei como o Mac Donalds permanece funcionando por lá).

- Não foi a única vez que fui ao cinema durante minha estadia: numa segunda-feira, dia cinco, saí para passear com a Bruna e o Alessandro, meus primos mais novos. Deixei que eles escolhessem qual filme gostariam de ver: Xuxa Abracadabra ou Acquaria. Ganhou o segundo, péssima escolha. O filme de Sandy & Júnior está longe de ser infantil: as crianças, coitadas, não entenderam a mensagem. Tudo bem, o passeio foi recompensado com o bom e velho sorvete da Bambina.

- Confesso que também não fiz boas escolhas: o tempo que eu poderia usar visitando os poucos pontos turísticos da cidade, ou mesmo passeando na casa dos tios ou amigos de longa data, dediquei em horas intermináveis de descanso ou passeios solitários no centro. Tudo bem, dezembro já está aí de novo e, até lá, recupero todo o ânimo que perdi nesse final de ano.

- Acreditem: foram poucas as horas conectado diante de um computador – até porque, a incorrigível umidade pelotense faz com que Internet em conexão discada se torne uma verdadeira aventura na minha avó. Acreditem ainda: é preciso ligar um secador de cabelo diante do modem para que a coisa funcione.

- Mesmo com pouco tempo online, consegui avisar a galera blogueira local, que mobilizou um jantar inesquecível no Otto Taberna, na noite do dia nove de janeiro, sexta-feira. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente o Otávio, o Ricardo, a Raquel e outras pessoas formidáveis. Além de rever a minha querida amiga Joanna, ainda que por poucas horas.

- Em duas semanas, deixei Pelotas em três oportunidades. Na primeira, para passar um final de semana em Porto Alegre ao lado de Lello Lopes. Na segunda, para salgar a ponta dos pés na praia do Cassino. Por fim, na tarde do dia dez de janeiro, para subir devagar em direção ao lar. Claro que poderia ter ficado por mais alguns dias, mas algo estranho aconteceu desta vez: olhava tudo com tristeza pouco habitual, não via a hora de voltar para casa. Deixemos isso pra lá, e depois eu conto o resto.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

Marmota em trânsito

- Fazia realmente muito tempo que eu não viajava tanto. Foram algumas centenas de quilômetros dirigindo até Sorocaba, Ribeirão Preto e Rio de Janeiro, mais alguns entre Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande, Gramado e Canela. Sem esquecer da “ponte aérea” São Paulo – Porto Alegre… Uau!

- Embarque tranquilo na tarde do dia 29 de dezembro, uma segunda-feira. Sentado confortavelmente em ima das últimas poltronas do vôo 1680 da Gol, permaneci entre as 12h51 até as 14h25 saboreando a deliciosa barrinha de cereais servida com um exclusivo saquinho de amendoim. E uma bebida.

- Depois de uma boa caminhada entre o aeroporto Salgado Filho e o Trensurb (o metrô da capital gaúcha), pego o primeiro trem com destino a rodoviária. Como ocorre normalnente nos finais de ano, as filas nas bilheterias são descomunais. Tudo bem, sejamos pacientes: estava de férias mesmo.

- Minha vez de comprar passagens. Compro duas: para Cachoeirinha, no primeiro ônibus disponível para Taquara (o das 16h15) e outro para Pelotas, às 18 horas do dia seguinte, 30 de dezembro. Foi o tempo de pagar tudo, pegar os bilhetes e correr para o embarque no velho Citral.

- Agora, a grande estupidez da viagem: apenas na tarde do dia seguinte, horas antes de embarcar, fui checar as passagens: Pelotas, direto, via Expresso Embaixador, às 18 horas do dia… 29? Como assim? Quer dizer que o bilheteiro ignorantão pensava mesmo que eu viajaria para dois lugares diferentes praticamente no mesmo horário???

- Antes de prosseguir, é claro que a culpa foi minha. Poderia perfeitamente checar a data correta no momento da compra, ao invés de ofender cinco gerações do bilheteiro. Mas só admiti isso quando já estava no ônibus, depois de resolvido o impasse.

- Cheguei duas horas antes ao largo Vespasiano Júlio Veppo, endereço da estação rodoviária de Porto Alegre. Direto ao “guichê vermelho”, destinado a reclamações, revalidações e outros rolos. Também tinha fila. “Certamente erraram em outras passagens também”.

- Minha vez de explicar o problema. “Seguinte, minha senhora. O cururu que trabalha nessa encrenca vendeu essa passagem com a data errada. Era pra hoje, não ontem…”. Não deu tempo de terminar. “Ah, sinto muito. Você perdeu a passagem”. Put I keep are you, man!

- Ainda indignado, fui procurar o vendedor do dia anterior. Identifiquei o sujeito caminhando de volta ao seu guichê, depois de uma pausa para o café. Tasquei-le uma pergunta inteligente logo na primeira abordagem: “Oi, lembra de mim?”. Evidentemente, ele respondeu “não”.

- Expliquei o ocorrido pela segunda vez. O bilheteiro, de nome Milton, deu o chamado “migué”, fugindo de qualquer responsabilidade e culpando a mim, por não ter visto o erro. Questionei novamente se não tinha mesmo como reutilizar a passagem, e desta vez a resposta esbarrou em uma lei estadual recente: trocas desse naipe devem ser feitas apenas três horas após o embarque.

- Mantinha poucas esperanças diante de minha última alternativa: o fiscal da empresa de ônibus. Minutos após ser anunciado pelo serviço de informações, lá estava o responsável pela Expresso Embaixador. Contei minha história pela terceira vez.

- Com a simpatia de um colono, o homem respondeu: “o problema é que não existe uma bilheteria para cada empresa, e toda vez que acontece isso, fica esse jogo de empurra. A culpa é deles, a zona é deles. Se eles não querem te pagar outra passagem, não posso fazer nada”. Fiasdaputa.

- Dos males, o menor: fui direto ao guichê do Milton para comprar outra passagem, sem passar pela fila. O simpático bilheteiro ainda me convidou para um café, quando eu estiver por lá novamente. Vá esperando.

- Nunca paguei tão caro por uma viagem entre Porto Alegre e Pelotas. Da mesma forma, com o esgotamento antecipado das passagens noturnas da Gol, há muito não pagava tanto por uma passagem aérea. Isso sem deixar passar os intermináveis pedágios da BR 116, Castelo Branco, Trabalhadores – Dutra, Anhanguera – Bandeirantes… Sai caro passar férias longe de casa.

- E eu, uma pedra. Em toda a minha vida, nunca dei sorte nestes traslados solitários em aviões ou ônibus: o passageiro ao lado é sempre um tio chato, um sujeito mal-encarado ou outro zemané. Nunca uma escorpiana loira de olhos claros.

- Enfim. Depois de três horas exatas, finalmente desembarco na rodoviária de Pelotas, para mais alguns dias de descanso e passeios ao lado da família e outros amigos. Duas semanas até o embarque no vôo 1753, às 21h10 do dia 12 de janeiro, novamente em Porto Alegre. Mas depois eu conto o resto.

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